Um grupo de comunicação social falido em Portugal

“Viewed from a distance, everything is beautiful.”

Tacitus agrícola

Imagine-se que um grupo de comunicação social, proprietário de uma estação de televisão, de um jornal, de várias revistas de segmentos específicos e com uma enorme influencia e quota de mercado está falido.

Imagine-se que este grupo de comunicação social, em tempos idos que já lá vão, para criar escala e tamanho decidiu pedir credito bancário para adquirir novos títulos para o seu portfólio, endividando-se pesadamente.

Imagine-se que o credito bancário foi concedido em maior extensão, durabilidade e ligeireza pelo facto de o dono da empresa ser um indistinto empresário com ligações a um partido político.

Imagine-se que foi inexistente uma clara avaliação económica, foi inexistente uma analise custo beneficio, foi inexistente uma avaliação de tendências económicas para o futuro no que diz respeito à manutenção e viabilidade económica positiva do ambiente de negócios que justificasse este amplo pedido de credito.

Imagine-se que apenas se emprestou pelo facto de quem pediu ser quem era…

Imgine-se que era um empresário  “too big to fail…”

Imagine-se que varias luas e o grupo de comunicação social está falido. Tecnicamente e de facto.

Imagine-se que parece o papagaio morto do skecth dos Monty Python, mas o vendedor diz para o comprador que o papagaio está vivo. Com convicção.

Imagine-se que tem uma divida bancária de 200 milhões de euros, mais troco menos troco.

Imagine-se que essa divida bancária sobe de ano para ano.

Imagine-se que este grupo económico de comunicação social está cotado na bolsa de valores  portuguesa e o valor da sua acção desce mês após mês continuamente e com a convicção de obrigatoriedade.

Imagine-se que um dos credores bancários deste grupo é também accionista com uma pequena posição…e detém metade dos créditos a haver..

Imagine-se que o stock de suicidas económicos está esgotado e nenhum outro grupo económico, ou investidor, ou concorrente, ou otário quer ou está disposto a enfiar-se neste buraco financeiro sem fundo.

Imagine-se que um dos credores financeiros deste grupo insistiu com o patrão do mesmo para que ele vendesse parte do portfólio de revistas e jornais do grupo , para abater à divida e baixar prejuízos…

Imagine-se que imensos títulos dos grupo de comunicação social foram vendidos por fracções insignificantes do que tinham custado.

Imagine-se que a má gestão do dono deste grupo –  gestão essa que passou a ser orientada por critérios de favorecimento de forças políticas que agradavam ao dono em vez de critérios económicos visando o aumento de quotas de mercado  – foi o  motivo único e principal para este descalabro.

Imagine-se que o dono deste grupo de comunicação social, dentro da tradição bem portuguesa de pedir favores ao Estado quando se tem problemas por culpa própria (ou não), decidiu “meter uma cunha” ao actual governo em funções.

Imagine-se que “a cunha” tinha como objectivo solicitar a interferência do governo no sentido de este solicitar ao banco público estatal um pequeno favor na forma de um empréstimo.

Imagine-se que o actual governo em funções decidiu recusar.

Imagine-se que os “jornalistas” e o dono do grupo de comunicação social espumaram raiva, ira e fúria e decidiram promover uma campanha mediática negativa contra o governo em funções.

Imagine-se que uma das acções de combate consistiu na obtenção das gravações do interrogatório judicial do antigo primeiro ministro pertencente ao partido politico do governo em funções onde este está a ser acusado criminalmente de inúmeros crimes verdadeiros, falsos e eventuais como forma de lançar lama e fazer pressão.

Imagine-se que estes “profissionais” – jornalistas sabem que é apenas uma questão de tempo até serem despedidos e como tal lutam por manter os privilégios inerentes a uma sinecura privada corporativa, mesmo que cometam crimes para o fazer…

Imagine-se que os pedidos/ordens/cunhas /sugestões ao banco estatal público via governo foram recusados e o líder da bancada de deputados do partido político ao quais o indistinto  empresário tem ligações foram para o parlamento exigir  que a lista de credores do banco publico estatal fossem divulgadas num notável lançamento de lama.

Imagine-se que a lista foi divulgada, mas os créditos do banco estatal publico eram menores que os do banco privado que é credor de metade da divida deste grupo de televisão e de um outro banco espanhol que despoletou este caso ao exigir ” ressarcimento da divida or else…

Imagine-se que isto é Portugal com o capitalismo de amigos para amigos e pelos amigos com corrupção ética à mistura com partidos políticos…e lançamentos de lama feitos por deputados e amigos da cor e onde os cortesãos jornalistas desempenham o seu papel.

Plunderers of the world, when nothing remains on the lands to which they have laid waste by wanton thievery, they search out across the seas. The wealth of another region excites their greed; and if it is weak, their lust for power as well.   Nothing from the rising to the setting of the sun is enough for them. Among all others only they are compelled to attack the poor as well as the rich. Robbery, rape, and slaughter they falsely call empire; and where they make a desert, they call it peace.”

Tacitus, agrícola

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Referendos, mártires e monstros

A Europa acordou algo chocada – dentro do que é possível para uma opinião pública massificada, estupidificada e brutalizada – com o assassinato de uma política britânica, nada mais que um membro do Parlamento Inglês. O retrato que nos está a ser apresentado não podia ser mais dado a simplificações. A vítima era uma defensora dos direitos humanos, pró-emigração, politicamente reformista e fazia campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia. O seu assassino é membro de organizações racistas e violentas, condenáveis sobre todos os pontos de vista. Num referendo que se parecia inclinar cada vez para o isolacionismo britânico as coisas podem estar prestes a mudar.

