As sombras mudam de posição

O Verão costuma ser morto e este ano não foi excepção. Aproveitou-se o vazio noticioso para ir introduzindo temas relevantes que não tiveram de todo a atenção detalhada que mereciam. Foram apenas benevolamente comentados pelos suspeitos do costume que tudo fazem para mostrar a inevitabilidade e normalidade de falências bancárias, manobras de bastidores partidárias, estranhas relações entre público e privado e infindáveis cortes no nível de vida do cidadão. Haverá aqui algo de novo que mereça comentário? Vamos dar alguns passos atrás, para ganhar alguma distância crítica, e vamos dissecar a situação estratégica sem a distracção dos faits divers. O leitor será o juiz sobre o que realmente se passa com o seu país.

Alexander Litovchenko - Charon Carries Souls Across the River Styx

“É preciso dizer a verdade apenas a quem está disposto a ouvi-la” – Séneca

As falhas estratégicas da elite de poder não precisam de mais estudos aprofundados por parte de grandes académicos, porque, como em tudo na vida, a prova está sempre nos factos empíricos. E os factos são os seguintes: Portugal saiu de uma rota de convergência social e económica com o resto da União Europeia há pelo menos duas décadas; As instituições públicas e privadas são feudos (no verdadeiro sentido medieval da palavra) geridas com punho de ferro mas também com total inépcia por membros da elite ou do seu “secretariado” (vulgarmente designados de “gestores”); O mérito é uma palavra oca, não se traduz em qualquer recompensa no mundo real ao contrário do que os meios de comunicação fiéis ao regime querem fazer transparecer (no entanto o número de falências de empresários recentes – ou seja, pessoas que acreditaram no discurso oficial e colocaram a sua vida em jogo num qualquer investimento – não é sequer mencionada ou contabilizada); O empobrecimento generalizado há mais de uma década que deixou de ser um fenómeno ocasional ou temporário para se tornar sistemático e irrevogável; O sistema de troca de favores entre um circuito fechado de amigos e conhecidos foi, é e parece que continuará a ser a norma de funcionamento para obter seja o que for, falemos de “alta política”, uma empresa internacionalizada ou de uma junta de freguesia perdida no Portugal profundo. Estes são os factos. Não mudaram. O país é este. E como muitas famílias estão a descobrir, à medida que os seus rebentos acabam os seus estudos ou são obrigados a abandoná-los por incapacidade financeira, o elevador social está fechado para reparações por período e indeterminado.

“Num país bem governado a pobreza é algo que deve causar vergonha; num país mal governado a riqueza é algo que deve causar vergonha.” – Confúcio

“Num país bem governado a pobreza é algo que deve causar vergonha; num país mal governado a riqueza é algo que deve causar vergonha.” – Confúcio

Mas talvez haja algo a dizer. Alguns dos demagogos mais proeminentes ao serviço da elite de poder têm recentemente saído da sombra para voltar a comentar aqui e ali certos detalhes do que vai acontecendo. Parte do que este blogue e a Irmandade de Némesis andaram a dizer parece que se tornou óbvio para estes senhores – a solução prescrita não é a mesma mas falaremos disso mais á frente. Parecerá com certeza estranho a qualquer pessoa que comentadores profundamente integrados neste sistema tenham ganho uma consciência, compaixão ou empatia nos últimos meses. Obviamente que não se trata de qualquer sentimento de culpa ou de responsabilidade para com a população que atraiçoaram, por bem menos que as tradicionais trinta moedas de prata. A estratégia da elite parece estar em mudança. Devido em grande parte à sua incompetência crónica (e dado que se trata de um grupo praticamente endogâmico penso que não seria ir muito longe dizer que é genética) para gerir os seus próprios interesses a elite de poder criou um pequeno inferno neste país. Mas claro que nunca nenhum destes senhores feudais pensou que isto afectasse os seus próprios protegidos/afilhados/família ou que de forma alguma pudesse vir a ameaçar a sua predominância social ou mesmo, em alguns casos, sobrevivência. Esqueceram-se do resto do mundo. A sua visão tipicamente provinciana e saloia é de tal forma estreita que ignorou que eles não são os únicos protagonistas na política e economia mundial. Não passam de actores secundários, muitas vezes nem isso, e que os seus insignificantes objectivos e ambições são facilmente aniquilados por outras elites mais dinâmicas, competentes e com maior poder. Esta desvantagem intelectual é algo que não conseguem resolver sozinhos. Nem estão dispostos a deixar que alguém interfira no assunto. Antes de permitirem que alguém partilhe o leme do barco preferem que vá ao fundo. Como irónica e perspicazmente Napoleão terá comentado com o seu ministro dos negócios estrangeiros, Talleyrand, acerca da dinastia dos Bourbon: esta elite nada esquece e nada aprende. Por muitas viagens que façam a Londres, por muitos MBAs que tirem, por muitas compras que façam na Place Vendôme, por muitos brinquedos tecnológicos americanos que acumulem ou por muito que se tentem tapar com a última moda de Milão não conseguirão jamais deixar de ser o que sempre foram: merceeiros mesquinhos a quem falta qualquer tipo de visão estratégica quer para si quer para os que dominam através de coerção e medo.

