O que estava realmente em jogo

Enquanto os estilhaços da decisão do Reino Unido sair da União Europeia ainda estão a cair começa a ficar mais claro para todos o que estava realmente em jogo. O controlo da maior praça financeira Europeia, a city de Londres. O governo das ilhas quer atrasar ao máximo as possíveis negociações sobre as condições de saída enquanto que o governo alemão (principal beneficiário de uma fragmentação do sector financeiro londrino) quer as negociações para ontem. Joga-se o futuro do Reino Unido como agente financeiro de primeira linha no mundo globalizado. Muitos britânicos entendem pela primeira vez que as empresas não possuem lealdades nacionais nem preocupações com o bem-estar de ninguém, apenas querem aproveitar a fraqueza do país para arrancar coercivamente melhores condições para continuarem a fazer o que já fazem – adivinha-se um anúncio de cortes de impostos empresariais para apaziguar os deuses do mercado. Dependendo da dureza do jogo de Berlim, o Reino Unido pode caminhar ou para um estatuto internacional reduzido ou, em caso de perda de uma fatia muito significativa do seu peso financeiro, uma intensa reindustrialização baseada em modelos económicos pré-monetaristas.

"Are you not ashamed of caring so much for the making of money and for fame and prestige, when you neither think nor care about wisdom and truth and the improvement of your soul?" - Sócrates

“Are you not ashamed of caring so much for the making of money and for fame and prestige, when you neither think nor care about wisdom and truth and the improvement of your soul?” – Sócrates

Este processo envolve uma história longa e repleta de ironia. O Reino Unido foi o primeiro país Europeu a entender e a reagir à globalização financeira. Com a subida de Thatcher ao poder os Torys embarcam num plano para mudar a face do mais antigo bastião industrial do Ocidente. O seu plano era centrar o país no sector financeiro e abandonar progressivamente a indústria tradicional – tendo plena consciência que isso implica abandonar grande parte do país real. O primeiro passo foi criar volume de capitalização bolsista em Londres e para isso lançaram uma onda de privatizações que reduziram o peso da industria nacionalizada no PIB de 9% para 2%. Isto teve vários efeitos que se reforçaram mutuamente. Além do aumento súbito da capitalização da praça de Londres deu-se uma quebra substancial do poder dos sindicatos e deu-se um poderoso golpe ao partido trabalhista – que quando acabou o seu longo exílio pouco mais fez que dar uma cara mais simpática às politicas que já estavam a ser seguidas. A esta injecção de capital no Estado há a somar os ganhos do petróleo do mar do Norte que criaram uma almofada financeira impressionante. Para que foi usado este fundo de maneio? Para reduzir drasticamente os impostos nos escalões mais elevados (de 80% para 40%). Esta redução atingiu dois objectivos: em primeiro lugar criou rendimento disponível na classe média-alta e alta para investimentos financeiros, e em segundo lugar tornou as posições bem remuneradas na city ainda mais atractivas. Em 1986 é dada a machadada final com a liberalização do sector financeiro que atrai cada vez mais investidores financeiros estrangeiros a Londres. Está lançado o caminho para três décadas de continuidade de endeusamento do sector financeiro e abandono da economia real – que enquanto este processo decorreu sofreu um desemprego galopante, fechos das indústrias tradicionais e a formação de guetos nos antigos grandes centros industriais (que agora se assemelham a cemitérios de um passado distante).

"Eu encontrei um viajante de uma terra antiga Que disse:—Duas gigantescas pernas de pedra sem torso Erguem-se no deserto. Perto delas na areia, Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida, A mão que os zombava e o coração que os alimentava. E no pedestal estas palavras aparecem: "Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!" Nada resta: junto à decadência Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância." - Percy Shelley

“Eu encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse:—Duas gigantescas pernas de pedra sem torso
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão
E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando
Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida,
A mão que os zombava e o coração que os alimentava.
E no pedestal estas palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância.” – Percy Shelley

Enquanto a Europa tentava manter a sua indústria durante os anos 80 o Reino Unido estava a criar o maior polo financeiro do continente (mesmo que isso condenasse grande parte dos britânicos a um nível de vida cada vez pior). Com o apogeu da doutrina dos mercados “livres” no início dos anos 90 o resto da Europa já estava na mesma página: todos os países abandonavam os seus sectores tradicionais à procura de ganhos de produtividade através de economias de serviços e ganhos financeiros – com a excepção da Alemanha, que se manteve firme na sua defesa de um poderio industrial autónomo, tornando-se a fábrica da Europa (aliás financiou durante mais de uma década a destruição gradual da industria nos outros parceiros Europeus). Mas era demasiado tarde. A dianteira de Londres (facilitada por partilharem uma língua e cultura com os EUA) era demasiado grande para que mesmo Frankfurt pudesse chegar-lhe aos calcanhares. Até agora. Chegou o momento Alemão. Juntar uma liderança financeira a uma liderança industrial irá torna-la a incontestável senhora da União, perante a qual todos os outros nada mais são que súbditos que devem ser relembrados da sua posição nesta nova ordem politica continental.  Por terras lusas treme-se diante deste novo gigante não havendo qualquer coragem das elites locais. Como é sua tradição apenas querem que seja assegurado o seu lugar ao sol seja quem for que mande nas coisas. Podem estar prestes a ter uma surpresa. Pela primeira vez a sua conivência com as elites exteriores poderá não lhes dar frutos. Uma potência hegemónica não reconhece iguais, não tem interesse em elites locais saloias e muito menos tem vantagem em conferir-lhes qualquer poder real. Ao recusarem partilhar o poder as elites locais selaram o seu destino, arrastando todo o país consigo.

NémesisSiga o exemplo da Irmandade de Némesis: Não se resigne a ser uma vítima das elites!

Os mega dadores

Nos últimos dias foi anunciado que o fundador do facebook, Mark Zuckerberg, “doou” grande parte da sua fortuna para fins “filantrópicos”. Os media, na sua habitual falta de atitude crítica face aos poderosos, louvam incessantemente este tipo de exemplos (por vezes por razões bastante transparentes de auto-interesse) como luzes que brilham no escuridão que ameaça envolver-nos. Apontam-nos estes casos como prova que as pessoas são intrinsecamente boas e que independentemente da forma como os oligarcas agem ou acumulam as suas fortunas são no fundo “tipos porreiros”, empenhados no bem-estar dos outros cidadãos que não tiveram as mesmas oportunidades. Este caso não é o primeiro do seu género (o mais famoso é caso da fundação Gates criada pelo fundador da Microsoft) nem descreve um fenómeno exclusivo de certos países, é uma tendência global. Antes que sejamos levados por esta falsa onda de boa vontade e aparente irmandade temos que começar a fazer o trabalho de desmontagem e análise crítica que nenhum meio de comunicação está interessado em fazer.

