Dividas e o seu pagamento – 1

Win or lose, though, begging for scraps at the tables of the rich is a sucker’s game.  In social change as in every other aspect of life, who pays the piper calls the tune, and the rich—who benefit more than anyone else from business as usual—can be counted on to defend their interest by funding only those activities that don’t seriously threaten the continuation of business as usual. Successful movements for social change start by taking effective action with the resources they can muster by themselves, and build their own funding base by attracting people who believe in their mission strongly enough to help pay for it

John Michael Greer

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Em 380 A.C, Platão descreve no livro I da sua obra “A república”, um diálogo onde participa Sócrates e debate inicialmente com Céfalo e Polemarco (filho de Céfalo) qual deve ser a moralidade aplicável ao pagamento de dividas.

Céfalo, um mercador e herdeiro de terceira geração define qual é a linha de pensamento típica e a ética dos mercadores no que diz respeito a este assunto: que é justo e correcto pagar a divida que se tem ou o reembolso do empréstimo que se fez.

Sócrates contra argumenta:

Se alguém recebesse armas de um amigo em perfeito juízo, e este, tomado de loucura, lhas reclamasse, toda a gente diria que não se lhe deviam entregar, e que não seria injusto restituir-lhe, nem tão pouco consentir em dizer toda a verdade a um homem nesse estado…”

Fornecer armas a um homem que endoideceu (por analogia: um repagamento de uma divida…) e que caso as usasse no estado de loucura em que está, as consequências não serão nem correctas nem justas. (o devedor ficar sem nada, passando a viver na indigência…)

Na realidade, quer Sócrates com isto dizer que existem excepções aos repagamentos de dividas e essas excepções devem ser aplicadas e devem ser transformadas em lei numa sociedade justa.

(Numa nota lateral, e especulativamente, deveremos suspeitar que a hostilidade dos adeptos e claques de apoio ao neoliberalismo e ao capitalismo selvagem aos filósofos; radicam em posicionamentos como este; acaso os neoliberais conheçam os filósofos e saibam quem são ou quem foram.)

Debt-Bonds jpg

“Debt is a mistake between lender and borrower, and both should suffer. ” Nassim Nicholas Taleb

O primeiro argumento explanado por Sócrates acerca do repagamento de dividas não dever ser feito em todas as circunstancias não é o argumento primário aqui.

Existe um sub argumento baseado numa lógica de micro moralidade – este; e existe um sub argumento de macro moralidade ou macro estrutura da sociedade implícito na analise.

Que é o seguinte: como é que obrigar devedores que estão impossibilitados de repagar más dividas/divida tóxica) afecta toda a sociedade?

Parafraseando a ideia de Sócrates: se um doido tem intenções de cometer assassínio e provocar o caos, devolver-lhe a arma que o possibilita fazer tal irá facilitar o seu cometimento de mais actos injustos e as consequências serão mais sofrimento ou mais mortes nos que forem as suas vitimas.

Significa que de um ponto de vista de justiça, a moralidade de repagar todas as dividas falha em significar que justiça esteja a ser feita, porque as consequências gerais e estruturais para uma dada sociedade tem que ser levadas TODAS em conta e não só aquelas que interessam à micro moralidade do credor….

Uma “analise custo beneficio” tem que ser feita relacionada com o que a sociedade ganha com isto e o que perde.

Oligarcas e mercadores; os que propõem uma forma musculada de fazer as coisas tem feito força – continuadamente – favorecendo as “soluções” que foram aplicadas recentemente aos países europeus com este tipo de problemas de divida e à forma de resolver a recente crise infindável…, enquanto não manufacturam outra nova crise infindável para justificar ainda mais a imposição deste modelo teocrático financeiro de resolução de problemas.

E de imposição de mais injustiça selectiva como forma de condicionamento de partes significativa da sociedade onde isto aconteça.

Utilizam um sub argumento escondido. No óptica oligárquica-mercadora defende-se que deve ser salvo; primeiro,os interesses dos credores ricos – a sua salvação de perdas financeiras, em muitos casos por si mesmos criadas.

Defende-se a primazia que seja (1) a moralidade de que todas as dividas devam ser repagadas vs (2) a economia real e a sociedade estrutural em toda a sua extensão, com os problemas de desemprego, emigração e miséria levando à emigração, piores condições de saúde e de vida para a generalidade da população e menor tempo de vida que resultem da aplicação da forma musculada de fazer as coisas – a prevalecer.

Estas duas lógicas confrontam-se, mas o que está em causa verdadeiramente é o comportamento abusivo, egoísta, criminoso, ganancioso dos credores que criaram uma * narrativa e uma prática que os isenta de responsabilidades, passando-as para os devedores na sua inteira totalidade.

*… by funding only those activities that don’t seriously threaten the continuation of business as usual. …

(continua)

Gravy train, ou os parasitas do politicamente correcto na comunicação social (política)

gravy-train

O gravy train portugues…

Num recente episódio de um programa de televisão onde os intervenientes fingem que debatem a situação política nacional; uma das pessoas que intervém fez uma tirada tão pseudo espectacular como estúpida. Verdadeiramente e sem querer, revelou o que verdadeiramente pensava sob o assunto ” austeridade”.

Sentindo pânico pelo que chama de “o avançar do populismo” e pretendendo atacar a actual solução de governo em Portugal, correlacionar isso com a Europa e o deprimente estado político da mesma, e ao mesmo tempo, aviar o recado vindo dos seus amos, segundo o qual “tudo” o que acontece de mau na Europa seria única e exclusivamente culpa da Alemanha, esta insigne criatura declarou que a má gestão da crise europeia por parte da Alemanha teria dado origem ao Brexit, à aproximação da Alemanha à Rússia, à crise do Médio Oriente e especificamente no que aos partidos políticos europeus diz respeito e respectivas afinidades tal má gestão teria originado o fim da social democracia europeia.

Este programa televisivo é de orçamento reduzido, devemos ter isso em conta, quando pessoas pagas para analisar e debater politicamente, apenas conseguem produzir uma má conversa de café, mesmo que inclua alusões ao The economist ou ao Finantial Times ou a qualquer outra falsa bíblia.

A criatura televisiva, courtier de segunda classe, com esta proclamação do fim da social democracia europeia, argumentava a seguir que isto tinha originado o fim dos partidos da tribo da esquerda política de vertente social democrata na Europa. Tal desastre tinha originado o aparecimento de “todos estes partidos de extrema esquerda”, que eram – pasme-se – contra a austeridade.