“O rico comete uma injustiça e ainda se mostra altivo; o pobre é injustiçado e ainda precisa de se desculpar.” – Eclesiástico 13:3

“O rico comete uma injustiça e ainda se mostra altivo; o pobre é injustiçado e ainda precisa de se desculpar.” – Eclesiástico 13:3

Colocados em cheque na sua própria casa a elite de poder teve que começar um processo de reposicionamento dos seus peões. Confrontados com uma situação que começa rapidamente a fugir ao seu débil controlo começam a abandonar alguns dos seus aliados políticos tradicionais. Não deixarão de fazer os habituais negócios de renda garantida com o Estado ou colocar os rapazes das várias cores políticas como seus assessores e gestores, mas gradualmente deixarão a classe política assumir cada vez mais o peso moral das monstruosidades que vão fazendo. Dão instruções para que os seus agentes tomem posições algo mais críticas em relação aos erros de governação que entram pelos olhos dentro e que são impossíveis de vender à população como algo que não seja uma imposição hierárquica caprichosa. Em suma, estão a distanciar-se tacitamente. Assumem pela primeira vez, desde o seu regresso do exílio a que foram remetidos em 1974, que talvez o regime democrático, tal como o conhecemos, não sobreviva e querem estar numa posição mais cómoda para negociar com o que vier a seguir. A forma como a questão está a começar a ser posta perante a população é clássica. Escolher entre dois cenários convenientes e apresenta-los como as únicas alternativas viáveis, sabendo de antemão que ambos servirão de forma adequada os seus interesses.

“A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se se conseguir controlar o significado das palavras consegue-se controlar as pessoas que são obrigadas a usar as palavras” – Philip K. Dick

“A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se se conseguir controlar o significado das palavras consegue-se controlar as pessoas que são obrigadas a usar as palavras” – Philip K. Dick

O cenário preferível é o que vivemos já actualmente e aposta acima de tudo num certo grau de continuação da passividade popular. Manifestação à porta do ministério A, protesto junto à Câmara Municipal B, greve na empresa C, etc. Tudo somado dá em nada. Prossegue o processo de transformação de Portugal num país de terceiro mundo dentro da União Europeia que presta tributo (uso a expressão literalmente) a Berlim sobre a forma de um juro perpétuo de uma dívida que nunca poderá ser saldada através das instituições Europeias e bancárias. O segundo cenário é algo mais complicado mas ainda assim desejável do ponto de vista da elite de poder. Trata-se de deixar que o regime se consuma a si mesmo. Sem nunca se colocar como uma oposição clara mas permitindo que a classe política leve as coisas até ao ponto de rotura. Nesse momento será apresentado o seu homem providencial que implorará em lágrimas que o deixemos impor ordem na casa, a bem da nação – de forma generosa, exigirá apenas a nossa abdicação dos poucos direitos e liberdades de que ainda dispomos. O risco neste caso é fácil de entender. Qualquer regime que entre em fase terminal perde o controlo sobre os seus próprios meios e é complicado conseguir prever quem sairá vencedor de qualquer conflito que deste género. Há uma possibilidade séria de o resultado não ser o desejado. Mas tal possibilidade pode ser contrabalançada. A nível interno com o apoio dos meios de comunicação leais aos seus empregadores e com doses generosas de financiamento que outros pretendentes menos cooperantes não irão dispor. E a nível externo não é segredo que a UE segrega do seu centro uma certa dose de “racismo” cultural face aos estados do Sul e que do seu ponto de vista um regime “musculado” pode ser visto como mal menor para lidar com os “bárbaros” e “irresponsáveis” desde que não afecte os seus planos a longo termo ou equilíbrios regionais. Seja qual for a escolha “livre” dos portugueses o que será inaceitável para a elite (e como tal nem é colocado como hipótese) é que a população se autonomize face aos seus interesses, que os senhores feudais sejam expulsos dos seus castelos.

“Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal.” – Maquiavel

“Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal.” – Maquiavel

Os testes iniciais de aceitação destes cenários já começaram há muito tempo. As reacções iniciais foram extremamente negativas junto do público geral, daí o seu adiamento até este momento. Mas o tempo e a pobreza desgastam e tornam o que não seria contemplável em algo possível e eventualmente em algo que seja visto como um mal menor ou mesmo necessário. O tempo de cenários hipotéticos acabou. As hipóteses já foram postas em cima da mesa em muitos círculos e já começam a ter a sua fase inicial de divulgação às massas em forma de pensamento coerente. É um processo em marcha. O tempo e o serviço dos mercenários intelectuais irá cristalizar e tentar enobrecer estas tácticas de perpetuação de dominação. Caberá, como sempre coube, aos cidadãos saberem resistir, defender-se e reconquistar o que é deles por direito. São os cidadãos que têm que gritar com convicção “Roma não paga a traidores!”.

O Enclave está com os cidadãos.

A Irmandade de Némesis está com os cidadãos

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(Mini) Manifestos tecnocráticos

Se há algo de que podemos todos estar seguros é que os meios de comunicação são inteiramente neutros em Portugal. Não são dados a preferências ocultas ou a servir agendas ideológicas de forma encapotada. A verdade e apenas a verdade. Não será então de estranhar que nos tenham presenteado com esta publicidade ao mais recente manifesto dos tecnocratas do sistema político-económico. Num pequeno vídeo explicam-nos tudo sobre as complexas realidades portuguesas, de forma simples, para não cansarmos os nossos cérebros.

"Pensar é o diálogo da alma consigo mesma" - Platão

“Pensar é o diálogo da alma consigo mesma” – Platão

Há muitos anos que o sector conservador investe imenso tempo e dinheiro em produzir obras, mais ou menos panfletárias, de divulgação das suas doutrinas – quais missionários que querem dilatar a fé e o império. São construídas especificamente para um público de classe média que que acha que deve ter opinião sobre determinados temas mas não está disposto a investir o tempo e esforço necessários para realmente entrar nas questões – todos somos demasiado ocupados hoje em dia e se as empresas podem fazer outsourcing de servidos porque não fariam as pessoas o outsourcing das suas ideias? O resultado é a propagação quase inevitável de uma visão enviesada da realidade, que leva a absurdos lógicos quando seguida até às suas consequências finais, estragos sociais provavelmente irreparáveis totalmente previsíveis e à solidificação de uma mentalidade de respostas e análises simplistas que evitem todas as coisas feias, como o confronto com a realidade empírica.

“The real political task in a society such as ours is to criticize the workings of institutions that appear to be both neutral and independent, to criticize and attack them in such a manner that the political violence that has always exercised itself obscurely through them will be unmasked, so that one can fight against them.”  - Michel Foucault

“The real political task in a society such as ours is to criticize the workings of institutions that appear to be both neutral and independent, to criticize and attack them in such a manner that the political violence that has always exercised itself obscurely through them will be unmasked, so that one can fight against them.” – Michel Foucault

Não acredita no que digo caro leitor? Olhemos então para o conteúdo do fantástico vídeo promocional que nos foi proporcionado (será de notar que a página do jornal contém a penas um vídeo com discursos dos autores, não há sequer a tentativa de fingir que se trata de uma análise jornalística ou minimamente crítica), ponto por ponto.

– Porque é que os economistas acham que têm sempre uma resposta para tudo? Ao contrário do que é afirmado pelos autores não é que haja uma procura popular de respostas junto dos economistas. A questão é que o culto ao deus mercado que tem sido imposto por todo o mundo tem por corolário a criação de uma casta “sacerdotal” de “iluminados”, que através de teorias e livros sagrados interpreta a vontade desta tenebrosa divindade. Foram os próprios economistas que se colocaram neste papel oracular e do qual não abdicam nem que tenham que reduzir toda a existência humana à mera troca de bens, serviços e promessas de pagamento. Como tal, regularmente saem dos seus transes e dizem-nos os sacrifícios que devemos todos fazer para apaziguar o seu deus. A economia, como é praticada hoje em dia, está um degrau abaixo da adivinhação através das entranhas de animais.

