Realidades Democráticas V

Enquanto Portugal está no processo de se transformar num dos primeiros países da União Europeia a regredir ao estatuto de região anárquica do terceiro mundo as máquinas de produção de desinformação da elite continuam ocupadas a vomitar as habituais peças de ficção social para manter as hostes calmas. Num esforço de injectar algum sentimento de normalidade no que é uma situação cada vez mais aberrante, a máquina propagandística continua a tentar desesperadamente apelar aos segmentos mais desafectados da população (os jovens, os desempregados, os insatisfeitos, os condenados à pobreza abjecta de forma permanente… os que têm maior apetência a romperem a ficção do contrato social que temos), martelando incessantemente as mesmas palavras: mantenham-se calmos, não há motivo de alarme, tudo irá correr bem, o vosso dia chegará. Claro que é um esforço vão porque a distância entre a mensagem e a realidade diária é de tal forma visível que nem o mais crédulo jovem alguma vez poderia dar crédito a estas “vozes razoáveis”, que como sempre se querem fazer passar por meros peritos técnicos – afinal de contas num país marcado por um atraso crónico face aos seus vizinhos o tecnocrata (vulgo “perito”) ganhou o estatuto próximo de um alto sacerdote.

"A paciência dos povos é a manjedoura dos tiranos."  - Emilio de Marchi

“A paciência dos povos é a manjedoura dos tiranos.” – Emilio de Marchi

Prova IV: enquanto a larga maioria dos jovens está desempregada ou trabalhar em posições em muito inferiores ao seu nível real de habilitação e capacidade profissional o sistema continua a mandar discursos cá para fora sobre seriedade, profissionalismo e iniciativa. Como se estas pessoas tivessem vivido num casulo até hoje. Como se nunca tivessem tido contacto real com as realidades do mundo profissional e em particular com o carácter arbitrário e despótico (quando não mesmo totalitário) que este assume em Portugal. No campo do formalismo político tenta-se a mesma coisa, insistindo que ao se criar mais um nível eleitoral (com candidatos pré-seleccionados claro) se aproximou o cidadão comum ao poder político. Como se tais mudanças estéticas tivessem de facto criado alguma alteração à dinâmica de funcionamento de poder que existe entre aparelhos partidários e a elite que servem. Como se o cidadão comum não soubesse ver que não ganhou nada com o negócio. Nada muda excepto o ilusório. O sistema está podre e não consegue adaptar as suas acções ou mesmo palavras à nova realidade. Continua de forma autista a repetir os mesmos mantras rezando aos céus que alguma solução milagrosa se apresente antes que os cidadãos se apercebam que o estrago feito é irreparável e resolvam pedir contas a alguém.

"Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser." - Johann Wolfgang von Goethe

“Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser.” – Johann Wolfgang von Goethe

Moral da Prova V: A elite é de facto indiferente às realidades da população. Não sabe o que se passa no terreno nem quer saber. Tem um discurso oficial a promover e apenas lhe interessa o formalismo vazio para poder manter as estruturas reais de poder inalteradas. Os seus servidores mais imediatos, quais formigas atarefadas, trabalham sem descanso para dar pelo menos um verniz tecnocrático e popular a uma realidade verdadeiramente imoral em todos sentidos. Ambos os grupos estão investidos neste processo até à medula e sabem que a sua sobrevivência depende da manutenção destas ficções e da fragmentação social que sempre fomentaram (as falsas divisões de classe, de profissão, de idade, de orientação política… entre muitas outras falsas categorias). Quanto ao cidadão… esse está a ser manipulado e ridicularizado por tais tácticas e continuará nesta posição até ter a honestidade de admitir a si mesmo qual a sua realidade pessoal e ganhar a coragem para fazer algo.

Pequenas perguntas

Ao longo do tempo há pequenas perguntas que começam a “incomodar” ou a ficar presas, qual pedra no sapato, na nossa mente e às quais não conseguimos dar um enquadramento lógico que nos satisfaça plenamente. Começamos a pensar sobre o tema e ao fim de alguma leitura, debate e pensamento sobre o tema começamos a ouvir uma voz interna a dizer: “porque estás a fazer isto tudo”? Quanto maior a base de conhecimento menor será o grau de integração social (não interessa tanto o nível económico – apesar de ajudar ou facilitar claro – como o sentimento interno da pessoa, se ela se sente parte do todo, se consegue uma identificação emocional com “a coisa”) e mais vezes este tipo de pergunta interna irá surgir.

“Any fool can know. The point is to understand.”

“Any fool can know. The point is to understand.”

