A elite de poder como oligarquia decadente e corrupta

Numa *classificação de sistema-mundo dividido em Estados-core, Estados semi-perifericos e Estados-perifericos, parecia ser claro ao autor da ideia poder-se afirmar que a actual elite de poder mundial oligárquica estaria a preparar a imposição de fato de tal visão mundo como o padrão a seguir no relacionamento entre países.

Esta é uma das contribuições da elite mundial oligárquica. Impor o conceito de subserviência total de quase todos os Estados como novo conceito operacional nas relações entre países e populações.

Um mínimo olhar de relance, sobre notícias e acontecimentos pelo planeta,confirma este desejo mórbido das “elites de poder”.

Como a “elite de poder” deseja sempre piorar as coisas, só Estados periféricos com a dimensão de vassalos e clientes já não chegam para as ambições desta “elite de poder”.

Um novo protótipo de Estado que se posicione numa dimensão inferior à de um Estado periférico, parece ser um dos novos objectivos.

A irmandade de Nemesis concluiu e especulou metaforicamente que esta elite mundial oligárquica já foi ultrapassada pelos acontecimentos.

Já existe Portugal.

Um Estado inclassificável. O “Estado” a que isto chegou.

O ” Estado-Nação ” em que até a venalidade e a corrupção são incompetentes e seriam classificadas, acaso fossem avaliadas por uma qualquer agencia de rating especializada em avaliar corrupção, como sendo da classe de rating ” lixo”.

Historicamente, a elite de poder portuguesa é a única responsável por séculos de “O Estado a que isto chegou”.

Lamentavelmente, para os interesses da oligarquia, esta está enganada e vai perder e perder muito e com graves danos.

Lamentavelmente, para os interesses da oligarquia, esta está enganada e vai perder e perder muito e com graves danos.

Para ” mostrar “serviço internacional” a elite de poder portuguesa tem desenvolvido coisas abjectas como “isto” nos tempos recentes. É um “road-show” para mostrar as suas qualificações profissionais às outras elites de poder mundiais.

A vaidade incompetente da elite de poder portuguesa afirma: ” estou aqui, olhem para o pior que conseguimos fazer que é pior que o que vós conseguis fazer“.

SERVILISMO - PÉS

Esse é o objectivo internacional desta classe parasita. Serem uma nota de rodapé obscura e narcisista no grande livro histórico da genealogia mundial das elites de poder.

Um “tour de force” permanente tentando demonstrar aos amos e mestres internacionais que é a vitoriosa vencedora do ultimo lugar na escala da divisão do trabalho, do poder, e da influencia, demonstrando sempre isso da forma mais subserviente possível.

CORRUPÇÃO POLÍTICA EM GERALComo a elite de poder portuguesa se comporta como uma oligarquia, mas uma oligarquia ainda mais estúpida e destrutiva que as oligarquias “normais”, os seus tiques são ainda mais bizarros e aleatoriamente desprovidos de qualquer sentido.

Um deles é a absoluta incapacidade de produzir qualquer forma de autocrítica que tenha como objectivo a correção dos seus próprios crimes e das suas próprias deficiências.

Rejeita sempre qualquer substituição de pessoal nas esferas de poder que a possa regenerar.

Se esta gente se acha a melhor, porque iriam admitir que há melhor que eles? O benchmark são eles próprios, não a situação…

oligarquia-  MontesquieuUm dos exemplos históricos sintomáticos disto foram as pretensas substituições de elites de poder.

Um produto de marketing político e social cujo objectivo foi a venda da ideia à população  que teria existido uma hipotética limpeza regenerativa do sistema político-social- economico) que terá ocorrido algures entre o dia 25 de abril  de 1975 ate ao dia 26 de abril de 1974. E em alguns anos posteriores.

Quase 4 decadas passadas compreende-se que o novo foi e apenas é o antigo recauchutado, sendo que os resultados catastróficos são sempre antigos, mas em pior, sempre em pior.

Esta limpeza imaginária do sistema político-social-económico ocorreu nessa data e posteriormente gerou que, ao pior do antigo regime que a população tinha que aturar sucedeu o pior desse regime, conjugado com o pior deste.

eca de queiroz - politicos e fraldas

É um upgrade do pior. Uma fusão de extremos péssimos.

A limpeza imaginaria do sistema propagandeada pelas elites gerou uma nova corrida em direcção ao fundo esperando-se lá chegar depressa e com força.

