Autonomia e Estratégia

Como o Enclave e a Irmandade de Némesis têm vindo a demonstrar ao longo dos anos o actual debate nacional sobre o rumo a dar ao país reflecte em grande medida uma ficção. Não está de facto nada em debate. Ou dito de forma mais correcta o que está em debate por todas as forças políticas é apenas a forma e nunca a essência do sistema. E isto serve as elites de forma perfeita. Mantém as pessoas entretidas a discutir o sexo dos anjos enquanto as muralhas da cidade colapsam uma a uma. É verdade que alguns portugueses vão estando mais cépticos à medida que percebem os limites reais da nossa posição estratégica no mundo. Mas tristemente o efeito desta descoberta tende a ser a retirada do individuo da vida pública pois o cidadão desperto começa a desenvolver uma forte dissonância cognitiva face ao que o rodeia e ou é ostracizado ou acaba por se auto-exilar. As conversas que ouve e vê deixam de fazer sentido já que se entende que não têm qualquer relação com a realidade. Começa-se a ver as ilusões por aquilo que são, distracções para impedir que qualquer conversa nacional séria possa de facto existir. Começa-se a entender que os “princípios” e “ideologias” em grande medida não passam de capas retóricas com que se tapam os interesses mais cínicos de quem os defende ou na melhor das hipóteses conceitos vácuos que tentam mobilizar as massas para situações que ou são contra os seus melhores interesses ou não produzirão qualquer efeito. Tudo isto torna-se particularmente óbvio quando se discutem os modelos de desenvolvimento económico e as suas consequências políticas e sociais.

"The rationality of the ruled is always the weapon of the rulers." - Zygmunt Bauman

“The rationality of the ruled is always the weapon of the rulers.” – Zygmunt Bauman

As teorias económicas que estão em voga e que, teoricamente, visam optimizar os rendimentos das nações dos seus agregados empresariais insistem todas sobre um ponto, a especialização. Cada região deve focalizar-se apenas num elemento da produção de serviços ou produtos e importar o restante já que a dispersão por várias áreas não corresponderia a um óptimo económico (o máximo ganho de unidades monetárias pelo mínimo input de recursos). O corolário deste modelo é uma interdependência total dos países uns dos outros e necessariamente a fragilização de países mais pequenos e menos capazes de manter alguma diversidade de produção. Isto traduz-se em fórmulas econométricas que tentam expressar o risco associado à falha/colapso de um dos componentes deste sistema mais ou menos global. E como todas as fórmulas da economia clássica está sujeita a dois tipos de críticas: 1) O risco não se comporta de forma linear e o princípio base da económica clássica, ceteris paribus (e tudo o resto permanece igual), não tem validade, a instabilidade de um elemento toca na estabilidade todos os outros elementos e quanto maior o grau de interligação maior este efeito de contágio não intencional se torna – acaba por se tornar impossível ter uma ideia do risco real associado à maioria das falhas porque ele não respeita modelos matemáticos teóricos; 2) A interligação dos vários elementos deste sistema não divide o risco de forma equitativa, antes pelo contrário. Coloca grande pressão sobre os elementos mais pequenos que ao serem necessariamente mais especializados dependem apenas uma mão cheia de produtos ou serviços. Estão então duplamente dependentes. Dependem da manutenção de mercados externos muito específicos para escoar o seu excedente especializado e por sua vez dependem da existência da estabilidade de todos os outros mercados para assegurar a importação de todos os bens essenciais. Adicionalmente este sistema de avaliação de risco tende a ignorar que as grandes nações são indiferentes aos colapsos das pequenas nações mas que o inverso não é verdade, ou seja, a distribuição de risco não é apenas desigual como é mesmo inversamente proporcional ao poder económico e político de cada entidade nacional.

"It is not inequality which is the real misfortune, it is dependence." - Voltaire

“It is not inequality which is the real misfortune, it is dependence.” – Voltaire

Porque é que se seguiu este modelo de desenvolvimento? Porque a teoria alternativa caiu em desgraça. Diametralmente oposta a esta visão está a visão de autarquia – uma nação que organiza a sua vida económica no sentido de ser totalmente auto-suficiente. Há duas causas para o abandono deste modelo. Em primeiro lugar à medida que revolução industrial progredia e tecnologia se complexificava tornou-se claro que cada país não tinha a mesma distribuição de recursos naturais o que tornava a independência total como uma impossibilidade técnica. Em segundo lugar durante o século XX esta teoria de auto-suficiência extrema esteve associada a todo o conjunto de economias totalitárias (a Alemanha nazi é o caso mais óbvio) que exaltavam a nação de forna xenófoba e que viam as relações internacionais não apenas como o domínio da competição ou do conflito mas como apenas uma interminável guerra. Torna-se assim compreensível o abandono desta teoria em favor de uma que teoricamente daria lugar a menos tensões e conflitos e maximizaria os potenciais ganhos de cada nação. Mesmo os países que se sentem de alguma forma prisioneiros do sistema actual (a micro especialização) não encaram a autarquia como alternativa porque o choque de uma mudança de sistema causaria terramotos políticos, teria custos sociais elevados e seria questionável qual o nível de bem-estar que se poderia de facto proporcionar ao cidadão médio numa situação de autonomia total. Agora que o velho modelo continua descredibilizado e o novo parece estar próximo dos seus limites naturais e as suas falhas sistémicas começam a estar expostas as ansiedades populares sobre modelos de desenvolvimento credíveis e duráveis começa a aquecer já que não existe nenhuma nova ortodoxia no horizonte para substituir o que existiu até ao momento.

