A vida política e a alternativa

A vida política (mesmo para o cidadão não envolvido) cansa. Pela completa previsibilidade do auto-interesse e cupidez dos agentes. Desespera. Pela estupidez e falta de preparação de um povo cuja maioria não seria capaz de eleger uma comissão de condomínio decente nos seus melhores dias. Desanima. Pela insistência uma e outra e outra (e outra e outra e outra….) vez nos mesmos erros e padrões sem que se aprenda que, no mínimo, aquela “receita” em particular não funciona. Frustra. Pela falta de quase tudo em termos de aparelhos institucionais. É como viver num prédio que se esqueceram de demolir… o elevador social deixou de funcionar há 3 décadas, as protecções das escadas já deram de si, etc. Falta-lhe substância. Como a cultura cívica e política anda mais rasteira que um anão com dores de costas o debate (sinto-me corar até à alma por ter a coragem de chamar aos grunhidos debate) fica-se pelo insulto mais pessoal, transparente e previsível. Quando a providência nos agracia com pouco mais que isso ficamo-nos pela repetição estática de números que todos sabem ter sido adulterados e retrabalhados, opiniões recicladas fora de contexto e ninguém (nem mesmo quem tem esse trabalho – sim vocês jornalistas acima de todos) contesta, acenam de forma bovina com as cabeças não enganando ninguém que não estivesse já predisposto a sê-lo. A sensação permanente de deja vu é suficiente para deixar qualquer um indisposto. Políticos que são empresários, empresários que comentadores, comentadores que são políticos, políticos que são reguladores, enfim em 150 nomes fica feita a festa da “democracia” que existe.

"Em todas as lágrimas há uma esperança"

“Em todas as lágrimas há uma esperança”

Ninguém deve considerar meter-se nisto a seco nem com um fato hazmat! Daí que tenhamos que ser cuidadosos ao abordar (e mesmo mudar!) esta aberração mutante que dá pelo nome de vida política. Agora uma coisa vos digo: é possível. Não como as pessoas imaginam ou foram ensinadas a pensar. Não da forma que as mentes medíocres, que nos dominaram no passado, alguma vez tenham ousado sonhar mas uma coisa prometo ao leitor, é possível. Palavra de quem já o viu acontecer,

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Necrópsia das necrologias

A morte deste empresário/gestor é uma boa desculpa para o cidadão normal se dedicar à introspecção sobre o significado das necrologias, ou seja o relato dos feitos do morto. No momento em que é anunciado ficamos “informados” se, segundo os directores e accionistas do meio de comunicação que estivermos a ver/ler, a pessoa em questão dedicou a sua vida à defesa dos mais elevados ideais, se não passou de um vilão sem rei nem roque ou se se simplesmente foi mudando de ares conforme lhe pareceu conveniente. O individuo em questão, neste caso, figura mesmo a título de exemplo sem qualquer elo pessoal. Não passa mesmo de uma desculpa para analisar o tema já que qualquer comentador sensato da praça sabe o que o espera se a boca lhe fugir para opiniões pessoais concretas ou, se perder mesmo o pouco juízo que ainda tinha, seguir pela via das acusações com prova. A partir de um certo nível de pertença socioeconómica não há liberdade de imprensa ou opinião. Fora dos nossos círculos familiares e de amizades estamos cingidos às mais breves referências podendo quanto muito ficar algo implícito no ar. Mais que isso é ultrapassar uma linha que o bom nome do regime nos fará pagar. Provavelmente não com uma pena de prisão e outras sevícias como nos “bons velhos tempos” mas com um delicioso processo financeiramente ruinoso, uma perseguição profissional implacável seguida da irrelevância social ou do exílio auto-imposto. De tempos a tempos, como na velha Roma republicana, são publicadas as listas de proscritos da Republica (não literalmente claro, afinal somos muito mais civilizados que isso… em vez de pendurar um papel no Fórum com o nome e morada do individuo fazemos saber pela imprensa que já não se encontra num estado de graça), ou seja, aqueles que apesar de terem pertencido a determinados círculos caíram em desgraça o suficiente que ataca-los não irá gerar qualquer reacção sistémica de defesa do regime.