Como verdadeiramente nenhuma substituição de elites caducas por novas elites dinâmicas ocorreu nessa data e anos subsequentes, ou ocorreu nos últimos 20 ou 400 anos ou nos últimos 150 ou 30, nenhum auto correção orgânica de comportamentos desta gente ocorreu.

Nenhum esforço de melhoria ética e de comportamentos ocorreu.

Apenas ficou o mesmo com nova roupagem: uma intensificação alargada dos mesmos vícios decadentes, o mesmo vicio da corrupção exponencial, a mesma tendência para um comportamento destrutivo que destrói recursos e desperdiça oportunidades

A mesma decadência de comportamentos, o narcisismo como forma de estar e a corrupção como forma de agir são as trademarks deste ecossistema de doentes psicopatas.

C WRIGHT MILLS - REVOLUCAO-CONTRA REVOLUCAOA partir do dia 26 de Abril de 1974, o nepotismo foi recauchutado, a pseudo cultura de mérito foi reembalada em caixas novas podres como as antigas, o amiguismo rasteiro foi elevado á categoria de privilegio de classe, o compadrio passou a ser uma forma democrática de convivência política e económica .

Gordos caciques gordurosos passaram a ser o novo ” must”.

Uma actualização com o novo software da corrupção surgiu patrocinada pela nova emergente elite recauchutada: a fusão corporativa dos vícios do Estado novo com as novas praticas da democracia subvertida.

Que estranho é que a ditadura de extrema direita tenha conseguido derramar o seu fel corrupto para lá das portas do 25 de abril de 1974.

Estranho ou nem por isso?

Queremos, enquanto sociedade, continuar a querer viver dentro um país em que o nepotismo é considerado um bem a preservar?

Queremos, enquanto sociedade, continuar a tolerar a promoção de falsas culturas de mérito em que quem as promove está convenientemente defendido em sinecuras corporativas privadas ou publicas dos sobressaltos laborais e pessoais que a generalidade da população sofre?

Queremos enquanto sociedade, tolerar o amiguismo politico-pessoal-economico-social de um conjunto de parasitas que nada contribuem para o país e apenas destroem recursos e desperdiçam oportunidades?

O Enclave diz não.

A Irmandade de Némesis diz não.

"Um povo corrompido não pode tolerar um governo que não seja corrupto"

“Um povo corrompido não pode tolerar um governo que não seja corrupto”

* Wallerstein é citado como exemplo. Apenas isso.

** Declaração de interesses:

1 – Deve evitar concluir-se que as afirmações contidas neste texto são declarações de apoio a posições nacionalistas de extrema direita, posições nacionalistas de tipo monárquico, ou da extrema esquerda portuguesa ou a quaisquer outros grupos que defendam o nacionalismo doentio e agressivo como forma de relacionamento entre este pais e outros países e entre a população deste país e a população de outros países.

2 – Deve evitar-se concluir que pelo exposto acima, que o texto defenda ou pretenda defender qualquer teoria globalista.

3 – A Irmandade de Némesis rejeita a traição social, a desonra patrocinada por uma elite de poder, corrupta e venal, a indiferença perante o que acontece, a amoralidade da classe dirigente.

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Moral, religião e milionários

Os leitores mais habituais irão provavelmente estranhar que se aborde este tema aqui mas há alturas em que temos mesmo que dizer alguma coisa sobre o que se passa. O tema é a religião e o acontecimento em debate é a atribuição do prémio “fé e liberdade” ao empresário Elíseo Alexandre Soares dos Santos (o sr. Pingo Doce para os mais distraídos). Obviamente que de um prémio atribuído pela Universidade Católica não se espera muito, a mesma repetição de reaccionarismo social combinado o mantra dos “mercados livres” (como se tal coisa pudesse existir), mas de qualquer forma às vezes pode-se ir demasiado longe, especialmente quando se tenta passar a ideia que este tipo de comportamento é compatível com qualquer tipo de princípio religioso. Vamos rever a situação: na opinião da Igreja Católica (através dos seus representantes universitários) a personalidade que melhor encarna os princípios de Cristo e da liberdade é um empresário famoso apenas pela sua enorme fortuna pessoal e o facto de apesar de ter feito a sua fortuna em Portugal ter escolhido pagar os seus impostos na Holanda. É de facto de ficar pasmo porque nem sabemos por onde começar a atacar este absurdo.