UK e UEMas recuemos um pouco. Este referendo tem uma longa história que convém ser explicada. O Reino Unido sempre se viu com uma nação (e anteriormente Império) extra-europeu. Era uma potência que durante todo o seu apogeu só teve uma única política para o continente: impedir a formação de uma grande potência continental – lutou contra a Espanha e a França para tentar impedir a união dinástica das duas coroas e reforçar o seu poder comercial na guerra de sucessão espanhola (1702-1714), lutou com a França, Holanda e Áustria contra a Espanha na guerra da quadrupla aliança (1718-1720) para impedir o crescimento territorial espanhol em Itália , combateu com a Prússia e Portugal contra a Espanha e a França na guerra dos sete anos (1756-1763) para obter ganhos coloniais e enfraquecimento dos impérios coloniais rivais, criou uma coligação poderes reaccionários (Áustria, Portugal, Prússia, Espanha…) para combater a França, (quer enquanto República quer enquanto Império) nas guerras revolucionárias e napoleónicas (1793-1815), incentivou e armou os nacionalistas gregos para separar a província de um Império Otomano decadente (1820-1830), interferiu na política interna dos reinos de Portugal (1828-1834) e Espanha (primeira guerra carlista de 1833-1840) ao apoiar as facções liberais de forma a “clonar” o seu próprio regime parlamentar e forçar relações de dívida perene das duas coroas perante a banca inglesa. A lista é interminável. Não há qualquer indicio de uma ideologia que guie tal variedade de opiniões e acções e isto é explicado por um pragmatismo brutal desprovido de crenças dedicado a assegurar apenas uma coisa:  uma Europa fragmentada.

Mesmo em tempos mais recentes (e mais pacíficos) temos que compreender que a sua entrada na Comunidade Europeia foi apenas para assegurar o seu lugar à mesa e tentar com que a evolução do colosso embrionário europeu fosse orientada para uma lógica de mercado livre e desregulamentado – o que revelou ser um enorme sucesso dado o que se passou nas 3 décadas seguintes. Nunca em momento algum houve um grande interesse por uma cultura comum com o resto da europa ocidental. O Reino Unido sempre se viu, e ainda vê, como uma excepção política e cultural. A sua pertença à comunidade foi usada como forma de salvar o poder financeiro da nação tendo transformado a city de Londres no segundo maior polo financeiro do mundo (depois de Nova York). Foi uma escolha deliberada dos governos conservadores do Reino Unido dar prioridade ao sector financeiro em detrimento da economia real. Os governos trabalhistas que se seguiram reforçaram essa escolha e abriram caminho para o desastre económico que aflige a nação, com níveis de pobreza jamais vistos. Mesmo assim o novo governo conservador manteve exactamente as mesmas escolhas, infligindo ao seu povo a mesma receita que as elites portuguesas adoptaram por cá: tornar o estado uma máquina de propagação da teoria de sobrevivência dos mais fortes e abandono total de qualquer responsabilidade social, económica ou política – a famosa austeridade que se dizia ser uma força de destruição criativa mas só deixou cinzas no seu rasto.

“The forces which are working out the great scheme of perfect happiness, taking no account of incidental suffering, exterminate such sections of mankind as stand in their way, with the same sternness that they exterminate beasts of prey and herds of useless ruminants.” - Herbert Spencer

“The forces which are working out the great scheme of perfect happiness, taking no account of incidental suffering, exterminate such sections of mankind as stand in their way, with the same sternness that they exterminate beasts of prey and herds of useless ruminants.” – Herbert Spencer

É neste contexto que surge um referendo sobre a União Europeia. Um país que já não é um Império e não sabe como lidar com uma nova realidade. Um povo que se sente completamente à margem de Bruxelas e das decisões que lá são tomadas. Uma economia refém de interesses financeiros internacionais de natureza especulativa. Um interior que se ressente profundamente de Londres que vê como um sorvedouro de dinheiro, cultura e poder. Neste ambiente a propaganda agita as multidões. Ecos imperais ainda se fazem ouvir em muitos que não querem aceitar o novo status quo. As tensões de classe, que pareciam ser coisa do passado, voltam a sentir-se e os ingleses percebem que as divisões socio-económicas só se podem agravar continuando tudo como está – daí o magnânimo desprezo que têm dado às expressões de desejo de continuidade na UE manifestadas por representantes da elite (personagens mediáticas, grandes executivos de firmas financeiras multinacionais, a maioria dos políticos mainstream, a crème de la crème do mundo académico exemplificada por Oxford e Cambridge…). Não é um fenómeno limitado a marginais, psicopatas e foras da lei. É uma reacção espontânea, fruto de um mal-estar profundo numa sociedade ocidental esgotada. É algo que pode acontecer noutro lado qualquer na Europa. E isso cria medo nas elites. Medo de perderem o controlo dos mecanismos que asseguram o seu poder. Medo que sejam reintroduzidas medidas de fiscalização popular de todo o edifício legal e económico que os mantém no topo da pirâmide. Medo que contas sejam ajustadas.

"As it turns out, we don't "all" have to pay our debts. Only some of us do." - David Graeber  ps: parabéns a quem souber "ler" a foto.

“As it turns out, we don’t “all” have to pay our debts. Only some of us do.” – David Graeber
ps: parabéns a quem souber “ler” a foto.

Mas agora tudo isso vai provavelmente ser varrido para debaixo do tapete. Este homicídio marca senão o fim do debate no Reino Unido (pode ser já demasiado tarde para inverter a tendência de secessão) pelo menos o fim do debate no resto da Europa. As posições a favor da continuação na União terão agora a bênção dos céus pelo sangue derramado pela mártir, qualquer questionamento das suas intenções e interesses será ignorado ou sofrerá acusações concordar com o autor do crime – uma espécie de crime por associação intelectual. A parte racional do eleitor vai ser desligada. Não porque ele escolha fazê-lo mas porque é essa a natureza da propaganda. Pega-se numa situação insustentável cheia de zonas cinzentas de incerteza e substitui-se por uma escolha moral a preto e branco. És dos bons ou dos maus? A escolha passa a ser simples e todos podemos voltar à nossa rotina de decadência lenta mas inexorável.

Os oligarcas portugueses detestam Portugal e apenas querem fazer uma colheita

No século 5 antes de Cristo, um homem chamado Tucídides, considerado um traidor pela sua classe social, escreveu um livro chamado a “História da Guerra do Peloponeso”.

O livro conta a historia da guerra entre Atenas, uma democracia para os padrões daquele tempo, mas uma democracia cencitária e elitista em numero de população em vários aspectos, e Esparta, uma ditadura aristocrática militarista, baseada exclusivamente nos códigos de guerra utilizados pelos guerreiros. (O sonho húmido de qualquer oligarca que se preze, porque é o modelo ansiado que permite o controlo com punho de ferro da terra, dos seus recursos e da população).

Atenas, mesmo como democracia cencitária era alvo de constantes tentativas de subversão dos oligarcas atenienses, o que desde logo demonstra que o oligarca nunca foge à sua natureza. Tal como o escorpião da fábula da rã que decide pedir a esta que o transporte no dorso para atravessar o rio prometendo não a matar porque  ambos morreriam afogados, mas acaba por o fazer dizendo, “é a minha natureza”, também o oligarca nunca foge à sua natureza e subverte sempre o regime que o tolera e fecha os olhos à sua presença.

