O que estava realmente em jogo

Enquanto os estilhaços da decisão do Reino Unido sair da União Europeia ainda estão a cair começa a ficar mais claro para todos o que estava realmente em jogo. O controlo da maior praça financeira Europeia, a city de Londres. O governo das ilhas quer atrasar ao máximo as possíveis negociações sobre as condições de saída enquanto que o governo alemão (principal beneficiário de uma fragmentação do sector financeiro londrino) quer as negociações para ontem. Joga-se o futuro do Reino Unido como agente financeiro de primeira linha no mundo globalizado. Muitos britânicos entendem pela primeira vez que as empresas não possuem lealdades nacionais nem preocupações com o bem-estar de ninguém, apenas querem aproveitar a fraqueza do país para arrancar coercivamente melhores condições para continuarem a fazer o que já fazem – adivinha-se um anúncio de cortes de impostos empresariais para apaziguar os deuses do mercado. Dependendo da dureza do jogo de Berlim, o Reino Unido pode caminhar ou para um estatuto internacional reduzido ou, em caso de perda de uma fatia muito significativa do seu peso financeiro, uma intensa reindustrialização baseada em modelos económicos pré-monetaristas.

"Are you not ashamed of caring so much for the making of money and for fame and prestige, when you neither think nor care about wisdom and truth and the improvement of your soul?" - Sócrates

“Are you not ashamed of caring so much for the making of money and for fame and prestige, when you neither think nor care about wisdom and truth and the improvement of your soul?” – Sócrates

Este processo envolve uma história longa e repleta de ironia. O Reino Unido foi o primeiro país Europeu a entender e a reagir à globalização financeira. Com a subida de Thatcher ao poder os Torys embarcam num plano para mudar a face do mais antigo bastião industrial do Ocidente. O seu plano era centrar o país no sector financeiro e abandonar progressivamente a indústria tradicional – tendo plena consciência que isso implica abandonar grande parte do país real. O primeiro passo foi criar volume de capitalização bolsista em Londres e para isso lançaram uma onda de privatizações que reduziram o peso da industria nacionalizada no PIB de 9% para 2%. Isto teve vários efeitos que se reforçaram mutuamente. Além do aumento súbito da capitalização da praça de Londres deu-se uma quebra substancial do poder dos sindicatos e deu-se um poderoso golpe ao partido trabalhista – que quando acabou o seu longo exílio pouco mais fez que dar uma cara mais simpática às politicas que já estavam a ser seguidas. A esta injecção de capital no Estado há a somar os ganhos do petróleo do mar do Norte que criaram uma almofada financeira impressionante. Para que foi usado este fundo de maneio? Para reduzir drasticamente os impostos nos escalões mais elevados (de 80% para 40%). Esta redução atingiu dois objectivos: em primeiro lugar criou rendimento disponível na classe média-alta e alta para investimentos financeiros, e em segundo lugar tornou as posições bem remuneradas na city ainda mais atractivas. Em 1986 é dada a machadada final com a liberalização do sector financeiro que atrai cada vez mais investidores financeiros estrangeiros a Londres. Está lançado o caminho para três décadas de continuidade de endeusamento do sector financeiro e abandono da economia real – que enquanto este processo decorreu sofreu um desemprego galopante, fechos das indústrias tradicionais e a formação de guetos nos antigos grandes centros industriais (que agora se assemelham a cemitérios de um passado distante).

"Eu encontrei um viajante de uma terra antiga Que disse:—Duas gigantescas pernas de pedra sem torso Erguem-se no deserto. Perto delas na areia, Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida, A mão que os zombava e o coração que os alimentava. E no pedestal estas palavras aparecem: "Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!" Nada resta: junto à decadência Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância." - Percy Shelley

“Eu encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse:—Duas gigantescas pernas de pedra sem torso
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão
E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando
Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida,
A mão que os zombava e o coração que os alimentava.
E no pedestal estas palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância.” – Percy Shelley

Enquanto a Europa tentava manter a sua indústria durante os anos 80 o Reino Unido estava a criar o maior polo financeiro do continente (mesmo que isso condenasse grande parte dos britânicos a um nível de vida cada vez pior). Com o apogeu da doutrina dos mercados “livres” no início dos anos 90 o resto da Europa já estava na mesma página: todos os países abandonavam os seus sectores tradicionais à procura de ganhos de produtividade através de economias de serviços e ganhos financeiros – com a excepção da Alemanha, que se manteve firme na sua defesa de um poderio industrial autónomo, tornando-se a fábrica da Europa (aliás financiou durante mais de uma década a destruição gradual da industria nos outros parceiros Europeus). Mas era demasiado tarde. A dianteira de Londres (facilitada por partilharem uma língua e cultura com os EUA) era demasiado grande para que mesmo Frankfurt pudesse chegar-lhe aos calcanhares. Até agora. Chegou o momento Alemão. Juntar uma liderança financeira a uma liderança industrial irá torna-la a incontestável senhora da União, perante a qual todos os outros nada mais são que súbditos que devem ser relembrados da sua posição nesta nova ordem politica continental.  Por terras lusas treme-se diante deste novo gigante não havendo qualquer coragem das elites locais. Como é sua tradição apenas querem que seja assegurado o seu lugar ao sol seja quem for que mande nas coisas. Podem estar prestes a ter uma surpresa. Pela primeira vez a sua conivência com as elites exteriores poderá não lhes dar frutos. Uma potência hegemónica não reconhece iguais, não tem interesse em elites locais saloias e muito menos tem vantagem em conferir-lhes qualquer poder real. Ao recusarem partilhar o poder as elites locais selaram o seu destino, arrastando todo o país consigo.

NémesisSiga o exemplo da Irmandade de Némesis: Não se resigne a ser uma vítima das elites!

E ficaram 27

Apesar das pressões de última hora que foram colocadas sobre os cidadãos do Reino Unido o resultado do referendo sobre a sua permanência na União Europeia foi um “não”. As elites locais mediram muito mal o grau de agastamento das populações, daqueles que há pelo menos duas décadas têm visto as suas vidas piorar de ano para ano. A segurança laboral foi-se, os salários reais fora do sector financeiro encontram-se estagnados ou em baixa, o acesso à habitação nas grandes áreas metropolitanas é quase impossível, a educação superior tornou-se um luxo incomportável para muitas famílias e o sentimento de estarem abandonados dentro da sua própria comunidade tornou-se insuportável para muitos. E tudo isto pesou no voto. Pode-se argumentar que muitas destas questões derivam de como as autoridades nacionais e locais lidaram com as situações e que não reflectem qualquer má fé por parte da União Europeia. E em parte teriam razão. Mas apenas em parte. A lógica de especialização que está subjacente à globalização e em especial à organização económica da União Europeia quando não precipitou grande parte destes problemas pelo menos acelerou-os. Não se pode dentro de uma mesma unidade nacional manter duas realidades sociais paralelas em oposição – a das elites em que tudo é reluzente, há luxo, cuidados de saúde de primeira qualidade e acesso a tudo o que se possa desejar e a da maioria que é cada vez mais esquálida, decadente e excluída. A Europa tem sido surda aos dois mundos que estava a criar em cada país e pagou um preço por isso.

"Governments, if they endure, always tend increasingly toward aristocratic forms. No government in history has been known to evade this pattern. And as the aristocracy develops, government tends more and more to act exclusively in the interests of the ruling class -- whether that class be hereditary royalty, oligarchs of financial empires, or entrenched bureaucracy" - Frank Herbert

“Governments, if they endure, always tend increasingly toward aristocratic forms. No government in history has been known to evade this pattern. And as the aristocracy develops, government tends more and more to act exclusively in the interests of the ruling class — whether that class be hereditary royalty, oligarchs of financial empires, or entrenched bureaucracy” – Frank Herbert

E agora? Agora vamos caminhar para um caminho de cada vez maior tensão entre os dois polos de poder restantes no Continente. Uma França enfraquecida por imposições de um modelo económico que é estranho ao seu tecido social contra uma Alemanha hegemónica que quer secundarizar toda a Europa Ocidental e centrar-se nos seus protectorados orientais. Não há competição. Estamos perante o dilema para o qual a Irmandade de Némesis tem vindo a avisar há já algum tempo: ou teremos uma GrossDeutschland de realpolitik e esmagamento de toda a periferia Europeia ou iremos assistir ao colapso do todo o projecto Europeu à medida que mais membros saírem de livre vontade ou forçados pelas circunstâncias.

