Portugal, a Europa e a Modernidade

Idealmente a ideia de uma cultura partilhada a nível europeu é apelativa a qualquer pessoa que tenha um mínimo de sentido de história. Como nações, povos, culturas e seres humanos interagimos há tanto tempo uns com os outros que não me ocorreria nada de mais natural que embarcar num projecto de alguma integração a nível continental, especialmente a partir da segunda metade do século XX. O problema, que só se começou a manifestar décadas mais tarde, sempre foi a questão da integração. Quem deveria fazer parte do clube e quem não faria sentido ser convidado. Mas o projecto europeu, como a maioria das ideias que parecem funcionar bem, foi esticado até ficar permanentemente deformado. De uma ideia igualitária fomos entrando numa Europa de níveis. De um projecto de cultura comum foram aceites povos que nem tinham começado a digerir a modernidade (incluindo Portugal) acabando por criar desfasamentos que até hoje permanecem por resolver. De uma cultura de cidadãos derivámos numa cultura legalista – devido em grande parte à dificuldade de educar cidadãos em grande escala mas também devido à falta de interesse que todos os países que se juntaram ao núcleo mostraram pelos esforços necessários para atingir fins verdadeiramente exaltados.

"Things fall apart; the centre cannot hold" - William Butler Yeats, The Second Coming, 1919.

“Things fall apart; the centre cannot hold” – William Butler Yeats, The Second Coming, 1919.

Será verdade que o sistema económico terá desempenhado um papel de exacerbamento de tensões mas, em última análise, não as criou. Está em voga ver as tendências da ideologia económica agressiva da Comissão Europeia como principio, meio e fim dos problemas que afligem a União. Mas nada podia estar mais longe da verdade. A guerra económica é uma realidade mas não teria efeito se não tivesse encontrado um solo fértil em desunião, ressentimentos e diferenças profundas de sensibilidades. Desunião que sempre esteve presente (basta pensar nas questões ligadas à emigração) e foi sentida cada vez mais desde a implementação do euro. Que criou oficialmente dois escalões de pertença e levou a um processo de inevitável acumulação de riqueza no centro e esvaziamento económico da periferia. Os ressentimentos não são menos graves que no passado nem se resumem a estereótipos irracionais de cada nacionalidade, são os interesses divergente das várias nações (reconhecidas ou não como tal) a serem forçadas num mesmo molde quer queiram ou não. Uma certa historiografia germanófila usa, e abusa, do exemplo da ocupação francesa e belga do Rhur, entre 1923 e 1924, para justificar parte do ódio nascente na Alemanha pós-guilhermina, e de certa forma criar um dos, muitos, escapes morais para evitar a culpa colectiva pelo que foi o terceiro reich e moralizar a sua recente ascensão. Curiosamente os mesmos “intelectuais” (chamemos-lhes antes detentores de cátedras universitárias, de “spots” como comentadores televisivos ou ambas as coisas) falham em traçar o mesmo elo de ligação quando se humilha um país que deu sangue pela sua independência como a Grécia (e que curiosamente resistiu à agressão alemã antes) ou se destrói o orgulho espanhol sem pensar. Não espero convencer ninguém da verdade destes factos, apesar de serem evidentes por observação, pois conheço a mentalidade portuguesa. À direita apenas aplaudirão a crítica à União enquanto pensarem que implica uma rejeição total da modernidade e da mentalidade cosmopolita. À esquerda apenas aplaudirão se acreditarem que se está a fazer uma crítica radical ao sistema económico sendo a imaginária fraternidade europeia sacrossanta. E ao centro nunca aplaudirão algo que mude de forma tão radical o “status quo”. É demasiado ameaçador ter que encarar as falhas europeias. É demasiado aterrador perceber o vazio total do projecto europeu tal como ele existe (que repito, é o único que este país teve em “democracia”). Algo teria que mudar e isso é pura e simplesmente inaceitável. Quase, senão mesmo, criminoso por expor o esqueleto do sistema à observação dos “comuns”.