Em Atenas, segundo conta Tucídides existiam oligarcas e estes odiavam Atenas. Não a consideravam como sendo a sua terra, nem concordavam com a democracia fortemente cencitária da cidade estado. Parecia-lhes demasiado pouco e demasiado mau.

No livro, existe uma personagem criada por Tucídides, presumivelmente ficcionada pelo próprio para explicar qual a mentalidade subjacente ao oligarca médio  e este personagem é um achado. O “velho oligarca” de Tucídides regurgita ódio a tudo o que lhe imponha limites ao poder que deseja ilegitimamente exercer.

Lamentavelmente, para os interesses da oligarquia, esta está enganada e vai perder e perder muito e com graves danos.

Lamentavelmente, para os interesses da oligarquia, esta está enganada e vai perder e perder muito e com graves danos.

Odeia a marinha ateniense pelo facto de ser a marinha e ser ateniense, mas também por ser uma operação tecnológica de nível elevado, para os padrões da época. Essa “tecnologia” elevada permite a existência de uma mobilidade social e profissional entre os plebeus e os proletários das classes baixas. O alistamento na marinha faz obter competências técnicas (skills). A convivência de tantos atenienses cria sentimentos de união e espírito de corpo (actualmente chama-se a isto team building, expressão que permite a empresas privadas pressionarem os seus empregados a trabalharem contra os seus próprios interesses… e a serem despedidos após o terem feito. A colheita em favor dos oligarcas já foi colhida). Essa mobilidade social, esse espírito de corpo, essas competências técnicas ameaçam os privilégios ilegítimos da classe de oligarcas atenienses e ameaçam as fundações do seu poder.

Um oligarca ou uma classe de oligarcas sente-se incompleto e insatisfeito se não odiar mais do que só uma única coisa. O “velho oligarca” de Tucídides recusa fugir a esta regra e odeia de forma visceral as longas muralhas que foram construidas entre Atenas e o (porto) Pireu. Há 2400 atrás, estas muralhas permitiam proteger Atenas de possíveis ataques terrestres de Esparta, obtendo depois através da marinha uma vantagem estratégica significativa sobre Esparta e funcionavam como dissuasão.

O “velho oligarca” odeia tecnologia porque esta permite manter segurança e mobilidade social e deseja ardentemente que exércitos estrangeiros ataquem o seu país (a que, de resto, ele não sente como seu, mas sim como algo ao qual se pode fazer uma colheita de recursos e deitar fora quando já não interessar). Se exércitos estrangeiros atacarem o seu pais, ao velho oligarca e aos amigos oligarcas ser-lhe-a permitido manterem os seus privilégios ilegítimos e os privilégios ilegítimos da sua classe.

Marcel proust - oligarcas

No século 21 depois de Cristo, inúmeros lacaios e cortesãos ao serviço da sub espécie dos oligarcas portugueses desempenham o seu papel sórdido. Os lacaios e os oligarcas odeiam a mobilidade social, embora falem dela abundantemente, mas quando o fazem apenas se referem a mobilidade social para os seus próprios membros e amigos, e querem destruir todos os mecanismos democráticos que defendem essa mobilidade social, para todos os outros.

O conceito de escola pública é o primeiro alvo. Os plebeus e os proletários devem, segundo estas teorias desenhadas com base no mais puro mal, ser bloqueados no seu acesso social à mobilidade. Quer-se atingir a destruição de capacidades e talento das pessoas comuns. (Esta é a marinha ateniense actual…)

Isto é um conceito de guerra aberta feita à população.

O conceito de saúde publica é  segundo alvo. Os plebeus e os proletários devem, segundo estas teorias cheias de pura maldade, ser bloqueados no seu acesso à saúde. Que importa se estão doentes, se o numero de empregos disponíveis é pequeno e a mão de obra disponível excede largamente o disponível… Alguém sai por problemas de saúde, substitui-se por outro qualquer. Acaso os plebeus e proletários recusem isto como definição civilizacional, os oligarcas passarão a forçar a exigência de pagamento integral das despesas de saúde, receitas elevadas estas que vão ser directamente canalizadas para os oligarcas que dominam as estruturas que fornecem estes serviços. Subvertem para destruir e depois constroem a oportunidade sobre as ruínas humanas parasitando-as economicamente.( Esta é a tecnologia ateniense actual)

Isto é um conceito de guerra aberta feita à população.

O conceito de segurança social é o terceiro alvo. Tornar completamente insegura a velhice dos plebeus e dos proletários é o objectivo, impondo assim uma cultura de medo em relação ao futuro e ao presente. Criar pessoas que vivem os seus dias cheios de medo com o que lhes possa acontecer quando chegarem a velhos é mais uma ideia cheia de pura maldade que se pretende aplicar sobre a população deste país.(Estas são as muralhas de Atenas actuais)

Isto é um conceito de guerra aberta feita à população.

Ninguém tem a obrigação de obedecer aquele que não tem o direito de mandar. Cícero

Ninguém tem a obrigação de obedecer aquele que não tem o direito de mandar.
Cícero

Recentemente, grupos de oligarcas disfarçados e camuflados na tribo da direita política, ajudados por grupos de oligarcas disfarçados e camuflados na tribo da esquerda política decidiram promover um ataque à população portuguesa. Recorda-se o que antes foi escrito:

O “velho oligarca” odeia tecnologia porque esta permite manter segurança e mobilidade social e deseja ardentemente que exércitos estrangeiros ataquem o seu país (a que, de resto, ele não sente como seu, mas sim como algo ao qual se pode fazer uma colheita de recursos e deitar fora quando já não interessar). Se exércitos estrangeiros atacarem o seu pais, ao velho oligarca e aos amigos oligarcas ser-lhe-a permitido manterem os seus privilégios ilegítimos e os privilégios ilegítimos da sua classe.

O exército estrangeiro que atacou ( a moderna Esparta) é um cerberus de 3 cabeças, o cão que guardava as portas do Inferno segundo a mitologia grega.

O cão do Inferno e os seus ajudantes oligarcas e cortesãos continuam por aí.

Como nação e como membros de uma comunidade politicamente organizada queremos mesmo ter que suportar tão indesejável proximidade com estas entidades?