"Many people would no more think of entering journalism than the sewage business - which at least does us all some good"

“Many people would no more think of entering journalism than the sewage business – which at least does us all some good”

A diferença entre um documento que nos condene à infâmia o outro que nos eleve à categoria da santidade está em grande medida dependente de dois factores. Em primeiro lugar os deuses e senhores que escolhemos servir durante a nossa vida. Os poderosos recompensam os seus servos, mesmo na morte. Os fracos e oprimidos quanto muito relembram os seus paladinos em segredo (a sua própria memória uma heresia perigosa dependendo do grau de sucesso que tiveram), isto é, aqueles cuja honra pessoal ainda é significativa o suficiente para os impedir de aceitar as 30 moedas. Em segundo lugar o momento da morte. Se os elementos a que alguém esteve ligado em vida experienciam uma apoteose de poder aquando da morte do individuo então tudo o que ele fez terá um brilho dourado. Mais, será midas reencarnado. Não existirá acção com falha ou vítima não merecida. Da hagiografia nascerá um santo guerreiro pela causa que a seu tempo, segundo dizem os monges copistas, será reverenciado por todos quando a sua glória (ou será a dos seus senhores) for incontestada. Por muito pouco credível que a tentativa de santificação seja no imediato o tempo, a persistência e o ouro tudo compram, incluindo a memória colectiva.

"When asked in a radio interview if she thought the barriers of the British class system had broken down, Barbara Cartland answered, "Of course they have, or I wouldn't be sitting here talking to someone like you"

“When asked in a radio interview if she thought the barriers of the British class system had broken down, Barbara Cartland answered, “Of course they have, or I wouldn’t be sitting here talking to someone like you”

Bem mas isto deixa por responder talvez a pergunta mais relevante de todas para nós, mortais para quem os portões dos céus estão permanentemente fechados: o que devemos sentir em relação a estes “campões” do regime que vão caindo? Pela primeira vez em memória viva talvez a resposta correcta seja o instinto normal português: a mais completa indiferença. Sem o falso moralismo e sentimentalismo de gerações mais antigas. A pura, fria e prática indiferença das gerações que foram deixadas à sua sorte. Que desconhecem totalmente os exaltados círculos em que estes “neofidalgos” se movimentam. O que interessa ao soldado raso se o Quartel-General envia mais oficiais de “elite”? A guerra continua a estar perdida. Os que chamamos de irmãos continuam mortos e frios no chão ou a agonizar. A lama não muda, o sangue não deixa de correr, as latrinas não fedem menos. Sem interesse pelos homens não há difusão das ideias. Sem o peso das ideias as instituições estarão sempre periclitantes. É claro que o ouro compra tempo, compra credibilidade, compra intelectualidade, enfim é quase todo poderoso. Mas o esforço despendido a construir algo dessa forma é exponencialmente maior que qualquer forma que tenha um mínimo de ressonância emocional com a população

Dos Limites da Indignação

Depois das grandes manifestações do fim-de-semana passado os ânimos já acalmaram o suficiente para se poder olhar para as situações de forma mais fria e racional. Foi acima de tudo um êxito em duas frentes. Do lado da organização demonstrou grande capacidade de mobilização de pessoas que habitualmente seriam tudo menos socialmente activas. Do lado individual provou a muitas pessoas que o mundo não desaba por manifestarem vocalmente a sua opinião. Dito isto, torna-se também necessário admitir as limitações do que ocorreu. Não se trata de algo que necessariamente force qualquer tipo de mudança imediata. Sim o governo está frágil, mas o executivo já contava não cumprir o mandato completo (nunca contou…) e como tal isto apenas veio confirmar que o momento de se afastarem se está a aproximar. Será com isso em mente que deverão ser interpretadas as recentes movimentações face ao tema do salário mínimo. É normal, no sentido de fazer parte da tradição política portuguesa, que a partir do momento que um governo sabe que está condenado comece a tomar medidas aparentemente mais agressivas em algumas áreas. Poderia à primeira vista parecer contra-intuitivo tomar posições que exacerbem uma opinião pública já de si hostil mas isso corresponde apenas a uma análise superficial, senão vejamos. A partir do momento que uma queda se torna inevitável (mesmo que não imediata) os ministros perdem qualquer incentivo a agir de forma política pois sabem que a sua posição nessa arena é demasiado negativa para atingir seja o que for. Assim sendo viram-se para os seus objectivos pessoais (normalmente associados a empresas privadas que gostariam de ver algumas legislações menos simpáticas aprovadas) e ideológicos (já que estão condenados aprovam tudo o que de outra forma nunca se atreveriam sequer a propor). A questão da fragilidade laboral atinge ambas as esferas de todos os actuais ministros. Por um lado alguns têm interesses em empresas privadas (nas quais já trabalharam, aspiram vir a trabalhar ou esperam receber contratos) e outros têm compromissos ideológicos de longa-data com um determinado modelo socioeconómico que inclui na sua matriz uma total ausência de protecção laboral.