Não se pense que está em "má" companhia, a Holanda é um destino muito popular para os que se sentem... "desafiados"... pelos impostos nos seus países

Não se pense que está em “má” companhia, a Holanda é um destino muito popular para os que se sentem… “desafiados”… pelos impostos nos seus países

Comecemos pelo básico, a figura de Jesus. Que terá vindo a este mundo numa missão de reposição de esperança e de um sentido de justiça. Os oprimidos conhecerão a liberdade, os pobres saberão o que é a fartura e os excluídos serão glorificados – “E, levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir” [Lucas 6:20-21]. Como é que deste ponto se consegue passar à adoração de milionários sem grandes preocupações sociais aparentes? A resposta é: não se consegue! (“E outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino dos céus” [Mateus 19:24])

Money is the God of our time and Rothschild is his prophetOs leitores estarão certamente a pensar “Mas Harmódio, em boa verdade o Cristianismo sempre se portou desta forma, aliou-se ao poder e ao ouro até ser indistinguível destes”. Sim é verdade que o Cristianismo institucional se colou desde muito cedo aos poderes instituídos, não há como negar essa evidência. Mas, também é igualmente verdade que a história das instituições, e a doutrina por elas criada, não resume adequadamente a complexidade deste movimento religioso. A contestação desta versão oficial e institucional de um Cristianismo de poder tem-se feito ao longo dos séculos de forma local, com grande custo pessoal para os envolvidos, tendo muitas vezes sido suprimida. Ou seja, dentro deste movimento religioso tem-se desenrolado uma longa, e sangrenta, guerra civil. De um lado os pregadores oficiais que exaltam a união entre o secular e o espiritual de forma a proteger o seu prestígio, posição e afluência e do outro os que entendem que legitimação da opressão, injustiça, pobreza e exclusão são inadmissíveis numa religião, teoricamente, dedicada à sua erradicação.

"Embora percamos todos os bens, conservemos imaculada a honra. " - Walter Scott

“Embora percamos todos os bens, conservemos imaculada a honra. ” – Walter Scott

Não é chocante que esta atribuição já tenha criado algum mal-estar entre as hostes católicas que questionam que fé e que liberdade é que estão a ser premiadas aqui. Já vem tarde e é algo tímido mas, dado o conservadorismo e anacronismo do catolicismo português, talvez não seja de estranhar que seja apenas um meio protesto em vez de uma indignação plena. No coração desta disputa parece claro que mais uma vez temos uma oposição entre duas realidades muito diferentes e que raramente comunicam de forma aberta. De um lado as elites religiosas (da hierarquia ou laicas) e do outro a vivência popular da religião que sabiamente se alheia dos subterfúgios e eufemismos que o institucionalismo usa para poder sobreviver às suas próprias incoerências. Como alguém alheio à igreja católica não posso pronunciar-me de forma absoluta sobre a justiça desta nomeação. No entanto, enquanto observador atento do panorama religioso e cívico português, devo insistir que estas iniciativas deixem de ser apelidadas de cristãs já que não são em nada fiéis ao verdadeiro espirito. Mais que isso, estes eventos indicam-nos claramente que, ao contrário do que nos é dito desde 1926, o campo da produção religiosa é também ele palco de combates de uma determinada elite no sentido de dominar as interpretações a que as massas podem aceder.

A pacata fogueira das vaidades

O que leva ao fracasso de tantas iniciativas que visam criar uma “esfera pública” em Portugal? Talvez parte da resposta esteja nos nossos hábitos e vícios nacionais entre os quais se destacam visivelmente a tendência natural para a obediência a qualquer autoridade estabelecida e uma falta visão que não seja inteiramente centrada sobre nós mesmos. A primeira causa é preocupante não tanto pelo facto de existir mas pelas razões que existe. Além de provar que não se saiu, totalmente, de uma certa visão inquisitorial e que se temem represálias demonstra também abundantemente a habilidade que é inculcada, desde a mais tenra idade, na maioria dos portugueses para estarem do lado que de quem “vence” – na expectativa clara de colher os benefícios que advêm de ter um patrono. Está-se preso num esquema mental em que não existe verdadeira autonomia individual, nem se procura tal coisa. A segunda causa será mais complicada de tentar compreender porque falham causas históricas imediatas. Não há nenhum trauma no nosso passado, recente ou antigo, que possa explicar claramente esta tendência preocupante entre os portugueses. O solipsismo mais nu e cru é o pão nosso de cada dia em qualquer convívio social que se possa ter. A isto haverá ainda a acrescentar a constante procura por “etiquetar” cada pessoa de acordo com uma complexa escala que inclui várias componentes: valor financeiro do individuo, posição organizacional, laços familiares, lugar na ordem social (as clique em que se encaixa), potencial influência sobre outros, etc. O solipsismo combinado com uma hierarquização patológica de toda e qualquer pessoa com que se interaja torna o qualquer diálogo (ou partilha de seja o que for) quase impossível já que se desloca o fulcro do tema em cima da mesa, e dos argumentos que cada um é capaz de criar, para uma interacção quase que ritual onde cada um tenta dominar, por simples peso das suas circunstâncias, os outros. Eventualmente uma espécie de “ordem” é estabelecida onde se convenciona que quem tem mais “peso” (monetário, social, etc) deve poder fazer a sua opinião vingar, independentemente dos seus méritos reais. E isto é tudo visto como o normal desejável. É raro encontrar sociedades tão obcecadas com o posicionamento social e ao mesmo tempo tão preocupadas em esconder essa mesma preocupação – o único caso semelhante mais numa escala ainda superior será talvez o Japão.

