Gravy train, ou os parasitas do politicamente correcto na comunicação social (política)

gravy-train

O gravy train portugues…

Num recente episódio de um programa de televisão onde os intervenientes fingem que debatem a situação política nacional; uma das pessoas que intervém fez uma tirada tão pseudo espectacular como estúpida. Verdadeiramente e sem querer, revelou o que verdadeiramente pensava sob o assunto ” austeridade”.

Sentindo pânico pelo que chama de “o avançar do populismo” e pretendendo atacar a actual solução de governo em Portugal, correlacionar isso com a Europa e o deprimente estado político da mesma, e ao mesmo tempo, aviar o recado vindo dos seus amos, segundo o qual “tudo” o que acontece de mau na Europa seria única e exclusivamente culpa da Alemanha, esta insigne criatura declarou que a má gestão da crise europeia por parte da Alemanha teria dado origem ao Brexit, à aproximação da Alemanha à Rússia, à crise do Médio Oriente e especificamente no que aos partidos políticos europeus diz respeito e respectivas afinidades tal má gestão teria originado o fim da social democracia europeia.

Este programa televisivo é de orçamento reduzido, devemos ter isso em conta, quando pessoas pagas para analisar e debater politicamente, apenas conseguem produzir uma má conversa de café, mesmo que inclua alusões ao The economist ou ao Finantial Times ou a qualquer outra falsa bíblia.

A criatura televisiva, courtier de segunda classe, com esta proclamação do fim da social democracia europeia, argumentava a seguir que isto tinha originado o fim dos partidos da tribo da esquerda política de vertente social democrata na Europa. Tal desastre tinha originado o aparecimento de “todos estes partidos de extrema esquerda”, que eram – pasme-se – contra a austeridade.

Infere-se segundo esta criatura que os partidos da social democracia “normais” e sem desvios à norma serão a favor da austeridade…?

É este o nível da argumentação estúpida, preconceituosa, que avia recados dos superiores hierárquicos oligarcas.

É esta a disseminação verbal da injustiça como forma de organização social.

SERVILISMO - PÉS

Esta criatura courtier tem sido um membro constante e sistemático da elite cortesã deste país durante os ultimo 30 anos.Cavalgou o Gravy train português, auto colando-se à tribo da esquerda política.

O método cientifico para obter esse selo de qualidade e garantia de “normalidade social democrata” consiste em manifestar um acentuado anti comunismo, patente em declarações públicas e privadas, em paralelo com uma inclinação cultural imensa (supostamente um feudo exclusivo da tribo da esquerda política…) que leva a que se pense nos circulos bem pensantes dos cortesãos e dos que lavam mais branco que a pessoa é aceitável, uma compincha pró valores”de social democracia de acordo com o livro de regras.

Estas pessoas obtiveram inicialmente os cursos universitários certos nos lugares certos, ocuparam os empregos “de pluma vistosa” do regime, os estandartes supostamente meritocráticos do mercado de trabalho das artes, letras e ideias (especialmente nas administrações da tribo da esquerda política e especialmente nas administrações da direita política…) e obtiveram elevados lucros quer na gentrificaçao material do regime (obtenção de bens materiais e estatuto financeiro), quer nas áreas gentrificadas habitacionais do regime, onde habitualmente vivem e criaram casulos e bolhas de classe “bem”.

A vida tem sido boa.

Estas pessoas arranjaram um emprego em ” sítios” onde é inexistente a necessidade de trabalhar.

São apenas pagos para nada fazer, servindo de veículos que passam a mensagem que agrada as elites e aos oligarcas.

São apenas pessoas que existem num emprego durante um dia inteiro e são pagas para falar.

Falam muito, mas a substancia do que dizem é zero.

Exactamente…, qual é o valor social, politico, profissional, cívico, de cidadania que estas pessoas tem entregue à sociedade, como retorno, pelo que a sociedade lhes tem permitido ser?

Reorientando momentaneamente este texto.

Portugal transformou-se num local em que é muito estúpido o acto de se procurar ajudar as pessoas.

Como regra geral, as pessoas traem quem as ajuda, traem a cidadania que deveriam defender, traem-se a si próprias. Filosoficamente, e com muita paciência  deve responder-se que o problema principal não reside na constatação que as pessoas irão trair, mas sim que as pessoas irão trair por um preço próximo de nada.

É inexistente qualquer capacidade por parte da generalidade da população em fazer uma correcta avaliação custo – beneficio do valor de qualquer coisa.

Numa nota ingénua, deve-se fazer o esforço de ajudar, mas há limites de paciência e de preço próximo de nada.