"The threat to men of great dignity, privilege and pretense is not from the radicals they revile; it is from accepting their own myth. Exposure to reality remains the nemesis of the great” - John Kenneth Galbraith

“The threat to men of great dignity, privilege and pretense is not from the radicals they revile; it is from accepting their own myth. Exposure to reality remains the nemesis of the great” – John Kenneth Galbraith

Em primeiro lugar nenhuma destas pessoas doou um cêntimo seja a quem for. Sim é verdade. Não houve doação a qualquer causa ou individuo. O que aconteceu foi que estes bilionários transferiram parte dos seus bens para entidades privadas que eles próprios fundaram e gerem. Com que objectivo o fizeram? Aqui a resposta tem vários níveis. Com o mal-estar crescente das populações face ao sistema político e económico que nos gere tornou-se urgente para o establishment relançar a discussão da legitimidade. Ou seja, há uma necessidade de demonstrar às pessoas que a relação de poder que existe entre oligarcas e cidadãos comuns não é apenas uma obscenidade derivada da acumulação ganhos (sejam legítimos ou não, conforme o caso) e de relações indevidas entre o poder político e o sector privado. Há que assegurar ao cidadão que há um fundo de justiça no meio disto tudo. E que apesar da maior parte das pessoas já não poder contar com uma carreira, com cuidados sociais básicos ou sequer poder confiar nos eleitos o sistema funciona (grande parte destes problemas derivam do esforço colossal que os mega dadores dedicam a evitar pagar impostos sobre os seus ganhos empresariais e a evitar a criação de condições laborais dignas) e que todas as desigualdades se equilibram de forma automática como uma espécie de equação matemática social. Nada fica mais equilibrado com estas “doações” que na realidade são apenas transferências internas dentro do vasto património empresarial e pessoal destes magnatas. A posse dos fundos permanece nas mesmas mãos e o destino a dar-lhes continua a ser uma decisão na qual ninguém tem qualquer voto.

"Um desequilíbrio entre os ricos e os pobres é o mais antigo e mais fatal problema de todas as Repúblicas" - Plutarco

“Um desequilíbrio entre os ricos e os pobres é o mais antigo e mais fatal problema de todas as Repúblicas” – Plutarco

Estas transferências de património além de visarem reconstruir uma credibilidade perdida têm também por objectivo satisfazer os egos colossais destas pessoas ao permitir que se imiscuam na vida social das nações como nunca antes havia sido tentado. Os caprichos e vontades de uma mão cheia de seres humanos são agora impostos ou vendidos como sendo benéficos para toda a humanidade. Isto sem nunca incorrer na sórdida acção de ter que consultar a tal humanidade sobre o que realmente pensa sobre os problemas que a afligem. Com a quantidade de fundos ao seu dispor estas fundações condicionam todas as outras organizações (de investigação, apoio social, educação, tecnologia, etc) ao criar um gigantesco polo de atracção financeira que ninguém pode ignorar. Não será de estranhar que todas as organizações que se associam a tais fundações (incluindo governos) acabam por ver o seu poder de decisão e autonomia destruídos. Quem tem o ouro faz as regras e neste caso os oligarcas têm muito ouro. Isto permite-lhes distorcer as prioridades de outras organizações criando situações que favorecem os interesses pessoais e comerciais destes mega “dadores”. Não é por acaso que muitos projectos de fundações cujos donos fizeram a sua fortuna em tecnologias de informação incentivam ao máximo a criação de sistemas de ensino e de saúde dependentes dessas mesmas tecnologias, criando oportunidades de lucro, de recolha indevida de dados e de habituação. Faz tudo parte do modelo de negócio. O fascínio saloio com novas tecnologias reluzentes faz esquecer a sórdida realidade de desequilíbrios de poder que está subjacente e que é encorajada a continuar a crescer. Será útil também fazer notar que apesar de terem objectivos “filantrópicos” estas organizações é suposto darem lucro. Sim é suposto acumularem ainda mais recursos e crescerem em tamanho e influência. Não há limites a priori para o que poderá vir a ser englobado nas suas acções e funcionamento.

Gates_contributionsDe forma ainda mais perversa estas fundações encorajam indirectamente os Estados a retirarem-se da vida social das suas próprias nações ao promoverem os habituais mantras da economia neoclássica: o estado é ineficiente, os privados podem fornecer bens públicos de forma mais barata, o estado é por definição mau e devia ser abolido em todas as esferas, enfim a habitual litania anarco-capitalista que nos deixaria a todos como servos apáticos e receptivos das boas vontades de uma dúzia de “filantropos” caprichosos. Ao abrigo de programas de inovação tecnológica as fundações dos oligarcas vão numa primeira fase condicionando todos os outros actores sociais e numa segunda fase talvez substitui-los de vez. Consegue-se perceber que num ambiente político em que os governos são reféns de agentes financeiros e não ousam tomar medidas verdadeiramente políticas com medo de “desvirtuar” os divinos preceitos das finanças públicas torna-se atractivo passar as responsabilidades de sectores deficitários a entidades privadas mesmo sabendo que se corre o risco que essas entidades tentem fazer experimentação social com os cidadãos. Também não ajuda o facto de alguns dos mesmos mega “dadores” estarem associados a empresas que contribuem de uma forma ou de outra para o sucesso dos nossos líderes políticos.

“Não deves honrar mais os homens que a verdade” - Platão

“Não deves honrar mais os homens que a verdade” – Platão

Portugal está um pouco fora do mapa da super “filantropia” em grande parte devido à sua pequena dimensão, falta de parceiros estratégicos relevantes e relativa proximidade ao coração europeu. Mas à medida que outras nações começarem a encontrar os problemas da entrega completa de sistemas sociais a estas fundações é inevitável que elas comecem à procura de alvos nas periferias. Entretanto existem alguns exemplos desta tentativa de entregar a sociedade ao controlo total dos oligarcas mas a uma escala bastante mais pequena e moderada, até porque os oligarcas portugueses não estão dispostos a fazer o mesmo nível de investimento que os seus homólogos estrangeiros. Concentram-se acima de tudo no domínio da informação e da publicação que usam para tentar desacreditar o Estado e fazer vingar na mente dos seus leitores mais incautos uma visão idílica do que é a realidade do sector privado em Portugal. Mas não tenhamos ilusões, não é uma questão de saber se o sector social será entregue a estes agentes privados mas uma questão de quando o será já que não existe oposição concertada a que tal aconteça. Existe uma resistência formal por parte de certos sectores mas a verdade é que as elites esses mesmos sectores aceitam escrever documentos e livros para estas fundações e aceitam participar em “debates” públicos patrocinados pelas mesmas fundações com a intenção de as validar socialmente. Acima de qualquer posição ideológica coerente está um espirito de classe que as elites de todos os sectores partilham e isso, juntamente com os benefícios pessoais acumulados pela sua participação, vencerá qualquer barreira que possa existir.