"'O que fazer?', é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer; ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações." - Lev Tolstoi

“‘O que fazer?’, é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer; ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações.” – Lev Tolstoi

E assim entramos no problema mais profundo de Portugal em particular.  A questão da modernidade e a sua relação com o português médio. Não é tema novo, basta requisitar um livro sobre o renascimento europeu para perceber que o nosso atraso é congénito. E isso foi apenas o prelúdio para quinhentos anos de atrasos e falhanços (como honradíssimas excepções por parte de homens e mulheres que deram de si, por vezes literalmente, para fazer este povo evoluir). O iluminismo teve uma breve hipótese de começar a brilhar com Pombal mas foi sufocado pelo Portugal tradicional. Bafiento, conservador, ignorante e fanático, esse Portugal, encarnado na monarca louca que pôs fim à carreira do marquês, nunca quis entrar no mundo real, ou se quer admitir que as questões pudessem ser mais  complexas que aquilo que o seu entendimento, quase-medieval, atingia. Mouzinho da Silveira tentaria mais tarde fazer o país reentrar no seu século mas sem sucesso, a mudança necessária provou ser demasiado vasta e a sua personalidade demasiado franca acabando mais uma vez por ser afastado por um herdeiro não distante de Maria I, a louca. Avançando mais um pouco entramos no fenómeno ainda hoje pouco conveniente da aceitação do Estado Novo e do conforto que foi para um país atrasado que nunca se quis verdadeiramente revoltar contra o seu senhor – que até na demência conseguiu reter a coroa. Não tenhamos ilusões. É uma história de resistência constante da parte menos ilustrada, e rural (não é acidental a desproporcionalidade da representação do interior profundo durante o regime salazarista), da nossa nação ao mundo, mesmo quando lhe demonstram a barbárie do seu comportamento. Pensou-se que meia dúzia de anos de voto universal e algum bem-estar efémero traria realmente uma mudança profunda? As coisas correm mais profundamente que isso. A discussão económica, o verniz partidário e a pertença religiosa (católica ou maçónica, é indiferente) obscurecem tais coisas mas os sentimentos são os mesmos. A não-responsabilidade. A não-cidadania. Mais que tudo a nação sente-se oprimida por si própria. Incapaz de tomar decisões, como sempre, e igualmente incapaz de aceitar as consequências que outros tomem decisões por si. Como venho a repetir desde há algum tempo, o país é um gigantesco não-projecto sem solução credível.

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A Failed State

Vai ser este o termo como o futuro vai classificar Portugal. Uma comunidade sem projectos próprios que se encontra demasiado fragmentada internamente para fazer frente às ameaças que o mundo do seu tempo apresenta. Com a morte do projecto Europeu não sobra nada a gerações de políticos e empresários (enfim os homens do poder que fizeram a sua escalada nas últimas décadas ou em última medida dependem do status quo para sobreviverem) para apresentarem ao país, tal como ele ainda existe. É verdade que o projecto sombra da Europa ainda paira no ar, a “GrossDeutschland” (grande Alemanha). Mas isso não oferece qualquer posicionamento que não seja uma submissão equivalente à destruição do país como entidade, do povo como cultura e a um posicionamento permanente na periferia desta nova criação política – com o que isso implica, nomeadamente, uma pobreza mantida artificialmente para ajudar as economias centrais. Três gerações de políticos (a mais velha ainda com raízes profundas no Estado Novo) deixaram o país nesta situação de anemia interna. Uma não-entidade. Uma não-população (pode existir numericamente mas falta-lhe propósito e, como tal, o seu significado é nulo). Quase quatro décadas de caminho Europeu desembocaram no vazio. Na autodestruição colectiva da germanização forçada.