Thus no member of the commonwealth can have a hereditary privilege as against his fellow-subjects; and no-one can hand down to his descendants the privileges attached to the rank he occupies in the commonwealth, nor act as if he were qualified as a ruler by birth and forcibly prevent others from reach­ing the higher levels of the hierarchy through their own merit." - Kant

“Thus no member of the commonwealth can have a hereditary privilege as against his fellow-subjects; and no-one can hand down to his descendants the privileges attached to the rank he occupies in the commonwealth, nor act as if he were qualified as a ruler by birth and forcibly prevent others from reach­ing the higher levels of the hierarchy through their own merit.” – Kant

Nesse sentido partilhamos pouco do individualismo que, teoricamente, deveria caracterizar as sociedades ocidentais (a não ser nos pontos supérfluos do consumismo ou nos negativos como a indiferença). Talvez por isso tenda a ser complicado ter uma verdadeira opinião pública, já que ela só se pode formar depois dos “notáveis” terem dado o seu parecer e terem enquadrado para o público em geral o espectro de opiniões que são consideradas aceitáveis. O desvio trás consigo penalizações. Sempre. Do ostracismo, assassinato de carácter e limitações profissionais nada é de excluir como possível. Tudo depende do grau da “ofensa”.  É reminiscente de tribalismos que, enquanto sociedade, gostaríamos de acreditar ter deixado para trás há muito e é sem qualquer dúvida uma das principais causas da notória passividade nacional.

"In statesmanship get the formalities right, never mind about the moralities.” - Twain, Mark

“In statesmanship get the formalities right, never mind about the moralities.” – Twain, Mark

Mas se a realidade social é esta então para que servem os constantes apelos das elites à sociedade civil? A resposta mais provável é que servirão para transferir o ónus da acção para uma entidade, a “vontade popular”, que não é capaz de agir, por não ter autonomia ou, se quisermos ser mais radicais, por não poder existir nas condições actuais. Cria-se um sentimento de culpa colectiva pela inacção tendo-se noção que, apesar das imensas responsabilidades pessoais de cada um, não estamos numa sociedade capaz de acção colectiva que não seja direccionada de cima. Podemos ter a confirmação deste facto por observação dos partidos políticos portugueses. Olhando para a sua acção e discurso vemos instituições que só superficialmente se modernizaram. Adoptaram os discursos que ouvem circular nas elites europeias (sendo francos apenas adoptam versões simplificadas porque não têm grande capacidade de síntese) e mantêm uma orgânica de funcionamento típica de movimentos políticos de há meio século. Dando um exemplo concreto: o comício ou discurso. Ao mesmo tempo que se pedem contribuições individuais (por formalismo apenas) do militante base adopta-se um estilo de decisão opaco, repleto de secretismo e dominado por individualidades com ligações ao mundo económico ou longas carreiras institucionais dentro do partido. Mesmo o discurso público das lideranças pertence a uma época diferente já que proíbe, de facto, qualquer intervenção exterior, o que é pedido é que seja ouvido e aplaudido, nada mais é bem-vindo. Isto é uma relíquia de tempos passados na maior parte do mundo ocidental mas em Portugal tem sido mantido pelas nossas idiossincrasias, pela nossa obsessão com o culto ao à hierarquia, com uma dependência existencial face ao poder. Sem que cada cidadão se liberte interiormente da carga de servilismo, que culturalmente carrega (quer o aceite racionalmente ou não), o que assistimos na “esfera pública” não passará nunca de um exercício académico de ciência política.