(Mini) Manifestos tecnocráticos

Se há algo de que podemos todos estar seguros é que os meios de comunicação são inteiramente neutros em Portugal. Não são dados a preferências ocultas ou a servir agendas ideológicas de forma encapotada. A verdade e apenas a verdade. Não será então de estranhar que nos tenham presenteado com esta publicidade ao mais recente manifesto dos tecnocratas do sistema político-económico. Num pequeno vídeo explicam-nos tudo sobre as complexas realidades portuguesas, de forma simples, para não cansarmos os nossos cérebros.

"Pensar é o diálogo da alma consigo mesma" - Platão

“Pensar é o diálogo da alma consigo mesma” – Platão

Há muitos anos que o sector conservador investe imenso tempo e dinheiro em produzir obras, mais ou menos panfletárias, de divulgação das suas doutrinas – quais missionários que querem dilatar a fé e o império. São construídas especificamente para um público de classe média que que acha que deve ter opinião sobre determinados temas mas não está disposto a investir o tempo e esforço necessários para realmente entrar nas questões – todos somos demasiado ocupados hoje em dia e se as empresas podem fazer outsourcing de servidos porque não fariam as pessoas o outsourcing das suas ideias? O resultado é a propagação quase inevitável de uma visão enviesada da realidade, que leva a absurdos lógicos quando seguida até às suas consequências finais, estragos sociais provavelmente irreparáveis totalmente previsíveis e à solidificação de uma mentalidade de respostas e análises simplistas que evitem todas as coisas feias, como o confronto com a realidade empírica.

“The real political task in a society such as ours is to criticize the workings of institutions that appear to be both neutral and independent, to criticize and attack them in such a manner that the political violence that has always exercised itself obscurely through them will be unmasked, so that one can fight against them.”  - Michel Foucault

“The real political task in a society such as ours is to criticize the workings of institutions that appear to be both neutral and independent, to criticize and attack them in such a manner that the political violence that has always exercised itself obscurely through them will be unmasked, so that one can fight against them.” – Michel Foucault

Não acredita no que digo caro leitor? Olhemos então para o conteúdo do fantástico vídeo promocional que nos foi proporcionado (será de notar que a página do jornal contém a penas um vídeo com discursos dos autores, não há sequer a tentativa de fingir que se trata de uma análise jornalística ou minimamente crítica), ponto por ponto.

– Porque é que os economistas acham que têm sempre uma resposta para tudo? Ao contrário do que é afirmado pelos autores não é que haja uma procura popular de respostas junto dos economistas. A questão é que o culto ao deus mercado que tem sido imposto por todo o mundo tem por corolário a criação de uma casta “sacerdotal” de “iluminados”, que através de teorias e livros sagrados interpreta a vontade desta tenebrosa divindade. Foram os próprios economistas que se colocaram neste papel oracular e do qual não abdicam nem que tenham que reduzir toda a existência humana à mera troca de bens, serviços e promessas de pagamento. Como tal, regularmente saem dos seus transes e dizem-nos os sacrifícios que devemos todos fazer para apaziguar o seu deus. A economia, como é praticada hoje em dia, está um degrau abaixo da adivinhação através das entranhas de animais.

– Porque não há dinheiro para pagar as nossas reformas? De forma fantasiosa os nossos “rebeldes” (bem institucionais) querem-nos fazer crer que a segurança social é uma espécie de fraude que nunca fez sentido e que nunca será sustentável. Isto é a melhor tradição da escola de Chicago, uma série de premissas mal explicadas, ligadas por um raciocínio dúbio que levam a uma conclusão incrível, que implicitamente quer levar quem os ouvir e ler a pensar que no fundo todo o sistema devia ser privatizado (a subtileza é o leitor chegar a essa conclusão “sozinho”). Claro que nunca entra nos esquemas mentais dos altos sacerdotes do deus mercado que a segurança social nunca foi suposto ser lucrativa ou sequer ser um negócio. Sempre foi suposto ser um encargo que era assumido pelo estado em nome de uma estabilidade social acrescida. Que no fundo se trata de uma questão que sempre foi e deverá permanecer política. É igualmente omitido que em caso de privatização as empresas detentoras dos planos de pensões passam a poder restrutura-los a qualquer altura e que quando forem à falência todos os pagamentos cessam. Não se diz que este cenário, algo negro, já aconteceu em mais que um país que privatizou a sua segurança social. Não se fala nos milhões que ficaram sem pensão estatal e sem pensão privada, literalmente a trabalharem até poderem e até morrerem.

– Porque é que há tantos prédios em ruinas no centro de Lisboa e Porto? Aqui o vilão na história dos nossos rebeldes é o congelamento dos arrendamentos que passa a ser culpado pela decadência urbanística. Que a esmagadora rendas já não reflictam essa distorção, que as pessoas ainda afectadas essencialmente não têm como sustentar qualquer tipo de “preço de mercado” não entra na equação. Os novos sem abrigos não membros produtivos da sociedade e como tal não merecem uma só palavra. São remetidos ao mesmo silêncio dos pensionistas em regime privado que ficaram sem nada. Numa nota particularmente perversa o exemplo de fundos que detêm propriedades é obviamente público, esquecendo claro que os fundos bancários em muito ultrapassam a posse estatal.

– Porque é que há tantos professores e as turmas têm alunos a mais? Aqui foge, um pouco, a boca para a verdade aos nossos nobres curas conservadores. De facto há muitos professores em situação irregular que não têm horários dignos desse nome. De facto há professores em funções de administração que deveriam ser desempenhados por burocratas. Mas falta dizer que tudo isso foi consequência das reformas para “racionalizar o sistema de ensino”. Que o interesse servido em tais reformas não foi, como é dito, o dos professores mas o sim o de privados que ganham com a desvalorização do serviço público. Mas enfim, isso afecta apenas quem colocar os filhos no público portanto também vai para o mesmo tumulo silencioso que os pensionistas depauperados e sem abrigo.

Como vê caro leitor em pouco mais de cinco minutos de vídeo foi possível simplificar e distorcer situações relativamente simples ao ponto de alterar radicalmente a perspectiva de qualquer cidadão menos dado à reflexão por conta própria. Ainda está seguro que está a obter uma análise séria e realista por parte de comentadores institucionais e/ou “rebeldes”?