A Irmandade de Némesis diz não.

O novo normal

O mundo muda rapidamente e nas últimas décadas o processo parece estar em aceleração. Não porque o prometido mundo híper tecnológico nos tenha aberto novas portas mas precisamente porque falhou em cumprir as suas promessas de um futuro melhor. Qualquer pessoa que fosse um adulto nos anos 70 quase não consegue reconhecer a dimensão das mudanças ou dos problemas que parece que se multiplicam diariamente. Tais pessoas têm a tendência de ficar presas a modos de percepção e pensamento que já não coincidem com o mundo em que vivem, habitam em grande parte no passado apesar dos seus corpos estarem no presente.

“Construímos estátuas de neve e choramos ao ver que derretem” – Walter Scott

“Construímos estátuas de neve e choramos ao ver que derretem” – Walter Scott

Os fenómenos eleitorais no mundo ocidental (e falo deste canto do globo porque a) é onde vivemos e b) grande parte do resto mundo nunca chegou a ter democracias reais) têm-se degredado com o passar dos anos. Isto é mais visível nas taxas de abstenção crescentes em todos os países – ou seja, não se trata de algo isolado ou dependente de condições locais. É fácil para os comentadores integrados no sistema ignorarem esta situação limitando-se a falar de um desinteresse por parte dos cidadãos face à política. Assim arrumam o assunto e responsabilizam o eleitor por qualquer falha que apareça no funcionamento das instituições. Mas, como sempre, a realidade é mais complicada. Não só o interesse pela vida política está a desaparecer como as próprias lealdades daqueles que ainda votam estão a tornar-se mais voláteis. Criando padrões de governo cada vez mais erráticos e sem estratégia de longo prazo.

“A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – Henry Mencken

“A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – Henry Mencken

As instituições Europeias (e alguns dos principais países da União) têm estado muito atentas a este fenómeno sendo que na década de 90 chegaram a uma decisão final. Não iriam ficar dependentes de qualquer ordem política que pudesse emergir deste caos. Foram cortando os vários elos que as ligavam a uma legitimidade democrática e investiram na criação de um novo mito. O do perito. Consequentemente as suas decisões têm-se revestido cada vez mais de um carácter teoricamente “neutro” e técnico, de forma a poder afirmar a independência e validade seja qual for o resultado do caos democrático. Os que tiverem uma memória um pouco mais longa que a maioria conseguirão com certeza lembrar-se de debates de há uma década atrás em que desesperadamente se queria colmatar o défice democrático da União Europeia. Face a estes novos desenvolvimentos é fácil perceber que as instituições da UE não estavam verdadeiramente empenhadas na questão. Estavam apenas a comprar tempo. Enquanto os debates se arrastavam dentro e entre nações a UE já estava a restruturar a sua organização segundo um novo critério, o de uma suposta tecnocracia. Quando o processo ficou concluído havia compreensivelmente pouco interesse em continuar o debate sobre o défice democrático já que a prestação de contas perante o eleitorado tinha perdido quase toda a sua relevância.

Este processo não se deu apenas ao nível de uma burocracia europeia mas também dentro de todos os países centrais da União. À medida que a UE provava que conseguia estabelecer credibilidade baseando-se apenas no seu estatuto como supostos peritos os vários governos relevantes do continente foram replicando as mesmas ideias e estruturas dentro das suas fronteiras. O resultado foi um agravamento severo da apatia e volatilidade eleitoral (explicando a subida por toda a Europa de partidos extremistas e, ironicamente, profundamente antidemocráticos) levando a que o distanciamento entre o cidadão e o poder deixasse de ser um fosso para passar a ser um abismo. Fica assim mais claro porque é que nas últimas décadas temos vindo a assistir a um amalgamento das tendências e partidos políticos, tornou-se irrelevante saber o quadrante político das entidades partidárias porque as decisões verdadeiramente relevantes foram transferidas para entidades de “peritos” que não se sujeitam a qualquer escrutínio.

“The point is that we are among those who cannot get their mouths around all the little Yeses that add up to tacit acceptance of a world run by crackpot realists and subject to blind drift. And that, you see, is something to which we do belong; we belong to those who are still capable of personally rejecting. Our minds are not yet captive.” – C. Wright Mills

“The point is that we are among those who cannot get their mouths around all the little Yeses that add up to tacit acceptance of a world run by crackpot realists and subject to blind drift. And that, you see, is something to which we do belong; we belong to those who are still capable of personally rejecting. Our minds are not yet captive.” – C. Wright Mills

Os países da periferia apesar de também se irem adaptando ao novo sistema estão um pouco desfasados dos países centrais ou das instituições europeias, mas agora que os pânicos financeiros acalmaram um pouco (e os interesses dos credores foram assegurados de e transformados numa obrigação perpétua) começamos a sofrer pressão para acelerarmos o ritmo da adaptação. E na primeira linha desta transformação está a legalização do lobbying. Só a menção deste termo gera desconfiança no cidadão médio que vê nela apenas a legalização do que até então se fazia a portas fechadas. E em grande medida a sua desconfiança é justificada já que Bruxelas e Washington (os centros mundiais de lobbying) não são conhecidos pela sua transparência apesar da abundância de legislação a regular esta actividade. Mas as consequências são algo maiores do que apenas maquilhar o que hoje seria considerado pouco ético ou mesmo ilegal. No centro do lobbying está a ideia de que qualquer grupo (seja ele qual for, cidadãos, empresas, grupos religiosos, etc) pode e deve pressionar os governos e parlamentos a agir da forma que lhes é conveniente, mesmo que isso desrespeite completamente os direitos fundamentais de outros. Claro que isto abre uma verdadeira caixa de Pandora. Aceitar o lobbying como parte normal do processo político e social é escrever no contrato social que o dinheiro pode comprar acesso e influência. É admitir que nem todos somos iguais. É negar a ideia de justiça. É dizer que somos ouvidos apenas na medida do que podemos pagar. É organizar a sociedade como uma gigantesca entidade comercial que responde apenas aos seus accionistas.