– Porque não há dinheiro para pagar as nossas reformas? De forma fantasiosa os nossos “rebeldes” (bem institucionais) querem-nos fazer crer que a segurança social é uma espécie de fraude que nunca fez sentido e que nunca será sustentável. Isto é a melhor tradição da escola de Chicago, uma série de premissas mal explicadas, ligadas por um raciocínio dúbio que levam a uma conclusão incrível, que implicitamente quer levar quem os ouvir e ler a pensar que no fundo todo o sistema devia ser privatizado (a subtileza é o leitor chegar a essa conclusão “sozinho”). Claro que nunca entra nos esquemas mentais dos altos sacerdotes do deus mercado que a segurança social nunca foi suposto ser lucrativa ou sequer ser um negócio. Sempre foi suposto ser um encargo que era assumido pelo estado em nome de uma estabilidade social acrescida. Que no fundo se trata de uma questão que sempre foi e deverá permanecer política. É igualmente omitido que em caso de privatização as empresas detentoras dos planos de pensões passam a poder restrutura-los a qualquer altura e que quando forem à falência todos os pagamentos cessam. Não se diz que este cenário, algo negro, já aconteceu em mais que um país que privatizou a sua segurança social. Não se fala nos milhões que ficaram sem pensão estatal e sem pensão privada, literalmente a trabalharem até poderem e até morrerem.

– Porque é que há tantos prédios em ruinas no centro de Lisboa e Porto? Aqui o vilão na história dos nossos rebeldes é o congelamento dos arrendamentos que passa a ser culpado pela decadência urbanística. Que a esmagadora rendas já não reflictam essa distorção, que as pessoas ainda afectadas essencialmente não têm como sustentar qualquer tipo de “preço de mercado” não entra na equação. Os novos sem abrigos não membros produtivos da sociedade e como tal não merecem uma só palavra. São remetidos ao mesmo silêncio dos pensionistas em regime privado que ficaram sem nada. Numa nota particularmente perversa o exemplo de fundos que detêm propriedades é obviamente público, esquecendo claro que os fundos bancários em muito ultrapassam a posse estatal.

– Porque é que há tantos professores e as turmas têm alunos a mais? Aqui foge, um pouco, a boca para a verdade aos nossos nobres curas conservadores. De facto há muitos professores em situação irregular que não têm horários dignos desse nome. De facto há professores em funções de administração que deveriam ser desempenhados por burocratas. Mas falta dizer que tudo isso foi consequência das reformas para “racionalizar o sistema de ensino”. Que o interesse servido em tais reformas não foi, como é dito, o dos professores mas o sim o de privados que ganham com a desvalorização do serviço público. Mas enfim, isso afecta apenas quem colocar os filhos no público portanto também vai para o mesmo tumulo silencioso que os pensionistas depauperados e sem abrigo.

Como vê caro leitor em pouco mais de cinco minutos de vídeo foi possível simplificar e distorcer situações relativamente simples ao ponto de alterar radicalmente a perspectiva de qualquer cidadão menos dado à reflexão por conta própria. Ainda está seguro que está a obter uma análise séria e realista por parte de comentadores institucionais e/ou “rebeldes”?

Novidades

A partir de amanhã os leitores e seguidores poderão contar com algumas mudanças significativas neste espaço. Será dado mais ênfase ao que é útil e prático e talvez menos à análise excessiva de certos fenómenos que já quase todos entendemos. Tenho a certeza que serão mudanças e adições bem-vindas por todos os verdadeiros cidadãos.

"Would that I were not among the men of the fifth age, but either had died before or been born afterwards. For now truly is a race of iron, and men never rest from labour (kamatos) and sorrow (oizys) by day, and from perishing by night; and the gods shall lay sore trouble upon them. But, notwithstanding, even these shall have some good mingled with their evils."

“Would that I were not among the men of the fifth age, but either had died before or been born afterwards. For now truly is a race of iron, and men never rest from labour and sorrow by day, and from perishing by night; and the gods shall lay sore trouble upon them. But, notwithstanding, even these shall have some good mingled with their evils.”