Para mim há uma lista delas que ao longo dos anos fazem as suas rondas habituais na minha mente sem que nunca tenha conseguido obter uma resposta que me diga algo (a um nível existencial se quisermos colocar a coisa assim). E a primeira delas é o acto de votar. Eu compreendo, e sei melhor que muitos, a história do liberalismo português (no seu sentido europeu e único: autonomização do individuo face aos grupos sociais, seja a coroa, o patrão, a religião a cidade, o bairro, o clã, etc) mas depois de uma breve admiração pelos esforços que outros desenvolveram em seu (e inconscientemente) e em meu nome fica o vazio. Porque haveria de votar? Porque haveria sequer de me preocupar com as tricas internas que passam por “notícias” nos órgãos de informação comerciais e politizados? O que significa para mim que um ou outro governe (tirando casos aberrantes de ameaça de liberdades fundamentais, mas nesse caso penso que poderíamos considerar mais como situações de autodefesa eleitoral do que como um voto ponderado)? Eu não como da mão de nenhum deles por isso à partida nada ganho em qualquer apoio. Não acredito por um momento na sinceridade de nenhum deles por isso sei que são todos igualmente ocos. Já vivi o suficiente para a ver a corrupção de todos eles triunfar sobre pessoas boas ou ingénuas que nada fizeram para o merecer, por isso, porque haveria de ajudar a dar esse tipo de poder a qualquer um deles?

"Greed is a bottomless pit which exhausts the person in an endless effort to satisfy the need without ever reaching satisfaction"

“Greed is a bottomless pit which exhausts the person in an endless effort to satisfy the need without ever reaching satisfaction”

Uma das minhas grandes desilusões é não ser anarquista. Isso facilitaria imenso as coisas. Passar um selo de borracha sobre toda a teoria institucional e mandar tudo às urtigas. Mas, mais uma vez, tenho experiência pessoal suficiente para saber que o anarquismo é uma fuga do inevitável. Da natureza humana. Que anseia por hierarquia (menos pesada e menos visível é o que tem estado na moda nas últimas décadas mas, como na roupa, estas coisas são cíclicas) e por ganho pessoal. Mais que isso, apesar do misantropismo sei reconhecer que há indivíduos, aqui e ali extremamente isolados, cortados de outra cepa. Para quem uma oportunidade numa posição de organização seria uma dádiva dos deuses a todos nós – apesar simultaneamente ser obrigado a reconhecer a improbabilidade que tais indivíduos vão muito longe nas hierarquias partidárias e corporativas. Há demasiados acordos a fazer, demasiadas coisas a comprometer, demasiado que fica pelo caminho. Até que, para aquelas que decidem entrar no jogo para “mudar as coisas por dentro”, sobra apenas mais um esqueleto ético, igual aos outros que enchem os partidos, os órgãos do estado, as chefias e cargos médios das empresas. Autênticos abismos niilistas andantes. Talvez os gregos tivessem alguma razão (limitada pelo seu próprio isolamento) quando falavam de gerações decrescentes. À era o do ouro seguir-se-á a de prata e depois a de bronze (continuando a sequência até a uma degradação final e, talvez, renovação) e talvez assim entendamos porque muitos dos dignatários serão incapazes de cumprir as funções, básicas, que os seus antecessores lhes encarregaram.

"E a última é a do duro ferro. De súbito, todo o acto nefando irrompe nesta idade de metal menos valioso. Fugiram o pudor, a sinceridade, a  lealdade, e, no lugar destes, sucederam-se-lhes o logro e a traição, e as insídas e a violência,e a criminosa paixão por possuir."

“E a última é a do duro ferro. De súbito, todo o acto nefando irrompe nesta idade de metal menos valioso. Fugiram o pudor, a sinceridade, a lealdade, e, no lugar destes, sucederam-se-lhes o logro e a traição, e as insídas e a violência,e a criminosa paixão por possuir.”

Portanto fica a questão, para quem ainda se interessar não pelas pessoas, não pelos eventos mas pelas ideias: Porquê, dado tudo isto votar? Que bem ético atingimos? Que serviço cumprimos? Qual o objectivo pragmático que é servido?

Proposta de abolição constitucional

Resumindo a situação:

– Não existência de maioria parlamentar para reformar ou abolir a constituição.

– A não existência de um poder legislativo independente – verdade que não é culpa deles, já que os poderes executivos e legislativos derivam da mesma eleição.

Não existência de vontade popular no sentido de apoiar em votos a reforma ou abolição da constituição.

Proposta do PSD:

– A não existência de constituição. Que desapareça a figura do documento rígido, não sujeito de ser adaptado aos desejos de governos estrangeiros e os seus respectivos gabinetes de gestão de ocupação.