Ownership

Que me perdoem os puristas da língua portuguesa pelo anglicismo mas esta palavra é de facto o melhor termo para descrever aquilo que me trás aqui hoje – e se não perdoarem podem fazer todos birra durante o chá das cinco no Grémio Literário ou no Clube Maçónico mais próximo. Ownership, o sentido de propriedade. De que algo nos pertence. Não necessariamente num sentido totalitário mas antes numa interpretação mais participativa. Somos parte interessada e responsável sobre algo. É algo que falta em quase todas as esferas da sociedade portuguesa. Ninguém se sente responsável por nada mesmo quando é algo que lhe afecta o dia-a-dia. E sim poderemos argumentar, com algum sucesso diga-se, que quase cinco décadas de ditadura combinadas com um pesadíssimo legado histórico inquisitorial fizeram do povo português extrariamente pouco participativo ou disponível a envolver-se. Mas isso seria uma saída muito fácil. Uma mera entrega a um falso fatalismo histórico que esconde uma recusa muito mais consciente de qualquer envolvimento pessoal. O nível de desinteresse do eleitor (mais uma vez recuso-me a usar a palavra cidadão, a maioria não o são de facto) é inaudito quando comparado com países de desenvolvimento comparável. É como se nada afectasse directamente o eleitor fora das portas da sua casa. O que leva todo e qualquer estrangeiro que passe uns tempos por cá a fazer sempre a mesma e inevitável pergunta quando vê a mão descuidada com que partidos, governo, tribunais e empresas governam este país: vocês não querem saber? Mas é o vosso próprio interesse e destino?

"Um povo corrompido não pode tolerar um governo que não seja corrupto"

“Um povo corrompido não pode tolerar um governo que não seja corrupto”

Eu estou na minoria em Portugal. Concordo com o estrangeiro. É de facto aberrante que o eleitor se consiga abstrair (recorrendo às drogas recreativas do costume: porreirismo, círculos familiares, consumismo, virtualidades, colaboração activamente na neutralização de formas de protesto, entre outras) ao ponto de rigorosamente nada, com a possível excepção da destruição total da cidade onde habita (desde que afectasse o seu bairro claro), lhe parece causar qualquer tipo de impressão emocional ou intelectual. É sinal de uma falta de investimento pessoal nas instituições e no país que brada aos céus. De uma incompreensão de como as instituições cívicas têm que funcionar que parece impossível nos dias modernos – é como se gerações inteiras nunca tivessem tido contacto com o legado grego ou romano que nos define. Mas, talvez a situação se torne mais compreensível quando começamos a analisar o espectro político tradicional português. À direita quer-se que as instituições cívicas falhem. De forma muito simples é isso. Toda a mudança causa indigestão. Ressente-se o papel libertador do individuo que o estado (quase sem querer) desempenhou e a cruzada deste sector é “provar” que o estado é maligno para poder devolver o poder às instituições totalitárias tradicionais: o patrão todo-poderoso e a o poder religioso apoiado por reconhecimento político. Nesse sentido a doutrina que sai destes púlpitos é uma apenas: confundir qualquer comportamento cívico com uma espécie de colaboracionismo com instituições desacreditadas publicamente sendo a solução lentamente dissolver tudo até o poder cair de podre no sítio do costume. À esquerda o caso torna-se ligeiramente mais surreal porque o conceito de “ownership” ou posse tem conotações, na mente dos ideólogos, com o projecto de Thatcher que usando essa mesma palavra como slogan e arma de arremesso à unidade britânica acabou por servir-se dela para encobrir a transferência de uma enorme fatia dos custos sociais, que eram garantidos pelo estado, para as classes britânicas mais pobres – que literalmente se viram obrigadas a pagar os “seus próprios apoios” através de esquemas de privatização de habitação, saúde, água, gás, transporte e ensino. As marcas na esquerda europeia foram profundas (e tinham mesmo que ser já que o processo foi exportado e na sua essência define a “terceira via” dos anos 90 e 00) e permanecem dolorosas até hoje. Impedindo-os de distinguir o que é um saudável sentimento de posse da nossa própria sociedade e das instituições públicas (a vida pública) do que é a mão fria da “providência” do deus mercado e da indiferença para com quem ficou pelo caminho. De qualquer forma esforços para envolver civicamente os eleitores são igualmente anátema deste lado.

Um por todos e... *suspiro*...

Um por todos e… *suspiro*…

Isto, como sempre, sobra para o eleitor que se quer (e deveria) transformar em cidadão. Vê-se preso à bagagem histórica do país e ainda tem que carregar a ideologia de dois sectores ideológicos que provavelmente lhe são tão queridos como uma ténia a um cão. Mas preso ou não preso só este eleitor que quer ser cidadão é que pode quebrar este bloqueio. Não sendo sugado para o eixo da disfuncionalidade: partidos, governo, tribunais e empresas. E Impedindo que lhe martelem conceitos ideológicos que têm poucas bases na realidade e vindos muitas vezes de quem há muito se acomodou com este estado de coisas tendo atingindo um certo nível de conforto. Só quando o eleitor quiser o manto da cidadania e reclamar as instituições como suas, recusando os mecanismos viciados que foram colocados ao seu dispor, poderá ter verdadeiramente voto.

A vida política e a alternativa

A vida política (mesmo para o cidadão não envolvido) cansa. Pela completa previsibilidade do auto-interesse e cupidez dos agentes. Desespera. Pela estupidez e falta de preparação de um povo cuja maioria não seria capaz de eleger uma comissão de condomínio decente nos seus melhores dias. Desanima. Pela insistência uma e outra e outra (e outra e outra e outra….) vez nos mesmos erros e padrões sem que se aprenda que, no mínimo, aquela “receita” em particular não funciona. Frustra. Pela falta de quase tudo em termos de aparelhos institucionais. É como viver num prédio que se esqueceram de demolir… o elevador social deixou de funcionar há 3 décadas, as protecções das escadas já deram de si, etc. Falta-lhe substância. Como a cultura cívica e política anda mais rasteira que um anão com dores de costas o debate (sinto-me corar até à alma por ter a coragem de chamar aos grunhidos debate) fica-se pelo insulto mais pessoal, transparente e previsível. Quando a providência nos agracia com pouco mais que isso ficamo-nos pela repetição estática de números que todos sabem ter sido adulterados e retrabalhados, opiniões recicladas fora de contexto e ninguém (nem mesmo quem tem esse trabalho – sim vocês jornalistas acima de todos) contesta, acenam de forma bovina com as cabeças não enganando ninguém que não estivesse já predisposto a sê-lo. A sensação permanente de deja vu é suficiente para deixar qualquer um indisposto. Políticos que são empresários, empresários que comentadores, comentadores que são políticos, políticos que são reguladores, enfim em 150 nomes fica feita a festa da “democracia” que existe.