Necrópsia das necrologias

A morte deste empresário/gestor é uma boa desculpa para o cidadão normal se dedicar à introspecção sobre o significado das necrologias, ou seja o relato dos feitos do morto. No momento em que é anunciado ficamos “informados” se, segundo os directores e accionistas do meio de comunicação que estivermos a ver/ler, a pessoa em questão dedicou a sua vida à defesa dos mais elevados ideais, se não passou de um vilão sem rei nem roque ou se se simplesmente foi mudando de ares conforme lhe pareceu conveniente. O individuo em questão, neste caso, figura mesmo a título de exemplo sem qualquer elo pessoal. Não passa mesmo de uma desculpa para analisar o tema já que qualquer comentador sensato da praça sabe o que o espera se a boca lhe fugir para opiniões pessoais concretas ou, se perder mesmo o pouco juízo que ainda tinha, seguir pela via das acusações com prova. A partir de um certo nível de pertença socioeconómica não há liberdade de imprensa ou opinião. Fora dos nossos círculos familiares e de amizades estamos cingidos às mais breves referências podendo quanto muito ficar algo implícito no ar. Mais que isso é ultrapassar uma linha que o bom nome do regime nos fará pagar. Provavelmente não com uma pena de prisão e outras sevícias como nos “bons velhos tempos” mas com um delicioso processo financeiramente ruinoso, uma perseguição profissional implacável seguida da irrelevância social ou do exílio auto-imposto. De tempos a tempos, como na velha Roma republicana, são publicadas as listas de proscritos da Republica (não literalmente claro, afinal somos muito mais civilizados que isso… em vez de pendurar um papel no Fórum com o nome e morada do individuo fazemos saber pela imprensa que já não se encontra num estado de graça), ou seja, aqueles que apesar de terem pertencido a determinados círculos caíram em desgraça o suficiente que ataca-los não irá gerar qualquer reacção sistémica de defesa do regime.

"Many people would no more think of entering journalism than the sewage business - which at least does us all some good"

“Many people would no more think of entering journalism than the sewage business – which at least does us all some good”

A diferença entre um documento que nos condene à infâmia o outro que nos eleve à categoria da santidade está em grande medida dependente de dois factores. Em primeiro lugar os deuses e senhores que escolhemos servir durante a nossa vida. Os poderosos recompensam os seus servos, mesmo na morte. Os fracos e oprimidos quanto muito relembram os seus paladinos em segredo (a sua própria memória uma heresia perigosa dependendo do grau de sucesso que tiveram), isto é, aqueles cuja honra pessoal ainda é significativa o suficiente para os impedir de aceitar as 30 moedas. Em segundo lugar o momento da morte. Se os elementos a que alguém esteve ligado em vida experienciam uma apoteose de poder aquando da morte do individuo então tudo o que ele fez terá um brilho dourado. Mais, será midas reencarnado. Não existirá acção com falha ou vítima não merecida. Da hagiografia nascerá um santo guerreiro pela causa que a seu tempo, segundo dizem os monges copistas, será reverenciado por todos quando a sua glória (ou será a dos seus senhores) for incontestada. Por muito pouco credível que a tentativa de santificação seja no imediato o tempo, a persistência e o ouro tudo compram, incluindo a memória colectiva.

"When asked in a radio interview if she thought the barriers of the British class system had broken down, Barbara Cartland answered, "Of course they have, or I wouldn't be sitting here talking to someone like you"

“When asked in a radio interview if she thought the barriers of the British class system had broken down, Barbara Cartland answered, “Of course they have, or I wouldn’t be sitting here talking to someone like you”

Bem mas isto deixa por responder talvez a pergunta mais relevante de todas para nós, mortais para quem os portões dos céus estão permanentemente fechados: o que devemos sentir em relação a estes “campões” do regime que vão caindo? Pela primeira vez em memória viva talvez a resposta correcta seja o instinto normal português: a mais completa indiferença. Sem o falso moralismo e sentimentalismo de gerações mais antigas. A pura, fria e prática indiferença das gerações que foram deixadas à sua sorte. Que desconhecem totalmente os exaltados círculos em que estes “neofidalgos” se movimentam. O que interessa ao soldado raso se o Quartel-General envia mais oficiais de “elite”? A guerra continua a estar perdida. Os que chamamos de irmãos continuam mortos e frios no chão ou a agonizar. A lama não muda, o sangue não deixa de correr, as latrinas não fedem menos. Sem interesse pelos homens não há difusão das ideias. Sem o peso das ideias as instituições estarão sempre periclitantes. É claro que o ouro compra tempo, compra credibilidade, compra intelectualidade, enfim é quase todo poderoso. Mas o esforço despendido a construir algo dessa forma é exponencialmente maior que qualquer forma que tenha um mínimo de ressonância emocional com a população