– A não existência, óbvia, de um órgão fiscalizador do documento constitucional já que dada a sua total flexibilidade não faria sentido nenhum, quando alguém diz para alterar, altera-se. Tão simples como isso.

– Em caso de dificuldade recorrer à figura do chefe de estado para ganhar alguma legitimidade para o que ser fazer.

E neste último ponto é que está a chave meus caros. Os portugueses pedem muito a intervenção do Presidente da Republica mas como, quase, sempre não sabem muito o que querem dizer com isso. O presidente é o sustentáculo moral deste governo. Foi o criador deste governo através de uma crise que ajudou a magnificar quando tal lhe foi conveniente. Foi o primeiro a propor que se abolisse ou reformasse profundamente a constituição de forma a transformá-la mais num memorando de trabalho ministerial que numa carta de direitos e garantias básicas da população portuguesa. Em última análise é o único que, fora um acordo largo no parlamento, que tem poder para significativamente alterar a aplicação da constituição. Nomeadamente através da sua suspensão se faltar qualquer outro acordo e ele, a título pessoal, o julgar necessário. Sim é verdade que estarão previstas legalmente situações muito específicas para as garantias constitucionais serem suspensas mas, como o regime já nos provou, quando algo não agrada é substituído e as regras são de aplicação inconstante. Além das razões óbvias, sem um tribunal constitucional activo (ou fragilizado por medidas governamentais e presidenciais), a existência uma maioria parlamentar fanatizada e um Conselho de Estado na sua maioria cúmplice, quem irá pedir uma análise dessa suspensão constitucional ou de forma mais interessante quem a iria executar? Portanto Portugal que grite pela intervenção do chefe de estado, que clame nas ruas para este sair da sua inacção mas depois não se esqueçam de quem ele é, do que criou e dos seus desejos de longo prazo há muito expressos.

"No freeman shall be taken, imprisoned, or in any other way destroyed, except by the lawful judgement of his peers."

“No freeman shall be taken, imprisoned, or in any other way destroyed, except by the lawful judgement of his peers.”

Mesmo em caso de “mera” substituição da constituição por outro documento o governo sabe não ter o mínimo de popularidade ou credibilidade para conseguir aprovar tal documento por via parlamentar ou por via de um plebiscito. Logo a única alternativa seria uma suspensão alargada (até a “crise” ser resolvida – lembram-me de há uns anos Manuela Ferreira leite ter falado no mesmo? Isto prova que existe uma corrente de pensamento muito presente influente dentro do partido) tendo como único “entrave” a vontade do chefe de estado. A última vez que tivemos um modelo parecido foi em 1906 pelas mãos de João Franco, outro político que fez escola nos partidos caciquistas e rotativistas da monarquia liberal mas se dizia “independente” e “reformista” e o monarca era Carlos I – que pela sua atitude de indiferença para com o país e prepotência governamental foi morto em praça pública num dos poucos regicídios da nossa história. O sistema tinha um nome, governo por decreto. O ditador (e era esse o cargo de João Franco – era uma altura que ainda se chamavam as coisas pelo nome) propunha legislação ou medidas punitivas conforme o seu gabinete achava desejável e estas eram postas sob o “rigoroso escrutínio” de um rei mais interessado na caça e na sua vida sexual que no país. No século XX a ditadura administrativa de João Franco não chegou a durar 2 anos completos mas só acabou devido à morte do homem que sustentava o regime, Carlos I. O seu filho, por medo ou manobra política, optou pelo caminho da tentativa de absorção e castração política dos movimentos dissidentes. Falhou porque claramente o abismo que separava o país católico e monárquico do país republicano e liberal já era intransponível.

Presos políticos por ordem de João Franco - mas claro, apenas até a situação estar normalizada. Mais depressa caiu a sua ditadura que ele conseguiu "normalizar" qualquer situação política, económica ou social.

Presos políticos por ordem de João Franco – mas claro, apenas até a situação estar normalizada. Mais depressa caiu a sua ditadura que ele conseguiu “normalizar” qualquer situação política, económica ou social.

Num regime como o nosso, que talvez ja tenha conseguido igualar a monarquia liberal na sua ineficiência nas relações internas (estado) e externas (estado e privados) e que talvez possua o edifício legal mais bizantino que já tivemos torna-se complicado saber onde este caminho nos poderia levar. Um governo sem qualquer documento fundador ou guia? Sustentado apenas pela sua própria vontade de poder, inépcia governativa, regado com eleições presidenciais de 5 em 5 anos e mantido o resto do tempo pela pressão constante dos “credores” que funcionariam como uma espécie de Conselho de Regência? Talvez seja este o resultado de nunca se ter feito uma verdadeira reforma política em Portugal há mais de um século. Os monárquicos “transformaram-se” em republicanos, que por sua vez se “transformaram” em Salazaristas que finalmente se “transformaram” em democratas. Todos são tudo e ninguém é verdadeiramente nada. Talvez seja isto que um país carcomido por elites monárquicas no armário se pareça. Aproximações constantes a um período idealizado sem qualquer atenção ao momento histórico, à população ou à própria decência política.