"Em todas as lágrimas há uma esperança"

“Em todas as lágrimas há uma esperança”

Ninguém deve considerar meter-se nisto a seco nem com um fato hazmat! Daí que tenhamos que ser cuidadosos ao abordar (e mesmo mudar!) esta aberração mutante que dá pelo nome de vida política. Agora uma coisa vos digo: é possível. Não como as pessoas imaginam ou foram ensinadas a pensar. Não da forma que as mentes medíocres, que nos dominaram no passado, alguma vez tenham ousado sonhar mas uma coisa prometo ao leitor, é possível. Palavra de quem já o viu acontecer,

Portugal, a Europa e a Modernidade

Idealmente a ideia de uma cultura partilhada a nível europeu é apelativa a qualquer pessoa que tenha um mínimo de sentido de história. Como nações, povos, culturas e seres humanos interagimos há tanto tempo uns com os outros que não me ocorreria nada de mais natural que embarcar num projecto de alguma integração a nível continental, especialmente a partir da segunda metade do século XX. O problema, que só se começou a manifestar décadas mais tarde, sempre foi a questão da integração. Quem deveria fazer parte do clube e quem não faria sentido ser convidado. Mas o projecto europeu, como a maioria das ideias que parecem funcionar bem, foi esticado até ficar permanentemente deformado. De uma ideia igualitária fomos entrando numa Europa de níveis. De um projecto de cultura comum foram aceites povos que nem tinham começado a digerir a modernidade (incluindo Portugal) acabando por criar desfasamentos que até hoje permanecem por resolver. De uma cultura de cidadãos derivámos numa cultura legalista – devido em grande parte à dificuldade de educar cidadãos em grande escala mas também devido à falta de interesse que todos os países que se juntaram ao núcleo mostraram pelos esforços necessários para atingir fins verdadeiramente exaltados.

"Things fall apart; the centre cannot hold" - William Butler Yeats, The Second Coming, 1919.

“Things fall apart; the centre cannot hold” – William Butler Yeats, The Second Coming, 1919.

Será verdade que o sistema económico terá desempenhado um papel de exacerbamento de tensões mas, em última análise, não as criou. Está em voga ver as tendências da ideologia económica agressiva da Comissão Europeia como principio, meio e fim dos problemas que afligem a União. Mas nada podia estar mais longe da verdade. A guerra económica é uma realidade mas não teria efeito se não tivesse encontrado um solo fértil em desunião, ressentimentos e diferenças profundas de sensibilidades. Desunião que sempre esteve presente (basta pensar nas questões ligadas à emigração) e foi sentida cada vez mais desde a implementação do euro. Que criou oficialmente dois escalões de pertença e levou a um processo de inevitável acumulação de riqueza no centro e esvaziamento económico da periferia. Os ressentimentos não são menos graves que no passado nem se resumem a estereótipos irracionais de cada nacionalidade, são os interesses divergente das várias nações (reconhecidas ou não como tal) a serem forçadas num mesmo molde quer queiram ou não. Uma certa historiografia germanófila usa, e abusa, do exemplo da ocupação francesa e belga do Rhur, entre 1923 e 1924, para justificar parte do ódio nascente na Alemanha pós-guilhermina, e de certa forma criar um dos, muitos, escapes morais para evitar a culpa colectiva pelo que foi o terceiro reich e moralizar a sua recente ascensão. Curiosamente os mesmos “intelectuais” (chamemos-lhes antes detentores de cátedras universitárias, de “spots” como comentadores televisivos ou ambas as coisas) falham em traçar o mesmo elo de ligação quando se humilha um país que deu sangue pela sua independência como a Grécia (e que curiosamente resistiu à agressão alemã antes) ou se destrói o orgulho espanhol sem pensar. Não espero convencer ninguém da verdade destes factos, apesar de serem evidentes por observação, pois conheço a mentalidade portuguesa. À direita apenas aplaudirão a crítica à União enquanto pensarem que implica uma rejeição total da modernidade e da mentalidade cosmopolita. À esquerda apenas aplaudirão se acreditarem que se está a fazer uma crítica radical ao sistema económico sendo a imaginária fraternidade europeia sacrossanta. E ao centro nunca aplaudirão algo que mude de forma tão radical o “status quo”. É demasiado ameaçador ter que encarar as falhas europeias. É demasiado aterrador perceber o vazio total do projecto europeu tal como ele existe (que repito, é o único que este país teve em “democracia”). Algo teria que mudar e isso é pura e simplesmente inaceitável. Quase, senão mesmo, criminoso por expor o esqueleto do sistema à observação dos “comuns”.

"'O que fazer?', é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer; ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações." - Lev Tolstoi

“‘O que fazer?’, é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer; ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações.” – Lev Tolstoi

E assim entramos no problema mais profundo de Portugal em particular.  A questão da modernidade e a sua relação com o português médio. Não é tema novo, basta requisitar um livro sobre o renascimento europeu para perceber que o nosso atraso é congénito. E isso foi apenas o prelúdio para quinhentos anos de atrasos e falhanços (como honradíssimas excepções por parte de homens e mulheres que deram de si, por vezes literalmente, para fazer este povo evoluir). O iluminismo teve uma breve hipótese de começar a brilhar com Pombal mas foi sufocado pelo Portugal tradicional. Bafiento, conservador, ignorante e fanático, esse Portugal, encarnado na monarca louca que pôs fim à carreira do marquês, nunca quis entrar no mundo real, ou se quer admitir que as questões pudessem ser mais  complexas que aquilo que o seu entendimento, quase-medieval, atingia. Mouzinho da Silveira tentaria mais tarde fazer o país reentrar no seu século mas sem sucesso, a mudança necessária provou ser demasiado vasta e a sua personalidade demasiado franca acabando mais uma vez por ser afastado por um herdeiro não distante de Maria I, a louca. Avançando mais um pouco entramos no fenómeno ainda hoje pouco conveniente da aceitação do Estado Novo e do conforto que foi para um país atrasado que nunca se quis verdadeiramente revoltar contra o seu senhor – que até na demência conseguiu reter a coroa. Não tenhamos ilusões. É uma história de resistência constante da parte menos ilustrada, e rural (não é acidental a desproporcionalidade da representação do interior profundo durante o regime salazarista), da nossa nação ao mundo, mesmo quando lhe demonstram a barbárie do seu comportamento. Pensou-se que meia dúzia de anos de voto universal e algum bem-estar efémero traria realmente uma mudança profunda? As coisas correm mais profundamente que isso. A discussão económica, o verniz partidário e a pertença religiosa (católica ou maçónica, é indiferente) obscurecem tais coisas mas os sentimentos são os mesmos. A não-responsabilidade. A não-cidadania. Mais que tudo a nação sente-se oprimida por si própria. Incapaz de tomar decisões, como sempre, e igualmente incapaz de aceitar as consequências que outros tomem decisões por si. Como venho a repetir desde há algum tempo, o país é um gigantesco não-projecto sem solução credível.