"I am not a man who believes that we Germans bled and conquered thirty years ago...in order to be pushed to one side when great international decisions call to be made. If that were to happen, the place of Germany as a world power would be gone for ever, and I am not prepared to let that happen. It is my duty and privilege to employ to this end without hesitation the most appropriate and, if need be, the sharper methods. " - Kaiser Guilherme II

“I am not a man who believes that we Germans bled and conquered thirty years ago…in order to be pushed to one side when great international decisions call to be made. If that were to happen, the place of Germany as a world power would be gone for ever, and I am not prepared to let that happen. It is my duty and privilege to employ to this end without hesitation the most appropriate and, if need be, the sharper methods. ” – Kaiser Guilherme II

É preciso ter noção que o jogo de poder a nível continental mudou a vários níveis. Em primeiro lugar irão cada vez mais aparecer disputas regionais que usarão a desculpa da pertença à UE como arma nas suas lutas independentistas (veja-se a Escócia, Catalunha, País Basco…) – isto vai ameaçar directamente a integridade territorial de muitos estados Europeus (e parte da culpa está também numa Europa “das regiões” que sempre incentivou a regionalização e maior poder local). Em segundo lugar, sendo a Alemanha o poder que rege todo o projecto é inevitável uma deriva oriental – para o que a Alemanha sempre considerou a sua área natural de influência e privilégio, deixando o Ocidente abandonado na posição de pedinte na corte Imperial Prussiana. E em terceiro lugar é preciso notar que foi aberto um precedente. Mais países irão, mais tarde ou mais cedo, ameaçar seguir o exemplo Britânico na expectativa de secessão ou simplesmente para conseguir acordos muito mais vantajosos – A Grécia irá usar o fantasma da desagregação para tentar sacudir o colonialismo financeiro, a Espanha será tentada a fazer ameaças nesse sentido se a União não der mostras claras de não reconhecer possíveis repúblicas independentistas, França e Itália irão tentar usar isto para relocalizar o poder mais a Ocidente e reduzir o peso das suas colossais dívidas. Quanto mais ameaças de saída existirem (quer se concretizem ou não) mais frágil todo o edifício se torna.

"As pessoas sabem o que querem porque sabem o que os outros querem" - Theodor Adorno

“As pessoas sabem o que querem porque sabem o que os outros querem” – Theodor Adorno

E Portugal como fica? Fica na mesma. Convém notar que Portugal é uma nação muito especial no sentido das suas elites não se reconhecerem nela, nem aliarem os seus interesses a um projecto comum. Assim vivemos num mundo de senhores mais ou menos feudais que só querem mesmo manter a sua coutada sem serem incomodados – politicamente isto traduz-se numa ausência total de desígnio nacional. O único projecto que existe é a Europa. Se esta começar a vacilar vai existir pânico e medo entre as lideranças políticas, económicas e sociais. Se a isso somarmos uma possível intransigência crescente por parte da Alemanha isto pode dar origem a um fenómeno de grande dissonância entre elites e subjugados, com as primeiras a defenderem o declínio nacional como preço de pertença à comunidade e os segundos a defenderem tudo menos isso à medida que se afogam num mar de dificuldades cada vez maior.

Némesis

Para quem vir o mesmo que nós, fica o convite da Irmandade de Némesis a não ficar quieto: não se resigne a ser um fantoche nas mãos de outros.

Colonialismo progressista

Segundo o representante do FMI alocado a Portugal, os desempregados devem ser ouvidos nas negociações que ocorrerem sobre os aumentos salariais. Atente-se a fina ironia do argumento. Uma organização não democrática, que por admissão própria não responde perante nenhum eleitorado, aconselha-nos sobre o nosso défice democrático nas questões laborais. Mais grave é tudo isto se passar depois das medidas aplicadas sob a pressão deste corpo tecnocrático terem provado ser venenosas para o crescimento económico e para a paz social. A cereja no topo do bolo é mesmo a admissão que a Europa ficou em tão mau estado depois de anos de repressão fiscal e política que precisa de um plano de investimento – afinal parece que a simples aplicação de medidas de redução do peso dos salários e desregulamentação dos mercados não atai automaticamente o investimento necessário. Pelo contrário, as medidas coercivas propostas e/ou patrocinadas por este organismo levaram à fragmentação da ordem política dos países “sob intervenção”: em Portugal gerou governos de coligação cada vez mais vastos devido à insatisfação popular como o que lhes está a ser apresentado. Em Espanha levou a um impasse que não parece estar próximo de ser resolvido, com consequências ainda imprevisíveis para a unidade do país. A Grécia foi essencialmente reduzida a um estatuto colonial levando a uma situação de um autêntico governo sombra tecnocrático que só precisa dos políticos locais para dar a cara pelas medidas impostas. A França tem sido poupada a humilhações directas, por enquanto, mas está também sob intensa pressão da tecnocracia financeira para reformular todo o seu quadro social segundo as linhas de um liberalismo económico de século XIX.

"Power without legitimacy tempts tests of strength; legitimacy without power tepmts empty posturing." - Henry Kissinger

“Power without legitimacy tempts tests of strength; legitimacy without power tepmts empty posturing.” – Henry Kissinger

Será isto o reconhecimento que foram cometidos erros e que vamos mudar de rumo? Dificilmente. Até porque a organização não tem incentivos em reconhecer a sua própria falibilidade – isto se formos simpáticos, e assumirmos que o que aconteceu foi cegueira derivada de uma excessiva confiança em modelos errados e não acções deliberadas com outros objectivos. Assim sendo esta súbita preocupação para com os desempregados serve para quê? Serve para bloquear qualquer subida continuada dos salários ameaçando que qualquer subida salarial pode impactar a criação de novos empregos. Em suma, criar uma pequena guerra intestina dentro do diálogo social, evitando que corpos exteriores ao país tenham que sujar as mãos para nos manter economicamente mortiços e politicamente submissos. Dividir para reinar.

"Weak emperors mean strong viceroys" - Isaac Asimov

“Weak emperors mean strong viceroys” – Isaac Asimov

Sob a capa de uma maior integração para os excluídos (desempregados) está-se a exportar a discórdia social para Portugal. A nossa soberania está a ficar tão erodida que até os modelos de resolução de tensões sociais nos estão a ser impostos de fora por quem não tem moral para falar sobre tais temas – com o apoio entusiástico das elites, que não perderão a oportunidade se mostrarem preocupadas com os “coitados” quando na realidade apenas querem mais uma ferramenta para bloquear o poder político nacional.

Referendos, mártires e monstros

A Europa acordou algo chocada – dentro do que é possível para uma opinião pública massificada, estupidificada e brutalizada – com o assassinato de uma política britânica, nada mais que um membro do Parlamento Inglês. O retrato que nos está a ser apresentado não podia ser mais dado a simplificações. A vítima era uma defensora dos direitos humanos, pró-emigração, politicamente reformista e fazia campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia. O seu assassino é membro de organizações racistas e violentas, condenáveis sobre todos os pontos de vista. Num referendo que se parecia inclinar cada vez para o isolacionismo britânico as coisas podem estar prestes a mudar.

UK e UEMas recuemos um pouco. Este referendo tem uma longa história que convém ser explicada. O Reino Unido sempre se viu com uma nação (e anteriormente Império) extra-europeu. Era uma potência que durante todo o seu apogeu só teve uma única política para o continente: impedir a formação de uma grande potência continental – lutou contra a Espanha e a França para tentar impedir a união dinástica das duas coroas e reforçar o seu poder comercial na guerra de sucessão espanhola (1702-1714), lutou com a França, Holanda e Áustria contra a Espanha na guerra da quadrupla aliança (1718-1720) para impedir o crescimento territorial espanhol em Itália , combateu com a Prússia e Portugal contra a Espanha e a França na guerra dos sete anos (1756-1763) para obter ganhos coloniais e enfraquecimento dos impérios coloniais rivais, criou uma coligação poderes reaccionários (Áustria, Portugal, Prússia, Espanha…) para combater a França, (quer enquanto República quer enquanto Império) nas guerras revolucionárias e napoleónicas (1793-1815), incentivou e armou os nacionalistas gregos para separar a província de um Império Otomano decadente (1820-1830), interferiu na política interna dos reinos de Portugal (1828-1834) e Espanha (primeira guerra carlista de 1833-1840) ao apoiar as facções liberais de forma a “clonar” o seu próprio regime parlamentar e forçar relações de dívida perene das duas coroas perante a banca inglesa. A lista é interminável. Não há qualquer indicio de uma ideologia que guie tal variedade de opiniões e acções e isto é explicado por um pragmatismo brutal desprovido de crenças dedicado a assegurar apenas uma coisa:  uma Europa fragmentada.

Mesmo em tempos mais recentes (e mais pacíficos) temos que compreender que a sua entrada na Comunidade Europeia foi apenas para assegurar o seu lugar à mesa e tentar com que a evolução do colosso embrionário europeu fosse orientada para uma lógica de mercado livre e desregulamentado – o que revelou ser um enorme sucesso dado o que se passou nas 3 décadas seguintes. Nunca em momento algum houve um grande interesse por uma cultura comum com o resto da europa ocidental. O Reino Unido sempre se viu, e ainda vê, como uma excepção política e cultural. A sua pertença à comunidade foi usada como forma de salvar o poder financeiro da nação tendo transformado a city de Londres no segundo maior polo financeiro do mundo (depois de Nova York). Foi uma escolha deliberada dos governos conservadores do Reino Unido dar prioridade ao sector financeiro em detrimento da economia real. Os governos trabalhistas que se seguiram reforçaram essa escolha e abriram caminho para o desastre económico que aflige a nação, com níveis de pobreza jamais vistos. Mesmo assim o novo governo conservador manteve exactamente as mesmas escolhas, infligindo ao seu povo a mesma receita que as elites portuguesas adoptaram por cá: tornar o estado uma máquina de propagação da teoria de sobrevivência dos mais fortes e abandono total de qualquer responsabilidade social, económica ou política – a famosa austeridade que se dizia ser uma força de destruição criativa mas só deixou cinzas no seu rasto.