"Unemployment insurance is a pre-paid vacation for freeloaders." - Ronald Reagan (Ídolo mor conservador)

“Unemployment insurance is a pre-paid vacation for freeloaders.” – Ronald Reagan (Ídolo mor conservador)

Regressando às manifestações recentes. Será excessivo esperar soluções em acções que não possuem força legal ou ética suficiente para forçarem a realidade política. Legalmente convém dizer que a única possibilidade de impugnação dos actuais governantes seria por desrespeito ao espírito da constituição do regime, algo que o Tribunal Constitucional nunca os irá acusar e o Presidente da República não iria apoiar de qualquer forma – ele próprio tentou, com sucesso limitado, alterar a constituição no mesmo sentido. Eticamente a posição dos manifestantes também não é inteiramente “pura” já que de facto grande parte deles votou na coligação governativa e o prazo do mandato não se altera a meio só porque as pessoas percebem que afinal votaram contra os seus próprios interesses, que de facto deveriam ter lido o programa eleitoral e que realmente teria sido interessante olhar para o comportamento a longo-prazo dos candidatos (especialmente os seus compromissos empresariais e ideológicos de longo prazo). Tiveram hipótese de calmamente analisar as coisas e optaram por não o fazer. A surpresa só pode provir de uma ignorância auto-induzida combinada com um certo grau de indolência intelectual. Não que isto retire urgência e necessidade aos pedidos das pessoas (está muitas vezes em causa a sua sobrevivência e isso tem que ser prioritário) mas retira peso moral às suas exigências já que a sua situação deriva, em muitos casos, directamente das suas próprias escolhas. Entramos no campo de minas que é a distinção entre eleitor e cidadão que ninguém quer realmente encarar.

The Big Magic Button

Talvez o mais confrangedor desta situação seja ver as pessoas, os eleitores não-cidadãos, virarem-se, apesar de tudo, para as mesmas pessoas e instituições de sempre. Como se esperassem que essas entidades contrariassem o seu interesse próprio, quando nunca o fizeram ao longo da sua existência. “Organizações de cidadãos” dirigidas por fantoches partidários, “comentadores populares” amigos e frequentadores das mais altas esferas do poder económico desta nação (se ainda o somos), militares que são “garantia da constituição” mas que só ameaçam algo quando os seus interesses corporativos estão em causa, partidos de “alternativa”, com fome de poder, que, além de terem os mesmos vícios dos outros, não possuem qualquer projecto, entre tantos outros. A lista poderia continuar durante bastante tempo. É o regime a tentar regenerar-se, a lutar para poder manter as suas estruturas tal e qual, a bater-se pela manutenção do poder nas mãos das famílias do costume. Sejam grandes empresas, partidos, lugares do estado, organizações não-governamentais ou qualquer outra categoria, os que detêm as suas rédeas, e mesmo lugares técnicos, são um grupo privilegiado, relativamente vasto, que não irá mudar ou ceder uma vírgula por vontade própria. Por muitas manifestações que os excluídos organizem. Falta-lhes qualquer poder para alterar realidades concretas. Os excluídos terão ainda que passar por muitas desilusões até perceberem o que entra pelos olhos de qualquer observador neutro: estão totalmente sozinhos e abandonados. Sempre o estiveram.