Economia Total

Há episódios caricatos que colocam a nu a lógica dominante do nosso mundo e que nos mostram a disfuncionalidade em que caímos como seres humanos (se é que ainda somos tal coisa). O ministro das finanças japonês propõe-se a relançar, o que parece ser, uma nova versão do programa “Aktion T4” e afirmou categoricamente que os idosos doentes deveriam morrer rapidamente de forma a não se tornarem um fardo para a economia nipónica. É curioso notar que mais uma vez é alguém da área das finanças que tece comentários desta natureza. Em Portugal o desmantelamento dos cuidados de saúde é silencioso, apesar de igualmente eficaz, mas já tivemos, recentemente, uma ministra das finanças que achava que a solução ideal para o país seria suspender a democracia – dado que não vivemos bem numa democracia penso que ela se referiria apenas ao voto periódico e à latitude da liberdade de opinião, da possibilidade de publicamente discordar dela. Parece que os técnicos de contas têm uma propensão especial em desumanizar os seus concidadãos, seja cá seja nos antípodas. São os representantes de uma espécie de anti-humanismo que em vez de colocar o Homem como medida de todas as coisas coloca o balancete como medida de todas as possibilidades. Que o dinheiro seja virtual e não corresponda a recursos reais não parece ser importante, que o equilíbrio destes fundos imaginários requeira o sacrífico (literal) de milhares de pessoas como eles parece ser irrelevante e que tais acções não cumpram qualquer objectivo além do equilíbrio do irreal, sem nunca nos encaminharmos para um objectivo concreto, não perturba o seu delicado sono.

Proskynesis é obrigatória perante o nosso deus.

Proskynesis é obrigatória perante o nosso deus.

Estes “Einsatzgruppen” contabilísticos formam uma espécie de ponta de lança burocrática de uma ofensiva ideológica que visa desumanizar os excluídos (presentes e futuros). A divisão da sociedade de forma hierárquica e formal entre os que têm e os que não têm. Não se trata de uma mera questão de riqueza material já que esse elemento é ultrapassado de longe por questões de pertença social aos grupos certos (famílias, empresas, cultos, clubes de campo, etc) – basta fazer ruma leve pesquisa e ver quem dirige todo o tipo de organizações (departamentos do estado, partidos políticos, empresas, ONGs, etc) em Portugal para perceber que estamos perante um pequeno grupo fechado sobre si mesmo ao ponto de ser endogâmico (para não perder a pureza da “raça”?). As suas ofensivas sempre foram dentro de um estilo “Shock and Awe” ou “Blitzkrieg”, ou seja, um ataque repentino, de extrema violência, concertado em todas as frentes, que deixa os indivíduos e as forças sociais sem capacidade para responder adequadamente. Levando inevitavelmente à perda de grandes direitos e garantias, segurança e mesmo, como podemos ver pelo exemplo japonês, a própria vida. Quando o fumo da guerra se levanta podemos ver o que sobrou das nossas sociedades… o espectáculo não é bonito. Empobrecidos, desesperados, condenados, não-Humanos (“Untermensch”). É este o resultado da Economia Total que estas forças de agressão desencadearam. Os poucos que forem poupados servirão lealmente o novo sistema já que por motivos irracionais pensam a situação privilegiada terá sido um reconhecimento da sua excepcionalidade e não ou um acidente de percurso ou fruto de uma necessidade temporária. Temos aqui os novos elementos da nossaJüdische Ghetto-Polizei“.

Os "sortudos" que querem acreditar que não fazem nada de mal ao colaborar. Aos que estiverem nessa posição reparem que a braçadeira do comandante colaboracionista tem uma estrela de David e não uma suástica...

Os “sortudos” que querem acreditar que não fazem nada de mal ao colaborar. Aos que estiverem nessa posição reparem que a braçadeira do comandante colaboracionista tem uma estrela de David e não uma suástica…

Confrontados com um cenário desta natureza penso que é justo perguntarmos que é feito da população? Estão realmente de acordo com isto? Estarão realmente tão iludidos que não acreditam que um destino semelhante os aguarde? Pode ainda existir alguém ignorante ou inocente (e o que é a inocência senão uma forma de ignorância?) o suficiente para acreditar nas boas itenções desta guarda ideológica avançada? Depois dos estragos já causados, da intransigência mostrada ao longo de décadas (com tendência clara a acelerar rapidamente), do fanatismo aos modelos de hierarquia tradicionais (quase pré-1834) ainda alguém pode esperar que haja uma inversão de rumo? Tenho alguma dificuldade em acreditar nisso. É mais credível interpretar a obsessão nacional com comentadores com conflitos de interesses, com a participação em manifestações sem exigências concretas e com as formas de “participação“ social virtuais como uma recusa em entrar no combate real. É pena porque por muita satisfação que retirem dos seus pequenos e insipidos actos de “revolta“ o seu efeito é praticamente nulo.

Open war is upon you whether you would risk it or not”

O voto infantil

O tema posto em cima da mesa nos últimos dias parece ser o do voto aos 16 anos o que, admito, desperta reacções quase viscerais em mim. De repulsa. Não estou certo que aos 21 a maioria esteja pronta para votar, quando mais cinco anos antes disso! Além de que arrasta a esfera democrática (e a percepção popular) ainda mais para a dimensão do “ter democracia é ter voto”. Sem ter em conta nenhum outro factor, como independência face ao grupo, direitos humanos e cívicos, protecção na vida quotidiana, segurança básica (quer física quer “existencial” – por exemplo, ter a certeza que a família ainda lá vai estar amanhã porque não morreu de fome ou foi forçada a emigrar), entre muitos, muitos outros temas que deveriam ser discutidos e que são a base de qualquer sistema de governo Justo. O voto por si só concede uma falsa liberdade. Falsa porque, além de nada garantir sobre os temas acima mencionados, nada diz sobre a credibilidade do próprio processo antes ou depois do acto de votar. O que adianta votar num sistema dominado por aparelhos partidários? O que adianta votar num sistema que tem uma dinâmica de funcionamento viciada? Debater este tema é uma fuga para frente. Não se reforma o sistema e torna-se as suas bases ainda mais frágeis.

"All change is not growth, as all movement is not forward."

“All change is not growth, as all movement is not forward.”