Com o acima escrito em mente é necessário dizer que quem paga a existência dos parasitas do politicamente correcto, como discurso público próprio de um sistema de cortesãos inserido no arco da governação, recuse pagar este preço por algo que não traz valor.

Com  acima escrito em mente é necessário dizer que os cortesãos que põe uma cara alegre afirmando serem pró justiça social, pró pobres, pró “social democracia” tem lucrado a nível pessoal com as injustiças e a pobreza que derivam dos ataques que são feitos aos membros da sociedade com problemas.

Com acima escrito em mente é necessário dizer que os cortesãos estão com verdadeiros problemas.

Num mundo com internet, cidadãos despolitizados, sem dinheiro institucional para os manter acima ou no patamar em que estão, sem acrescentarem qualquer valor de mercado aos oligarcas e as elites, quem precisa deles?

O chão foge-lhes debaixo dos pés.

Devemos ajudá-los a terminar a sua carreira de mercadores aleivosos com a maior indignidade possível.

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A biopolítica e a casta mercadora

Com o abandono da esfera política tradicional as tribos da direita e da esquerda criaram um perigoso vácuo de poder social e normativo. Claro que a natureza não aceita vazios e algo tratou de se infiltrar nos buracos que o poder tradicional abandonou. Os mercadores. Esta casta incentivou o abandono do Estado e promoveu o seu código de valores muito específico. Em vez de honra passámos a ter uma mentalidade “negocial e de resolução de conflitos”. Em vez de integração a todos os níveis na vida da polis passámos a ter pequenos grupos profissionais regidos por “profissionalismo” (termo nebuloso obedecendo a critérios definidos pelos próprios técnicos). Em vez de poder e responsabilidade pessoal passámos a ter uma massa amorfa governada por burocracias cada vez mais opressivas, que não assumem a sua natureza reguladora. Em vez de existir a possibilidade de realização dentro da pólis enquanto seres sociais e políticos passámos a ser encorajados a recorrer à “mindfulness”. Há que reconhecer o sucesso de uma casta que começou por ser ostracizada e colocada à margem das relações tradicionais de honra, que caracterizam qualquer corpo político saudável. Demorou 500 anos mas os mercadores não só aboliram todos os estigmas associados à sua actividade como substituíram totalmente a escala de valores por outra que não só lhes trás vantagens como os coloca numa posição proeminência. É neste quadro que surge a obsessão com a quantificação de tudo e todos – e como consequência, a atribuição de um valor numérico a cada ser humano. De facto, a pirâmide social nunca foi tão precisa como no mundo moderno, a possibilidade de atribuir um valor específico a cada pessoa torna clara a posição de cada ser humano na cadeia alimentar. Todos os dias nos é dito que somos mais livres, mas parece que afinal todos os dias acordamos mais presos às nossas circunstâncias materiais.

“si è morto il Doge, no la Signoria” – “O doge está morto, mas a Signoria está viva” – Ditado Veneziano

“si è morto il Doge, no la Signoria” – “O doge está morto, mas a Signoria está viva” – Ditado Veneziano

Olhando para os novos valores e comparando-os aos antigos torna-se mais fácil perceber o alcance da transformação que teve lugar. A noção tradicional de honra assenta sobre o valor individual da palavra do individuo, um compromisso que envolve a própria essência do ser, algo a que nos vinculamos de livre vontade – sabendo que não será necessariamente o caminho mais fácil. Isto era algo nocivo a uma casta, os mercadores, cujo poder assenta na não validade da palavra. Tudo é negociável e para qualquer potencial conflito existe sempre uma solução negociada que evita tensões. Traduzindo: não existe noção de certo e errado, bom e mau ou linhas intransponíveis, esses conceitos foram demonizados e são tratados como visões “maniqueístas” ultrapassadas. Existem acordos, celebrados por tempo definido, que dividem os espólios consoante a força ou fraqueza de cada uma das partes. A quebra do que é acordado é um dado adquirido nestas negociações porque pela natureza do mundo os equilíbrios de força entre as várias partes tendem a oscilar e, inevitavelmente, na ausência de homens e mulheres de honra as situações degeneram numa supremacia do mais forte. A moral mercadora é uma guerra eterna de todos contra todos em que ninguém pode acreditar em nada, a única coisa que conta é o crescimento do poder aquisitivo, por muita devastação pessoal e social que isso possa trazer.