O voto infantil

O tema posto em cima da mesa nos últimos dias parece ser o do voto aos 16 anos o que, admito, desperta reacções quase viscerais em mim. De repulsa. Não estou certo que aos 21 a maioria esteja pronta para votar, quando mais cinco anos antes disso! Além de que arrasta a esfera democrática (e a percepção popular) ainda mais para a dimensão do “ter democracia é ter voto”. Sem ter em conta nenhum outro factor, como independência face ao grupo, direitos humanos e cívicos, protecção na vida quotidiana, segurança básica (quer física quer “existencial” – por exemplo, ter a certeza que a família ainda lá vai estar amanhã porque não morreu de fome ou foi forçada a emigrar), entre muitos, muitos outros temas que deveriam ser discutidos e que são a base de qualquer sistema de governo Justo. O voto por si só concede uma falsa liberdade. Falsa porque, além de nada garantir sobre os temas acima mencionados, nada diz sobre a credibilidade do próprio processo antes ou depois do acto de votar. O que adianta votar num sistema dominado por aparelhos partidários? O que adianta votar num sistema que tem uma dinâmica de funcionamento viciada? Debater este tema é uma fuga para frente. Não se reforma o sistema e torna-se as suas bases ainda mais frágeis.

"All change is not growth, as all movement is not forward."

“All change is not growth, as all movement is not forward.”

Esta erosão do nosso sistema de governo e de equilíbrio de poderes (não entre ramos do governo mas entre facções da sociedade) faz parte de um conjunto de medidas que eu denomino a “virtualização da vida”. Tudo o que nos foi ensinado a esperar está teoricamente garantido mas é pragmaticamente impraticável ou inoperante. A saúde é “tendencialmente” (termo odioso e perverso que serve para falsificar o que se lhe segue) gratuita mas a realidade é que o nosso direito à vida em si está a ser condicionado à margem de lucro de entidades amorais. Atente-se a gravidade do que se está a afirmar: há pessoas a morrer pela conta bancária de outros. O mesmo se passa com o ensino, o resultado previsível será a estabilização de graduados num nível bastante mais baixo que o actual tendo acesso às posições chave quem pode pagar uma boa educação, ou seja as famílias do costume. Não é uma reforma do ensino ou sequer uma mera privatização, é a hierarquização de toda uma sociedade desde a idade de inicio da socialização humana. A justiça é outro exemplo gritante onde teoricamente temos um recurso a um meio não violento de resolução de disputas mas na prática não possuímos mais que um sistema burocrático que acaba em becos sem saída para quem não é do nível social ou económico correcto – uma justiça que de cega nada tem. O ignorar de todos estes problemas e dar prioridade ao tema do voto infantil é mais que insultuoso. É maldoso. É tentar definir a democracia, a liberdade e o comportamento cívico segundo novos parâmetros. Que de tão limitados que são acabam por ser apenas uma formalidade a cumprir para as elites que já têm vantagens naturais.

"There is a lack of critical assessment of the past. But you have to understand that the current ruling elite is actually the old ruling elite. So they are incapable of a self-critical approach to the past."

“There is a lack of critical assessment of the past. But you have to understand that the current ruling elite is actually the old ruling elite. So they are incapable of a self-critical approach to the past.”

Indo ao fundo da minha alma para tentar encontrar algo de bem-intencionado neste tema consigo apontar apenas um, possível, aspecto positivo. O facto de alguém aos 16 anos ser indiferente (na maior parte dos casos) aos interesses estabelecidos. Ainda não tem um emprego onde é pressionado e formatado, não foi para a faculdade onde foi categorizado na sua caixinha, tem uma certa mania que é independente o que pode levar a votos menos racionais mas ocasionalmente mais justos. Mesmo assim temos que admitir que isso não compensa o contribuir para a continuação da desvirtuação da democracia ou a completa imaturidade do eleitor em questão. Sendo verdade que há pessoas que nem aos 40 a têm, o objectivo deve ser incutir o máximo de responsabilidade ao eleitor. Mais depressa se iria obter isso com limitações ao voto (não censatárias ou arbitrariamente discriminatórias) do que com a sua extensão. O corpo de cidadãos tem que ser melhorado em qualidade e não quantidade. A insistência na segunda opção, da quantidade, foi o que nos deixou neste estado e é o que coloca em risco tudo o que foi conquistado desde a queda do ditador.