A vida política e a alternativa

A vida política (mesmo para o cidadão não envolvido) cansa. Pela completa previsibilidade do auto-interesse e cupidez dos agentes. Desespera. Pela estupidez e falta de preparação de um povo cuja maioria não seria capaz de eleger uma comissão de condomínio decente nos seus melhores dias. Desanima. Pela insistência uma e outra e outra (e outra e outra e outra….) vez nos mesmos erros e padrões sem que se aprenda que, no mínimo, aquela “receita” em particular não funciona. Frustra. Pela falta de quase tudo em termos de aparelhos institucionais. É como viver num prédio que se esqueceram de demolir… o elevador social deixou de funcionar há 3 décadas, as protecções das escadas já deram de si, etc. Falta-lhe substância. Como a cultura cívica e política anda mais rasteira que um anão com dores de costas o debate (sinto-me corar até à alma por ter a coragem de chamar aos grunhidos debate) fica-se pelo insulto mais pessoal, transparente e previsível. Quando a providência nos agracia com pouco mais que isso ficamo-nos pela repetição estática de números que todos sabem ter sido adulterados e retrabalhados, opiniões recicladas fora de contexto e ninguém (nem mesmo quem tem esse trabalho – sim vocês jornalistas acima de todos) contesta, acenam de forma bovina com as cabeças não enganando ninguém que não estivesse já predisposto a sê-lo. A sensação permanente de deja vu é suficiente para deixar qualquer um indisposto. Políticos que são empresários, empresários que comentadores, comentadores que são políticos, políticos que são reguladores, enfim em 150 nomes fica feita a festa da “democracia” que existe.

"Em todas as lágrimas há uma esperança"

“Em todas as lágrimas há uma esperança”

Ninguém deve considerar meter-se nisto a seco nem com um fato hazmat! Daí que tenhamos que ser cuidadosos ao abordar (e mesmo mudar!) esta aberração mutante que dá pelo nome de vida política. Agora uma coisa vos digo: é possível. Não como as pessoas imaginam ou foram ensinadas a pensar. Não da forma que as mentes medíocres, que nos dominaram no passado, alguma vez tenham ousado sonhar mas uma coisa prometo ao leitor, é possível. Palavra de quem já o viu acontecer,

Os ares do Verão

Para que serve o Verão em Portugal? Até há uns anos (2007-2008) servia como ritual de purificação da classe média que se isolava através do turismo massificado em zonas de praia com planos urbanísticos horríveis. No entanto isso tem vindo a alterar-se. A mobilidade reduz-se a cada ano que passa e cada vez mais pessoas ficam em casa a meditar sobre o que fizeram o ano todo. A contemplar os seus erros. Sem banhos de sol e mar podem encarar mais sobriamente o que esses enganos podem implicar para o seu futuro. Será que a anunciada recuperação terá alguma continuidade depois do normal “boost” de Verão? Poder-se-ão pagar as contas de saúde que se vão acumulando à medida que as poucas unidades ainda totalmente públicas começam a perder os poucos recursos que lhes restavam? Será que haverá dinheiro para que os filhos possam continuar a estudar agora que o ensino vai seguir o caminho do SNS e será incrementalmente pago? Os abutres televisivos fazem a cacofonia do costume mas nada parece claro. E assim se perdem as noites de sono dos mais prescientes.

"O culpado que nega as suas culpas - dobra-as"

“O culpado que nega as suas culpas – dobra-as”

Os mini casos de corrupção política e pessoal ocupam as semanas e a confusão dá lugar a exigências algo vagas de “justiça” – dentro do estilo de uma populaça medieval irada: “que se tirem as maçãs podres do cesto” (que o cesto em si esteja podre é outra questão que escapa à visão de muitos). Mas a pergunta mais perceptiva é porque é que estes “escândalos” aparecem todos de seguida. Se olharmos para a normal rotatividade dos partidos penso que será fácil de perceber que esta continuação de governo não estava nos planos. Isso aumentou muito as tensões. Já em tempos normais o teria feito, mas numa altura em que os aparelhos partidários estão mais apertados a urgência é sentida como a fome de quem não vê uma sandes há uma semana. Não espaço para o cavalheirismo habitual. Não se podem deixar estas coisas passar – mesmo que seja do interesse de qualquer sistema estável que os principais agentes de poder não chamem a atenção dos governados sobre as suas falhas, especialmente quando são partilhadas, já que não só os enfraquece a ambos como ao sistema que lhes permite existir. Mas quando a fome aperta e os recursos escasseiam os cavalheiros perdem os seus bons modos e tornam-se visivelmente mais tribais, tornando todo o jogo de interesses mais transparente.