Esta erosão do nosso sistema de governo e de equilíbrio de poderes (não entre ramos do governo mas entre facções da sociedade) faz parte de um conjunto de medidas que eu denomino a “virtualização da vida”. Tudo o que nos foi ensinado a esperar está teoricamente garantido mas é pragmaticamente impraticável ou inoperante. A saúde é “tendencialmente” (termo odioso e perverso que serve para falsificar o que se lhe segue) gratuita mas a realidade é que o nosso direito à vida em si está a ser condicionado à margem de lucro de entidades amorais. Atente-se a gravidade do que se está a afirmar: há pessoas a morrer pela conta bancária de outros. O mesmo se passa com o ensino, o resultado previsível será a estabilização de graduados num nível bastante mais baixo que o actual tendo acesso às posições chave quem pode pagar uma boa educação, ou seja as famílias do costume. Não é uma reforma do ensino ou sequer uma mera privatização, é a hierarquização de toda uma sociedade desde a idade de inicio da socialização humana. A justiça é outro exemplo gritante onde teoricamente temos um recurso a um meio não violento de resolução de disputas mas na prática não possuímos mais que um sistema burocrático que acaba em becos sem saída para quem não é do nível social ou económico correcto – uma justiça que de cega nada tem. O ignorar de todos estes problemas e dar prioridade ao tema do voto infantil é mais que insultuoso. É maldoso. É tentar definir a democracia, a liberdade e o comportamento cívico segundo novos parâmetros. Que de tão limitados que são acabam por ser apenas uma formalidade a cumprir para as elites que já têm vantagens naturais.

"There is a lack of critical assessment of the past. But you have to understand that the current ruling elite is actually the old ruling elite. So they are incapable of a self-critical approach to the past."

“There is a lack of critical assessment of the past. But you have to understand that the current ruling elite is actually the old ruling elite. So they are incapable of a self-critical approach to the past.”

Indo ao fundo da minha alma para tentar encontrar algo de bem-intencionado neste tema consigo apontar apenas um, possível, aspecto positivo. O facto de alguém aos 16 anos ser indiferente (na maior parte dos casos) aos interesses estabelecidos. Ainda não tem um emprego onde é pressionado e formatado, não foi para a faculdade onde foi categorizado na sua caixinha, tem uma certa mania que é independente o que pode levar a votos menos racionais mas ocasionalmente mais justos. Mesmo assim temos que admitir que isso não compensa o contribuir para a continuação da desvirtuação da democracia ou a completa imaturidade do eleitor em questão. Sendo verdade que há pessoas que nem aos 40 a têm, o objectivo deve ser incutir o máximo de responsabilidade ao eleitor. Mais depressa se iria obter isso com limitações ao voto (não censatárias ou arbitrariamente discriminatórias) do que com a sua extensão. O corpo de cidadãos tem que ser melhorado em qualidade e não quantidade. A insistência na segunda opção, da quantidade, foi o que nos deixou neste estado e é o que coloca em risco tudo o que foi conquistado desde a queda do ditador.

Ainda não é o fim do ciclo

A vida política portuguesa tem ciclos bastante bem definidos. Para quem conheça um pouco o funcionamento da “coisa” não será surpreendente ler que nenhum partido ganha eleições. São os governos e os ministros que caem de podre. É do traço psicológico nacional ficar agarrado à cadeira até se cair dela (provavelmente numa imitação metafórica inconsciente do ditador que nos governou quatro décadas) – a excepção sendo os que vão com missão económica definida, ou seja, já entram para um governo com missão incumbida por um grupo económico “patrocinador”; nesses casos tendem a sair assim conseguiram cumprir aquilo para que foram “contratados”.

Cuidado com o "reformismo"....

Cuidado com o “reformismo”….

Apesar dos ameaços que temos visto nos últimos dias o ciclo presente ainda não chegou ao fim. Por muito que custe admitir a quase todos nós estes senhores, com a sua falsa tecnocracia, ainda têm alguma margem de manobra junto de uma população algo inculta e deslumbrada com a “técnica” (ou a aparência dela) e com os altos cargos de outros órgãos do país – esqueceram-se todos que preservámos uma grande parte do antigo regime e que essas pessoas têm preferências claras que não coincidem com as do cidadão vulgar. Já para não falar da carta da “estabilidade” que podem sempre acenar para manter a parte mais tíbia do eleitorado temerosa… “não podemos sair senão seria o caos, não podemos mudar de plano senão os mercados devorar-nos-iam”. Parece patético mas funcionou na Grécia – não que tenha qualquer preferência especial pela Syriza mas a verdade é que fariam melhor serviço que quem lá está agora (pelo menos tenho a certeza que não abafariam os crimes económicos de uma elite).

Repetir sistematicamente a mesma acção e esperar resultados diferentes é a definição de loucura.

Repetir sistematicamente a mesma acção e esperar resultados diferentes é a definição de loucura.

Ainda há acrescentar que há coisas planeadas vitais, para a ideologia de quem os controla, que ainda estão na calha. A redução, ainda maior, do rendimento disponível médio. A redução da protecção laboral. E acima de tudo as sagradas privatizações que restaurarão milagrosamente a boa saúde económica do país. Se estivesse particularmente mal disposto diria ainda que o principal partido da oposição joga apenas um bluff. Que a última coisa que quer é assumir o poder nestas condições. Caso tal venha a suceder, num futuro a médio prazo, não se percebe o entusiasmo de alguns sectores populares já que os compromissos assumidos foram os mesmos que o actual governo. A forma de governar anterior foi a mesma (menos extremada é verdade mas de efeitos de longo prazo iguais). Portanto para todos os que já gritam “mudança”, lembrem-se da diferença entre forma e essência e preparem-se para um 2013 economicamente ruinoso, socialmente restaurador de 1973 e moralmente falido. Boas entradas.

Do amor do dinheiro

O pobre comendador Berardo (apenas metaforicamente) vem a público (“no pun intended”) dar novas de uma horrível praga que assola a terra. Aparentemente os ricos estão a ser perseguidos. Segundo esta fonte fidedigna, haverá de facto uma horrível perseguição aos ricos neste país maldito que não reconhece o seu imenso valor social e imenso espírito caridoso. O empresário não é de meias palavras e ameaça mesmo seguir o conselho que o governo deu aos jovens desempregados licenciados e emigrar para paragens mais tolerantes para com os que padecem da infelicidade de serem pecuniariamente “pesados”. Só tenho três problemas com este raciocínio. Em primeiro lugar o comendador não é jovem, em segundo, que eu saiba, não é licenciado e, em terceiro, não está no fundo de desemprego. Tirando isso saúdo a comparação brilhante estabelecida por este visionário. Não haverá para aqui um Oskar Schindler para salvar esta gente das sevícias de que é vítima todos os dias nas melhores habitações, lojas e restaurantes que o mundo ocidental tem para oferecer?

Não sei se conseguiremos...