Infere-se segundo esta criatura que os partidos da social democracia “normais” e sem desvios à norma serão a favor da austeridade…?

É este o nível da argumentação estúpida, preconceituosa, que avia recados dos superiores hierárquicos oligarcas.

É esta a disseminação verbal da injustiça como forma de organização social.

SERVILISMO - PÉS

Esta criatura courtier tem sido um membro constante e sistemático da elite cortesã deste país durante os ultimo 30 anos.Cavalgou o Gravy train português, auto colando-se à tribo da esquerda política.

O método cientifico para obter esse selo de qualidade e garantia de “normalidade social democrata” consiste em manifestar um acentuado anti comunismo, patente em declarações públicas e privadas, em paralelo com uma inclinação cultural imensa (supostamente um feudo exclusivo da tribo da esquerda política…) que leva a que se pense nos circulos bem pensantes dos cortesãos e dos que lavam mais branco que a pessoa é aceitável, uma compincha pró valores”de social democracia de acordo com o livro de regras.

Estas pessoas obtiveram inicialmente os cursos universitários certos nos lugares certos, ocuparam os empregos “de pluma vistosa” do regime, os estandartes supostamente meritocráticos do mercado de trabalho das artes, letras e ideias (especialmente nas administrações da tribo da esquerda política e especialmente nas administrações da direita política…) e obtiveram elevados lucros quer na gentrificaçao material do regime (obtenção de bens materiais e estatuto financeiro), quer nas áreas gentrificadas habitacionais do regime, onde habitualmente vivem e criaram casulos e bolhas de classe “bem”.

A vida tem sido boa.

Estas pessoas arranjaram um emprego em ” sítios” onde é inexistente a necessidade de trabalhar.

São apenas pagos para nada fazer, servindo de veículos que passam a mensagem que agrada as elites e aos oligarcas.

São apenas pessoas que existem num emprego durante um dia inteiro e são pagas para falar.

Falam muito, mas a substancia do que dizem é zero.

Exactamente…, qual é o valor social, politico, profissional, cívico, de cidadania que estas pessoas tem entregue à sociedade, como retorno, pelo que a sociedade lhes tem permitido ser?

Reorientando momentaneamente este texto.

Portugal transformou-se num local em que é muito estúpido o acto de se procurar ajudar as pessoas.

Como regra geral, as pessoas traem quem as ajuda, traem a cidadania que deveriam defender, traem-se a si próprias. Filosoficamente, e com muita paciência  deve responder-se que o problema principal não reside na constatação que as pessoas irão trair, mas sim que as pessoas irão trair por um preço próximo de nada.

É inexistente qualquer capacidade por parte da generalidade da população em fazer uma correcta avaliação custo – beneficio do valor de qualquer coisa.

Numa nota ingénua, deve-se fazer o esforço de ajudar, mas há limites de paciência e de preço próximo de nada.

Com o acima escrito em mente é necessário dizer que quem paga a existência dos parasitas do politicamente correcto, como discurso público próprio de um sistema de cortesãos inserido no arco da governação, recuse pagar este preço por algo que não traz valor.

Com  acima escrito em mente é necessário dizer que os cortesãos que põe uma cara alegre afirmando serem pró justiça social, pró pobres, pró “social democracia” tem lucrado a nível pessoal com as injustiças e a pobreza que derivam dos ataques que são feitos aos membros da sociedade com problemas.

Com acima escrito em mente é necessário dizer que os cortesãos estão com verdadeiros problemas.

Num mundo com internet, cidadãos despolitizados, sem dinheiro institucional para os manter acima ou no patamar em que estão, sem acrescentarem qualquer valor de mercado aos oligarcas e as elites, quem precisa deles?

O chão foge-lhes debaixo dos pés.

Devemos ajudá-los a terminar a sua carreira de mercadores aleivosos com a maior indignidade possível.

A biopolítica e a casta mercadora

Com o abandono da esfera política tradicional as tribos da direita e da esquerda criaram um perigoso vácuo de poder social e normativo. Claro que a natureza não aceita vazios e algo tratou de se infiltrar nos buracos que o poder tradicional abandonou. Os mercadores. Esta casta incentivou o abandono do Estado e promoveu o seu código de valores muito específico. Em vez de honra passámos a ter uma mentalidade “negocial e de resolução de conflitos”. Em vez de integração a todos os níveis na vida da polis passámos a ter pequenos grupos profissionais regidos por “profissionalismo” (termo nebuloso obedecendo a critérios definidos pelos próprios técnicos). Em vez de poder e responsabilidade pessoal passámos a ter uma massa amorfa governada por burocracias cada vez mais opressivas, que não assumem a sua natureza reguladora. Em vez de existir a possibilidade de realização dentro da pólis enquanto seres sociais e políticos passámos a ser encorajados a recorrer à “mindfulness”. Há que reconhecer o sucesso de uma casta que começou por ser ostracizada e colocada à margem das relações tradicionais de honra, que caracterizam qualquer corpo político saudável. Demorou 500 anos mas os mercadores não só aboliram todos os estigmas associados à sua actividade como substituíram totalmente a escala de valores por outra que não só lhes trás vantagens como os coloca numa posição proeminência. É neste quadro que surge a obsessão com a quantificação de tudo e todos – e como consequência, a atribuição de um valor numérico a cada ser humano. De facto, a pirâmide social nunca foi tão precisa como no mundo moderno, a possibilidade de atribuir um valor específico a cada pessoa torna clara a posição de cada ser humano na cadeia alimentar. Todos os dias nos é dito que somos mais livres, mas parece que afinal todos os dias acordamos mais presos às nossas circunstâncias materiais.

“si è morto il Doge, no la Signoria” – “O doge está morto, mas a Signoria está viva” – Ditado Veneziano

“si è morto il Doge, no la Signoria” – “O doge está morto, mas a Signoria está viva” – Ditado Veneziano

Olhando para os novos valores e comparando-os aos antigos torna-se mais fácil perceber o alcance da transformação que teve lugar. A noção tradicional de honra assenta sobre o valor individual da palavra do individuo, um compromisso que envolve a própria essência do ser, algo a que nos vinculamos de livre vontade – sabendo que não será necessariamente o caminho mais fácil. Isto era algo nocivo a uma casta, os mercadores, cujo poder assenta na não validade da palavra. Tudo é negociável e para qualquer potencial conflito existe sempre uma solução negociada que evita tensões. Traduzindo: não existe noção de certo e errado, bom e mau ou linhas intransponíveis, esses conceitos foram demonizados e são tratados como visões “maniqueístas” ultrapassadas. Existem acordos, celebrados por tempo definido, que dividem os espólios consoante a força ou fraqueza de cada uma das partes. A quebra do que é acordado é um dado adquirido nestas negociações porque pela natureza do mundo os equilíbrios de força entre as várias partes tendem a oscilar e, inevitavelmente, na ausência de homens e mulheres de honra as situações degeneram numa supremacia do mais forte. A moral mercadora é uma guerra eterna de todos contra todos em que ninguém pode acreditar em nada, a única coisa que conta é o crescimento do poder aquisitivo, por muita devastação pessoal e social que isso possa trazer.