“The forces which are working out the great scheme of perfect happiness, taking no account of incidental suffering, exterminate such sections of mankind as stand in their way, with the same sternness that they exterminate beasts of prey and herds of useless ruminants.” - Herbert Spencer

“The forces which are working out the great scheme of perfect happiness, taking no account of incidental suffering, exterminate such sections of mankind as stand in their way, with the same sternness that they exterminate beasts of prey and herds of useless ruminants.” – Herbert Spencer

É neste contexto que surge um referendo sobre a União Europeia. Um país que já não é um Império e não sabe como lidar com uma nova realidade. Um povo que se sente completamente à margem de Bruxelas e das decisões que lá são tomadas. Uma economia refém de interesses financeiros internacionais de natureza especulativa. Um interior que se ressente profundamente de Londres que vê como um sorvedouro de dinheiro, cultura e poder. Neste ambiente a propaganda agita as multidões. Ecos imperais ainda se fazem ouvir em muitos que não querem aceitar o novo status quo. As tensões de classe, que pareciam ser coisa do passado, voltam a sentir-se e os ingleses percebem que as divisões socio-económicas só se podem agravar continuando tudo como está – daí o magnânimo desprezo que têm dado às expressões de desejo de continuidade na UE manifestadas por representantes da elite (personagens mediáticas, grandes executivos de firmas financeiras multinacionais, a maioria dos políticos mainstream, a crème de la crème do mundo académico exemplificada por Oxford e Cambridge…). Não é um fenómeno limitado a marginais, psicopatas e foras da lei. É uma reacção espontânea, fruto de um mal-estar profundo numa sociedade ocidental esgotada. É algo que pode acontecer noutro lado qualquer na Europa. E isso cria medo nas elites. Medo de perderem o controlo dos mecanismos que asseguram o seu poder. Medo que sejam reintroduzidas medidas de fiscalização popular de todo o edifício legal e económico que os mantém no topo da pirâmide. Medo que contas sejam ajustadas.

"As it turns out, we don't "all" have to pay our debts. Only some of us do." - David Graeber  ps: parabéns a quem souber "ler" a foto.

“As it turns out, we don’t “all” have to pay our debts. Only some of us do.” – David Graeber
ps: parabéns a quem souber “ler” a foto.

Mas agora tudo isso vai provavelmente ser varrido para debaixo do tapete. Este homicídio marca senão o fim do debate no Reino Unido (pode ser já demasiado tarde para inverter a tendência de secessão) pelo menos o fim do debate no resto da Europa. As posições a favor da continuação na União terão agora a bênção dos céus pelo sangue derramado pela mártir, qualquer questionamento das suas intenções e interesses será ignorado ou sofrerá acusações concordar com o autor do crime – uma espécie de crime por associação intelectual. A parte racional do eleitor vai ser desligada. Não porque ele escolha fazê-lo mas porque é essa a natureza da propaganda. Pega-se numa situação insustentável cheia de zonas cinzentas de incerteza e substitui-se por uma escolha moral a preto e branco. És dos bons ou dos maus? A escolha passa a ser simples e todos podemos voltar à nossa rotina de decadência lenta mas inexorável.

O novo normal

O mundo muda rapidamente e nas últimas décadas o processo parece estar em aceleração. Não porque o prometido mundo híper tecnológico nos tenha aberto novas portas mas precisamente porque falhou em cumprir as suas promessas de um futuro melhor. Qualquer pessoa que fosse um adulto nos anos 70 quase não consegue reconhecer a dimensão das mudanças ou dos problemas que parece que se multiplicam diariamente. Tais pessoas têm a tendência de ficar presas a modos de percepção e pensamento que já não coincidem com o mundo em que vivem, habitam em grande parte no passado apesar dos seus corpos estarem no presente.

“Construímos estátuas de neve e choramos ao ver que derretem” – Walter Scott

“Construímos estátuas de neve e choramos ao ver que derretem” – Walter Scott

Os fenómenos eleitorais no mundo ocidental (e falo deste canto do globo porque a) é onde vivemos e b) grande parte do resto mundo nunca chegou a ter democracias reais) têm-se degredado com o passar dos anos. Isto é mais visível nas taxas de abstenção crescentes em todos os países – ou seja, não se trata de algo isolado ou dependente de condições locais. É fácil para os comentadores integrados no sistema ignorarem esta situação limitando-se a falar de um desinteresse por parte dos cidadãos face à política. Assim arrumam o assunto e responsabilizam o eleitor por qualquer falha que apareça no funcionamento das instituições. Mas, como sempre, a realidade é mais complicada. Não só o interesse pela vida política está a desaparecer como as próprias lealdades daqueles que ainda votam estão a tornar-se mais voláteis. Criando padrões de governo cada vez mais erráticos e sem estratégia de longo prazo.

“A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – Henry Mencken

“A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – Henry Mencken

As instituições Europeias (e alguns dos principais países da União) têm estado muito atentas a este fenómeno sendo que na década de 90 chegaram a uma decisão final. Não iriam ficar dependentes de qualquer ordem política que pudesse emergir deste caos. Foram cortando os vários elos que as ligavam a uma legitimidade democrática e investiram na criação de um novo mito. O do perito. Consequentemente as suas decisões têm-se revestido cada vez mais de um carácter teoricamente “neutro” e técnico, de forma a poder afirmar a independência e validade seja qual for o resultado do caos democrático. Os que tiverem uma memória um pouco mais longa que a maioria conseguirão com certeza lembrar-se de debates de há uma década atrás em que desesperadamente se queria colmatar o défice democrático da União Europeia. Face a estes novos desenvolvimentos é fácil perceber que as instituições da UE não estavam verdadeiramente empenhadas na questão. Estavam apenas a comprar tempo. Enquanto os debates se arrastavam dentro e entre nações a UE já estava a restruturar a sua organização segundo um novo critério, o de uma suposta tecnocracia. Quando o processo ficou concluído havia compreensivelmente pouco interesse em continuar o debate sobre o défice democrático já que a prestação de contas perante o eleitorado tinha perdido quase toda a sua relevância.

Este processo não se deu apenas ao nível de uma burocracia europeia mas também dentro de todos os países centrais da União. À medida que a UE provava que conseguia estabelecer credibilidade baseando-se apenas no seu estatuto como supostos peritos os vários governos relevantes do continente foram replicando as mesmas ideias e estruturas dentro das suas fronteiras. O resultado foi um agravamento severo da apatia e volatilidade eleitoral (explicando a subida por toda a Europa de partidos extremistas e, ironicamente, profundamente antidemocráticos) levando a que o distanciamento entre o cidadão e o poder deixasse de ser um fosso para passar a ser um abismo. Fica assim mais claro porque é que nas últimas décadas temos vindo a assistir a um amalgamento das tendências e partidos políticos, tornou-se irrelevante saber o quadrante político das entidades partidárias porque as decisões verdadeiramente relevantes foram transferidas para entidades de “peritos” que não se sujeitam a qualquer escrutínio.

“The point is that we are among those who cannot get their mouths around all the little Yeses that add up to tacit acceptance of a world run by crackpot realists and subject to blind drift. And that, you see, is something to which we do belong; we belong to those who are still capable of personally rejecting. Our minds are not yet captive.” – C. Wright Mills

“The point is that we are among those who cannot get their mouths around all the little Yeses that add up to tacit acceptance of a world run by crackpot realists and subject to blind drift. And that, you see, is something to which we do belong; we belong to those who are still capable of personally rejecting. Our minds are not yet captive.” – C. Wright Mills

Os países da periferia apesar de também se irem adaptando ao novo sistema estão um pouco desfasados dos países centrais ou das instituições europeias, mas agora que os pânicos financeiros acalmaram um pouco (e os interesses dos credores foram assegurados de e transformados numa obrigação perpétua) começamos a sofrer pressão para acelerarmos o ritmo da adaptação. E na primeira linha desta transformação está a legalização do lobbying. Só a menção deste termo gera desconfiança no cidadão médio que vê nela apenas a legalização do que até então se fazia a portas fechadas. E em grande medida a sua desconfiança é justificada já que Bruxelas e Washington (os centros mundiais de lobbying) não são conhecidos pela sua transparência apesar da abundância de legislação a regular esta actividade. Mas as consequências são algo maiores do que apenas maquilhar o que hoje seria considerado pouco ético ou mesmo ilegal. No centro do lobbying está a ideia de que qualquer grupo (seja ele qual for, cidadãos, empresas, grupos religiosos, etc) pode e deve pressionar os governos e parlamentos a agir da forma que lhes é conveniente, mesmo que isso desrespeite completamente os direitos fundamentais de outros. Claro que isto abre uma verdadeira caixa de Pandora. Aceitar o lobbying como parte normal do processo político e social é escrever no contrato social que o dinheiro pode comprar acesso e influência. É admitir que nem todos somos iguais. É negar a ideia de justiça. É dizer que somos ouvidos apenas na medida do que podemos pagar. É organizar a sociedade como uma gigantesca entidade comercial que responde apenas aos seus accionistas.

“You read constantly that banks are lobbying regulators and elected officials as if this is inappropriate. We don’t look at it that way” – Jamie Dimon  (CEO da JP Morgan Chace)

“You read constantly that banks are lobbying regulators and elected officials as if this is inappropriate. We don’t look at it that way” – Jamie Dimon (CEO da JP Morgan Chase)

O que acontece a quem não tiver dinheiro para comprar acções deste projecto? Ainda fará parte do contrato social? Em que medida? Será que mesmo aqueles grupos que representam causas legítimas (direitos humanos, luta contra a pobreza, acesso à justiça, entre outras), e que têm disciplina organizacional e fundos suficientes para ter voz, acreditam por um segundo que conseguem reunir os meios para igualar ou superar qualquer grande empresa ou sector económico?