Desistir de pensar

Socialmente existe uma hierarquia de valores não oficial que rege a esmagadora maioria das pessoas. É silenciosa. Não aparece num decreto ministerial a preto e branco. Não nos é sequer imposta no sentido clássico de termo – usando as definições de Isaiah Berlim a nossa “liberdade negativa” é respeitada, ou seja, estamos livres de coacção directa – isto vale o que vale, como o próprio Berlim demonstrou pela falta de escrúpulos que usou na supressão indirecta do trabalho de rivais académicos e pessoais. Mas é omnipresente. Na era do homo economicus não será com certeza de estranhar que essa hierarquia seja de natureza económica. No topo da hierarquia estão sem dúvidas as actividades que, pelo menos potencialmente, se traduzem num ganho. Algures entre o meio e o topo teremos aquelas que apesar de não se traduzirem num ganho monetário valorizam socialmente ou representam a procura de prazer. Na base encontraremos aquelas funções, tarefas e valores que se traduzem num esforço por parte do individuo mas que não lhe acrescentam nada ao seu património nem melhoram o seu status social. Entre este grupo estará sem dúvida a reflexão, o nexo das nossas escolhas éticas. Este é possivelmente um dos riscos mais subavaliados pelas nossas sociedades modernas. O desistir de pensar. O predomínio do pensamento de curto prazo e contabilístico exclui, com o passar do tempo, o acto de pensar de quase todas as esferas que antes eram naturalmente suas. As questões referentes ao trabalho passam a ser ou um jogo de somas ou, na maior parte dos casos, uma necessidade de submissão que embrutece o sujeito. As escolhas sociais que reflectem a forma como nos vemos uns aos outros (e por extensão natural como nos vemos a nós próprios) passam a obedecer a um estrito critério de utilidade ditado por uma ordem tecnocrática difusa a cujos parâmetros as pessoas inconscientemente foram aderindo, abandonando a hipótese de formularem elas próprias julgamentos livres e claros sobre a condição humana. Até as questões referentes às escolhas políticas passam mais uma vez também a ter como referencial único e exclusivo o económico ou monetário devido ao vício do pensamento e à incessante propaganda do que em tempos medievais seria denominado o topo do “Terceiro Estado”, aqueles que produzem.

"Multiplicaste os teus negociantes, mais do que as estrelas do céu; a locusta se espalhará, e voará" [Naúm 3:16 - Os delitos de Nínive: a sua ruína inevitável]

“Multiplicaste os teus negociantes, mais do que as estrelas do céu; a locusta se espalhará, e voará” [Naúm 3:16 – Os delitos de Nínive: a sua ruína inevitável]

Este pensamento que é perdido torna-nos a todos mais frágeis em termos humanos e intelectuais (e para os que estão predispostos a aceitar esse principio: até espiritualmente) à medida que o conjunto de ideias a que podemos recorrer, as combinações que somos capazes de estabelecer e as inovações que conseguimos acrescentar diminuem a pique. Até a própria filosofia se foi deformando sobre o seu efeito, ganhando falsa complexidade nos corredores da academia e perdendo significado até se transformar no que é no presente: quase uma relíquia académica cuja actividade consiste em dar algum apoio teórico à “técnica”. Caímos longe do amor ao conhecimento e da ideia que a filosofia é algo universal aplicável às nossas vidas. O quadro de referência predominante é um de ganho pessoal e produtividade e, ao longo de muitas décadas (ou mais se quisermos ser exactos séculos), foi-se expandindo ao ponto de não deixar quase uma única área fora da sua influência. Forma uma espécie de teoria unificadora do comportamento humano mas apenas por rejeitar todas as outras opções e não por conseguir englobar todas as possibilidades. De certa forma fomos levados uma espécie de “banalidade do mal”, como escreveu Hannah Arendt, mas por caminhos diferentes do totalitarismo fascista. A banalidade do mal define-se pela sua mediocridade, pela sua afirmação que pensar se tornou redundante, desnecessário e talvez até nocivo. Seguem-se ordens no caso fascista e no nosso caso consumista faz-se o que todos fazem ou que esperam que façamos. Em qualquer dos casos obedece-se, mais que tudo quer-se aceitação na ordem das coisas. De uma forma que só por descrita como irónica a sociedade da produção e do individualismo está a legar-nos um mundo crescentemente conformista e uniforme como as sociedades ditas soviéticas nunca esperaram alcançar nos seus dias mais ambiciosos. Esqueçam as roupas iguais teremos mentes iguais.