A classe média e a quinta coluna

O modelo de sociedade que ainda hoje nos guia é essencialmente uma relíquia do estado pós primeira grande guerra, o voto universal, os serviços também universais, a paz com objectivo… tudo pagamentos feitos ao homem comum por uma aristocracia (terratenente, industrial e cada vez mais financeira) que sentiu o seu poder a falhar pela primeira vez em quase cinco séculos. O sangue que correu em Ypres, no Somme e em Verdum foi demasiado para apagar da memória. Os mortos para além de qualquer justificação. A sanidade mantida apenas a custo de um pulso pessoal forte perante a loucura do mundo. Regressou uma geração quebrada, cheia de fúria justificada contra o embuste de que foram vítimas durante quase cinco anos. Foi o apaziguamento das massas. Pelo menos das que saíram da guerra do lado vencedor. Agora não temos guerra, tirando em sítios distantes que a maioria não saberia apontar num mapa, cujos líderes se desconhecem e com costumes para os quais as pessoas se estão nas tintas. Não temos também um grande inimigo em quem concentrar os nossos terrores e manter as nossas elites na linha. A espada de Dâmocles que foi a União Soviética foi quebrada. Ao fim de um século os princípios geradores da nossa ordem social estão a dar de si. As razões para a nossa organização económica e política a desaparecer e as nossas elites já se encontram em movimento para se reorganizarem de acordo com as novas regras que elas próprias podem voltar a ditar sem interferência. Ao fim de um século o cidadão perdeu de novo a guerra.

As guerras da "landed gentry".

As guerras da “landed gentry”.

 O processo começou no dia que o muro de Berlim caiu. A última ameaça credível às elites ocidentais estava morta. As potências comunistas depressa seriam desmembradas e absorvidas no sistema-mundo de forma particularmente vingativa e punitiva (como não se fez com a RFA em 1949 diga-se). A partir deste momento o regresso de alguns elementos à vida Europeia, talvez mundial, seria inevitável. O desemprego estrutural (um nome pseudo técnico que visa tapar a realidade: desemprego permanente) estava destinado a regressar. Ao fim de duas décadas cá está ele. Em larga escala como não era visto desde a ascensão do fascismo, e com mais ou menos os mesmos efeitos. Ao criar uma situação irresolúvel para milhões de pessoas está-se a desintegrá-las da sociedade que fazem parte. A partir desse momento saem de um circuito e entram noutro, que apesar da vulnerabilidade acrescida e miséria tem também menos limites e fornece menos razões para alguém se conformar com imposições exteriores. Ao contrário dos Bourbon, que apesar de nada esquecerem nada aprenderam, as elites europeias aprenderam e sabem, pelo menos em parte, as consequências das suas acções. Não é por acaso que surgem propostas de militarização crescente das forças policiais. Não se trata apenas de recompensar o único corpo paramilitar (com a excepção da polícia política) que permaneceu fiel ao antigo regime de 73. É o reconhecimento que a partir deste momento haverá duas tarefas. Lidar com os cidadãos (que mantêm empregos e são “respeitáveis”) e o que em breve receberá o nome de “escumalha” (desempregados permanentes completamente desintegrados que vivem numa realidade quase paralela). A primeira tarefa requer algum tato e a segunda apenas repressão.

Sem equilíbrio de poderes…

Sem equilíbrio de poderes…

Apesar de terem existido recentemente algumas manifestações de grande dimensão temos causa para perguntar porque é que estamos perante um processo que parece em grande medida silencioso. A resposta é um segredo social sujo. Os portugueses empregues e que se encontram a salvo do pior estão prontos a aceitar esta versão dos acontecimentos e a nova realidade que os acompanha. Daí preferirem ignorar tudo o que se passa à sua volta e prosseguirem o seu estilo consumista e alienador. Não querem lidar com política (coisa que aliás pensavam que estava morta). Não querem lidar com o lado negro da sua realidade, isso só acontece aos novos sub-humanos que, começam a acreditar, são realmente inteiramente responsáveis pela sua sorte. Os “debates” públicos (não merecem esse nome porque as conclusões já foram retiradas antes de uma só palavra ter sido proferida) centram-se em encontrar responsáveis individuais pelos “azares” do país num padrão amplamente reconhecido como a busca por bodes expiatórios para obter paz social – afinal os culpados terão sido punidos. Mas ignorada, porque é demasiado volumosa e útil ao novo sistema que começa a emergir, está a verdadeira quinta coluna. A classe média que resta que pensa que irá sobreviver a tudo e está disposta a vender os seus vizinhos pela promessa de “protecção” e mais alienação.