Como é normal num sistema com graves deficiências de funcionamento, e com um grau de apoio popular cada vez mais estreito, as decisões mais importantes são remetidas para acordos mais ou menos secretos e comissões políticas e jurídicas labirínticas de forma a que o resultado seja ou ocultado ou incompressível. Algo que tem o poder de restruturar por completo o equilíbrio de poder entre os cidadãos e que de facto voltar a introduzir critérios de voto censatários (voto cuja existência ou peso depende do rendimento do eleitor) tal como existiam no século XIX pode ser aprovado sem que o cidadão médio compreenda 10% das consequências que tal acarreta a longo prazo. De facto seguindo o retrocesso lógico os próximos passos seriam a permissão de compra de votos (afinal tratar-se-ia apenas de uma troca económica e não de algo político) e o estabelecimento de “votos especiais” (com mais peso) para determinados actores que sejam considerados como “especialmente relevantes” para a sociedade. Podemos esperar uma feroz campanha nos corredores do poder por parte dos nossos “liberais”, ao serviço dos seus empregadores, e se não houver qualquer reacção popular a esta reclassificação dos cidadãos em categorias económicas podemos ter certeza que irão sempre pressionar para que se vá mais longe. Até onde perguntarão? Até onde os deixarem.

“Arrependimento é a virtude das mentes fracas” – John Dryden

“Arrependimento é a virtude das mentes fracas” – John Dryden

Se mais uma vez o cidadão se fechar na sua concha de apatia e hedonismo e não prestar a devida atenção ao que se está a passar perderá qualquer credibilidade para vir reclamar daqui a 5 ou 10 anos. A sua oportunidade de acção é agora. Enquanto o processo ainda está num estágio embrionário. Depois será tarde demais, quer politica quer moralmente. O cidadão tem que se convencer que nem tudo na nossa realidade é reversível. Nem tudo pode ser corrigido. Nem sempre há mais tempo para “pensar” e debater. Há decisões que uma vez tomadas são permanentes.

As sombras mudam de posição

O Verão costuma ser morto e este ano não foi excepção. Aproveitou-se o vazio noticioso para ir introduzindo temas relevantes que não tiveram de todo a atenção detalhada que mereciam. Foram apenas benevolamente comentados pelos suspeitos do costume que tudo fazem para mostrar a inevitabilidade e normalidade de falências bancárias, manobras de bastidores partidárias, estranhas relações entre público e privado e infindáveis cortes no nível de vida do cidadão. Haverá aqui algo de novo que mereça comentário? Vamos dar alguns passos atrás, para ganhar alguma distância crítica, e vamos dissecar a situação estratégica sem a distracção dos faits divers. O leitor será o juiz sobre o que realmente se passa com o seu país.

Alexander Litovchenko - Charon Carries Souls Across the River Styx

“É preciso dizer a verdade apenas a quem está disposto a ouvi-la” – Séneca

As falhas estratégicas da elite de poder não precisam de mais estudos aprofundados por parte de grandes académicos, porque, como em tudo na vida, a prova está sempre nos factos empíricos. E os factos são os seguintes: Portugal saiu de uma rota de convergência social e económica com o resto da União Europeia há pelo menos duas décadas; As instituições públicas e privadas são feudos (no verdadeiro sentido medieval da palavra) geridas com punho de ferro mas também com total inépcia por membros da elite ou do seu “secretariado” (vulgarmente designados de “gestores”); O mérito é uma palavra oca, não se traduz em qualquer recompensa no mundo real ao contrário do que os meios de comunicação fiéis ao regime querem fazer transparecer (no entanto o número de falências de empresários recentes – ou seja, pessoas que acreditaram no discurso oficial e colocaram a sua vida em jogo num qualquer investimento – não é sequer mencionada ou contabilizada); O empobrecimento generalizado há mais de uma década que deixou de ser um fenómeno ocasional ou temporário para se tornar sistemático e irrevogável; O sistema de troca de favores entre um circuito fechado de amigos e conhecidos foi, é e parece que continuará a ser a norma de funcionamento para obter seja o que for, falemos de “alta política”, uma empresa internacionalizada ou de uma junta de freguesia perdida no Portugal profundo. Estes são os factos. Não mudaram. O país é este. E como muitas famílias estão a descobrir, à medida que os seus rebentos acabam os seus estudos ou são obrigados a abandoná-los por incapacidade financeira, o elevador social está fechado para reparações por período e indeterminado.

“Num país bem governado a pobreza é algo que deve causar vergonha; num país mal governado a riqueza é algo que deve causar vergonha.” – Confúcio

“Num país bem governado a pobreza é algo que deve causar vergonha; num país mal governado a riqueza é algo que deve causar vergonha.” – Confúcio

Mas talvez haja algo a dizer. Alguns dos demagogos mais proeminentes ao serviço da elite de poder têm recentemente saído da sombra para voltar a comentar aqui e ali certos detalhes do que vai acontecendo. Parte do que este blogue e a Irmandade de Némesis andaram a dizer parece que se tornou óbvio para estes senhores – a solução prescrita não é a mesma mas falaremos disso mais á frente. Parecerá com certeza estranho a qualquer pessoa que comentadores profundamente integrados neste sistema tenham ganho uma consciência, compaixão ou empatia nos últimos meses. Obviamente que não se trata de qualquer sentimento de culpa ou de responsabilidade para com a população que atraiçoaram, por bem menos que as tradicionais trinta moedas de prata. A estratégia da elite parece estar em mudança. Devido em grande parte à sua incompetência crónica (e dado que se trata de um grupo praticamente endogâmico penso que não seria ir muito longe dizer que é genética) para gerir os seus próprios interesses a elite de poder criou um pequeno inferno neste país. Mas claro que nunca nenhum destes senhores feudais pensou que isto afectasse os seus próprios protegidos/afilhados/família ou que de forma alguma pudesse vir a ameaçar a sua predominância social ou mesmo, em alguns casos, sobrevivência. Esqueceram-se do resto do mundo. A sua visão tipicamente provinciana e saloia é de tal forma estreita que ignorou que eles não são os únicos protagonistas na política e economia mundial. Não passam de actores secundários, muitas vezes nem isso, e que os seus insignificantes objectivos e ambições são facilmente aniquilados por outras elites mais dinâmicas, competentes e com maior poder. Esta desvantagem intelectual é algo que não conseguem resolver sozinhos. Nem estão dispostos a deixar que alguém interfira no assunto. Antes de permitirem que alguém partilhe o leme do barco preferem que vá ao fundo. Como irónica e perspicazmente Napoleão terá comentado com o seu ministro dos negócios estrangeiros, Talleyrand, acerca da dinastia dos Bourbon: esta elite nada esquece e nada aprende. Por muitas viagens que façam a Londres, por muitos MBAs que tirem, por muitas compras que façam na Place Vendôme, por muitos brinquedos tecnológicos americanos que acumulem ou por muito que se tentem tapar com a última moda de Milão não conseguirão jamais deixar de ser o que sempre foram: merceeiros mesquinhos a quem falta qualquer tipo de visão estratégica quer para si quer para os que dominam através de coerção e medo.

“O rico comete uma injustiça e ainda se mostra altivo; o pobre é injustiçado e ainda precisa de se desculpar.” – Eclesiástico 13:3

“O rico comete uma injustiça e ainda se mostra altivo; o pobre é injustiçado e ainda precisa de se desculpar.” – Eclesiástico 13:3

Colocados em cheque na sua própria casa a elite de poder teve que começar um processo de reposicionamento dos seus peões. Confrontados com uma situação que começa rapidamente a fugir ao seu débil controlo começam a abandonar alguns dos seus aliados políticos tradicionais. Não deixarão de fazer os habituais negócios de renda garantida com o Estado ou colocar os rapazes das várias cores políticas como seus assessores e gestores, mas gradualmente deixarão a classe política assumir cada vez mais o peso moral das monstruosidades que vão fazendo. Dão instruções para que os seus agentes tomem posições algo mais críticas em relação aos erros de governação que entram pelos olhos dentro e que são impossíveis de vender à população como algo que não seja uma imposição hierárquica caprichosa. Em suma, estão a distanciar-se tacitamente. Assumem pela primeira vez, desde o seu regresso do exílio a que foram remetidos em 1974, que talvez o regime democrático, tal como o conhecemos, não sobreviva e querem estar numa posição mais cómoda para negociar com o que vier a seguir. A forma como a questão está a começar a ser posta perante a população é clássica. Escolher entre dois cenários convenientes e apresenta-los como as únicas alternativas viáveis, sabendo de antemão que ambos servirão de forma adequada os seus interesses.