"Os traidores são colhidos na sua própria cobiça"

“Os traidores são colhidos na sua própria cobiça”

Mas a vida prossegue. Por inércia. Por incapacidade de reacção. Por apatia. Por indiferença. Por cobardia. Talvez os deputados alemães tenham alguma razão e Portugal seja um país de “mansos”. Talvez. O calor tardio finalmente faz o seu efeito e leva os portugueses mais persistentes à sonolência. Conseguem adormecer numas “siestas” que compensam as noites problemáticas. Mas Setembro está à porta e com ele mais uma movimentação nos terrenos políticos, as eleições locais. As eleições para o poder autárquico são uma mistura de clientelismo básico de século XIX, aparelhos partidários pós-25 de Abril, corrupção imobiliária e uma oportunidade geral de fazer uma sondagem de opinião sobre o poder central. Serão seguidas pela tentativa de aprovar mais um orçamento que deverá tantas hipóteses de passar quantas as câmaras que o PSD conseguir manter e do próximo relatório trimestral sobre a economia – já sem os resultados de Verão. Admito ignorância quanto ao que vai na cabeça dos nossos veraneantes. Não sei se continuam a pensar que isto se vai corrigir sozinho. Não entendo o porquê da indiferença dos mais afectados pelas reformas. Estão à espera de algum salvador? Nesse caso puxem uma cadeirinha porque pode demorar – o último devia ter aparecido pouco depois de 1580 e ainda estamos à espera.

wir kapitulation

wir kapitulation

O calor entorpece os sentidos mas a seguir ao Verão virá sempre o frio. Severo. Cruel. Realista. E aí não existirão deliciosos pedaços de tempo a meio da tarde onde as pessoas poderão diluir as suas consciências. Virão também novos Senhores do Norte. Emissários imperiais para nos impor um novo tributo sobre a dívida gerada por nós e acima de tudo por especulação financeira organizada – se existisse capacidade técnica e coragem política provavelmente chegaríamos à conclusão que estamos mais num cenário de guerra económica e de ocupação informal do que parceria. Não haverá simpatia como não houve até agora. Não haverá perdão. Não haverá alívio. Apenas um aumento da pressão até que os mestres dos publicanos estejam saciados com o saque e assegurados da incapacidade de resposta. O regime fragiliza-se internamente mas cimenta cada vez a sua credibilidade pela sua estreita ligação à nova Roma. O povo ignora por sua conta e risco o que sucede debaixo das suas barbas.

Consilio, quod respuitur, nullum subest auxilium

Dos Limites da Indignação

Depois das grandes manifestações do fim-de-semana passado os ânimos já acalmaram o suficiente para se poder olhar para as situações de forma mais fria e racional. Foi acima de tudo um êxito em duas frentes. Do lado da organização demonstrou grande capacidade de mobilização de pessoas que habitualmente seriam tudo menos socialmente activas. Do lado individual provou a muitas pessoas que o mundo não desaba por manifestarem vocalmente a sua opinião. Dito isto, torna-se também necessário admitir as limitações do que ocorreu. Não se trata de algo que necessariamente force qualquer tipo de mudança imediata. Sim o governo está frágil, mas o executivo já contava não cumprir o mandato completo (nunca contou…) e como tal isto apenas veio confirmar que o momento de se afastarem se está a aproximar. Será com isso em mente que deverão ser interpretadas as recentes movimentações face ao tema do salário mínimo. É normal, no sentido de fazer parte da tradição política portuguesa, que a partir do momento que um governo sabe que está condenado comece a tomar medidas aparentemente mais agressivas em algumas áreas. Poderia à primeira vista parecer contra-intuitivo tomar posições que exacerbem uma opinião pública já de si hostil mas isso corresponde apenas a uma análise superficial, senão vejamos. A partir do momento que uma queda se torna inevitável (mesmo que não imediata) os ministros perdem qualquer incentivo a agir de forma política pois sabem que a sua posição nessa arena é demasiado negativa para atingir seja o que for. Assim sendo viram-se para os seus objectivos pessoais (normalmente associados a empresas privadas que gostariam de ver algumas legislações menos simpáticas aprovadas) e ideológicos (já que estão condenados aprovam tudo o que de outra forma nunca se atreveriam sequer a propor). A questão da fragilidade laboral atinge ambas as esferas de todos os actuais ministros. Por um lado alguns têm interesses em empresas privadas (nas quais já trabalharam, aspiram vir a trabalhar ou esperam receber contratos) e outros têm compromissos ideológicos de longa-data com um determinado modelo socioeconómico que inclui na sua matriz uma total ausência de protecção laboral.

