Uma dor de cabeça artística

Apesar de todas as tentativas de a comercializar, banalizar e, acima de tudo, neutralizar toda e qualquer obra de conteúdo artístico parece que ainda é possível que a arte sirva para a)Criar uma impressão estética genuína e b)Fazer uma afirmação sobre o mundo onde vivemos. Foi o que aconteceu na Rússia quando o artista Konstantin Altunin revelou recentemente a sua obra, “Travesti”. Um quadro que retrata Vladimir Putin e o primeiro-ministro Dmitri Medvedev em lingerie. O Golpe é duplamente brilhante porque por um lado cria uma obra que claramente tem uma tonalidade homoerótica num país que persegue e usa a sua comunidade LGBT como bode expiatório. Na Rússia trata-se de um rótulo de perigo (ou de ainda mais perigo que o normal) a julgar pelos séculos de pogroms e exílios para campos de concentração – ou nas versões menos públicas os encerramentos compulsivos, sem ordem médica ou judicial credível e independente, em instituições psiquiátricas até que um infelizmente incidente ponha termo à vida do dissidente. Por outro lado morde ironicamente contra toda a propaganda do que é um regime totalitário e imagem híper máscula que Putin construiu para si – passeios a cavalo em tronco nu, actividades ao ar livre rotineiramente “noticiadas”, enfim um verdadeiro Rambo moscovita.

Numa nação que se sentiu orfã começamos a entender Freud: "I cannot think of any need in childhood as strong as the need for a father's protection"

Numa nação que se sentiu orfã começamos a entender Freud: “I cannot think of any need in childhood as strong as the need for a father’s protection”

De um ponto de vista de consequências é claro que a obra já foi confiscada pela polícia por ser “imoral”, segundo uma classificação da “isenta” Igreja Ortodoxa Russa (que está extasiada por voltar a ser  o segundo poder do estado e poder policiar a vida interior de todos), e que alguém no ocidente terá que dar asilo ao artista porque de desaparecer uns meses nas mãos do FSB provavelmente não se livraria – no mínimo uns interrogatórios “pesados”. E, dado o culto de personalidade que se criou junto à figura de Putin, provavelmente bem mais que isso. É que Altunin atacou a única vaca sagrada do regime. A fonte de toda a autoridade dos líderes políticos, locais, policiais, jornalísticos, comerciais, etc. O Presidente Putin. Qualquer outro poderia ser perdoado ou talvez afastado ou ligeiramente metido no background até o riso parar. Neste caso isto não é uma opção. Em linguagem política absolutista isto é um crime lesa-majestade e não tem perdão pois neste esquema político a imagem do monarca possui uma sacralidade inviolável confundida com a da própria nação – que haja uma legião de servos públicos e privados cuja posição depende da manutenção desta sacralidade ajuda imenso a perseguir qualquer dissidência por mais ligeira que seja – especialmente neste caso, em que foi feita com humor e inteligência, atacando satiricamente os pilares em que a imagem do líder foi fundada. Haveria algo a dizer sobre o sobrecompensação e o culto da hipermasculinidade mas penso ficará para outra ocasião, quando conseguir parar de rir e apreciar esta obra de arte.

"Beauty is a form of Genius--is higher, indeed, than Genius, as it needs no explanation. It is one of the great facts of the world, like sunlight, or springtime, or the reflection in the dark waters of that silver shell we call the moon. It cannot be questioned. It has divine right of sovereignty. It makes princes of those who have it"

“Beauty is a form of Genius–is higher, indeed, than Genius, as it needs no explanation. It is one of the great facts of the world, like sunlight, or springtime, or the reflection in the dark waters of that silver shell we call the moon. It cannot be questioned. It has divine right of sovereignty. It makes princes of those who have it”

Para os mais desatentos esta polémica que a o partido de Putin arrasta contra parte da sua própria população já tinha dado que falar aquando da organização dos Jogos Olímpicos de Inverno tendo sido discutido por muitas nações o boicote ao evento como protesto formal contra uma descriminação injusta sobre pessoas que não têm nem defesas nem a quem recorrer. Convém não esquecer que a Rússia será o país com leis mais draconianas no que toca a ONGs, especialmente aquelas que não servem de frente a organizações nacionalistas apoiadas pelo Kremlin. As acusações multiplicam-se: espionagem, lavagem de dinheiro, corrupção, tentativa de terrorismo cultural (seja lá o que isso for). Apanhando a linguagem dos comunicados de segurança dos EUA o governo russo aprendeu as palavras-chave que deve usar quando quer denegrir qualquer pessoa ou grupo e a primeira de todas é: “extremista”. Usando uma simples obra de arte libertadora da opressão monolítica do regime para insinuar algo vagamente insidioso que poderia atentar contra a segurança dos cidadãos russos.