“Não deves honrar mais os Homens que a Verdade” – Platão

“Não deves honrar mais os Homens que a Verdade” – Platão

Como Aristóteles afirmou o Homem é um animal político. Está-lhe na sua natureza querer ter um voto na forma como a sua comunidade política é gerida (seja através dos mecanismos de participação democrática massificada seja através de outros modelos). Numa visão holística isto traduz-se pela harmonização das várias componentes da vida do Homem. A sua visão do mundo é coerente com a sua forma de estar na sua vida pessoal que por sua vez é coerente com a sua visão política da comunidade – gerando um ciclo positivo de reforço de ideias e emoções. Para o mercador isto era algo intolerável. Pois colocava entraves sérios à mercantilização de todas as esferas da vida e acima de tudo à quantificação do indivíduo em si mesmo. Tinha que desaparecer. Usando as forças da tecnologia o mercador forçou toda uma civilização a reinventar-se de acordo com os novos valores. A pólis foi fracturada para nunca mais ser unida. Os cidadãos passavam agora a agrupar-se não por vivências e ideias quanto ao campo político, mas pela sua actividade comercial. É preciso entender a malícia com que isto foi feito. O ser humano foi despido de tudo o que era, foi-lhe sonegada uma pertença a uma comunidade física a favor de uma alocação a uma área de produção geográfica (fábrica, escritório… pois tem que ser “móvel e adaptável”). Foi-lhe negada a pertença a uma comunidade de ideias sendo o espectro político agora dividido entre duas tribos de saltimbancos que se iriam confrontar de forma teatral sem poderem afectar verdadeiramente o rumo das coisas. Foi-lhe tirado tudo o que preenchia a sua vida até só sobrar um factor: o seu valor produtivo. O seu trabalho e a sua vida formavam agora um todo indissociável onde se não se sabe onde o primeiro acaba e a segunda começa. A Pólis deixou de ser uma unidade para passar a ser uma federação de pequenos reinos bárbaros regidos por “códigos profissionais”, cada um cuidando apenas dos seus interesses específicos – selando assim o seu destino colectivo: a irrelevância face ao poder esmagador da casta organizadora do trabalho e finanças, os mercadores.

“Dehumanization, although a concrete historical fact, is not a given destiny but the result of an unjust order that engenders violence in the oppressors, which in turn dehumanizes the oppressed” - Paulo Freire

“Dehumanization, although a concrete historical fact, is not a given destiny but the result of an unjust order that engenders violence in the oppressors, which in turn dehumanizes the oppressed” – Paulo Freire

Conseguindo destruir tudo o que ancorava o Homem à vida cabia agora à casta vitoriosa criar novas formas de organização da vida. Mas deparava-se com um problema. Para arregimentar as pessoas de forma coerciva precisava de recorrer a modelos do passado – os mesmos que se tinham empenhado em destruir por representarem obstáculos ao seu aumento de poder e capital. Era um dilema. A solução encontrada foi engenhosa, após terem removido as ideias do debate político recriaram organizações de gestão da vida humana, viradas exclusivamente para o lado quantitativo e, de forma mais substancial, inteiramente desprovidas de carisma. Afinal de contas o modelo do mercador não assenta sobre carisma, a posse é a lei, e a possibilidade de existirem forças além da posse era uma ameaça desestabilizadora que simplesmente não iriam tolerar. É o nascimento da organização burocrática. Na ausência de honra criaram-se leis minuciosas e incompreensíveis para a maioria que está sujeita aos seus ditames. Na ausência de pertença criou-se uma esfera de trabalho que tudo ocupa e dita o posicionamento dos indivíduos. Na ausência de carisma cria-se obediência ao procedimento, à regra, ao detentor do cargo. Colocando as coisas em termos platónicos, a essência do ser humano fica submetida às formas. É neste espírito que nasce uma consciência cidadã falsificada e um espírito de participação cívico fictício – o mundo das manifestações sem perturbações ao trânsito e turismo, das greves sem quebra de produção, da petição online, etc.

The Revolution is for Display Purposes OnlyEste curto relato condensa séculos de preparação por parte da casta mercadora para assumir as rédeas dos destinos humanos mas deixa-nos com uma questão por responder. Foi um projecto de poder bem-sucedido? Atingiu o que se propôs. Desvitalizou o ser humano e reduziu-o a uma ferramenta. Isto é inegável. Mas então porque somos assaltados por este ambiente de crise permanente? Obviamente parte da resposta está no sistema comercial e financeiro que não só dita o destino da economia como os próprios “valores” da sociedade mercantilizada. Mas só isso não explica o medo que ainda se sente na casta suprema. Ao fim de muita experimentação social o mercador descobriu algo que o mantém acordado à noite. Algo que tenta esconder ao máximo das pessoas normais. Descobriu que o espírito humano pode ser reprimido e redirecionado, mas que essa manipulação eventualmente vai começar a fazer crescer uma tensão irresolúvel no seio de cada pessoa. Um anseio por algo mais. A sensação de vazio que não é apagada pela multiplicação frenética de actividade para ocupar os dias. A certeza absoluta no íntimo de cada um de nós que “algo está podre no reino da Dinamarca”. Tendo removido tudo o que nos tornava humanos e podia dar soluções a esta tensão acumulada o mercador está entre a espada e a parede. Se permite que a tensão se manifeste o poder da casta cai, mas se reprime ainda mais corre o risco que esta se manifeste de forma imprevisível. Não tendo nada a propor às pessoas (afinal elas já são tudo o que o mercador quis que fosse: números, objectos, ferramentas, substituíveis…) resta-lhe recorrer à biomoralidade. Usando o corpo como único ponto de referência quer usá-lo para substituir tudo o que foi destruído. O não comer de forma saudável deixa de ser considerado como um apetite sensual para ser visto como uma má escolha, que por sua vez vai criar um “mau” cidadão. A pressão no trabalho atinge níveis insuportáveis, mas a solução nunca está em alterar o modelo definido pela casta mercantil, mas sim em fazer os trabalhadores acreditarem que a culpa é sua. Não estão preparados, não sabem gerir o stress, não são proactivos, etc. Há problemas sociais graves por resolver, mas mais uma vez a culpa é do cidadão, que, segundo o mercador, sofre de estupidez crónica e não entende que esses problemas não se abordam com políticas estruturais, mas sim com apelos a uma responsabilidade individual (“se todos fizessem o que deviam não existiriam problemas”) – intencionalmente ignorando a impotência do cidadão em causar impacto seja no que for.