"Unemployment insurance is a pre-paid vacation for freeloaders." - Ronald Reagan (Ídolo mor conservador)

“Unemployment insurance is a pre-paid vacation for freeloaders.” – Ronald Reagan (Ídolo mor conservador)

Regressando às manifestações recentes. Será excessivo esperar soluções em acções que não possuem força legal ou ética suficiente para forçarem a realidade política. Legalmente convém dizer que a única possibilidade de impugnação dos actuais governantes seria por desrespeito ao espírito da constituição do regime, algo que o Tribunal Constitucional nunca os irá acusar e o Presidente da República não iria apoiar de qualquer forma – ele próprio tentou, com sucesso limitado, alterar a constituição no mesmo sentido. Eticamente a posição dos manifestantes também não é inteiramente “pura” já que de facto grande parte deles votou na coligação governativa e o prazo do mandato não se altera a meio só porque as pessoas percebem que afinal votaram contra os seus próprios interesses, que de facto deveriam ter lido o programa eleitoral e que realmente teria sido interessante olhar para o comportamento a longo-prazo dos candidatos (especialmente os seus compromissos empresariais e ideológicos de longo prazo). Tiveram hipótese de calmamente analisar as coisas e optaram por não o fazer. A surpresa só pode provir de uma ignorância auto-induzida combinada com um certo grau de indolência intelectual. Não que isto retire urgência e necessidade aos pedidos das pessoas (está muitas vezes em causa a sua sobrevivência e isso tem que ser prioritário) mas retira peso moral às suas exigências já que a sua situação deriva, em muitos casos, directamente das suas próprias escolhas. Entramos no campo de minas que é a distinção entre eleitor e cidadão que ninguém quer realmente encarar.

The Big Magic Button

Talvez o mais confrangedor desta situação seja ver as pessoas, os eleitores não-cidadãos, virarem-se, apesar de tudo, para as mesmas pessoas e instituições de sempre. Como se esperassem que essas entidades contrariassem o seu interesse próprio, quando nunca o fizeram ao longo da sua existência. “Organizações de cidadãos” dirigidas por fantoches partidários, “comentadores populares” amigos e frequentadores das mais altas esferas do poder económico desta nação (se ainda o somos), militares que são “garantia da constituição” mas que só ameaçam algo quando os seus interesses corporativos estão em causa, partidos de “alternativa”, com fome de poder, que, além de terem os mesmos vícios dos outros, não possuem qualquer projecto, entre tantos outros. A lista poderia continuar durante bastante tempo. É o regime a tentar regenerar-se, a lutar para poder manter as suas estruturas tal e qual, a bater-se pela manutenção do poder nas mãos das famílias do costume. Sejam grandes empresas, partidos, lugares do estado, organizações não-governamentais ou qualquer outra categoria, os que detêm as suas rédeas, e mesmo lugares técnicos, são um grupo privilegiado, relativamente vasto, que não irá mudar ou ceder uma vírgula por vontade própria. Por muitas manifestações que os excluídos organizem. Falta-lhes qualquer poder para alterar realidades concretas. Os excluídos terão ainda que passar por muitas desilusões até perceberem o que entra pelos olhos de qualquer observador neutro: estão totalmente sozinhos e abandonados. Sempre o estiveram.

Realidades Democráticas III

Como já todos perceberam, existe uma miríade de factores que interferem e poluem o processo, dito, democrático, tal como o conhecemos no presente. Um dos óbvios é a preponderância dos interesses económicos especulativos. Historicamente sempre foi este o caso mas no passado existia de facto uma correspondência directa e legal entre o poder económico e o poder de voto (nomeadamente requisitos censitários). No presente o sistema foi algo mais inventivo e criou uma forma mais divertida de perverter a coisa. Deixa os mercados “pronunciarem-se” através de instrumentos puramente especulativos como as bolsas de valor. E as pessoas ouvem, o que é absolutamente hilariante. Começaram mesmo a acreditar que mecanismos de especulação financeira (e nada mais é “produzido” pelas bolsas de valor – basta verificar que se o valor de acção ou obrigação fosse o real, ou seja, desprovido de efeito especulativo intencional, ninguém ganharia dinheiro; as bolsas de valores seriam apenas quadros informativos quase estáticos) são capazes de avaliar a credibilidade de um político e, de forma mais grave, têm legitimidade para o fazerem.