The Prussian Coat of Arms 1701

“Gott mit uns”

Não se tome isto como um incentivo à tomada da posição x ou y. Em termos reais a altura de agir passou. O nosso sistema está demasiado contaminado e incapacitado para ser capaz de regeneração interna. Pelo que apenas sobra observar o desenrolar do processo. O nosso futuro está nas mãos do Destino. Se a Europa sobreviver como projecto germânico morremos como Portugal. Simples. Não há espaço para outros projectos, culturas, interesses ou outras formas de viver na actual potência europeia dominante. Se a Europa falhar será desencadeada a maior (não apenas económica) crise mundial da história levando as nações mais frágeis do velho continente para águas que simultaneamente já navegaram mas que não estão prontas para encarar de novo. O mar da realpolitik. De qualquer forma o que conhecemos como realidade existe apenas como passado e ilusão, nunca como futuro. Vejo-me bloqueado no pensamento devido à enormidade do podemos estar prestes a ter que fazer já que mesmo no cenário de frustração da terceira onda de agressão germânica ficaremos à mercê da maior crise energética de todos os tempos, de um défice populacional, de um défice de técnicos, de um défice de pensadores, de um défice de líderes, de um défice de artistas, com feridas históricas não saradas e uma modernidade ainda mal apreendida. Não estamos apenas pobres contabilisticamente. Em todos os factores de “nation building” estamos paupérrimos. E no entanto esta parece ser a alternativa menos agressiva.

Thomas Cole - Destruction - 1836

“Where error is irreparable, repentance is useless.” – Edward Gibbon

Do alto do Enclave a vista é confusa. Muito movimento. Muito fumo. Muito caos anunciado. Poucas certezas que não aquelas mais imediatas. Estará na altura de reforçar as paliçadas. Os bárbaros não estão ainda às portas mas os ex-civilizados são uma horda igualmente assustadora e potencialmente destruidora.

Realidades Democráticas II

Como já mencionei antes a questão da democracia como sistema dominante no Ocidente já viu melhores dias – se quisermos ser particularmente brutais na análise podemos, sem incorrer em exageros, dizer que já nem existe na maior parte dos casos, foi substituída por algo híbrido e menos interligado com o poder popular ou a vontade individual. O desfasamento entre o debate dito político, ou seja, público e que envolve pessoas que nominalmente representam partidos políticos, e a opinião pública é cada vez mais evidente. Quando a segunda é mais “vanguardista” que a primeira é sinal certo que caímos num parlamentarismo que é essencialmente fachada.

"...it is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing."

“…it is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing.”

Prova II – o principal partido da oposição só agora se lembrou que certas medidas são tão violadoras do pacto entre as elites e os governados que, em qualquer sistema minimamente justo, exigem que se consulte as massas sobre a sua aplicação. Não apenas a mera questão constitucional que está em voga ultimamente. Muito antes disso foi ultrapassado o nível onde a governação excedeu o seu mandato (e não apenas neste governo – apesar de necessariamente conceder que os actuais pura e simplesmente perderam qualquer noção de responsabilidade perante a população ou sequer do seu papel e dos limites que deveriam ter).

Moral da Prova II: Como sempre todo o sistema económico e político conta com a normal passividade popular para garantir que depois do estrago feito qualquer mudança que seja feita tenha o menor impacto possível. Para isso tal “mudança” deve revestir-se das formas mais tradicionais possíveis e afastar ao máximo o poder real das mãos de cada cidadão. Daí que há décadas se tente passar a ideia de que a democracia se resume a um voto periódico. Iliba as pessoas de responsabilidades que, na maior dos casos, não querem e garante que a “mudança” será para manter o rumo. Nova gerência mas com os mesmos donos.