Ainda não é o fim do ciclo

A vida política portuguesa tem ciclos bastante bem definidos. Para quem conheça um pouco o funcionamento da “coisa” não será surpreendente ler que nenhum partido ganha eleições. São os governos e os ministros que caem de podre. É do traço psicológico nacional ficar agarrado à cadeira até se cair dela (provavelmente numa imitação metafórica inconsciente do ditador que nos governou quatro décadas) – a excepção sendo os que vão com missão económica definida, ou seja, já entram para um governo com missão incumbida por um grupo económico “patrocinador”; nesses casos tendem a sair assim conseguiram cumprir aquilo para que foram “contratados”.

Cuidado com o "reformismo"....

Cuidado com o “reformismo”….

Apesar dos ameaços que temos visto nos últimos dias o ciclo presente ainda não chegou ao fim. Por muito que custe admitir a quase todos nós estes senhores, com a sua falsa tecnocracia, ainda têm alguma margem de manobra junto de uma população algo inculta e deslumbrada com a “técnica” (ou a aparência dela) e com os altos cargos de outros órgãos do país – esqueceram-se todos que preservámos uma grande parte do antigo regime e que essas pessoas têm preferências claras que não coincidem com as do cidadão vulgar. Já para não falar da carta da “estabilidade” que podem sempre acenar para manter a parte mais tíbia do eleitorado temerosa… “não podemos sair senão seria o caos, não podemos mudar de plano senão os mercados devorar-nos-iam”. Parece patético mas funcionou na Grécia – não que tenha qualquer preferência especial pela Syriza mas a verdade é que fariam melhor serviço que quem lá está agora (pelo menos tenho a certeza que não abafariam os crimes económicos de uma elite).

Repetir sistematicamente a mesma acção e esperar resultados diferentes é a definição de loucura.

Repetir sistematicamente a mesma acção e esperar resultados diferentes é a definição de loucura.

Ainda há acrescentar que há coisas planeadas vitais, para a ideologia de quem os controla, que ainda estão na calha. A redução, ainda maior, do rendimento disponível médio. A redução da protecção laboral. E acima de tudo as sagradas privatizações que restaurarão milagrosamente a boa saúde económica do país. Se estivesse particularmente mal disposto diria ainda que o principal partido da oposição joga apenas um bluff. Que a última coisa que quer é assumir o poder nestas condições. Caso tal venha a suceder, num futuro a médio prazo, não se percebe o entusiasmo de alguns sectores populares já que os compromissos assumidos foram os mesmos que o actual governo. A forma de governar anterior foi a mesma (menos extremada é verdade mas de efeitos de longo prazo iguais). Portanto para todos os que já gritam “mudança”, lembrem-se da diferença entre forma e essência e preparem-se para um 2013 economicamente ruinoso, socialmente restaurador de 1973 e moralmente falido. Boas entradas.

Realidades Democráticas I

O grave problema das nossas democracias modernas é mesmo o facto de não funcionarem. Não me entendam mal. Não é que tenham problemas. Não é que haja dificuldade em reformar seja o que for – a “reforma” palavra também se tornou sinónimo de mudar as aparências para tudo permaneça na mesma. Podemos ou não querer lidar com isto conforme o nosso grau de conforto material, ego ou crença no sistema mas factualmente a democracia está defunta. Não é facto sujeito a debate ou opinião. É um atestado médico.

Sujeito: Democracia. Causa de morte: falta de interesse do cidadão.

Sujeito: Democracia. Causa de morte: falta de interesse do cidadão.

Prova I (outras virão, não corro o risco de ficar sem exemplos): a investigação sobre os cidadãos gregos com contas na Suíça fica em águas de bacalhau. Uma investigação sobre o que pode ser a maior fuga fiscal da memória do país não é investigada porque os representantes eleitos se recusam a tal. Parabéns a quem os elegeu, terão neles com toda a certeza incansáveis defensores do bem comum.

Moral da Prova I: A) Há mesmo quem esteja acima da lei. Tal como existe uma Europa a duas velocidades a maioria das democracias modernas introduziram uma cidadania a duas velocidades. Uns são regidos pelos estatutos “universais” e leis e outros, pela posição social e destaque económico, compraram uma isenção das suas obrigações – um pouco como o exército no tempo da monarquia. Estamos de novo em tempos em que os pobres combatem nas “guerras” da nova aristocracia mercantil e bancária. B) As pessoas não estão prontas a aceitar esta realidade. Sim queixam-se mas não integraram mental e emocionalmente este novo estado de coisas.