Não sei se conseguiremos…

É curioso que fale que alguém (não sabemos bem quem – “eles” à falta de melhor definição) que queira impor a visão que ser rico é pecado… eu, admitindo à partida que não pertenço a um corpo de investigação policial, penso ter uma leve ideia sobre quem pode ser o culpado, pois dei com um panfleto sedicioso que afirma a seguinte alarvidade “Mas os que querem ser ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína” (Timóteo 1:6:9). Será que uma colecção de arte privada avaliada em mais de 750 milhões de euros pode ser considerada uma “concupiscência louca e nociva”? Será que para evitar a perdição e ruína de que fala o texto o comendador sempre quis dividir o custo do “presente” com o resto dos portugueses?

Mas, os mesmos conspiradores anti-sociais, vão ainda mais longe…. “Porque o amor do dinheiro é raiz de toda a espécie de males…” (Timóteo 1:6:10). Não vão lá ver que não são mesmo fãs dos que amam a riqueza (sabem… os ricos…)!? Parece que se não é pecado anda lá perto. Estão descobertos os culpados. Parecem ser cerca de dois milénios de cultura cristã que até recentemente, apesar das suas muitas falhas, vícios e loucuras, ainda tinha mantido algum respeito pelo homem comum. As suas organizações podem estar, na sua maioria, moralmente falidas mas a mensagem parece que ainda tem ecos poderosos cá dentro. Talvez por grande parte dela apelar à nossa ética inata.

Não acontece muito mas há quem ainda tenha...

Não acontece muito mas há quem ainda tenha…

Caso não se queira travar batalhar contra tal “inimigo” o comendador e os restantes oprimidos poderão sempre emigrar (em primeira classe numa TAP já privada claro – isso do público é para perigosos dissidentes que lêem escritos judaicos de há 2000 anos). Em última análise a sua queixa é que pagam impostos pelo que qualquer resultado aceitável implicaria sempre não pagarem impostos. Nesse caso se de qualquer forma não pagam então não querem fazer parte do tecido social do país e devem realmente sair. E as suas empresas devem a partir desse momento ser tratadas como o que são, capital estrangeiro.

Em tempos idos

Houve alturas da minha vida em que me teria dado ao trabalho de criar uma grande contra-argumentação, de várias páginas provavelmente, contra a hipocrisia de se criar uma política de concentração de poder e riqueza na mão de uma elite económica ao mesmo tempo que se mantém um discurso próximo do populismo. Houve tempos desses. Actualmente já estou demasiado prevenido contra a inutilidade de tais esforços. O povo quer ouvir os comentadores do costume, impolutos por um intelecto próprio, a tentar espremer conteúdo de discursos que já de si nada tinham. Somo um povo ainda em grande medida “simples”. Gostamos de quem “fale bem”. Ou de forma menos simpática, como população, temos uma incapacidade crónica de distinguir entre forma e substância.

sistema js

Igualmente ilusória seria a militância fervorosa a favor de quem se diz oposição mas tudo partilha com esta visão elitista do mundo. Eles não são alternativa. Nunca foram. O regime foi construído por todos e não há espaço para dissensão. Os extremos saudosistas são para considerar apenas como uma fábula, ou seja, para efeitos de educação moral – para os que já não se lembram ou nunca conheceram o passado. Entre as muitas enormidades, loucuras e crimes que vão “propondo” (palavra simpática para quem só sabe gritar e agredir não é?) ficam os fantasmas de mil morticínios evitados pela feliz falta de coluna vertebral dos portugueses.

Assim sendo espero no meu enclave. Observar é tudo o que deve ser feito. Esperar que algumas pessoas se lembrem da dura realidade que só podemos contar uns com os outros. Que as elites serão a nossa morte. Que a “escolha” é apenas aparente. E que as regras só têm que ser estas porque esmagadoramente elas são mantidas pelo tal povo que se diz oprimido e agrilhoado.

Indiferença

A opacidade do sistema de holdings que operam em offshore está mais que comprovada e só continua a funcionar por duas razões: 1) Dá muito jeito a milionários e aos políticos que para eles esperam vir a trabalhar e 2) A população não quer saber. A segunda é, na minha opinião, bastante mais grave que a primeira. O primeiro ponto decorre apenas do interesse pessoal que a lei propositadamente ignora (e foi construída para tal, para ignorar conflitos de interesse). A segunda razão no entanto já aponta para responsabilidades para quem tanto se queixa do sistema e dos esquemas que podem ser montados à sua sombra. A própria população.

Problemas? Não, nao me parece. Vai uma fresquinha?

Problemas? Não, nao me parece. Vai uma fresquinha?

Nenhum regime ou governo pode funcionar sem o apoio tácito do seu povo. A não ser em casos de repressão extrema e mesmo nesses a coisa costuma ter prazo de validade. A conclusão lógica é que isto não preocupa realmente os portugueses. Fazem algum barulho é certo mas no fundo são bastante tolerantes de todas as práticas relacionadas com elisão, evasão fiscal, falta de transparência comercial e mesmo com a corrupção – basta ver que o país sofre destes males a nível transversal, não é algo que se concentre apenas no topo (lá nota-se mais porque espera-se maior ética e porque as somas são maiores). Não são exigidas penalizações exemplares porque tal não é considerado apropriado pelo povo. Não são exigidos meios para cumprir as leis que já existem porque no fundo ninguém se parece sentir lesado.

Estão todos preocupados.... com alguma coisa... ainda não é claro o quê...

Estão todos preocupados…. com alguma coisa… ainda não é claro o quê…

No caso da privatização da RTP os ingredientes são muitos e variados do lado a favor da privatização. Mistura-se o fervor da crença no deus mercado, o desejo de apagar todo o legado pós-Salazar de independência de informação, as redes de influências de quem controla os aparelhos partidários e ainda os esquemas de organização privados das empresas concorrentes. A Newshold, que pelo que nos é dado a conhecer pela imprensa parece ter ganho por antecipação, foi a primeira a emitir comunicados a condenar empresas que ocultassem os verdadeiros detentores dos seus capitais e como tal seria de esperar que alguém no mundo político os forçasse a cumprir as suas próprias palavras e revelar a sua estrutura em pleno. Pela boca morre o peixe.

Mais estranho que tudo isto é não existir um grupo de cidadãos que repare que, para além de não se ter sido discutido (quando mais debatido ou votado) a alienação em grande escala do que são para todos os efeitos bens públicos pago por todos nós (e que nos virão a fazer falta nos próximos anos), não parece existir qualquer problema legal ou político em que o Estado aceite que empresas que não sabemos a quem pertencem ou quem as gere concorram à compra de propriedade pública. Especialmente um tipo de propriedade que permite um efeito de controlo social sobre a informação ao poder sufocar ou inundar os canais com informação “perigosa” ou “útil” conforme a avaliação do interesse económico de desconhecidos.