“You read constantly that banks are lobbying regulators and elected officials as if this is inappropriate. We don’t look at it that way” – Jamie Dimon  (CEO da JP Morgan Chace)

“You read constantly that banks are lobbying regulators and elected officials as if this is inappropriate. We don’t look at it that way” – Jamie Dimon (CEO da JP Morgan Chase)

O que acontece a quem não tiver dinheiro para comprar acções deste projecto? Ainda fará parte do contrato social? Em que medida? Será que mesmo aqueles grupos que representam causas legítimas (direitos humanos, luta contra a pobreza, acesso à justiça, entre outras), e que têm disciplina organizacional e fundos suficientes para ter voz, acreditam por um segundo que conseguem reunir os meios para igualar ou superar qualquer grande empresa ou sector económico?

Como é normal num sistema com graves deficiências de funcionamento, e com um grau de apoio popular cada vez mais estreito, as decisões mais importantes são remetidas para acordos mais ou menos secretos e comissões políticas e jurídicas labirínticas de forma a que o resultado seja ou ocultado ou incompressível. Algo que tem o poder de restruturar por completo o equilíbrio de poder entre os cidadãos e que de facto voltar a introduzir critérios de voto censatários (voto cuja existência ou peso depende do rendimento do eleitor) tal como existiam no século XIX pode ser aprovado sem que o cidadão médio compreenda 10% das consequências que tal acarreta a longo prazo. De facto seguindo o retrocesso lógico os próximos passos seriam a permissão de compra de votos (afinal tratar-se-ia apenas de uma troca económica e não de algo político) e o estabelecimento de “votos especiais” (com mais peso) para determinados actores que sejam considerados como “especialmente relevantes” para a sociedade. Podemos esperar uma feroz campanha nos corredores do poder por parte dos nossos “liberais”, ao serviço dos seus empregadores, e se não houver qualquer reacção popular a esta reclassificação dos cidadãos em categorias económicas podemos ter certeza que irão sempre pressionar para que se vá mais longe. Até onde perguntarão? Até onde os deixarem.

“Arrependimento é a virtude das mentes fracas” – John Dryden

“Arrependimento é a virtude das mentes fracas” – John Dryden

Se mais uma vez o cidadão se fechar na sua concha de apatia e hedonismo e não prestar a devida atenção ao que se está a passar perderá qualquer credibilidade para vir reclamar daqui a 5 ou 10 anos. A sua oportunidade de acção é agora. Enquanto o processo ainda está num estágio embrionário. Depois será tarde demais, quer politica quer moralmente. O cidadão tem que se convencer que nem tudo na nossa realidade é reversível. Nem tudo pode ser corrigido. Nem sempre há mais tempo para “pensar” e debater. Há decisões que uma vez tomadas são permanentes.

As sombras mudam de posição

O Verão costuma ser morto e este ano não foi excepção. Aproveitou-se o vazio noticioso para ir introduzindo temas relevantes que não tiveram de todo a atenção detalhada que mereciam. Foram apenas benevolamente comentados pelos suspeitos do costume que tudo fazem para mostrar a inevitabilidade e normalidade de falências bancárias, manobras de bastidores partidárias, estranhas relações entre público e privado e infindáveis cortes no nível de vida do cidadão. Haverá aqui algo de novo que mereça comentário? Vamos dar alguns passos atrás, para ganhar alguma distância crítica, e vamos dissecar a situação estratégica sem a distracção dos faits divers. O leitor será o juiz sobre o que realmente se passa com o seu país.

Alexander Litovchenko - Charon Carries Souls Across the River Styx

“É preciso dizer a verdade apenas a quem está disposto a ouvi-la” – Séneca

As falhas estratégicas da elite de poder não precisam de mais estudos aprofundados por parte de grandes académicos, porque, como em tudo na vida, a prova está sempre nos factos empíricos. E os factos são os seguintes: Portugal saiu de uma rota de convergência social e económica com o resto da União Europeia há pelo menos duas décadas; As instituições públicas e privadas são feudos (no verdadeiro sentido medieval da palavra) geridas com punho de ferro mas também com total inépcia por membros da elite ou do seu “secretariado” (vulgarmente designados de “gestores”); O mérito é uma palavra oca, não se traduz em qualquer recompensa no mundo real ao contrário do que os meios de comunicação fiéis ao regime querem fazer transparecer (no entanto o número de falências de empresários recentes – ou seja, pessoas que acreditaram no discurso oficial e colocaram a sua vida em jogo num qualquer investimento – não é sequer mencionada ou contabilizada); O empobrecimento generalizado há mais de uma década que deixou de ser um fenómeno ocasional ou temporário para se tornar sistemático e irrevogável; O sistema de troca de favores entre um circuito fechado de amigos e conhecidos foi, é e parece que continuará a ser a norma de funcionamento para obter seja o que for, falemos de “alta política”, uma empresa internacionalizada ou de uma junta de freguesia perdida no Portugal profundo. Estes são os factos. Não mudaram. O país é este. E como muitas famílias estão a descobrir, à medida que os seus rebentos acabam os seus estudos ou são obrigados a abandoná-los por incapacidade financeira, o elevador social está fechado para reparações por período e indeterminado.

“Num país bem governado a pobreza é algo que deve causar vergonha; num país mal governado a riqueza é algo que deve causar vergonha.” – Confúcio

“Num país bem governado a pobreza é algo que deve causar vergonha; num país mal governado a riqueza é algo que deve causar vergonha.” – Confúcio

Mas talvez haja algo a dizer. Alguns dos demagogos mais proeminentes ao serviço da elite de poder têm recentemente saído da sombra para voltar a comentar aqui e ali certos detalhes do que vai acontecendo. Parte do que este blogue e a Irmandade de Némesis andaram a dizer parece que se tornou óbvio para estes senhores – a solução prescrita não é a mesma mas falaremos disso mais á frente. Parecerá com certeza estranho a qualquer pessoa que comentadores profundamente integrados neste sistema tenham ganho uma consciência, compaixão ou empatia nos últimos meses. Obviamente que não se trata de qualquer sentimento de culpa ou de responsabilidade para com a população que atraiçoaram, por bem menos que as tradicionais trinta moedas de prata. A estratégia da elite parece estar em mudança. Devido em grande parte à sua incompetência crónica (e dado que se trata de um grupo praticamente endogâmico penso que não seria ir muito longe dizer que é genética) para gerir os seus próprios interesses a elite de poder criou um pequeno inferno neste país. Mas claro que nunca nenhum destes senhores feudais pensou que isto afectasse os seus próprios protegidos/afilhados/família ou que de forma alguma pudesse vir a ameaçar a sua predominância social ou mesmo, em alguns casos, sobrevivência. Esqueceram-se do resto do mundo. A sua visão tipicamente provinciana e saloia é de tal forma estreita que ignorou que eles não são os únicos protagonistas na política e economia mundial. Não passam de actores secundários, muitas vezes nem isso, e que os seus insignificantes objectivos e ambições são facilmente aniquilados por outras elites mais dinâmicas, competentes e com maior poder. Esta desvantagem intelectual é algo que não conseguem resolver sozinhos. Nem estão dispostos a deixar que alguém interfira no assunto. Antes de permitirem que alguém partilhe o leme do barco preferem que vá ao fundo. Como irónica e perspicazmente Napoleão terá comentado com o seu ministro dos negócios estrangeiros, Talleyrand, acerca da dinastia dos Bourbon: esta elite nada esquece e nada aprende. Por muitas viagens que façam a Londres, por muitos MBAs que tirem, por muitas compras que façam na Place Vendôme, por muitos brinquedos tecnológicos americanos que acumulem ou por muito que se tentem tapar com a última moda de Milão não conseguirão jamais deixar de ser o que sempre foram: merceeiros mesquinhos a quem falta qualquer tipo de visão estratégica quer para si quer para os que dominam através de coerção e medo.

