Economia Total

Há episódios caricatos que colocam a nu a lógica dominante do nosso mundo e que nos mostram a disfuncionalidade em que caímos como seres humanos (se é que ainda somos tal coisa). O ministro das finanças japonês propõe-se a relançar, o que parece ser, uma nova versão do programa “Aktion T4” e afirmou categoricamente que os idosos doentes deveriam morrer rapidamente de forma a não se tornarem um fardo para a economia nipónica. É curioso notar que mais uma vez é alguém da área das finanças que tece comentários desta natureza. Em Portugal o desmantelamento dos cuidados de saúde é silencioso, apesar de igualmente eficaz, mas já tivemos, recentemente, uma ministra das finanças que achava que a solução ideal para o país seria suspender a democracia – dado que não vivemos bem numa democracia penso que ela se referiria apenas ao voto periódico e à latitude da liberdade de opinião, da possibilidade de publicamente discordar dela. Parece que os técnicos de contas têm uma propensão especial em desumanizar os seus concidadãos, seja cá seja nos antípodas. São os representantes de uma espécie de anti-humanismo que em vez de colocar o Homem como medida de todas as coisas coloca o balancete como medida de todas as possibilidades. Que o dinheiro seja virtual e não corresponda a recursos reais não parece ser importante, que o equilíbrio destes fundos imaginários requeira o sacrífico (literal) de milhares de pessoas como eles parece ser irrelevante e que tais acções não cumpram qualquer objectivo além do equilíbrio do irreal, sem nunca nos encaminharmos para um objectivo concreto, não perturba o seu delicado sono.

Proskynesis é obrigatória perante o nosso deus.

Proskynesis é obrigatória perante o nosso deus.

Estes “Einsatzgruppen” contabilísticos formam uma espécie de ponta de lança burocrática de uma ofensiva ideológica que visa desumanizar os excluídos (presentes e futuros). A divisão da sociedade de forma hierárquica e formal entre os que têm e os que não têm. Não se trata de uma mera questão de riqueza material já que esse elemento é ultrapassado de longe por questões de pertença social aos grupos certos (famílias, empresas, cultos, clubes de campo, etc) – basta fazer ruma leve pesquisa e ver quem dirige todo o tipo de organizações (departamentos do estado, partidos políticos, empresas, ONGs, etc) em Portugal para perceber que estamos perante um pequeno grupo fechado sobre si mesmo ao ponto de ser endogâmico (para não perder a pureza da “raça”?). As suas ofensivas sempre foram dentro de um estilo “Shock and Awe” ou “Blitzkrieg”, ou seja, um ataque repentino, de extrema violência, concertado em todas as frentes, que deixa os indivíduos e as forças sociais sem capacidade para responder adequadamente. Levando inevitavelmente à perda de grandes direitos e garantias, segurança e mesmo, como podemos ver pelo exemplo japonês, a própria vida. Quando o fumo da guerra se levanta podemos ver o que sobrou das nossas sociedades… o espectáculo não é bonito. Empobrecidos, desesperados, condenados, não-Humanos (“Untermensch”). É este o resultado da Economia Total que estas forças de agressão desencadearam. Os poucos que forem poupados servirão lealmente o novo sistema já que por motivos irracionais pensam a situação privilegiada terá sido um reconhecimento da sua excepcionalidade e não ou um acidente de percurso ou fruto de uma necessidade temporária. Temos aqui os novos elementos da nossaJüdische Ghetto-Polizei“.

Os "sortudos" que querem acreditar que não fazem nada de mal ao colaborar. Aos que estiverem nessa posição reparem que a braçadeira do comandante colaboracionista tem uma estrela de David e não uma suástica...

Os “sortudos” que querem acreditar que não fazem nada de mal ao colaborar. Aos que estiverem nessa posição reparem que a braçadeira do comandante colaboracionista tem uma estrela de David e não uma suástica…

Confrontados com um cenário desta natureza penso que é justo perguntarmos que é feito da população? Estão realmente de acordo com isto? Estarão realmente tão iludidos que não acreditam que um destino semelhante os aguarde? Pode ainda existir alguém ignorante ou inocente (e o que é a inocência senão uma forma de ignorância?) o suficiente para acreditar nas boas itenções desta guarda ideológica avançada? Depois dos estragos já causados, da intransigência mostrada ao longo de décadas (com tendência clara a acelerar rapidamente), do fanatismo aos modelos de hierarquia tradicionais (quase pré-1834) ainda alguém pode esperar que haja uma inversão de rumo? Tenho alguma dificuldade em acreditar nisso. É mais credível interpretar a obsessão nacional com comentadores com conflitos de interesses, com a participação em manifestações sem exigências concretas e com as formas de “participação“ social virtuais como uma recusa em entrar no combate real. É pena porque por muita satisfação que retirem dos seus pequenos e insipidos actos de “revolta“ o seu efeito é praticamente nulo.