“A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se se conseguir controlar o significado das palavras consegue-se controlar as pessoas que são obrigadas a usar as palavras” – Philip K. Dick

“A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se se conseguir controlar o significado das palavras consegue-se controlar as pessoas que são obrigadas a usar as palavras” – Philip K. Dick

O cenário preferível é o que vivemos já actualmente e aposta acima de tudo num certo grau de continuação da passividade popular. Manifestação à porta do ministério A, protesto junto à Câmara Municipal B, greve na empresa C, etc. Tudo somado dá em nada. Prossegue o processo de transformação de Portugal num país de terceiro mundo dentro da União Europeia que presta tributo (uso a expressão literalmente) a Berlim sobre a forma de um juro perpétuo de uma dívida que nunca poderá ser saldada através das instituições Europeias e bancárias. O segundo cenário é algo mais complicado mas ainda assim desejável do ponto de vista da elite de poder. Trata-se de deixar que o regime se consuma a si mesmo. Sem nunca se colocar como uma oposição clara mas permitindo que a classe política leve as coisas até ao ponto de rotura. Nesse momento será apresentado o seu homem providencial que implorará em lágrimas que o deixemos impor ordem na casa, a bem da nação – de forma generosa, exigirá apenas a nossa abdicação dos poucos direitos e liberdades de que ainda dispomos. O risco neste caso é fácil de entender. Qualquer regime que entre em fase terminal perde o controlo sobre os seus próprios meios e é complicado conseguir prever quem sairá vencedor de qualquer conflito que deste género. Há uma possibilidade séria de o resultado não ser o desejado. Mas tal possibilidade pode ser contrabalançada. A nível interno com o apoio dos meios de comunicação leais aos seus empregadores e com doses generosas de financiamento que outros pretendentes menos cooperantes não irão dispor. E a nível externo não é segredo que a UE segrega do seu centro uma certa dose de “racismo” cultural face aos estados do Sul e que do seu ponto de vista um regime “musculado” pode ser visto como mal menor para lidar com os “bárbaros” e “irresponsáveis” desde que não afecte os seus planos a longo termo ou equilíbrios regionais. Seja qual for a escolha “livre” dos portugueses o que será inaceitável para a elite (e como tal nem é colocado como hipótese) é que a população se autonomize face aos seus interesses, que os senhores feudais sejam expulsos dos seus castelos.

“Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal.” – Maquiavel

“Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal.” – Maquiavel

Os testes iniciais de aceitação destes cenários já começaram há muito tempo. As reacções iniciais foram extremamente negativas junto do público geral, daí o seu adiamento até este momento. Mas o tempo e a pobreza desgastam e tornam o que não seria contemplável em algo possível e eventualmente em algo que seja visto como um mal menor ou mesmo necessário. O tempo de cenários hipotéticos acabou. As hipóteses já foram postas em cima da mesa em muitos círculos e já começam a ter a sua fase inicial de divulgação às massas em forma de pensamento coerente. É um processo em marcha. O tempo e o serviço dos mercenários intelectuais irá cristalizar e tentar enobrecer estas tácticas de perpetuação de dominação. Caberá, como sempre coube, aos cidadãos saberem resistir, defender-se e reconquistar o que é deles por direito. São os cidadãos que têm que gritar com convicção “Roma não paga a traidores!”.

O Enclave está com os cidadãos.

A Irmandade de Némesis está com os cidadãos

Pequenas perguntas

Ao longo do tempo há pequenas perguntas que começam a “incomodar” ou a ficar presas, qual pedra no sapato, na nossa mente e às quais não conseguimos dar um enquadramento lógico que nos satisfaça plenamente. Começamos a pensar sobre o tema e ao fim de alguma leitura, debate e pensamento sobre o tema começamos a ouvir uma voz interna a dizer: “porque estás a fazer isto tudo”? Quanto maior a base de conhecimento menor será o grau de integração social (não interessa tanto o nível económico – apesar de ajudar ou facilitar claro – como o sentimento interno da pessoa, se ela se sente parte do todo, se consegue uma identificação emocional com “a coisa”) e mais vezes este tipo de pergunta interna irá surgir.

“Any fool can know. The point is to understand.”

“Any fool can know. The point is to understand.”

Para mim há uma lista delas que ao longo dos anos fazem as suas rondas habituais na minha mente sem que nunca tenha conseguido obter uma resposta que me diga algo (a um nível existencial se quisermos colocar a coisa assim). E a primeira delas é o acto de votar. Eu compreendo, e sei melhor que muitos, a história do liberalismo português (no seu sentido europeu e único: autonomização do individuo face aos grupos sociais, seja a coroa, o patrão, a religião a cidade, o bairro, o clã, etc) mas depois de uma breve admiração pelos esforços que outros desenvolveram em seu (e inconscientemente) e em meu nome fica o vazio. Porque haveria de votar? Porque haveria sequer de me preocupar com as tricas internas que passam por “notícias” nos órgãos de informação comerciais e politizados? O que significa para mim que um ou outro governe (tirando casos aberrantes de ameaça de liberdades fundamentais, mas nesse caso penso que poderíamos considerar mais como situações de autodefesa eleitoral do que como um voto ponderado)? Eu não como da mão de nenhum deles por isso à partida nada ganho em qualquer apoio. Não acredito por um momento na sinceridade de nenhum deles por isso sei que são todos igualmente ocos. Já vivi o suficiente para a ver a corrupção de todos eles triunfar sobre pessoas boas ou ingénuas que nada fizeram para o merecer, por isso, porque haveria de ajudar a dar esse tipo de poder a qualquer um deles?

"Greed is a bottomless pit which exhausts the person in an endless effort to satisfy the need without ever reaching satisfaction"

“Greed is a bottomless pit which exhausts the person in an endless effort to satisfy the need without ever reaching satisfaction”

Uma das minhas grandes desilusões é não ser anarquista. Isso facilitaria imenso as coisas. Passar um selo de borracha sobre toda a teoria institucional e mandar tudo às urtigas. Mas, mais uma vez, tenho experiência pessoal suficiente para saber que o anarquismo é uma fuga do inevitável. Da natureza humana. Que anseia por hierarquia (menos pesada e menos visível é o que tem estado na moda nas últimas décadas mas, como na roupa, estas coisas são cíclicas) e por ganho pessoal. Mais que isso, apesar do misantropismo sei reconhecer que há indivíduos, aqui e ali extremamente isolados, cortados de outra cepa. Para quem uma oportunidade numa posição de organização seria uma dádiva dos deuses a todos nós – apesar simultaneamente ser obrigado a reconhecer a improbabilidade que tais indivíduos vão muito longe nas hierarquias partidárias e corporativas. Há demasiados acordos a fazer, demasiadas coisas a comprometer, demasiado que fica pelo caminho. Até que, para aquelas que decidem entrar no jogo para “mudar as coisas por dentro”, sobra apenas mais um esqueleto ético, igual aos outros que enchem os partidos, os órgãos do estado, as chefias e cargos médios das empresas. Autênticos abismos niilistas andantes. Talvez os gregos tivessem alguma razão (limitada pelo seu próprio isolamento) quando falavam de gerações decrescentes. À era o do ouro seguir-se-á a de prata e depois a de bronze (continuando a sequência até a uma degradação final e, talvez, renovação) e talvez assim entendamos porque muitos dos dignatários serão incapazes de cumprir as funções, básicas, que os seus antecessores lhes encarregaram.

"E a última é a do duro ferro. De súbito, todo o acto nefando irrompe nesta idade de metal menos valioso. Fugiram o pudor, a sinceridade, a  lealdade, e, no lugar destes, sucederam-se-lhes o logro e a traição, e as insídas e a violência,e a criminosa paixão por possuir."

“E a última é a do duro ferro. De súbito, todo o acto nefando irrompe nesta idade de metal menos valioso. Fugiram o pudor, a sinceridade, a lealdade, e, no lugar destes, sucederam-se-lhes o logro e a traição, e as insídas e a violência,e a criminosa paixão por possuir.”

Portanto fica a questão, para quem ainda se interessar não pelas pessoas, não pelos eventos mas pelas ideias: Porquê, dado tudo isto votar? Que bem ético atingimos? Que serviço cumprimos? Qual o objectivo pragmático que é servido?

Os ares do Verão

Para que serve o Verão em Portugal? Até há uns anos (2007-2008) servia como ritual de purificação da classe média que se isolava através do turismo massificado em zonas de praia com planos urbanísticos horríveis. No entanto isso tem vindo a alterar-se. A mobilidade reduz-se a cada ano que passa e cada vez mais pessoas ficam em casa a meditar sobre o que fizeram o ano todo. A contemplar os seus erros. Sem banhos de sol e mar podem encarar mais sobriamente o que esses enganos podem implicar para o seu futuro. Será que a anunciada recuperação terá alguma continuidade depois do normal “boost” de Verão? Poder-se-ão pagar as contas de saúde que se vão acumulando à medida que as poucas unidades ainda totalmente públicas começam a perder os poucos recursos que lhes restavam? Será que haverá dinheiro para que os filhos possam continuar a estudar agora que o ensino vai seguir o caminho do SNS e será incrementalmente pago? Os abutres televisivos fazem a cacofonia do costume mas nada parece claro. E assim se perdem as noites de sono dos mais prescientes.