“When nations grow old the Arts grow cold And commerce settles on every tree” – William Blake

“When nations grow old the Arts grow cold
And commerce settles on every tree” – William Blake

O insucesso da tácita está mais que patente no aumento das tensões sociais e no histerismo cada vez mais ofensivo dos pregadores da biomoralidade (devidamente sancionada pela ciência para manter as unidades humanas produtivas mas politicamente inertes). Sucedem-se as modas das dietas, das meditações, do desporto compulsivo, dos alimentos orgânicos… e nada parece apaziguar as pessoas. Parece que esta competição levada ao extremo físico não consegue oferecer alternativas credíveis para sustentar uma sociedade. E, no entanto, a propaganda prossegue. Enquanto o ser humano não for restaurado a toda a sua dignidade o mal-estar continuará. Enquanto a pólis não voltar ao seu papel enquanto quadro de referência integradora nada poderá ser resolvido. O mercador, apesar de toda a sua astúcia, não conseguiu dissolver a essência humana.

"When there is no enemy within, the enemies outside cannot hurt you." - Winston Churchill

“When there is no enemy within, the enemies outside cannot hurt you.” – Winston Churchill

A casta dos mercadores aposta na continuação do isolamento individual para manter o seu poder, mas esquece-se que só está sozinho nesta noite escura quem não souber onde procurar ajuda. Todos temos a capacidade de nos voltarmos a ligar ao Real (por oposição ao mundo plástico das formas mercantis). É só querermos dar o primeiro passo.

NémesisAtravessamos a escuridão por estradas sombrias

A nossa vigília nunca terá fim

As ideias que mantemos vivas são imortais

O único verdadeiro lado que existe somos nós.

A vigília de Némesis

A humanidade tem uma tendência para criar padrões de comportamento. Isto é algo positivo. Foi o que nos permitiu formar o que chamamos “civilização”. Pouco a pouco fomos repetindo padrões que sabíamos que iriam produzir um pequeno efeito positivo nas nossas vidas. Estes padrões foram por sua vez revestidos por uma camada mitológica que nas civilizações do mediterrâneo tendiam para formar uma narrativa de ordem versus caos. Permitam-me um exemplo: Set ameaçava a ordem do Egipto até que os esforços combinados de uma trindade conseguiram restabelecer a ordem das coisas – é o que relata uma versão do mito do assassinato de Osíris às mãos de Set. Após matar Osíris, Set esquarteja o seu corpo espalhando as partes pelo Egipto para nunca poder ser recomposto, Isis, consorte de Osíris, parte na demanda de voltar a unir as partes e é bem sucedida conseguindo ressuscitá-lo; da sua união nasce Hórus que mais tarde, ao atingir a idade adulta, vem a repor a ordem no Egipto depondo o seu tio Set, ainda que perdendo um olho no combate. Este tipo de relato serve para exemplificar a criação de um padrão de restauração. De ordem. Mas, abandonando o Egipto faraónico, no presente estamos presos no padrão inverso, um ciclo negativo de criação de caos que não sabemos inverter.

O caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os Mortos o guardam, até chegar o momento. O caminho está fechado.

O caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os Mortos o guardam, até chegar o momento. O caminho está fechado.

Portugal está entregue ao caos mais profundo que é possível existir, aquele que tolda a mente dos Homens ao ponto de nem o reconhecerem. O caos confundiu as pessoas ao ponto de entorpecer o seu discernimento e fez grande parte de nós esquecer-se de quem somos e, talvez ainda mais importante, quem queremos ser. Há muito que a Irmandade de Némesis alerta para o facto de a política em Portugal já não ser de facto política, mas apenas a mera gestão da sobrevivência das elites. As tribos da direita e da esquerda “digladiam-se” num espetáculo artificial que visa apenas criar diferenças para o consumidor… perdão… o eleitor poder fingir que tem uma escolha. O caos oferece sempre uma miríade de opções na tentativa de esconder que todas elas são igualmente estéreis. É cansativo ver como os senhores deste aparelho decrépito não retiraram lição nenhuma da crescente fragmentação partidária e da indiferença de um número crescente de eleitores. As palavras de ordem repetem-se, as críticas são as mesmas, as peças de teatro parecem ter sido escritas pelo mesmo autor. A única coisa que muda são os nomes que estão de cada lado. Até para o espectador mais desatento isto começa a provocar uma estranha sensação de déjà vu.

O caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os Mortos o guardam, até chegar o momento. O caminho está fechado.

O caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os Mortos o guardam, até chegar o momento. O caminho está fechado.

No essencial o regime está esgotado. E continua esgotado porque o voto é apenas uma ferramenta formal que escolhe candidatos pré-seleccionados e pré-aprovados por quem detém de facto as rédeas deste país nas suas mãos. O cidadão comum continua a confundir o “Estado” com o poder real. Na realidade o Estado tem sido esvaziado progressivamente de poder efectivo. Entre as parcerias que mantém com o sector privado, as cedências de competências indevidas ao poder local e o efeito de erosão da soberania, que são as constantes exigências orçamentais e políticas da União Europeia, sobrou pouco sobre o qual um líder nacional possa de facto ter um impacto significativo. Não que o cidadão alguma vez vá ouvir estas verdades fora deste espaço. Irão explicar-lhe ponto a ponto como estamos a caminhar para um futuro melhor apesar de todos os sinais o negarem. O poder e saúde da nação, tal como Osíris, foram retalhados por aqueles que apesar de possuírem uma pretensão ilegítima ao poder conseguiram apossar-se dos mecanismos de controlo. Não sendo os detentores de direito todos os seus passos e acções espalham mais confusão e miséria, porque em última análise nunca quiseram o poder para algo que não fosse apenas a sua gratificação pessoal.

O caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os Mortos o guardam, até chegar o momento. O caminho está fechado.

O caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os Mortos o guardam, até chegar o momento. O caminho está fechado.