“The trouble with Eichmann was precisely that so many were like him, and that the many were neither perverted nor sadistic, that they were, and still are, terribly and terrifyingly normal. From the viewpoint of our legal institutions and of our moral standards of judgment, this normality was much more terrifying than all the atrocities put together.” - Hannah Arendt [Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil]

“The trouble with Eichmann was precisely that so many were like him, and that the many were neither perverted nor sadistic, that they were, and still are, terribly and terrifyingly normal. From the viewpoint of our legal institutions and of our moral standards of judgment, this normality was much more terrifying than all the atrocities put together.” – Hannah Arendt [Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil]

Não se levanta o espectro da banalidade do mal levianamente. Já que como Eichmann dizia apenas cumprir ordens e que o seu juramento de obediência quer às SS quer ao Fuhrer pressuponha que qualquer análise do conteúdo das suas ordens seria não só inútil como pernicioso também o burocrata moderno, público e privado, adoptou esta estranha forma de vida como modo de estar em sociedade. O cidadão que, como está na moda, “apenas vive o momento”, sem nunca considerar o porquê das suas escolhas. Quem estará ele a validar? A quem entrega o seu poder? Qual o preço do seu isolamento? A nada sabe responder, apenas age como é esperado, anseia apenas por cumprir as metas que outros definiram para si. O economista que atinge os números pretendidos ignorando os estragos humanos que causa usando apenas a expressão “não se pode fazer uma omelete sem partir ovos”. O executivo que aumenta a sua margem de lucro através da destruição de bens públicos, sabendo à partida estar a excluir um enorme número de pessoas de serviços básicos (“se nós não fizéssemos alguém o faria”). O político que se serve a si próprio deixando um rasto de devastação por onde passa (“todos se servem, é como as coisas funcionam”). Todos são o mal ao aceitarem de uma forma ou de outra o papel de carrascos de pessoas livres de qualquer culpa e sem possibilidade de defesa. Todos são medíocres na sua recusa em aceitarem que são sequer seres pensantes ou sequer na sua intenção de negarem seja o que for a outros. Na sua visão são apenas agentes, quase inanimados, que se regem por leis quase físicas que os obrigaram a comportar-se de determinada forma. Na sua mente isto exclui qualquer noção de culpabilidade e como tal permite manter uma noção de normalidade. Ao fim de um dia em que podem ser responsáveis por miséria, sofrimento e morte vão para casa, para com as famílias (que os glorificam pela sua posição social) ter serões normais sem nunca dispensar um segundo pensamento às suas vítimas.

Realidades Democráticas IV

Como tenho vindo a afirmar o número crescente de excluídos em Portugal está completamente sozinho na sua “luta”. Os media são perfeitamente indiferentes quando não hostis (e quando vemos quem são os seus proprietários não é complicado perceber porquê), os políticos vivem noutra realidade económica e social (da esquerda à direita , de cima a baixo) e os seus concidadãos mais afortunados gostam do sentimento de superioridade que obtém do infortúnio alheio (um caso de “schadenfreude” colectiva?). No entanto a negação por parte dos mais afectados continua. É perfeitamente compreensível, ainda que não racional. É uma realidade dura de engolir. Aceitar que quase tudo o que tinham como certo sobre a sua sociedade e a própria natureza humana (responsabilidade, solidariedade e outras ficções mais ou menos simpáticas que tornam a sua vida mais suportável) estava errado. Encarar esta realidade de frente envolveria aceitar, em primeiro lugar, um erro colossal em termos individuais que a nossa cultura não permite – as pessoas são treinadas a negar responsabilidades e erros sem aprenderem nada – e que de qualquer forma é inaceitável para o ego da maior parte. Como tal recusam-se a aceitar que, além de terem sido usados pelos seus superiores sociais e económicos, quiseram enganar-se a eles mesmos.

Fábrica da grande empresa IG Farben perto de Auschwitz (1941). A esfera económica tem sem dúvida um grande historial de integridade.

Fábrica da grande empresa IG Farben perto de Auschwitz (1941). A esfera económica tem sem dúvida um grande historial de integridade.

Prova IV: Os “grandes” empresários portugueses (que não acidentalmente também controlam os meios de comunicação privados) não só estão a favor da destruição económica, social e política que tem caracterizado os últimos governos (em ritmo crescente nos últimos dois anos…) como acham que não se foi longe o suficiente. Alguns dos menos subtis deste grupo usam mesmo a ameaça aberta para com o país que governam em tudo menos nome: ou aceitam o que se passa e se submetem ao poder económico ou serão castigados. Uma visão quase-aristocrática da realidade portuguesa sem as qualidades que deveriam caracterizar qualquer elite merecedora da sua posição.