“O rico comete uma injustiça e ainda se mostra altivo; o pobre é injustiçado e ainda precisa de se desculpar.” – Eclesiástico 13:3

“O rico comete uma injustiça e ainda se mostra altivo; o pobre é injustiçado e ainda precisa de se desculpar.” – Eclesiástico 13:3

Colocados em cheque na sua própria casa a elite de poder teve que começar um processo de reposicionamento dos seus peões. Confrontados com uma situação que começa rapidamente a fugir ao seu débil controlo começam a abandonar alguns dos seus aliados políticos tradicionais. Não deixarão de fazer os habituais negócios de renda garantida com o Estado ou colocar os rapazes das várias cores políticas como seus assessores e gestores, mas gradualmente deixarão a classe política assumir cada vez mais o peso moral das monstruosidades que vão fazendo. Dão instruções para que os seus agentes tomem posições algo mais críticas em relação aos erros de governação que entram pelos olhos dentro e que são impossíveis de vender à população como algo que não seja uma imposição hierárquica caprichosa. Em suma, estão a distanciar-se tacitamente. Assumem pela primeira vez, desde o seu regresso do exílio a que foram remetidos em 1974, que talvez o regime democrático, tal como o conhecemos, não sobreviva e querem estar numa posição mais cómoda para negociar com o que vier a seguir. A forma como a questão está a começar a ser posta perante a população é clássica. Escolher entre dois cenários convenientes e apresenta-los como as únicas alternativas viáveis, sabendo de antemão que ambos servirão de forma adequada os seus interesses.

“A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se se conseguir controlar o significado das palavras consegue-se controlar as pessoas que são obrigadas a usar as palavras” – Philip K. Dick

“A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se se conseguir controlar o significado das palavras consegue-se controlar as pessoas que são obrigadas a usar as palavras” – Philip K. Dick

O cenário preferível é o que vivemos já actualmente e aposta acima de tudo num certo grau de continuação da passividade popular. Manifestação à porta do ministério A, protesto junto à Câmara Municipal B, greve na empresa C, etc. Tudo somado dá em nada. Prossegue o processo de transformação de Portugal num país de terceiro mundo dentro da União Europeia que presta tributo (uso a expressão literalmente) a Berlim sobre a forma de um juro perpétuo de uma dívida que nunca poderá ser saldada através das instituições Europeias e bancárias. O segundo cenário é algo mais complicado mas ainda assim desejável do ponto de vista da elite de poder. Trata-se de deixar que o regime se consuma a si mesmo. Sem nunca se colocar como uma oposição clara mas permitindo que a classe política leve as coisas até ao ponto de rotura. Nesse momento será apresentado o seu homem providencial que implorará em lágrimas que o deixemos impor ordem na casa, a bem da nação – de forma generosa, exigirá apenas a nossa abdicação dos poucos direitos e liberdades de que ainda dispomos. O risco neste caso é fácil de entender. Qualquer regime que entre em fase terminal perde o controlo sobre os seus próprios meios e é complicado conseguir prever quem sairá vencedor de qualquer conflito que deste género. Há uma possibilidade séria de o resultado não ser o desejado. Mas tal possibilidade pode ser contrabalançada. A nível interno com o apoio dos meios de comunicação leais aos seus empregadores e com doses generosas de financiamento que outros pretendentes menos cooperantes não irão dispor. E a nível externo não é segredo que a UE segrega do seu centro uma certa dose de “racismo” cultural face aos estados do Sul e que do seu ponto de vista um regime “musculado” pode ser visto como mal menor para lidar com os “bárbaros” e “irresponsáveis” desde que não afecte os seus planos a longo termo ou equilíbrios regionais. Seja qual for a escolha “livre” dos portugueses o que será inaceitável para a elite (e como tal nem é colocado como hipótese) é que a população se autonomize face aos seus interesses, que os senhores feudais sejam expulsos dos seus castelos.

“Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal.” – Maquiavel

“Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal.” – Maquiavel

Os testes iniciais de aceitação destes cenários já começaram há muito tempo. As reacções iniciais foram extremamente negativas junto do público geral, daí o seu adiamento até este momento. Mas o tempo e a pobreza desgastam e tornam o que não seria contemplável em algo possível e eventualmente em algo que seja visto como um mal menor ou mesmo necessário. O tempo de cenários hipotéticos acabou. As hipóteses já foram postas em cima da mesa em muitos círculos e já começam a ter a sua fase inicial de divulgação às massas em forma de pensamento coerente. É um processo em marcha. O tempo e o serviço dos mercenários intelectuais irá cristalizar e tentar enobrecer estas tácticas de perpetuação de dominação. Caberá, como sempre coube, aos cidadãos saberem resistir, defender-se e reconquistar o que é deles por direito. São os cidadãos que têm que gritar com convicção “Roma não paga a traidores!”.

O Enclave está com os cidadãos.

A Irmandade de Némesis está com os cidadãos

A elite de poder como uma doença irritante e destrutiva

A ” elite de poder” é uma doença das piores estirpes de vírus e bactérias.

É contagiosa e contamina o resto da população com as suas doenças e as suas manias psicopatas.