As parcerias com o sector privado serão explicadas como essenciais, apesar dos maus exemplos do passado, pois o Estado não tem o direito de oprimir a economia de “mercado” (falta explicar em que economia de mercado existem rendas garantidas) nem possui recursos para chegar a todo o lado – convenientemente ninguém explica como é que uma organização privada que não tem as economias de escala do Estado e ainda precisa de assegurar um lucro pode alguma vez fornecer um serviço melhor ou mais barato. A elevação do poder local a algo “central para a democracia” será vendido como uma devolução de poder ao cidadão que poderá, conforme as suas necessidades locais definir a alocação de recursos – tapando a sórdida realidade que esta realocação de poderes e fundos afecta essencialmente as máquinas partidárias locais, a arraia miúda e média dos partidos, que são vitais para escolher as lideranças partidárias nacionais (e mantê-las). As exigências europeias, cada vez mais desajustadas da realidade nacional serão promovidas como essenciais para garantir acesso aos mercados, um lugar no palco internacional, credibilidade diplomática, eficácia económica… – tudo o que possa ajudar a centrar a discussão política nacional em detalhes tecnocráticos em vez de questões de fundo sobre dependência e soberania. Sai a facção A, entra a facção B. Sai a facção B, entra a facção C. E assim sucessivamente… todos repetindo ipsis verbis estes pontos. Porque as suas raízes vão todas beber ao mesmo rio poluído que é o regime actual. O caos perpetua-se na ausência de um principio ordenador originador de justiça.

O caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os Mortos o guardam, até chegar o momento. O caminho está fechado.

O caminho está fechado. Foi feito por aqueles que estão Mortos, e os Mortos o guardam, até chegar o momento. O caminho está fechado.

Reconhecendo este estado de coisas a Irmandade Némesis empenha-se diariamente em informar os cidadãos (membros ou não-membros) que começam a levantar o véu a esta realidade em decomposição. E em aos poucos criar um caminho de restabelecimento de ordem. É um trabalho ingrato porque as elites, mais que entranhadas, estão enquistadas na realidade social portuguesa. Dominam a produção intelectual, têm fundos disponíveis para comprar e vender a grande maioria dos cidadãos, estão representadas em todos os órgãos com poder neste país. São um polvo que nos sufoca enquanto nação. Asfixiam todos os que não se libertarem da sua dominação. Somos cavaleiros que percorrem estradas sombrias, tentando restabelecer a verdadeira ordem das coisas, sentimos o chamamento do dever e de ideais mais elevados que o mero conforto ou ganho pessoal. Mantemos viva a verdade: que as elites não são as detentoras legitimas do nosso país. Apenas se apropriaram dele de forma violenta conseguindo quase apagar a hipótese de um outro Portugal ser possível e de outra ordem de valores para a vida pública estar disponível para quem souber reconhecer a teia de mentiras que o rodeia, e aceitar o manto de responsabilidade que vem com esse conhecimento. Metaforicamente vivemos no reinado de Set mas mantemos viva a memória de Osíris e guardamos o trono de Hórus até ele o reclamar. Sustentamos o princípio da Justiça num tempo escuro.

NémesisA Irmandade de Némesis mantém a sua vigília e acolhe todos nas suas fileiras!

A degradação da população portuguesa – 2/3

A missão:

As elites políticas, sociais e económicas portuguesas querem degradar a população e alterar os padrões do que é profissionalismo.

O que pretendem atingir:

Degradam o conceito de profissionalismo e subvertem a percepção colectiva relativamente ao que é e deve ser o conceito de profissionalismo e quais as exigências que a sociedade deve ter para com pessoas colocadas em lugares de topo.

Como o fazem:

O canal privilegiado usado para o fazer são as práticas das empresas privadas e o Estado subvertido que promove o abastardamento dos funcionários públicos equiparando estes a funcionários privados.

Qual é o conteúdo:

As regras profissionais são alteradas e as lógicas de funcionamento internas das empresas e do Estado são subvertidas. O sentido e o conteúdo do que é “competência” e “profissionalismo” é  alterado e competente/profissional passa a ser quem obedece e quem fecha os olhos ou quem ” optimiza” recursos.

Quem executa o trabalho sujo:

Os executantes deste legado negativo infligido sobre a população são os courtiers de serviço que o promovem, são os gestores “modernos”, são os arquitectos da legislação laboral e profissional e das suas mudanças que criam regras anti profissionalismo.

2015-06-24  a degradacao pop portuguesa cartaz 2

(1) As quebras de normas sociais e como estas são reclassificadas pelas elites para servirem os seus propósitos.
(2) A falta de profissionalismo generalizada.
(3) A ascensão dos interesses em sentido próprio nas profissões de topo na sociedade portuguesa.

HOJE: A falta de profissionalismo generalizada.

O sentido do que é profissionalismo na sociedade portuguesa foi reclassificado. Uma falta de profissionalismo generalizada das classes dirigentes é por estas escondida e ocultada, e a noção de culpa ” técnica” é enviada em exclusivo para a responsabilidade da população.  As classes sociais elitistas  que controlam a disseminação desta doença profissional auto isentam-se.

Isto é uma guerra “suja” baseada na criação de mecanismos de inferiorização psicológica…

O objectivo consiste em promover uma cultura de inferioridade psicológica aplicada directamente sobre os trabalhadores menos remunerados, e excluir de responsabilidades no actual estado das coisas a ” classe dirigente”.

A cultura da inferioridade psicológica, neste sentido, permite promover a cultura dos salários mais baixos que, por sua vez, é vendida como sendo uma relação directa que existe associada a essa falta de profissionalismo das classes mais baixas.

Surge a seguir o enaltecimento da suposta superioridade técnica das profissões de topo nos seus respectivos trabalhos que é depois apresentada como estando a ser “prejudicada” na sua eficiência pelo facto dos trabalhadores de qualificações inferiores serem considerados como “ maus profissionais”.

Analisando esta postura pelo valor facial que tem percebe-se que é um contra senso.

Em situações normais, dentro de empresas ou administração pública, tem sido as classes profissionais mais elevadas (que se tem posicionado ao longo de décadas para se protegerem umas as outras e colocam-se umas as outras em lugares…) que são as que gerem as actividades das empresas. E gerem as dos trabalhadores que fazem os trabalhos considerados inferiores ou menos bem pagos.

Torna-se lógico afirmar que cada uma destas pessoas espelha outras e quem gere, se for incompetente a fazê-lo, terá a tendência a passar esses defeitos para os seus trabalhadores menos remunerados.