Open war is upon you whether you would risk it or not”

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A classe média e a quinta coluna

O modelo de sociedade que ainda hoje nos guia é essencialmente uma relíquia do estado pós primeira grande guerra, o voto universal, os serviços também universais, a paz com objectivo… tudo pagamentos feitos ao homem comum por uma aristocracia (terratenente, industrial e cada vez mais financeira) que sentiu o seu poder a falhar pela primeira vez em quase cinco séculos. O sangue que correu em Ypres, no Somme e em Verdum foi demasiado para apagar da memória. Os mortos para além de qualquer justificação. A sanidade mantida apenas a custo de um pulso pessoal forte perante a loucura do mundo. Regressou uma geração quebrada, cheia de fúria justificada contra o embuste de que foram vítimas durante quase cinco anos. Foi o apaziguamento das massas. Pelo menos das que saíram da guerra do lado vencedor. Agora não temos guerra, tirando em sítios distantes que a maioria não saberia apontar num mapa, cujos líderes se desconhecem e com costumes para os quais as pessoas se estão nas tintas. Não temos também um grande inimigo em quem concentrar os nossos terrores e manter as nossas elites na linha. A espada de Dâmocles que foi a União Soviética foi quebrada. Ao fim de um século os princípios geradores da nossa ordem social estão a dar de si. As razões para a nossa organização económica e política a desaparecer e as nossas elites já se encontram em movimento para se reorganizarem de acordo com as novas regras que elas próprias podem voltar a ditar sem interferência. Ao fim de um século o cidadão perdeu de novo a guerra.

As guerras da "landed gentry".

As guerras da “landed gentry”.

 O processo começou no dia que o muro de Berlim caiu. A última ameaça credível às elites ocidentais estava morta. As potências comunistas depressa seriam desmembradas e absorvidas no sistema-mundo de forma particularmente vingativa e punitiva (como não se fez com a RFA em 1949 diga-se). A partir deste momento o regresso de alguns elementos à vida Europeia, talvez mundial, seria inevitável. O desemprego estrutural (um nome pseudo técnico que visa tapar a realidade: desemprego permanente) estava destinado a regressar. Ao fim de duas décadas cá está ele. Em larga escala como não era visto desde a ascensão do fascismo, e com mais ou menos os mesmos efeitos. Ao criar uma situação irresolúvel para milhões de pessoas está-se a desintegrá-las da sociedade que fazem parte. A partir desse momento saem de um circuito e entram noutro, que apesar da vulnerabilidade acrescida e miséria tem também menos limites e fornece menos razões para alguém se conformar com imposições exteriores. Ao contrário dos Bourbon, que apesar de nada esquecerem nada aprenderam, as elites europeias aprenderam e sabem, pelo menos em parte, as consequências das suas acções. Não é por acaso que surgem propostas de militarização crescente das forças policiais. Não se trata apenas de recompensar o único corpo paramilitar (com a excepção da polícia política) que permaneceu fiel ao antigo regime de 73. É o reconhecimento que a partir deste momento haverá duas tarefas. Lidar com os cidadãos (que mantêm empregos e são “respeitáveis”) e o que em breve receberá o nome de “escumalha” (desempregados permanentes completamente desintegrados que vivem numa realidade quase paralela). A primeira tarefa requer algum tato e a segunda apenas repressão.

Sem equilíbrio de poderes…

Sem equilíbrio de poderes…

Apesar de terem existido recentemente algumas manifestações de grande dimensão temos causa para perguntar porque é que estamos perante um processo que parece em grande medida silencioso. A resposta é um segredo social sujo. Os portugueses empregues e que se encontram a salvo do pior estão prontos a aceitar esta versão dos acontecimentos e a nova realidade que os acompanha. Daí preferirem ignorar tudo o que se passa à sua volta e prosseguirem o seu estilo consumista e alienador. Não querem lidar com política (coisa que aliás pensavam que estava morta). Não querem lidar com o lado negro da sua realidade, isso só acontece aos novos sub-humanos que, começam a acreditar, são realmente inteiramente responsáveis pela sua sorte. Os “debates” públicos (não merecem esse nome porque as conclusões já foram retiradas antes de uma só palavra ter sido proferida) centram-se em encontrar responsáveis individuais pelos “azares” do país num padrão amplamente reconhecido como a busca por bodes expiatórios para obter paz social – afinal os culpados terão sido punidos. Mas ignorada, porque é demasiado volumosa e útil ao novo sistema que começa a emergir, está a verdadeira quinta coluna. A classe média que resta que pensa que irá sobreviver a tudo e está disposta a vender os seus vizinhos pela promessa de “protecção” e mais alienação.