Moral da prova IV: Dada a apatia da modernidade é pouco provável que haja qualquer indignação digna desse nome contra qualquer grupo económico. Isso seria levar as coisas demasiado a sério. Os portugueses não estão em hábito de derrubar poderes estabelecidos – por muito frágeis que estes sejam. Vai contra a sua idolatria do status social. Preferem de longe que alguém faça o trabalho sujo por eles, exigindo apenas a sua comparência para confirmar um “fait acompli“, legitimando qualquer nova ordem que saia do caos. Claro que isto abre a porta para toda a espécie de regimes curiosos mais ou menos patrocinados por elites que temem pela manutenção da sua posição. Para não magoar quem afirma o carácter extraordinário do povo português podemos, a título de exemplo ilustrativo, referir o caso da Hungria que parece seguir a mesma linha de acção e instaura lentamente um regime autoritário com aprovação plena dos próprios oprimidos. Afinal não somos os únicos.

A Failed State

Vai ser este o termo como o futuro vai classificar Portugal. Uma comunidade sem projectos próprios que se encontra demasiado fragmentada internamente para fazer frente às ameaças que o mundo do seu tempo apresenta. Com a morte do projecto Europeu não sobra nada a gerações de políticos e empresários (enfim os homens do poder que fizeram a sua escalada nas últimas décadas ou em última medida dependem do status quo para sobreviverem) para apresentarem ao país, tal como ele ainda existe. É verdade que o projecto sombra da Europa ainda paira no ar, a “GrossDeutschland” (grande Alemanha). Mas isso não oferece qualquer posicionamento que não seja uma submissão equivalente à destruição do país como entidade, do povo como cultura e a um posicionamento permanente na periferia desta nova criação política – com o que isso implica, nomeadamente, uma pobreza mantida artificialmente para ajudar as economias centrais. Três gerações de políticos (a mais velha ainda com raízes profundas no Estado Novo) deixaram o país nesta situação de anemia interna. Uma não-entidade. Uma não-população (pode existir numericamente mas falta-lhe propósito e, como tal, o seu significado é nulo). Quase quatro décadas de caminho Europeu desembocaram no vazio. Na autodestruição colectiva da germanização forçada.

The Prussian Coat of Arms 1701

“Gott mit uns”

Não se tome isto como um incentivo à tomada da posição x ou y. Em termos reais a altura de agir passou. O nosso sistema está demasiado contaminado e incapacitado para ser capaz de regeneração interna. Pelo que apenas sobra observar o desenrolar do processo. O nosso futuro está nas mãos do Destino. Se a Europa sobreviver como projecto germânico morremos como Portugal. Simples. Não há espaço para outros projectos, culturas, interesses ou outras formas de viver na actual potência europeia dominante. Se a Europa falhar será desencadeada a maior (não apenas económica) crise mundial da história levando as nações mais frágeis do velho continente para águas que simultaneamente já navegaram mas que não estão prontas para encarar de novo. O mar da realpolitik. De qualquer forma o que conhecemos como realidade existe apenas como passado e ilusão, nunca como futuro. Vejo-me bloqueado no pensamento devido à enormidade do podemos estar prestes a ter que fazer já que mesmo no cenário de frustração da terceira onda de agressão germânica ficaremos à mercê da maior crise energética de todos os tempos, de um défice populacional, de um défice de técnicos, de um défice de pensadores, de um défice de líderes, de um défice de artistas, com feridas históricas não saradas e uma modernidade ainda mal apreendida. Não estamos apenas pobres contabilisticamente. Em todos os factores de “nation building” estamos paupérrimos. E no entanto esta parece ser a alternativa menos agressiva.

Thomas Cole - Destruction - 1836

“Where error is irreparable, repentance is useless.” – Edward Gibbon

Do alto do Enclave a vista é confusa. Muito movimento. Muito fumo. Muito caos anunciado. Poucas certezas que não aquelas mais imediatas. Estará na altura de reforçar as paliçadas. Os bárbaros não estão ainda às portas mas os ex-civilizados são uma horda igualmente assustadora e potencialmente destruidora.