Os defeitos são inerentes a todas as classes e tipos de pessoas e quem é bom gestor de pessoas gerirá melhor a sua empresa/administração.

Em Portugal as elites políticas e económicas decretaram que isto é ao contrário.

HUBRIS - CEREBRO - HALTERESDo alto da sua hubris e da sua petulante arrogância praticam a arte do “self serving bullshit”.
Esta característica vincada produz uma narrativa designando a falta de profissionalismo ou o mau profissionalismo como apenas existente nas classes menos bem remuneradas.

As consequências disto são simples.

O significado de “profissional” desvaneceu-se.

Nos dias de hoje, em Portugal ser-se “ profissional” é ser-se bem comportado e manso, não ser competente a fazer as coisas, andar bem vestido e apresentar uma imagem de marca pessoal assente no “eu”, agradar ao chefe, mesmo que o chefe seja um incompetente perigoso cujas decisões põem em causa a viabilidade-económica financeira do sector onde se trabalha.

O trabalhador moderno é o “ eu” que se auto promove, a criança adulta a quem é dito para ser hedonista na sociedade e no trabalho, relegando para segundo plano o trabalho (e o sentido de ser-se profissional) propriamente dito.

Regra geral, em empresas existem conflitos de interesses.

 * Quem geria esses conflitos e como eles eram geridos constituía um factor poderoso de respeito profissional entre pessoas dentro da mesma empresa e servia como tabela de aferição de quem eram os profissionais e quem eram os outros.

Precisamente por isso certas profissões eram socialmente extremamente respeitadas.

Tais como médicos, contabilistas, advogados e gestores, quadros superiores da administração publica. Todos equilibravam de forma profissional os interesses dos seus clientes/doentes/trabalhadores com os interesses próprios como profissionais e com os interesses gerais da sociedade – o bem comum.

A expectativa que caia sobre um advogado era a que funcionasse como uma autoridade do sistema de justiça bem para lá do que era a sua simples condição de defensor do cliente.

A expectativa relativa a um médico baseava-se em que este colocasse a saúde publica à frente dos seus próprios interesses enquanto medico e a frente dos interesses dos doentes.

A expectativa que existia sobre a actividade de um contabilista era não só a de certificar contas mas também que defendesse a integridade dos sistemas financeiros, porque isso significava defender a sua própria profissão e o sector em que a mesma estava inserida.

Nos quadros superiores da administração pública as expectativas eram ainda maiores e mais certificadas com sendo sérias. O pressuposto era que os quadros da administração a servissem em vez de se servirem dela.
A ideia de se servirem os amigos privados com informação privilegiada ou favores para posteriores recompensas futuras a serem obtidas, era impensável.

Sobre os gestores de empresas as expectativas recaiam nas praticas de boa gestão, promoção do crescimento da empresa e no assumir de responsabilidades sociais, ao invés de se empurrarem as externalidades para o resto da sociedade numa atitude de “o ultimo a sair que feche a porta”.

Todos estes padrões tinham falhas e não eram sempre cumpridos, mas existia uma hegemonia na sociedade portuguesa quanto à promoção da defesa destes valores.

As elites políticas, sociais e económicas portuguesas,(a elite plutocrata) subverteram e destruiriam estes padrões.

Vivemos na anarquia neoliberal cleptocrata, com eleições para disfarçar de 4 em 4 anos.

    "We run carelessly to the precipice, after we have put up a façade to prevent ourselves from seeing it.”     Blaise Pascal

“We run carelessly to the precipice, after we have put up a façade to prevent ourselves from seeing it.”
Blaise Pascal

O que ocorreu na medicina, nas escolas, e nos sectores da justiça em Portugal mostra bem como a degradação chegou e produziu os seus estragos.

Um exemplo da medicina explica particularmente bem isto. A partir da década de 80 do século 20 os sectores da medicina em Portugal perceberam que podiam controlar o sistema publico de medicina e passarem de pessoas que viviam bem, para pessoas que viveriam quase milionárias.

Passaram a fazer otimização financeira do sistema (em beneficio próprio), aceitando subornos das companhias farmacêuticas, sobre utilizaram serviços, diagnosticaram para lá do mais razoável, intimidaram políticos e doentes escudando-se atrás do seu conhecimento técnico da profissão.Paralelamente atacaram com tácticas corporativas negando o acesso mais largo à profissão, forçando em paralelo o repudio de sistemas alternativos de medicina debaixo da capa do “perigo para a saúde pública” que concorrências de sistemas alternativos de saúde gerariam, entre muitas outras técnicas  semelhantes.

 * O anterior profissionalismo desta classe assente num reconhecimento e respeito social foi assim destruído. Proporcionando que as mesmas forças que ajudaram a fazer estas figuras tenham tirado o tapete actualmente aos médicos, retirando ou ameaçando retirar decisões medicas aos próprios, encharcando os médicos em burocracia, autorizando técnicos com menos treino (paramédicos) para fazerem aspectos do seu trabalho ou enviando parte dele para os enfermeiros e no futuro será a automatização do trabalho de médicos (telemedicina) a ser vendida como nova solução.

Esta dissolução do sentido do que é ser-se profissional está a criar uma ingovernabilidade sistémica e um tecido social semi anárquico.

Os sentimentos de injustiça latente irão explodir, quando os deserdados da terra verificarem que foram enviados para um limbo social onde levam sempre pancada.

As tribos políticas da esquerda e da direita convivem bem com este estado das coisas.

A Irmandade de Némesis não.

A formação da opinião pública

As pessoas gostam de acreditar que a sua opinião sobre política, economia e assuntos sociais é baseada só e apenas nos factos. Há algo de “nobre” em acreditarmos que somos neutros face a assuntos que desconhecemos mas que quando nos explicam os factos somos capazes de tomar uma decisão justa mas sem paixões inflamadas. Mas em que medida é que nos conseguimos (ou queremos) realmente distanciar de tudo o que nos rodeia para tomar uma decisão neutra? Até que ponto conseguimos sequer obter informação correcta sobre todos estes temas? Até que ponto estaríamos de facto dispostos a levar esta linha de questionamento sem temer o que pudéssemos encontrar?