Numa última nota mais linguística… há uns anos atrás perdemos outra palavra importante do nosso léxico: liberdade. De tanto sobre uso que foi feito (especialmente por pessoas que estavam interessadas em tudo menos nela) que mais ninguém a coloca em nenhum escrito seu se quiser preservar alguma credibilidade. Perdeu significação junto das pessoas. Gera apenas uma certa apatia emocional normal do discurso demagógico pré-fabricado. Agora é a vez de “extremista” e “terrorista”. A este ritmo corremos o risco de ter que abandonar a linguagem como meio de comunicar eficazmente já que poucas palavras parecem estar autorizadas a conversar o seu sentido original.

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Nunca mais?

Podemos avaliar uma sociedade em parte pelos seus fenómenos mais populares? Se sim então temos um problema grave. Um dos poucos eventos que ainda mobilizam grandes grupos de pessoas de forma regular são os jogos de futebol que, como pode ser facilmente entendido, não é um desporto mas um negócio pouco claro, apenas tolerado pelos benefícios económicos e o seu efeito enquanto analgésico social.

Mas, infelizmente, existe um aspecto menos explorado mas potencialmente ainda mais perigoso neste mundo. Há muito tempo (pelo menos mais de duas décadas) que várias polícias europeias e vários jornalistas de investigação apontam para os elos entre algumas claques futebolísticas mais violentas e a extrema-direita neonazi. Incluindo em clubes da Península Ibérica. Nestes movimentos mistura-se ideologia política violenta, música “alternativa”, agressão gratuita, actividades comerciais ilícitas (armas, drogas, extorsão,…) e acima de tudo a criação de um clima de intimidação que torna este negócio num veículo para uma mensagem social de violência e abuso sob determinados grupos mais vulneráveis. De momento, devido às ligações com o mundo político e empresarial que os clubes de futebol têm (e por vezes até os líderes destas claques têm…), estamos numa espécie de tréguas em que se parece ter sido acordado que não se tocaria nestes grupos nem se olharia de muito perto para as suas actividades – o mesmo acordo feito para o futebol em geral a julgar pelos estranhos resultados financeiros da maioria.

Claque Ucraniana (estes são "puros" já que são eslavos).

Claque Ucraniana (estes são “puros” já que são eslavos).

Da Rússia de extrema-direita nacionalista chega-nos um tipo de caso que penso que já terá tido precedente em Itália e Espanha. Uma claque nacionalista (e não me pronuncio sobre que laços que possam ter em concreto porque pouca ou nenhuma investigação existe fora da Rússia que esteja acessível) exige ao seu clube que só contrate jogadores com um “passado cultural e valores” iguais aos seus (entenda-se da claque), ou seja, pretende-se a implementação da norma não oficial (porque seria provavelmente ilegal, mesmo na Rússia) de exclusão de jogadores (e sócios supõe-se) que não sejam eslavos ou escandinavos e heterossexuais. Como negócio que é, e vivendo nós uma era de caos moral económico, não faltarão defensores que qualquer valor cívico que este vil negócio tenha teria que ser preterido pelo conceito de “livre escolha”. De qualquer forma como nada será transformado numa norma oficial mesmo que esta “carta aberta” se torne política não-oficial os órgãos que regulam este “desporto” fecharão os olhos.

Os "impuros" devem ser marcados...

Os “impuros” devem ser marcados…

As pessoas e sua inegável dignidade são esquecidas para garantir a não perturbação da ordem económica que garante privilégios a quem se associa a este negócio que parecem alegremente ser “reféns” ideológicos de seja quem for desde que o dinheiro continue a circular. Mais trágico será não se perceber os caminhos que “estamos” a trilhar de novo. Clubes sem negros e homossexuais. Companhias de teatro sem judeus. Partidos com liderança sem mulheres. Bairros sem emigrantes. A procura psicótica da “pureza” que começa exclusão, segue para a segregação e acaba num banho de sangue. Já vivemos isto! Não ficou mesmo nada na cabeça das pessoas? Ou terão alguns historiadores mais misantropos razão? E tais eventos serão não só resultado de alguns ideólogos menos saudáveis mas antes um fenómeno recorrente a grande parte da nossa espécie. Será que o que fizemos foi apenas negar responsabilidade moral que imputamos a um pequeno grupo.