"O culpado que nega as suas culpas - dobra-as"

“O culpado que nega as suas culpas – dobra-as”

Os mini casos de corrupção política e pessoal ocupam as semanas e a confusão dá lugar a exigências algo vagas de “justiça” – dentro do estilo de uma populaça medieval irada: “que se tirem as maçãs podres do cesto” (que o cesto em si esteja podre é outra questão que escapa à visão de muitos). Mas a pergunta mais perceptiva é porque é que estes “escândalos” aparecem todos de seguida. Se olharmos para a normal rotatividade dos partidos penso que será fácil de perceber que esta continuação de governo não estava nos planos. Isso aumentou muito as tensões. Já em tempos normais o teria feito, mas numa altura em que os aparelhos partidários estão mais apertados a urgência é sentida como a fome de quem não vê uma sandes há uma semana. Não espaço para o cavalheirismo habitual. Não se podem deixar estas coisas passar – mesmo que seja do interesse de qualquer sistema estável que os principais agentes de poder não chamem a atenção dos governados sobre as suas falhas, especialmente quando são partilhadas, já que não só os enfraquece a ambos como ao sistema que lhes permite existir. Mas quando a fome aperta e os recursos escasseiam os cavalheiros perdem os seus bons modos e tornam-se visivelmente mais tribais, tornando todo o jogo de interesses mais transparente.

"Os traidores são colhidos na sua própria cobiça"

“Os traidores são colhidos na sua própria cobiça”

Mas a vida prossegue. Por inércia. Por incapacidade de reacção. Por apatia. Por indiferença. Por cobardia. Talvez os deputados alemães tenham alguma razão e Portugal seja um país de “mansos”. Talvez. O calor tardio finalmente faz o seu efeito e leva os portugueses mais persistentes à sonolência. Conseguem adormecer numas “siestas” que compensam as noites problemáticas. Mas Setembro está à porta e com ele mais uma movimentação nos terrenos políticos, as eleições locais. As eleições para o poder autárquico são uma mistura de clientelismo básico de século XIX, aparelhos partidários pós-25 de Abril, corrupção imobiliária e uma oportunidade geral de fazer uma sondagem de opinião sobre o poder central. Serão seguidas pela tentativa de aprovar mais um orçamento que deverá tantas hipóteses de passar quantas as câmaras que o PSD conseguir manter e do próximo relatório trimestral sobre a economia – já sem os resultados de Verão. Admito ignorância quanto ao que vai na cabeça dos nossos veraneantes. Não sei se continuam a pensar que isto se vai corrigir sozinho. Não entendo o porquê da indiferença dos mais afectados pelas reformas. Estão à espera de algum salvador? Nesse caso puxem uma cadeirinha porque pode demorar – o último devia ter aparecido pouco depois de 1580 e ainda estamos à espera.

wir kapitulation

wir kapitulation

O calor entorpece os sentidos mas a seguir ao Verão virá sempre o frio. Severo. Cruel. Realista. E aí não existirão deliciosos pedaços de tempo a meio da tarde onde as pessoas poderão diluir as suas consciências. Virão também novos Senhores do Norte. Emissários imperiais para nos impor um novo tributo sobre a dívida gerada por nós e acima de tudo por especulação financeira organizada – se existisse capacidade técnica e coragem política provavelmente chegaríamos à conclusão que estamos mais num cenário de guerra económica e de ocupação informal do que parceria. Não haverá simpatia como não houve até agora. Não haverá perdão. Não haverá alívio. Apenas um aumento da pressão até que os mestres dos publicanos estejam saciados com o saque e assegurados da incapacidade de resposta. O regime fragiliza-se internamente mas cimenta cada vez a sua credibilidade pela sua estreita ligação à nova Roma. O povo ignora por sua conta e risco o que sucede debaixo das suas barbas.

Consilio, quod respuitur, nullum subest auxilium

El Dorado de latão

As recentes questiúnculas com Angola trazem sempre à memória o passado português. Aquela tendência autodestrutiva de não resolver os problemas que se têm em casa e procurar uma fuga noutro local qualquer. De certa forma esta atitude tem o seu equivalente no Sebastianismo, a procura de um imaginário miraculoso e salvífico que oculta uma falta de vontade ou incapacidade de lidar com o presente. Começámos pela Índia não tendo sabido manter o Império Oriental verdadeiramente lucrativo por mais que umas décadas – período durante o qual reinou uma autêntica guerra pirática de todos contra todos nas possessões portuguesas. Quando as coisas não funcionaram tão bem como tínhamos pensado transferimos as nossas aspirações mais profundas para o Brasil. Rapidamente também as riquezas fáceis chegaram ao fim e iniciou-se a economia esclavagista que dominaria até meados do século XIX. A revolução industrial apanhou-nos desprevenidos, como de costume, e as poucas oportunidades de acompanhar o resto da Europa foram desperdiçadas levianamente. Não será de admirar que tenhamos perdido o país para os ingleses antes de ele próprio se ter declarado independente. Em desespero de causa e sem ter para onde mais olhar lentamente começámos a interessar-nos pelas possessões africanas sendo que só no século XX é que chegámos a uma exploração verdadeiramente sistemática de uma parte significativa desses territórios. Como a metrópole nunca esteve em ordem aconteceu o mesmo que em outros momentos históricos. Uma transição atabalhoada que levou à perda de décadas de acumulação de capital próprio. Esta falta de vontade de olhar para nós próprios levou também à falta de análise crítica (política e não académica) da ditadura, das causas da sua durabilidade e do colaboracionismo de grande parte da sociedade – a hipervalorização de Abril faz lembrar um pouco a Itália pré-1945 em que se estimava existirem cerca de 500 guerrilheiros/resistentes ao regime fascista; poucos meses após retirada final da Wehrmacht o número de italianos que reclamavam ter feito parte da resistência já tinha atingido os 5000.

S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. Quatro anos depois escreveria ao monarca a implorar o establecimento da Inquisição no Oriente devido ao caos que encontrou.

S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. Quatro anos depois escreveria ao monarca a implorar o establecimento da Inquisição no Oriente devido ao caos que encontrou.

Sem análise política digna desse nome o povo seguiu alegremente o novo curso que lhe propuseram, a coesão com a Europa – numa altura que a fragilidade económica do continente já tinha feito algumas aparições. Mais uma viagem rumo a uma realidade desconhecida que parecia tão mais atractiva que a nossa. Com o benefício acrescido de podermos fugir de qualquer tendência mais introspectiva que nos forçasse realmente a lidar com os nossos “demónios” colectivos. Passou-se uma camada de verniz sobre o passado recente e sobre a própria realidade mental portuguesa e anunciou-se com pompa e circunstância que tínhamos integrado o mundo desenvolvido – só mesmo em indicadores do nível de asfalto por área territorial é que poderíamos aspirar ter atingido tal objectivo. Como todos agora sabemos as crises que já tinham abalado o sistema económico e social Europeu só se agravaram com o passar do tempo; penalizando cada vez mais os países menos unidos, culturalmente mais conservadores, de sistemas políticos recentemente forjados e sem pensamento estratégico. Mais uma aventura que provou que no curto prazo os portugueses são fantásticos a aproveitar as oportunidades de ganhos rápidos mas que lhes falta a dimensão estratégica que permitiria, senão um domínio de certas áreas, pelo menos atingir uma certa estabilidade e independência face ao exterior. Neste ponto da narrativa será escusado dizer que nos recusámos mais uma vez a olhar para dentro, para o que teríamos que resolver internamente e passámos à caça frenética da próxima “grande oportunidade”, e assim chegamos ao oásis angolano. Vedado a, quase, todos nas primeiras décadas que se seguiram à independência por uma brutal guerra civil e ressentimento acumulado e votado ao esquecimento nos primeiros anos de paz enquanto andávamos entretidos a brincar com a Europa. Mas finalmente tínhamos descoberto o nosso mundo de oportunidades perdidas numa ex-colónia sequiosa de desenvolvimento.

“Your visions will become clear only when you can look into your own heart. Who looks outside, dreams; who looks inside, awakes.” - Carl Gustav Jung

“Your visions will become clear only when you can look into your own heart. Who looks outside, dreams; who looks inside, awakes.” – Carl Gustav Jung

Mas por debaixo desta narrativa tradicional da descoberta do novo “el dorado” estava a mesma realidade de sempre. Um país que não resolveu os seus problemas internos, que não evoluiu mentalmente e que se centra sobre ganhos a curto-prazo. Esquecemo-nos do óbvio. De um ponto de vista estritamente económico Portugal não é nada e apanha as migalhas que outros gigantes deixam cair estando condenado a ser eventualmente afastado dos mercados mais lucrativos de Angola. Mais que isso, o nosso desenvolvimento técnico é recente, limitado a certas áreas e não estamos na linha da frente da investigação. Ou seja, rapidamente Angola pode prescindir dos serviços das empresas portuguesas assim que tiver as estruturas básicas montadas. Na melhor das hipóteses estamos a olhar para 10 anos de relações lucrativas seguindo-se um período de decrescimento da presença nacional até aos níveis anteriores e de uma inversão natural do peso económico respectivo, visto não termos qualquer barreira comercial digna desse nome com os PALOP (nem mesmo baseadas em correlações com o desenvolvimento humano, crescimento da classe média local, direitos humanos, etc). Mais uma vez o teatro do imediato toma prioridade e as pessoas tomam posição face a uma suposta agressividade Angolana (tomando algumas respostas laivos do regime que colonizou o país) quando de facto o que ocorre é apenas o natural entre nações cujos povos não têm laços reais sólidos, a realpolitik – que, a julgar pelo que vemos, as elites angolanas dominam melhor que as portuguesas. Sendo irrelevante a “solução” final para estas questões resta perguntarmos-mos: e quando Angola já não for “the next big thing”? Qual é a próxima terra prometida? Queremos mesmo continuar a ignorar o nosso mal-estar interno? A viver de solução de curto-prazo em solução de curto-prazo? E mesmo que queiramos isso, será viável no mundo que está a nascer?