O fascínio com os bodes expiatórios

Se há algo que caracteriza os grupos humanos (sociedades, nações, agremiações, clubes de leitura, etc) é a desresponsabilização pessoal. O facto da complexidade social ter aumentado vertiginosamente nos últimos séculos tornou todo o fenómeno mais óbvio e deixou-nos ainda menos prontos a assumir responsabilidades que no fundo achamos que dividimos com mais pessoas. Mas mesmo isso é insatisfatório, já que levado às suas últimas consequências quereria dizer que possuímos de facto responsabilidades (por muito diluídas que sejam em processos de decisão comum ou autoritários) pelas situações que nos rodeiam, pelo que nos ocorre, pelo que acontece aos outros. Isto gera um problema para a mentalidade portuguesa, que é incapaz de assumir os erros cometidos na proporção devida. Vivemos de extremos. Tal como a percepção feminina ainda alterna, na mentalidade popular, entre a virgem e a prostituta também a do cidadão comum tende a alternar entre a do “santo vivo” e o “diabo em pessoa”. Uma democracia não consegue prosperar num pântano mental destes. É impossível. Torna-se extremamente árduo enfrentar os problemas quando não se é capaz de apontar a sua fonte real ou o que é preciso mudar, mesmo que seja dentro de nós, para os corrigir.

Anjos e Demónios?

Anjos e Demónios?

Daí o nosso fascínio nacional com a figura do bode expiatório. Alguém que, independentemente de ser um santo ou um demónio, é forçado a aceitar responsabilidades maiores do que aquelas que lhe cabem realmente. Sim o político é corrupto, nepotista ou incompetente (entre outras coisas) mas quando a população não penaliza eleitoralmente tais comportamentos onde fica a admissão de fraca ética pública por parte da cidadania? O sistema judicial pode não funcionar e estar viciado mas, mais uma vez, onde está a sociedade civil a indignar-se e a agir de forma a penalizar os agentes que a controlam? A necessidade desse alguém que seja transformado num “devorador de pecados” tem um fundo de narcisismo profundo porque rejeita a responsabilidade pessoal e colectiva dos cidadãos naquilo que lhes ocorre. É uma afirmação de que o corpo social é “puro” e que se o purgarmos de alguns elementos maus tudo voltará ao normal. É gritar aos quatro ventos a nossa inocência pessoal. Podemos não ter prestado atenção durante quarenta anos ao que se passava na economia. Mas somos inocentes. Podemos ter continuado a votar sem o mínimo de exigências éticas. Mas somos inocentes. Podemos ter abandonado os nossos concidadãos à sua sorte quando os vimos serem devorados por um sistema económico e social perverso. Mas somos inocentes.

"Purificando" o corpo social.

“Purificando” o corpo social.

O egocentrismo de tal posição torna-se ainda mais gritante quando o pânico se junta à mistura. Quando o inevitável peso de tanta “inocência” começa a afundar uma sociedade complexa começam os pedidos de “justiça” histéricos. Mas não é justiça que verdadeiramente querem. A punição de quem falhou, de quem violou a lei, de quem teve uma ética pública duvidosa é secundária e completamente insuficiente para cumprir o verdadeiro objectivo das “massas inocentes”. O que realmente procuram é a absolvição. A afirmação social que todos os males emanaram daqueles condenados e que todos os outros estão livres de qualquer mácula. A conclusão deste triste ciclo (repetido tantas, tantas, tantas vezes) é a perda do conceito de justiça. Seja ela inflexível ou tolerante tal ideia não tem lugar neste universo mental. E talvez seja essa a verdadeira tragédia. Que a única coisa requerida para apaziguar as consciências seja o sangue de meia dúzia de “pecadores”, caídos dos seus pedestais – aqueles cuja posição permanece intacta continuarão a ser adorados como deuses vivos. Que na pressa, no calor do momento, de se criarem as “listas de proscritos” para afixar no fórum se falhe mesmo em punir toda a culpa, em admitir todas as falhas. Os casos mais gritantes serão talvez eliminados mas as raízes que os permitiram jamais serão arrancadas. Serão as sementes da próxima geração de perversidades que permanecerão intactas enquanto a nossa obsessão for apenas queimar bodes expiatórios na praça pública.

“Não se é menos culpado não fazendo o que se deve fazer do que fazendo o que não se deve fazer”César Marco Aurélio Antonino Augusto.