"For developing countries, free trade has rarely been a matter of choice; it was often an imposition from outside, sometimes even through military power. Most of them did very poorly under free trade; they did much better when they used protection and subsidies. The best-performing economies have been those that opened up their economies selectively and gradually." - Ha-Joon Chang

“For developing countries, free trade has rarely been a matter of choice; it was often an imposition from outside, sometimes even through military power. Most of them did very poorly under free trade; they did much better when they used protection and subsidies. The best-performing economies have been those that opened up their economies selectively and gradually.” – Ha-Joon Chang

De que adianta debater e discutir quando de facto não se quer sequer admitir os limites de cada uma destas escolhas e não se pondera a situação estratégica específica de Portugal? É útil colocar os termos do debate sobre uma forma partidária? Útil para quem? Há noção das consequências caso se queira desbravar novos caminhos? Há uma cultura de liderança política forte o suficiente para assumir esse risco? Existe vontade e coragem popular para aceitar de frente os imensos riscos quer para permanecer num modelo económico esgotado quer para explorar outras alternativas? Em última análise temos que ser extremamente cépticos quanto a qualquer possibilidade de mudança real que não provenha de um desastre exógeno, algo além do nosso controlo e iniciativa. Quer no topo quer na base a nossa sociedade tem falhas graves que nunca foram colmatadas e que nos tornam incapazes de tomar escolhas estratégicas coerentes. A Irmandade de Némesis recomenda a todos os cidadãos despertos (sejam membros ou não) cuidado em se envolverem no “debate” nacional, não nos devemos guiar por ficções e interesses alheios ao país. Só uma renovação dos valores da esfera pública pode trazer a revitalização necessária para voltarmos a ser capazes de fazer escolhas independentes e relevantes.

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O curto prazo

O facto de nas modernas “democracias” (votamos periodicamente mas pouco mais nos está autorizado) termos ciclos eleitorais tão curtos, um ramo executivo do governo desmesuradamente poderoso e a legalização do lobbying têm levado sucessivos governos, a nível global, a ignorar completamente os problemas de longo prazo. E em boa verdade, de um ponto de vista egoísta, porque não haveriam de o fazer? Quando o problema se materializar será uma dor de cabeça para outros, já que os que agora governam estarão no sector privado a viver “la vida loca” – que foi aliás o motivo pelo qual, quando eram jovenzinhos de boas famílias, entraram nas juventudes partidárias que dão acesso ao coração dos aparelhos partidárias. Além disso a solução seria, provavelmente, impopular envolvendo sacrifícios que uma população, viciada na crença na inevitabilidade do progresso e na sacralidade da técnica, não estaria disposta a fazer. Em termos de uma análise crua de custos e benefícios os decisores económicos e políticos não têm qualquer razão para tomar em conta o futuro ou qualquer questão ligada à sustentabilidade das sociedades à custa das quais vivem.

Há sempre mais... certo?

Há sempre mais… certo?

Daí que a questão energética seja um beco sem saída. Todos sabemos (e deveríamos ser adultos o suficiente para o admitir) que, como espécie, só abandonaremos os combustíveis fósseis quando eles se esgotarem de vez. Nem com a inevitável escalada dos preços a níveis nunca antes vistos (o que dada a sua finitude é uma inevitabilidade que não admite contestação) impedirá o mundo de sugar até à última gota de petróleo ou o último pedaço de carvão utilizável. Seja qual for o custo social ou ambiental envolvido. Todo o progresso dos últimos 200 anos assentou sobre o fácil acesso a este tipo de recursos e os sistemas económicos, sociais e políticos que se construíram à sua volta, que dele dependem e que o defenderão até ao fim é enorme. Ao ponto da impossibilidade da mudança não forçada por factores exteriores. Daí que não venha como um choque que se continue a apostar no combustível fóssil mais poluente (mas mais abundante) existente, o carvão, como “solução” para os problemas de escassez energética derivada não só da complexidade tecnológica crescente como do desenvolvimento de novas regiões do globo.

Se houvesse perigo avisavam-nos...não?

Se houvesse perigo avisavam-nos…não?

As alternativas de mercantilização da poluição (mercados de emissões e afins) falharam como estavam destinadas – com o único “benefício” de terem gerado mercados de futuros especulativos para mais uma “comodidade” que não deveria ser comercializável. Novas “soluções” se irão apresentar, desde que a escassez não aperte muito e empurre para uma demarcação de posições (e territórios) mais violenta, que estarão igualmente destinadas a falhar. Mas num ponto, talvez o único que verdadeiramente interessa para quem as desenhou, serão bem-sucedidas. Darão ao cidadão comum a sensação que algo que está a ser feito. Que o seu estilo de vida tem futuro. Que existe uma ordem natural benevolente neste mundo que tomará conta deles. É só o que é pedido. A ilusão de segurança – o equivalente civilizacional ao que o crédito foi para o campo do bem-estar económico.