who are we kidding

Prova III: Os italianos não aprovaram Monti, o candidato escolhido pelas maiores empresas financeiras do planeta, e já sofrem as consequências de tal ousadia. Vendo os seus “valores” descer significativamente por avaliação dos “mercados”. E a guerra económica continuará até uma de três hipóteses se verificar. 1) A economia real italiana, como todas as outras, está tão ligada ao elemento especulativo que explode lançando o país em décadas de miséria total; 2) Os eleitores (a omissão da palavra cidadãos é intencional) fazem uma escolha de um candidato que esteja disposto a ser comprado e como tal é como se tivessem votado de “forma correcta” ou 3) Começa um processo retaliatório contra entidades que usem a especulação para interferir em fenómenos políticos.

Moral da Prova III: Não será preciso ser um génio da análise psicológica e política para perceber que a hipótese mais viável é a segunda. Os eleitores “revoltam-se” mas sabem à partida que haverá um compromisso mais tarde com os interesses especulativos que tanto criticam. A rejeição total desses interesses não é interessante para o eleitor do centro (o tal que supostamente é racional e moderado) já que implicaria mudanças demasiado profundas na sua realidade. Há demasiado medo para encarar tal hipótese. A primeira opção é mais provável que a criação de processos retaliatórios mas não por muito. Qualquer tentativa de dissociação da economia real da especulação será recebida violentamente pelo mundo financeiro e não há políticos nem partidos com fibra para isso – e diga-se à partida que não existem porque as pessoas não os querem. Querem sempre os mesmos homens “bem falantes”, sem espinha vertebral (flexíveis, como se diria na gíria político-económica) e pouco ameaçadores. Resumindo, não entidades que lhes digam que tudo está bem e lhes dê lustro ao seu ego imerecidamente inchado.

O voto infantil

O tema posto em cima da mesa nos últimos dias parece ser o do voto aos 16 anos o que, admito, desperta reacções quase viscerais em mim. De repulsa. Não estou certo que aos 21 a maioria esteja pronta para votar, quando mais cinco anos antes disso! Além de que arrasta a esfera democrática (e a percepção popular) ainda mais para a dimensão do “ter democracia é ter voto”. Sem ter em conta nenhum outro factor, como independência face ao grupo, direitos humanos e cívicos, protecção na vida quotidiana, segurança básica (quer física quer “existencial” – por exemplo, ter a certeza que a família ainda lá vai estar amanhã porque não morreu de fome ou foi forçada a emigrar), entre muitos, muitos outros temas que deveriam ser discutidos e que são a base de qualquer sistema de governo Justo. O voto por si só concede uma falsa liberdade. Falsa porque, além de nada garantir sobre os temas acima mencionados, nada diz sobre a credibilidade do próprio processo antes ou depois do acto de votar. O que adianta votar num sistema dominado por aparelhos partidários? O que adianta votar num sistema que tem uma dinâmica de funcionamento viciada? Debater este tema é uma fuga para frente. Não se reforma o sistema e torna-se as suas bases ainda mais frágeis.

"All change is not growth, as all movement is not forward."

“All change is not growth, as all movement is not forward.”

Esta erosão do nosso sistema de governo e de equilíbrio de poderes (não entre ramos do governo mas entre facções da sociedade) faz parte de um conjunto de medidas que eu denomino a “virtualização da vida”. Tudo o que nos foi ensinado a esperar está teoricamente garantido mas é pragmaticamente impraticável ou inoperante. A saúde é “tendencialmente” (termo odioso e perverso que serve para falsificar o que se lhe segue) gratuita mas a realidade é que o nosso direito à vida em si está a ser condicionado à margem de lucro de entidades amorais. Atente-se a gravidade do que se está a afirmar: há pessoas a morrer pela conta bancária de outros. O mesmo se passa com o ensino, o resultado previsível será a estabilização de graduados num nível bastante mais baixo que o actual tendo acesso às posições chave quem pode pagar uma boa educação, ou seja as famílias do costume. Não é uma reforma do ensino ou sequer uma mera privatização, é a hierarquização de toda uma sociedade desde a idade de inicio da socialização humana. A justiça é outro exemplo gritante onde teoricamente temos um recurso a um meio não violento de resolução de disputas mas na prática não possuímos mais que um sistema burocrático que acaba em becos sem saída para quem não é do nível social ou económico correcto – uma justiça que de cega nada tem. O ignorar de todos estes problemas e dar prioridade ao tema do voto infantil é mais que insultuoso. É maldoso. É tentar definir a democracia, a liberdade e o comportamento cívico segundo novos parâmetros. Que de tão limitados que são acabam por ser apenas uma formalidade a cumprir para as elites que já têm vantagens naturais.