"Raros são aqueles que decidem após madura reflexão; os outros andam ao sabor das ondas e longe de se conduzirem deixam-se levar pelos primeiros." - Séneca

“Raros são aqueles que decidem após madura reflexão; os outros andam ao sabor das ondas e longe de se conduzirem deixam-se levar pelos primeiros.” – Séneca

Seremos de facto neutros à partida face a todas as questões? Dizer que sim implicaria que a) não temos qualquer experiência prévia que influencie a nossa decisão e b) somos imunes ao meio onde nos movimentamos e às opiniões que vemos circular à nossa volta. Se a primeira condição é uma impossibilidade empírica e relativamente fácil de aceitar a segunda já obriga a algum grau de introspecção. Todos nascem num determinado contexto que é determinado pelas condições e preferências daqueles que nos rodeiam de forma directa ou indirecta. Logo não há uma neutralidade inicial, existe sim uma predisposição, maior ou menor consoante o grau de independência do individuo face ao grupo (familiar, social, profissional), para aceitar posições e opiniões que coincidam com que aquilo que o nosso meio considera válido. Conseguimos aceitar que grande parte da nossa visão do mundo é determinada sem qualquer contributo nosso? Conseguimos pensar em nós mesmos como sendo, em grande medida, seres racionais que apenas absorvem valores e opiniões que alguém antes colocou à nossa frente? Ou seja, conseguimos abdicar da nossa crença que somos seres com um elevado grau de autodeterminação?

"Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados. " - Friedrich Nietzsche

“Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados. ” – Friedrich Nietzsche

Poder-se-á dizer que a nossa visão e opiniões não são apenas formadas pelo meio em que por casualidade nos encontramos. Que existe um processo mais activo de recolha de informação por parte do individuo e que esse processo é que em última análise determina de facto aquilo que pensamos e defendemos. Será mesmo assim? Para entender bem a questão e os processos internos e externos que ela implica é preciso olhar para dois elementos diferentes. Em primeiro lugar é preciso verificar se a informação que pesquisamos sobre qualquer tema tem suficiente força emocional para se sobrepor às “nossas” posições originais. Neste ponto temos que introduzir na nossa análise um pouco de “matemática emocional”. É preciso “calcular” o conjunto de benefícios que são acumulados quando aceitamos a opinião do meio e aqueles que podem ser acumulados quando se adopta uma visão dissonante da maioria – este modelo comportamental tem uma base realista e como tal pressupõe que a maioria (mas não todos) tende a adoptar, consciente ou inconscientemente, o traje ideológico/social/político que mais o beneficie quer em termos de aceitação pelos seus pares quer em termos de ganhos materiais concretos. Dizer que sim ao que o nosso meio nos transmite (filtrando adequadamente a informação que vamos recolhendo) trás consigo benefícios tangíveis. Dentro do nosso grupo já que passamos a ser vistos como alguém que “entende das coisas”, que é ponderado e moderado, que entende o que é a realidade e consequentemente seremos levados mais a sério. Além de garantir uma boa integração a concordância indica também a quem mantém o sistema a funcionar (seja qual for o sistema) que estamos disponíveis para defender o status quo, que não iremos abanar demasiado o barco, que seja qual for a realidade empírica estaremos disposto a ignorá-la e seguir os ditames que nos transmitem. Por outro lado dizer que não ao que nosso meio nos transmite coloca-nos à margem dos nossos pares já que em maior ou menor grau as nossa posições serão diferentes, terão nuances, serão mais excêntricas. Em suma: sairão dos limites do curral intelectual. É fácil ver para que lado a balança de ganhos pende.

"The aim of public education is not to spread enlightenment at all; it is simply to reduce as many individuals as possible to the same safe level, to breed and train a standardized citizenry, to put down dissent and originality. " - H.L. Mencken

“Conformity—the natural instinct to passively yield to that vague something recognized as authority.” – Mark Twain

Existem aqueles que apesar de tudo têm ainda integridade suficiente para reconhecer que o que lhes é transmitido pelo meio poderá não estar correcto ou ser mesmo pouco ético. Poderão mesmo resistir activamente ao que os seus pares lhe transmitem como “verdade”. Nesse caso este cidadão íntegro terá que partir numa demanda por nova informação. Tem que procurar histórias, interpretações e análises que correspondam de facto ao que ele experiencia. E aqui entramos no campo da capacidade individual de recolher e filtrar a informação que não é transmitida por laços sociais directos – especificamente aquela informação que não deriva de contacto pessoal e nesta categoria estão as tvs, os jornais, os livros, os blogues, etc. Estamos em águas familiares em que sabemos que é preciso questionar muito seriamente a posição e credibilidade dos criadores e divulgadores de informação. Isto torna-se especialmente urgente em países como Portugal que promovem uma cultura de endogamia mal encoberta em quase todas as posições de produção de conteúdos. É preciso estar alerta face a contaminações da informação por interesses pessoais, familiares, amizades de longa data entre outras formas de influência indevida. Dado o reduzido número de informação disponível em língua portuguesa e estas limitações à credibilidade da pouca informação que existe é caso para dizer que quem se limite ao material em português verá os seus horizontes tão severamente limitados que a sua demanda por explicações que fujam ao controlo do nosso meio social, político e económico se torna impossível.

Pascal - truth quotesNo fim desta pequena análise do nosso contexto e das nossas características pessoais podermos acreditar que, nas presentes condições, existe uma verdadeira opinião pública interessada em estar informada? Os indícios que discutimos parecem apontar precisamente para o oposto. Não é do interesse do cidadão questionar o que lhe é transmitido. Em muitos casos não lhe será sequer possível construir qualquer narrativa alternativa para que vê. O que fazer com esta conclusão? Devemos começar por admitir perante nós próprios que os termos em que actualmente se discute a nossa sociedade não são nossos. São um legado sobre o qual, individualmente, não temos qualquer controlo. Daí a frustração que muitos poderão sentir ao ver a estagnação das respostas oficiais apresentadas pelos grupos considerados como socialmente válidos (que possuem status, que são “levados a sério”, que possuem os recursos para recompensar socialmente). Que a procura por respostas que fujam a essa estagnação é acima de tudo algo que tem que partir do individuo. Que esse individuo terá que ser motivado por algo mais que apenas uma lógica de custo-benefício. Terá que possuir a inclinação pessoal para a acção ética. Trata-se de um processo heróico, uma verdadeira demanda épica que requer indivíduos com um conjunto de aspirações pouco comuns apesar de serem mais necessárias que nunca. Só saindo dos moldes pré-fabricados poder-se-á encontrar qualquer tipo de verdade e acima de tudo de justiça. O leitor terá coragem para tanto?