Pessoas pouco informadas afirmam que a “elite de poder” passa os dias apenas em genuflexão nos seus condomínios fechados, ocupada a dar ordens venais a lacaios políticos ou pessoais, ou a gerir a multifacetada vida sexual cheia de vícios privados e virtudes publicas, ou sendo glutona na obtenção de mais poder e dinheiro.

Claro que não.

A “elite de poder”, também faz “desporto”.

A” elite de poder” esforça-se. A” elite de poder” arfa e faz força. A “elite de poder enche o peito de oxigénio.

A hubris da ” elite de poder” manifesta-se.

HUBRIS - CEREBRO - HALTERESOs exercícios diários de desporto com componentes aeróbicas corruptas da ” elite de poder” são os atos que a ” elite de poder” tem em relação à população da qual depende,as manifestações de profundo desprezo, ódio, a sua aversão em relação as pessoas. Ao mero facto de as pessoas existirem…

Odeiam a população e desejariam poder mudar de população apenas pelo efeito de um simples ” estalar de dedos”.

Lamentavelmente, para  a “elite de poder”, um simples ” estalar de dedos” não faz a população desaparecer ou moldar-se totalmente de acordo com as necessidades corruptas e ilegítimas da ” elite de poder”.

Como não consegue satisfazer os seus caprichos e ” estalar os dedos” para erradicar a população são usadas armas de sabotagem, tais como a traição e a corrupção como forma privilegiada de relacionamento da “elite de poder” com a população.

A elite de poder vive da traição como forma de estar. Da quebra de palavra.Da quebra dos actos. Da quebra de contratos privados, públicos ou sociais. Da quebra de quaisquer regras, que foram acordados entre todos os membros da sociedade.

[ Nas suas ilhas de estabilidade social e económica as elites chegam mesmo a acreditar que esta divisão fortalece o seu poder ao tornar os cidadãos mais indefesos e isolados mas esquecem-se de um facto muito simples: o caos não descrimina, infiltra-se lentamente, destrói todas as bases e cria possibilidades e situações que nunca fizeram parte das intenções originais. As elites vivem na ilusão que conseguem domar o dragão do caos, um acto de suprema arrogância e vaidade.]

DARK KNIGHT - CAOS - MEDO-ANARQUIAÉ o momento ” anarquia” estúpida e egoísta da ” elite de poder”.

Misturam o pior do Estalinismo mais abjecto com o pior do nacionalismo-canibalismo Idi Amin, com o pior do nazismo-fascismo com o pior da monarquia-inquisição.

Um cocktail de sabotagem e perversão.

Quanto mais cedo reconhecermos a existência desta doença à solta, melhor para nos defendermos.

TRAICAO - CERVANTES

É muito frequente que os membros desta “ elite de poder” mintam apenas pelo prazer que sentem a mentir, quando estão em funções públicas ou privadas.

É uma segunda pele que passa a primeira pele,mal o verniz estala.

Ofende-os descobrirem que existem funções mais nobres do que eles próprios – por exemplo, a defesa dos ideais da Polis.
A nobreza das funções associada à defesa da “Polis” constitui para esta gente uma ofensa mortal, porque não toleram que exista algo mais nobre e puro do que o que esta “elite de poder” julga erradamente ser.

Para esta gente uma ideia como esta – a defesa da Polis  – significa sempre a quebra do pacto elites-povo.

Temos aqui que ser justos na apreciação global que deve ser feitas a estes psicopatas atrasados mentais: para esta gente qualquer ideal que não passe pela defesa dos interesses ilegítimos, corruptos e venais próprios da ” elite de poder” deve ser traído, quebrado, destruído.

A traição feita aos ideais da Polis é a mesma que é feita a quaisquer outros ideais.

Usam os padrões do discurso duplo. Do pensamento duplo.
Nego categoricamente! Irá acontecer dentro em breve.

Iremos promover a paz! A guerra irá continuar por outros meios.

Somos a favor desta política! Somos contra e iremos subverter e destruir o máximo que pudermos.

Tudo para eles, política de terra queimada para os demais.

Depois de a " elite de poder" actuar, o resultado são apenas escombros e desolação. Nada criativo emerge.

Depois de a ” elite de poder” actuar, o resultado são apenas escombros e desolação. Nada criativo emerge.

Mentir, mudar de lealdades, a incapacidade de produzir pensamento normal (assim considerado pela sociedade…ou nem sequer assim considerado pela sociedade) ou estratégico que não emane das instruções de um qualquer poder exterior (sejam as potências europeias ou mundiais, sejam rótulos de produtos à venda no supermercado) são os sinais que estas criaturas demonstram quando estão a corromper o resto da sociedade.

As consequências são obvias.

Dada a obvia incapacidade de produzir qualquer pensamento estratégico que seja temporalmente superior a um horizonte de algumas semanas ou meses, ou que seja eticamente superior ao mero plano da acumulação de riquezas materiais ou de maior acumulação de poder simbólico; esta “elite de poder” apenas está vocacionada para a destruição de oportunidades conjunturais ou estratégicas que possam surgir.

CORRUPÇÃO POLÍTICA EM GERALOlhando especificamente para a auto nomeada elite de poder portuguesa a mancha é ainda pior.

Odeiam o futuro e a modernidade.

Sejam quais forem os conceitos e as definições de futuro ou de modernidade.

Despreza qualquer legado que se deixe para os vindouros (exceto para os seus familiares e amigos…) ; e-lhe indiferente que a população, o povo do qual dependem, esteja bem ou mal, possa vir a ficar bem ou mal; e-lhe indiferente o estado do país daqui a 150 anos, tal como lhe era indiferente o estado do país à 150 anos atrás (ou 200, ou 1000 anso atrás…), quando olhava em frente para o futuro.

Apenas pensam “ nos seus” e apenas pensam o curto prazo.
Nada mais sabem que isso.

E usam a violência sobre todos os outros , não por “raison d`etrê” ou por “raison de etat” mas simplesmente como forma de humilhação e de degradação. (A elite de poder portuguesa, é incapaz de formular uma teoria de razão de estado que possua uma qualquer lógica conjuntural, por mais detestável seja, ou com ela não se concorde e que até seja usada para justificar o uso de violência por parte do Estado, por exemplo. Não! Nem isso são capazes de fazer.)

São “apenas” aleatoriamente violentos e perigosos.

Estamos interessados, enquanto comunidade, em coexistir com um grupo de pessoas selvagens, debaixo de uma capa de verniz civilizado, que esconde os maiores psicopatas e sociopatas e que detém alavancas de poder que, quando usadas, são extremamente perigosas para a generalidade da população?