"There is a lack of critical assessment of the past. But you have to understand that the current ruling elite is actually the old ruling elite. So they are incapable of a self-critical approach to the past."

“There is a lack of critical assessment of the past. But you have to understand that the current ruling elite is actually the old ruling elite. So they are incapable of a self-critical approach to the past.”

Indo ao fundo da minha alma para tentar encontrar algo de bem-intencionado neste tema consigo apontar apenas um, possível, aspecto positivo. O facto de alguém aos 16 anos ser indiferente (na maior parte dos casos) aos interesses estabelecidos. Ainda não tem um emprego onde é pressionado e formatado, não foi para a faculdade onde foi categorizado na sua caixinha, tem uma certa mania que é independente o que pode levar a votos menos racionais mas ocasionalmente mais justos. Mesmo assim temos que admitir que isso não compensa o contribuir para a continuação da desvirtuação da democracia ou a completa imaturidade do eleitor em questão. Sendo verdade que há pessoas que nem aos 40 a têm, o objectivo deve ser incutir o máximo de responsabilidade ao eleitor. Mais depressa se iria obter isso com limitações ao voto (não censatárias ou arbitrariamente discriminatórias) do que com a sua extensão. O corpo de cidadãos tem que ser melhorado em qualidade e não quantidade. A insistência na segunda opção, da quantidade, foi o que nos deixou neste estado e é o que coloca em risco tudo o que foi conquistado desde a queda do ditador.

Ainda não é o fim do ciclo

A vida política portuguesa tem ciclos bastante bem definidos. Para quem conheça um pouco o funcionamento da “coisa” não será surpreendente ler que nenhum partido ganha eleições. São os governos e os ministros que caem de podre. É do traço psicológico nacional ficar agarrado à cadeira até se cair dela (provavelmente numa imitação metafórica inconsciente do ditador que nos governou quatro décadas) – a excepção sendo os que vão com missão económica definida, ou seja, já entram para um governo com missão incumbida por um grupo económico “patrocinador”; nesses casos tendem a sair assim conseguiram cumprir aquilo para que foram “contratados”.

Cuidado com o "reformismo"....

Cuidado com o “reformismo”….

Apesar dos ameaços que temos visto nos últimos dias o ciclo presente ainda não chegou ao fim. Por muito que custe admitir a quase todos nós estes senhores, com a sua falsa tecnocracia, ainda têm alguma margem de manobra junto de uma população algo inculta e deslumbrada com a “técnica” (ou a aparência dela) e com os altos cargos de outros órgãos do país – esqueceram-se todos que preservámos uma grande parte do antigo regime e que essas pessoas têm preferências claras que não coincidem com as do cidadão vulgar. Já para não falar da carta da “estabilidade” que podem sempre acenar para manter a parte mais tíbia do eleitorado temerosa… “não podemos sair senão seria o caos, não podemos mudar de plano senão os mercados devorar-nos-iam”. Parece patético mas funcionou na Grécia – não que tenha qualquer preferência especial pela Syriza mas a verdade é que fariam melhor serviço que quem lá está agora (pelo menos tenho a certeza que não abafariam os crimes económicos de uma elite).

Repetir sistematicamente a mesma acção e esperar resultados diferentes é a definição de loucura.

Repetir sistematicamente a mesma acção e esperar resultados diferentes é a definição de loucura.

Ainda há acrescentar que há coisas planeadas vitais, para a ideologia de quem os controla, que ainda estão na calha. A redução, ainda maior, do rendimento disponível médio. A redução da protecção laboral. E acima de tudo as sagradas privatizações que restaurarão milagrosamente a boa saúde económica do país. Se estivesse particularmente mal disposto diria ainda que o principal partido da oposição joga apenas um bluff. Que a última coisa que quer é assumir o poder nestas condições. Caso tal venha a suceder, num futuro a médio prazo, não se percebe o entusiasmo de alguns sectores populares já que os compromissos assumidos foram os mesmos que o actual governo. A forma de governar anterior foi a mesma (menos extremada é verdade mas de efeitos de longo prazo iguais). Portanto para todos os que já gritam “mudança”, lembrem-se da diferença entre forma e essência e preparem-se para um 2013 economicamente ruinoso, socialmente restaurador de 1973 e moralmente falido. Boas entradas.