Economia Total

Há episódios caricatos que colocam a nu a lógica dominante do nosso mundo e que nos mostram a disfuncionalidade em que caímos como seres humanos (se é que ainda somos tal coisa). O ministro das finanças japonês propõe-se a relançar, o que parece ser, uma nova versão do programa “Aktion T4” e afirmou categoricamente que os idosos doentes deveriam morrer rapidamente de forma a não se tornarem um fardo para a economia nipónica. É curioso notar que mais uma vez é alguém da área das finanças que tece comentários desta natureza. Em Portugal o desmantelamento dos cuidados de saúde é silencioso, apesar de igualmente eficaz, mas já tivemos, recentemente, uma ministra das finanças que achava que a solução ideal para o país seria suspender a democracia – dado que não vivemos bem numa democracia penso que ela se referiria apenas ao voto periódico e à latitude da liberdade de opinião, da possibilidade de publicamente discordar dela. Parece que os técnicos de contas têm uma propensão especial em desumanizar os seus concidadãos, seja cá seja nos antípodas. São os representantes de uma espécie de anti-humanismo que em vez de colocar o Homem como medida de todas as coisas coloca o balancete como medida de todas as possibilidades. Que o dinheiro seja virtual e não corresponda a recursos reais não parece ser importante, que o equilíbrio destes fundos imaginários requeira o sacrífico (literal) de milhares de pessoas como eles parece ser irrelevante e que tais acções não cumpram qualquer objectivo além do equilíbrio do irreal, sem nunca nos encaminharmos para um objectivo concreto, não perturba o seu delicado sono.

Proskynesis é obrigatória perante o nosso deus.

Proskynesis é obrigatória perante o nosso deus.

Estes “Einsatzgruppen” contabilísticos formam uma espécie de ponta de lança burocrática de uma ofensiva ideológica que visa desumanizar os excluídos (presentes e futuros). A divisão da sociedade de forma hierárquica e formal entre os que têm e os que não têm. Não se trata de uma mera questão de riqueza material já que esse elemento é ultrapassado de longe por questões de pertença social aos grupos certos (famílias, empresas, cultos, clubes de campo, etc) – basta fazer ruma leve pesquisa e ver quem dirige todo o tipo de organizações (departamentos do estado, partidos políticos, empresas, ONGs, etc) em Portugal para perceber que estamos perante um pequeno grupo fechado sobre si mesmo ao ponto de ser endogâmico (para não perder a pureza da “raça”?). As suas ofensivas sempre foram dentro de um estilo “Shock and Awe” ou “Blitzkrieg”, ou seja, um ataque repentino, de extrema violência, concertado em todas as frentes, que deixa os indivíduos e as forças sociais sem capacidade para responder adequadamente. Levando inevitavelmente à perda de grandes direitos e garantias, segurança e mesmo, como podemos ver pelo exemplo japonês, a própria vida. Quando o fumo da guerra se levanta podemos ver o que sobrou das nossas sociedades… o espectáculo não é bonito. Empobrecidos, desesperados, condenados, não-Humanos (“Untermensch”). É este o resultado da Economia Total que estas forças de agressão desencadearam. Os poucos que forem poupados servirão lealmente o novo sistema já que por motivos irracionais pensam a situação privilegiada terá sido um reconhecimento da sua excepcionalidade e não ou um acidente de percurso ou fruto de uma necessidade temporária. Temos aqui os novos elementos da nossaJüdische Ghetto-Polizei“.

Os "sortudos" que querem acreditar que não fazem nada de mal ao colaborar. Aos que estiverem nessa posição reparem que a braçadeira do comandante colaboracionista tem uma estrela de David e não uma suástica...

Os “sortudos” que querem acreditar que não fazem nada de mal ao colaborar. Aos que estiverem nessa posição reparem que a braçadeira do comandante colaboracionista tem uma estrela de David e não uma suástica…

Confrontados com um cenário desta natureza penso que é justo perguntarmos que é feito da população? Estão realmente de acordo com isto? Estarão realmente tão iludidos que não acreditam que um destino semelhante os aguarde? Pode ainda existir alguém ignorante ou inocente (e o que é a inocência senão uma forma de ignorância?) o suficiente para acreditar nas boas itenções desta guarda ideológica avançada? Depois dos estragos já causados, da intransigência mostrada ao longo de décadas (com tendência clara a acelerar rapidamente), do fanatismo aos modelos de hierarquia tradicionais (quase pré-1834) ainda alguém pode esperar que haja uma inversão de rumo? Tenho alguma dificuldade em acreditar nisso. É mais credível interpretar a obsessão nacional com comentadores com conflitos de interesses, com a participação em manifestações sem exigências concretas e com as formas de “participação“ social virtuais como uma recusa em entrar no combate real. É pena porque por muita satisfação que retirem dos seus pequenos e insipidos actos de “revolta“ o seu efeito é praticamente nulo.

Open war is upon you whether you would risk it or not”