Portugal, a Europa e a Modernidade

Idealmente a ideia de uma cultura partilhada a nível europeu é apelativa a qualquer pessoa que tenha um mínimo de sentido de história. Como nações, povos, culturas e seres humanos interagimos há tanto tempo uns com os outros que não me ocorreria nada de mais natural que embarcar num projecto de alguma integração a nível continental, especialmente a partir da segunda metade do século XX. O problema, que só se começou a manifestar décadas mais tarde, sempre foi a questão da integração. Quem deveria fazer parte do clube e quem não faria sentido ser convidado. Mas o projecto europeu, como a maioria das ideias que parecem funcionar bem, foi esticado até ficar permanentemente deformado. De uma ideia igualitária fomos entrando numa Europa de níveis. De um projecto de cultura comum foram aceites povos que nem tinham começado a digerir a modernidade (incluindo Portugal) acabando por criar desfasamentos que até hoje permanecem por resolver. De uma cultura de cidadãos derivámos numa cultura legalista – devido em grande parte à dificuldade de educar cidadãos em grande escala mas também devido à falta de interesse que todos os países que se juntaram ao núcleo mostraram pelos esforços necessários para atingir fins verdadeiramente exaltados.

"Things fall apart; the centre cannot hold" - William Butler Yeats, The Second Coming, 1919.

“Things fall apart; the centre cannot hold” – William Butler Yeats, The Second Coming, 1919.

Será verdade que o sistema económico terá desempenhado um papel de exacerbamento de tensões mas, em última análise, não as criou. Está em voga ver as tendências da ideologia económica agressiva da Comissão Europeia como principio, meio e fim dos problemas que afligem a União. Mas nada podia estar mais longe da verdade. A guerra económica é uma realidade mas não teria efeito se não tivesse encontrado um solo fértil em desunião, ressentimentos e diferenças profundas de sensibilidades. Desunião que sempre esteve presente (basta pensar nas questões ligadas à emigração) e foi sentida cada vez mais desde a implementação do euro. Que criou oficialmente dois escalões de pertença e levou a um processo de inevitável acumulação de riqueza no centro e esvaziamento económico da periferia. Os ressentimentos não são menos graves que no passado nem se resumem a estereótipos irracionais de cada nacionalidade, são os interesses divergente das várias nações (reconhecidas ou não como tal) a serem forçadas num mesmo molde quer queiram ou não. Uma certa historiografia germanófila usa, e abusa, do exemplo da ocupação francesa e belga do Rhur, entre 1923 e 1924, para justificar parte do ódio nascente na Alemanha pós-guilhermina, e de certa forma criar um dos, muitos, escapes morais para evitar a culpa colectiva pelo que foi o terceiro reich e moralizar a sua recente ascensão. Curiosamente os mesmos “intelectuais” (chamemos-lhes antes detentores de cátedras universitárias, de “spots” como comentadores televisivos ou ambas as coisas) falham em traçar o mesmo elo de ligação quando se humilha um país que deu sangue pela sua independência como a Grécia (e que curiosamente resistiu à agressão alemã antes) ou se destrói o orgulho espanhol sem pensar. Não espero convencer ninguém da verdade destes factos, apesar de serem evidentes por observação, pois conheço a mentalidade portuguesa. À direita apenas aplaudirão a crítica à União enquanto pensarem que implica uma rejeição total da modernidade e da mentalidade cosmopolita. À esquerda apenas aplaudirão se acreditarem que se está a fazer uma crítica radical ao sistema económico sendo a imaginária fraternidade europeia sacrossanta. E ao centro nunca aplaudirão algo que mude de forma tão radical o “status quo”. É demasiado ameaçador ter que encarar as falhas europeias. É demasiado aterrador perceber o vazio total do projecto europeu tal como ele existe (que repito, é o único que este país teve em “democracia”). Algo teria que mudar e isso é pura e simplesmente inaceitável. Quase, senão mesmo, criminoso por expor o esqueleto do sistema à observação dos “comuns”.

"'O que fazer?', é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer; ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações." - Lev Tolstoi

“‘O que fazer?’, é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer; ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações.” – Lev Tolstoi

E assim entramos no problema mais profundo de Portugal em particular.  A questão da modernidade e a sua relação com o português médio. Não é tema novo, basta requisitar um livro sobre o renascimento europeu para perceber que o nosso atraso é congénito. E isso foi apenas o prelúdio para quinhentos anos de atrasos e falhanços (como honradíssimas excepções por parte de homens e mulheres que deram de si, por vezes literalmente, para fazer este povo evoluir). O iluminismo teve uma breve hipótese de começar a brilhar com Pombal mas foi sufocado pelo Portugal tradicional. Bafiento, conservador, ignorante e fanático, esse Portugal, encarnado na monarca louca que pôs fim à carreira do marquês, nunca quis entrar no mundo real, ou se quer admitir que as questões pudessem ser mais  complexas que aquilo que o seu entendimento, quase-medieval, atingia. Mouzinho da Silveira tentaria mais tarde fazer o país reentrar no seu século mas sem sucesso, a mudança necessária provou ser demasiado vasta e a sua personalidade demasiado franca acabando mais uma vez por ser afastado por um herdeiro não distante de Maria I, a louca. Avançando mais um pouco entramos no fenómeno ainda hoje pouco conveniente da aceitação do Estado Novo e do conforto que foi para um país atrasado que nunca se quis verdadeiramente revoltar contra o seu senhor – que até na demência conseguiu reter a coroa. Não tenhamos ilusões. É uma história de resistência constante da parte menos ilustrada, e rural (não é acidental a desproporcionalidade da representação do interior profundo durante o regime salazarista), da nossa nação ao mundo, mesmo quando lhe demonstram a barbárie do seu comportamento. Pensou-se que meia dúzia de anos de voto universal e algum bem-estar efémero traria realmente uma mudança profunda? As coisas correm mais profundamente que isso. A discussão económica, o verniz partidário e a pertença religiosa (católica ou maçónica, é indiferente) obscurecem tais coisas mas os sentimentos são os mesmos. A não-responsabilidade. A não-cidadania. Mais que tudo a nação sente-se oprimida por si própria. Incapaz de tomar decisões, como sempre, e igualmente incapaz de aceitar as consequências que outros tomem decisões por si. Como venho a repetir desde há algum tempo, o país é um gigantesco não-projecto sem solução credível.

A Failed State

Vai ser este o termo como o futuro vai classificar Portugal. Uma comunidade sem projectos próprios que se encontra demasiado fragmentada internamente para fazer frente às ameaças que o mundo do seu tempo apresenta. Com a morte do projecto Europeu não sobra nada a gerações de políticos e empresários (enfim os homens do poder que fizeram a sua escalada nas últimas décadas ou em última medida dependem do status quo para sobreviverem) para apresentarem ao país, tal como ele ainda existe. É verdade que o projecto sombra da Europa ainda paira no ar, a “GrossDeutschland” (grande Alemanha). Mas isso não oferece qualquer posicionamento que não seja uma submissão equivalente à destruição do país como entidade, do povo como cultura e a um posicionamento permanente na periferia desta nova criação política – com o que isso implica, nomeadamente, uma pobreza mantida artificialmente para ajudar as economias centrais. Três gerações de políticos (a mais velha ainda com raízes profundas no Estado Novo) deixaram o país nesta situação de anemia interna. Uma não-entidade. Uma não-população (pode existir numericamente mas falta-lhe propósito e, como tal, o seu significado é nulo). Quase quatro décadas de caminho Europeu desembocaram no vazio. Na autodestruição colectiva da germanização forçada.

The Prussian Coat of Arms 1701

“Gott mit uns”

Não se tome isto como um incentivo à tomada da posição x ou y. Em termos reais a altura de agir passou. O nosso sistema está demasiado contaminado e incapacitado para ser capaz de regeneração interna. Pelo que apenas sobra observar o desenrolar do processo. O nosso futuro está nas mãos do Destino. Se a Europa sobreviver como projecto germânico morremos como Portugal. Simples. Não há espaço para outros projectos, culturas, interesses ou outras formas de viver na actual potência europeia dominante. Se a Europa falhar será desencadeada a maior (não apenas económica) crise mundial da história levando as nações mais frágeis do velho continente para águas que simultaneamente já navegaram mas que não estão prontas para encarar de novo. O mar da realpolitik. De qualquer forma o que conhecemos como realidade existe apenas como passado e ilusão, nunca como futuro. Vejo-me bloqueado no pensamento devido à enormidade do podemos estar prestes a ter que fazer já que mesmo no cenário de frustração da terceira onda de agressão germânica ficaremos à mercê da maior crise energética de todos os tempos, de um défice populacional, de um défice de técnicos, de um défice de pensadores, de um défice de líderes, de um défice de artistas, com feridas históricas não saradas e uma modernidade ainda mal apreendida. Não estamos apenas pobres contabilisticamente. Em todos os factores de “nation building” estamos paupérrimos. E no entanto esta parece ser a alternativa menos agressiva.

Thomas Cole - Destruction - 1836

“Where error is irreparable, repentance is useless.” – Edward Gibbon

Do alto do Enclave a vista é confusa. Muito movimento. Muito fumo. Muito caos anunciado. Poucas certezas que não aquelas mais imediatas. Estará na altura de reforçar as paliçadas. Os bárbaros não estão ainda às portas mas os ex-civilizados são uma horda igualmente assustadora e potencialmente destruidora.