Pessoas sem dividas: os piores inimigos da tirania e do Status Quo

 Umberto Calvini: [In explaining the “true” nature of banking in the world] The IBBC is a bank. Their objective isn’t to control the conflict, it’s to control the debt that the conflict produces. You see, the real value of a conflict, the true value, is in the debt that it creates. You control the debt, you control everything. You find this upsetting, yes? But this is the very essence of the banking industry, to make us all, whether we be nations or individuals, slaves to debt. 

A maquina de criação de conflitos artificiais assentes em pressupostos sociais e económicos requer que os cidadãos sejam escravos de dividas.

Consequentemente, qualquer cidadão que recuse ter dividas, isto é, que tenha uma política de convicções pessoais assente nesse principio, independentemente do sacrifício pessoal ou familiar que tenha que sofrer, faz com que, através dessa atitude, toda a maquina de criação de divida passe fome.

Ficam impossibilitados de controlar a divida e de controlarem tudo a ela associado.

Queremos mesmo, enquanto sociedade, permitir que forças sinistras criem conflitos para melhor controlarem a divida dai resultante e depois oprimirem-nos?

Inversamente, qualquer cidadão que tenha dividas, está a alimentar a maquina de criação de divida e a ser por ela controlado. Os seus direitos cívicos e políticos são postos em causa e negados. O controlo exercido sobre uma percentagem de cidadãos limita indiretamente a liberdade dos outros cidadãos que não estão debaixo de divida.

Todos perdem.

Queremos mesmo, enquanto sociedade, permitir que forças sinistras promovam a divisão social e económica, atacando a democracia, e neguem “por associação” de quem não tem divida a quem tem divida; os direitos de todos os cidadãos?

O cidadão que recusa ter dividas, esse “Ser estranho e inquietante”, segundo o paradigma vigente considera a divida como algo que nunca quer ter, ou caso a tenha,(hipoteca de casa onde vive, por exemplo) pensa sempre nela como um pequeno mal necessário.

A ser reembolsado  o mais rapidamente possível e com a menor transferência de dinheiro em penalizações (juros) possível para as entidades parasitas, as mesmas que tem trabalhado para organizar a sociedade desta forma iníqua.

Os cidadãos livres de dividas são criados pelas seguintes condições.

Razões culturais e familiares – pessoas cujos valores culturais e familiares abominam a ideia de pedir dinheiro emprestado e pagar juros de divida.
Razões de memoria e historia pessoal – pessoas que no passado já pediram dinheiro e ficaram negativamente marcados pela experiência que juraram nunca mais repetir.
Razões ideológicas – pessoas que encaram a divida como um instrumento opressivo, que favorece o atual status quo económico e social iníquo, interpretam a situação percebendo que a cultura de lançamento de créditos (divida) sobre a sociedade é uma arma camuflada de repressão e de opressão, de controlo e de exploração.
Razões de aquisição patrimonial e zero risco – pessoas que percebem que pagar divida e deixar de ter divida é a forma mais fácil de ganhar uma vida de zero risco financeiro e obter  retorno financeiro com o próprio dinheiro.

“[Credit is a system whereby] a person who can't pay, gets another person who can't pay, to guarantee that he can pay.” ― Charles Dickens, Little Dorrit

“[Credit is a system whereby] a person who can’t pay, gets another person who can’t pay, to guarantee that he can pay.”
― Charles Dickens, Little Dorrit

Quando paga 12% de juros pelo simples uso de um cartão de crédito ” oferecido” (o presente envenenado) por uma entidade financeira isso constitui o equivalente a que 12% do seu rendimento seja desviado para alimentar os parasitas do sistema e do status quo.

(Note-se, aliás, que há uns anos atrás, a taxa de juro era de mais de 30% e nunca se podia baixar, porque, garantiam os ” especialistas” que louvam este sistema, só assim se poderia cobrir os custos e gerar lucros. Com a recente crise o nível da parasitagem baixou,mas continua a existir).

Então, coloca-se a questão.

Porque é que os cidadãos livres de dividas não são louvados como exemplo a seguir?

Apresentar cidadãos sem dividas como sendo bons exemplos e como o comportamento a seguir, corta o “fluxo“ de bons relacionamentos entre a imprensa financeira mainstream e corta os lucros de toda esta gente.

Existem muitas canetas de aluguer à solta, muitos ventríloquos a fazer eco das mensagens que lhes são pagas, em géneros ou em dinheiro, que louvam os benefícios de se pedir dinheiro emprestado.

Dito de outra forma.

Como podem os bancos comerciais e outros parasitas financeiros fazer dinheiro com quem não pede empréstimos?

Não podem.

Esse é um dos problemas centrais por detrás da exigência absurda de que se mantenham as teorias da austeridade a funcionar – com o correspondente serviço de divida

O atual sistema, o status quo que está em vigor é mantido contra todas as razões lógicas para tal, mas para ser mantido tem que viver da divida extraída dos servos da divida  estes são na sua quase generalidade os cidadãos.

Os lucros da manutenção deste sistema parasítico e absurdo são posteriormente reciclados e reentram no sistema para beneficio ilegítimo dos próprios e aumento do seu poder e riqueza, e servem, adicionalmente, para pagar aos micro exércitos de lacaios  e sequazes – a comunicação social, academias e Universidades e demais lacaios que argumentam e defendem o reforço do poder dos bancos e dos derivados tóxicos deles.

Acaso se fale em reestruturar a divida. Em deixar de pagar, em mudar o sistema. Quer-se mesmo fazer isso?

Admitamos que sim, que a generalidade das pessoas quer fazer isso.

Uma das soluções poderosas para o fazer é ficar fora do esquema de dividas. Não pedir dinheiro emprestado e pagar as dividas que se tenha o mais depressa possível.

Em Portugal, as tribos políticas da esquerda e da direita, nunca falam deste assunto.

Retire-se conclusões em relação ao porquê desta “omissão”…

“In fact this is precisely the logic on which the Bank of England—the first successful modern central bank—was originally founded. In 1694, a consortium of English bankers made a loan of £1,200,000 to the king. In return they received a royal monopoly on the issuance of banknotes. What this meant in practice was they had the right to advance IOUs for a portion of the money the king now owed them to any inhabitant of the kingdom willing to borrow from them, or willing to deposit their own money in the bank—in effect, to circulate or “monetize” the newly created royal debt. This was a great deal for the bankers (they got to charge the king 8 percent annual interest for the original loan and simultaneously charge interest on the same money to the clients who borrowed it) , but it only worked as long as the original loan remained outstanding. To this day, this loan has never been paid back. It cannot be. If it ever were, the entire monetary system of Great Britain would cease to exist.”
David Graeber, Debt: The First 5,000 Years