Estamos interessados em permitir, enquanto comunidade, que um grupelho sociopata e corrupto se espalhe por varias classes sociais e profissionais fomentando a destruição de recursos e a corrupção ética dentro da sociedade?

Estamos interessados em permitir que formas insidiosas e subversivas de controlo sobre os recursos comuns, disfarçadas de eficiência empresarial, apenas sirvam como arma política de controlo para restringir liberdades, possibilidades, mobilidade social, evolução da população?

O Enclave diz não.

A Irmandade de Némesis diz não.

A pacata fogueira das vaidades

O que leva ao fracasso de tantas iniciativas que visam criar uma “esfera pública” em Portugal? Talvez parte da resposta esteja nos nossos hábitos e vícios nacionais entre os quais se destacam visivelmente a tendência natural para a obediência a qualquer autoridade estabelecida e uma falta visão que não seja inteiramente centrada sobre nós mesmos. A primeira causa é preocupante não tanto pelo facto de existir mas pelas razões que existe. Além de provar que não se saiu, totalmente, de uma certa visão inquisitorial e que se temem represálias demonstra também abundantemente a habilidade que é inculcada, desde a mais tenra idade, na maioria dos portugueses para estarem do lado que de quem “vence” – na expectativa clara de colher os benefícios que advêm de ter um patrono. Está-se preso num esquema mental em que não existe verdadeira autonomia individual, nem se procura tal coisa. A segunda causa será mais complicada de tentar compreender porque falham causas históricas imediatas. Não há nenhum trauma no nosso passado, recente ou antigo, que possa explicar claramente esta tendência preocupante entre os portugueses. O solipsismo mais nu e cru é o pão nosso de cada dia em qualquer convívio social que se possa ter. A isto haverá ainda a acrescentar a constante procura por “etiquetar” cada pessoa de acordo com uma complexa escala que inclui várias componentes: valor financeiro do individuo, posição organizacional, laços familiares, lugar na ordem social (as clique em que se encaixa), potencial influência sobre outros, etc. O solipsismo combinado com uma hierarquização patológica de toda e qualquer pessoa com que se interaja torna o qualquer diálogo (ou partilha de seja o que for) quase impossível já que se desloca o fulcro do tema em cima da mesa, e dos argumentos que cada um é capaz de criar, para uma interacção quase que ritual onde cada um tenta dominar, por simples peso das suas circunstâncias, os outros. Eventualmente uma espécie de “ordem” é estabelecida onde se convenciona que quem tem mais “peso” (monetário, social, etc) deve poder fazer a sua opinião vingar, independentemente dos seus méritos reais. E isto é tudo visto como o normal desejável. É raro encontrar sociedades tão obcecadas com o posicionamento social e ao mesmo tempo tão preocupadas em esconder essa mesma preocupação – o único caso semelhante mais numa escala ainda superior será talvez o Japão.

Thus no member of the commonwealth can have a hereditary privilege as against his fellow-subjects; and no-one can hand down to his descendants the privileges attached to the rank he occupies in the commonwealth, nor act as if he were qualified as a ruler by birth and forcibly prevent others from reach­ing the higher levels of the hierarchy through their own merit." - Kant

“Thus no member of the commonwealth can have a hereditary privilege as against his fellow-subjects; and no-one can hand down to his descendants the privileges attached to the rank he occupies in the commonwealth, nor act as if he were qualified as a ruler by birth and forcibly prevent others from reach­ing the higher levels of the hierarchy through their own merit.” – Kant

Nesse sentido partilhamos pouco do individualismo que, teoricamente, deveria caracterizar as sociedades ocidentais (a não ser nos pontos supérfluos do consumismo ou nos negativos como a indiferença). Talvez por isso tenda a ser complicado ter uma verdadeira opinião pública, já que ela só se pode formar depois dos “notáveis” terem dado o seu parecer e terem enquadrado para o público em geral o espectro de opiniões que são consideradas aceitáveis. O desvio trás consigo penalizações. Sempre. Do ostracismo, assassinato de carácter e limitações profissionais nada é de excluir como possível. Tudo depende do grau da “ofensa”.  É reminiscente de tribalismos que, enquanto sociedade, gostaríamos de acreditar ter deixado para trás há muito e é sem qualquer dúvida uma das principais causas da notória passividade nacional.

"In statesmanship get the formalities right, never mind about the moralities.” - Twain, Mark

“In statesmanship get the formalities right, never mind about the moralities.” – Twain, Mark

Mas se a realidade social é esta então para que servem os constantes apelos das elites à sociedade civil? A resposta mais provável é que servirão para transferir o ónus da acção para uma entidade, a “vontade popular”, que não é capaz de agir, por não ter autonomia ou, se quisermos ser mais radicais, por não poder existir nas condições actuais. Cria-se um sentimento de culpa colectiva pela inacção tendo-se noção que, apesar das imensas responsabilidades pessoais de cada um, não estamos numa sociedade capaz de acção colectiva que não seja direccionada de cima. Podemos ter a confirmação deste facto por observação dos partidos políticos portugueses. Olhando para a sua acção e discurso vemos instituições que só superficialmente se modernizaram. Adoptaram os discursos que ouvem circular nas elites europeias (sendo francos apenas adoptam versões simplificadas porque não têm grande capacidade de síntese) e mantêm uma orgânica de funcionamento típica de movimentos políticos de há meio século. Dando um exemplo concreto: o comício ou discurso. Ao mesmo tempo que se pedem contribuições individuais (por formalismo apenas) do militante base adopta-se um estilo de decisão opaco, repleto de secretismo e dominado por individualidades com ligações ao mundo económico ou longas carreiras institucionais dentro do partido. Mesmo o discurso público das lideranças pertence a uma época diferente já que proíbe, de facto, qualquer intervenção exterior, o que é pedido é que seja ouvido e aplaudido, nada mais é bem-vindo. Isto é uma relíquia de tempos passados na maior parte do mundo ocidental mas em Portugal tem sido mantido pelas nossas idiossincrasias, pela nossa obsessão com o culto ao à hierarquia, com uma dependência existencial face ao poder. Sem que cada cidadão se liberte interiormente da carga de servilismo, que culturalmente carrega (quer o aceite racionalmente ou não), o que assistimos na “esfera pública” não passará nunca de um exercício académico de ciência política.