A classe média e a quinta coluna

O modelo de sociedade que ainda hoje nos guia é essencialmente uma relíquia do estado pós primeira grande guerra, o voto universal, os serviços também universais, a paz com objectivo… tudo pagamentos feitos ao homem comum por uma aristocracia (terratenente, industrial e cada vez mais financeira) que sentiu o seu poder a falhar pela primeira vez em quase cinco séculos. O sangue que correu em Ypres, no Somme e em Verdum foi demasiado para apagar da memória. Os mortos para além de qualquer justificação. A sanidade mantida apenas a custo de um pulso pessoal forte perante a loucura do mundo. Regressou uma geração quebrada, cheia de fúria justificada contra o embuste de que foram vítimas durante quase cinco anos. Foi o apaziguamento das massas. Pelo menos das que saíram da guerra do lado vencedor. Agora não temos guerra, tirando em sítios distantes que a maioria não saberia apontar num mapa, cujos líderes se desconhecem e com costumes para os quais as pessoas se estão nas tintas. Não temos também um grande inimigo em quem concentrar os nossos terrores e manter as nossas elites na linha. A espada de Dâmocles que foi a União Soviética foi quebrada. Ao fim de um século os princípios geradores da nossa ordem social estão a dar de si. As razões para a nossa organização económica e política a desaparecer e as nossas elites já se encontram em movimento para se reorganizarem de acordo com as novas regras que elas próprias podem voltar a ditar sem interferência. Ao fim de um século o cidadão perdeu de novo a guerra.

As guerras da "landed gentry".

As guerras da “landed gentry”.

 O processo começou no dia que o muro de Berlim caiu. A última ameaça credível às elites ocidentais estava morta. As potências comunistas depressa seriam desmembradas e absorvidas no sistema-mundo de forma particularmente vingativa e punitiva (como não se fez com a RFA em 1949 diga-se). A partir deste momento o regresso de alguns elementos à vida Europeia, talvez mundial, seria inevitável. O desemprego estrutural (um nome pseudo técnico que visa tapar a realidade: desemprego permanente) estava destinado a regressar. Ao fim de duas décadas cá está ele. Em larga escala como não era visto desde a ascensão do fascismo, e com mais ou menos os mesmos efeitos. Ao criar uma situação irresolúvel para milhões de pessoas está-se a desintegrá-las da sociedade que fazem parte. A partir desse momento saem de um circuito e entram noutro, que apesar da vulnerabilidade acrescida e miséria tem também menos limites e fornece menos razões para alguém se conformar com imposições exteriores. Ao contrário dos Bourbon, que apesar de nada esquecerem nada aprenderam, as elites europeias aprenderam e sabem, pelo menos em parte, as consequências das suas acções. Não é por acaso que surgem propostas de militarização crescente das forças policiais. Não se trata apenas de recompensar o único corpo paramilitar (com a excepção da polícia política) que permaneceu fiel ao antigo regime de 73. É o reconhecimento que a partir deste momento haverá duas tarefas. Lidar com os cidadãos (que mantêm empregos e são “respeitáveis”) e o que em breve receberá o nome de “escumalha” (desempregados permanentes completamente desintegrados que vivem numa realidade quase paralela). A primeira tarefa requer algum tato e a segunda apenas repressão.

Sem equilíbrio de poderes…

Sem equilíbrio de poderes…

Apesar de terem existido recentemente algumas manifestações de grande dimensão temos causa para perguntar porque é que estamos perante um processo que parece em grande medida silencioso. A resposta é um segredo social sujo. Os portugueses empregues e que se encontram a salvo do pior estão prontos a aceitar esta versão dos acontecimentos e a nova realidade que os acompanha. Daí preferirem ignorar tudo o que se passa à sua volta e prosseguirem o seu estilo consumista e alienador. Não querem lidar com política (coisa que aliás pensavam que estava morta). Não querem lidar com o lado negro da sua realidade, isso só acontece aos novos sub-humanos que, começam a acreditar, são realmente inteiramente responsáveis pela sua sorte. Os “debates” públicos (não merecem esse nome porque as conclusões já foram retiradas antes de uma só palavra ter sido proferida) centram-se em encontrar responsáveis individuais pelos “azares” do país num padrão amplamente reconhecido como a busca por bodes expiatórios para obter paz social – afinal os culpados terão sido punidos. Mas ignorada, porque é demasiado volumosa e útil ao novo sistema que começa a emergir, está a verdadeira quinta coluna. A classe média que resta que pensa que irá sobreviver a tudo e está disposta a vender os seus vizinhos pela promessa de “protecção” e mais alienação.

A germanização da Europa

Depois de um longo processo de acumulação de capital baseado na construção de um mercado interno forte e depois em exportações de qualidade, e elevado valor acrescentado, para países desenvolvidos ou em desenvolvimento, e numa estabilidade monetária em parte derivada da psicose* de evitar a repetição de um episódio hiperinflacionário, a Alemanha chegou ao fim das primeiras fases do processo de unificação com dois objectivos claros. Em primeiro lugar reintegrar a espécie humana como mais que párias cúmplices do regime mais criminoso de que existe registo histórico e, em segundo lugar, reinvestir a quantidade maciça de marcos acumulados em algo relativamente proveitoso, mas estável, que pudesse servir de almofada em uma ou duas décadas ao efeito de envelhecimento da sua população (e consequente diminuição de rendimentos e aumento de despesas).

A panca da moeda forte tinha que derivar de algum lado...

A panca da moeda forte tinha que derivar de algum lado…

A resposta para as duas questões estava na Europa. Primeiro pela marginalização do Reino Unido (que não percebeu e continua sem perceber o que se está a passar) como parceiro fundamental da França no processo de construção europeia. Alguns dentro da França teriam avisado, ainda em 1989, que uma reunificação alemã seria algo inaceitável que colocaria em risco não só todo o equilíbrio continental como a própria posição da França dentro do conjunto das nações ocidentais. Foram ignorados. A reunificação seguiu-se, altamente proveitosa para a RFA e altamente penalizadora para a RDA (diferenças ainda hoje mais que visíveis para quem se der ao trabalho de conhecer as regiões). O Reino Unido dedicou-se à especulação financeira e transformou o resto do país numa espécie de parque temático, completo com família real, tornando-se o menos relevante para a política continental que já tinha sido desde o período pré-isabelino. A França apagou do registo a sua oposição inicial e fingiu que tinha paridade com a “nova” potência (como aliás faz parte do seu padrão histórico). E a nova Alemanha emprestou os seus marcos a um recém-aberto mercado europeu de dívida soberana ajudada por instituições europeias e americanas. Nomeadamente à tal periferia, isto é, nós.

aos vencedores os espólios

aos vencedores os espólios

Tudo correu bem enquanto a noção de fornecimento de crédito às populações como compensação para a quebra real de poder de compra salarial pode funcionar – processo que permitiu à economia alemã continuar a crescer enquanto as periféricas eram silenciosamente desmanteladas ou asfixiadas. Depois aconteceu o que todos sabemos que acontece sempre. Sectores financeiros desregulados explodem e imputam os custos às populações evitando a responsabilidade financeira e moral pelas suas acções – mas não se preocupem, na próxima bolha especulativa os mesmos economistas que imputam a crise a um consumo irresponsável do homem comum vão-nos explicar como o novo produto é 100% seguro. Aí a Alemanha viu-se duplamente ameaçada. O processo de construção europeia estava parado há mais de 10 anos – uma liderança alemã é inaceitável para todos os jogadores relevantes. E pior ainda os seus marcos, agora euros, investidos na compensação do nível de vida periférico estavam em risco de se evaporarem. Surgem os planos de “resgate”. Que se traduzem pelo reembolso total, às custas dos cidadãos locais, aos credores, a banca alemã e em menor grau europeia e americana.

Vamos a seguir? Duas velocidades... pois...

Vamos a seguir? Duas velocidades… pois…

Entramos no último acto da na nossa pequena peça de teatro. Ao criar uma dívida permanente na periferia (de forma a salvar os seus próprios investimentos irresponsáveis e em grande parte egoístas) a Alemanha encontrou a forma de desbloquear o processo europeu e a sua ascensão dentro do clube. A necessidade é a mãe do engenho. Ganhou uma alavanca permanente que pode usar para forçar decisões que jurídica, económica e socialmente transformem todos os países que dela dependem no que quiser, em especial pequenas cópias de si mesma – nos sectores que considera estrategicamente importantes, a população em si é irrelevante. Uma espécie de americanização muito mais agressiva e sem o elemento humano. Assim avança de novo o processo de integração europeia mas apenas nas áreas consideradas relevantes para o novo motor da região. Apaga-se ainda mais a soberania mas apenas de alguns países. Criam-se novas distinções entre europeus de “puros” e europeus “impuros” – com o eufemismo de uma “Europa a duas velocidades” que curiosamente se divide em linhas culturais. A própria França, antigo coração do continente, está a lutar para se manter relevante, tendo esquecido a paridade num sistema que não lhe pode permitir tal vaidade. A Europa avança. Mas ao ritmo do Bundestag e Bundesrat. Indo todas as estradas ter a Berlim.

*A realidade é que a hiperinflação de Weimar foi uma aberração económica e política mas que, historicamente, uma inflação moderada (até 15%-20%) não tende, por si mesma, a ter efeitos adversos no crescimento económico.