“Não deves honrar mais os Homens que a Verdade” – Platão

“Não deves honrar mais os Homens que a Verdade” – Platão

Como Aristóteles afirmou o Homem é um animal político. Está-lhe na sua natureza querer ter um voto na forma como a sua comunidade política é gerida (seja através dos mecanismos de participação democrática massificada seja através de outros modelos). Numa visão holística isto traduz-se pela harmonização das várias componentes da vida do Homem. A sua visão do mundo é coerente com a sua forma de estar na sua vida pessoal que por sua vez é coerente com a sua visão política da comunidade – gerando um ciclo positivo de reforço de ideias e emoções. Para o mercador isto era algo intolerável. Pois colocava entraves sérios à mercantilização de todas as esferas da vida e acima de tudo à quantificação do indivíduo em si mesmo. Tinha que desaparecer. Usando as forças da tecnologia o mercador forçou toda uma civilização a reinventar-se de acordo com os novos valores. A pólis foi fracturada para nunca mais ser unida. Os cidadãos passavam agora a agrupar-se não por vivências e ideias quanto ao campo político, mas pela sua actividade comercial. É preciso entender a malícia com que isto foi feito. O ser humano foi despido de tudo o que era, foi-lhe sonegada uma pertença a uma comunidade física a favor de uma alocação a uma área de produção geográfica (fábrica, escritório… pois tem que ser “móvel e adaptável”). Foi-lhe negada a pertença a uma comunidade de ideias sendo o espectro político agora dividido entre duas tribos de saltimbancos que se iriam confrontar de forma teatral sem poderem afectar verdadeiramente o rumo das coisas. Foi-lhe tirado tudo o que preenchia a sua vida até só sobrar um factor: o seu valor produtivo. O seu trabalho e a sua vida formavam agora um todo indissociável onde se não se sabe onde o primeiro acaba e a segunda começa. A Pólis deixou de ser uma unidade para passar a ser uma federação de pequenos reinos bárbaros regidos por “códigos profissionais”, cada um cuidando apenas dos seus interesses específicos – selando assim o seu destino colectivo: a irrelevância face ao poder esmagador da casta organizadora do trabalho e finanças, os mercadores.

“Dehumanization, although a concrete historical fact, is not a given destiny but the result of an unjust order that engenders violence in the oppressors, which in turn dehumanizes the oppressed” - Paulo Freire

“Dehumanization, although a concrete historical fact, is not a given destiny but the result of an unjust order that engenders violence in the oppressors, which in turn dehumanizes the oppressed” – Paulo Freire

Conseguindo destruir tudo o que ancorava o Homem à vida cabia agora à casta vitoriosa criar novas formas de organização da vida. Mas deparava-se com um problema. Para arregimentar as pessoas de forma coerciva precisava de recorrer a modelos do passado – os mesmos que se tinham empenhado em destruir por representarem obstáculos ao seu aumento de poder e capital. Era um dilema. A solução encontrada foi engenhosa, após terem removido as ideias do debate político recriaram organizações de gestão da vida humana, viradas exclusivamente para o lado quantitativo e, de forma mais substancial, inteiramente desprovidas de carisma. Afinal de contas o modelo do mercador não assenta sobre carisma, a posse é a lei, e a possibilidade de existirem forças além da posse era uma ameaça desestabilizadora que simplesmente não iriam tolerar. É o nascimento da organização burocrática. Na ausência de honra criaram-se leis minuciosas e incompreensíveis para a maioria que está sujeita aos seus ditames. Na ausência de pertença criou-se uma esfera de trabalho que tudo ocupa e dita o posicionamento dos indivíduos. Na ausência de carisma cria-se obediência ao procedimento, à regra, ao detentor do cargo. Colocando as coisas em termos platónicos, a essência do ser humano fica submetida às formas. É neste espírito que nasce uma consciência cidadã falsificada e um espírito de participação cívico fictício – o mundo das manifestações sem perturbações ao trânsito e turismo, das greves sem quebra de produção, da petição online, etc.

The Revolution is for Display Purposes OnlyEste curto relato condensa séculos de preparação por parte da casta mercadora para assumir as rédeas dos destinos humanos mas deixa-nos com uma questão por responder. Foi um projecto de poder bem-sucedido? Atingiu o que se propôs. Desvitalizou o ser humano e reduziu-o a uma ferramenta. Isto é inegável. Mas então porque somos assaltados por este ambiente de crise permanente? Obviamente parte da resposta está no sistema comercial e financeiro que não só dita o destino da economia como os próprios “valores” da sociedade mercantilizada. Mas só isso não explica o medo que ainda se sente na casta suprema. Ao fim de muita experimentação social o mercador descobriu algo que o mantém acordado à noite. Algo que tenta esconder ao máximo das pessoas normais. Descobriu que o espírito humano pode ser reprimido e redirecionado, mas que essa manipulação eventualmente vai começar a fazer crescer uma tensão irresolúvel no seio de cada pessoa. Um anseio por algo mais. A sensação de vazio que não é apagada pela multiplicação frenética de actividade para ocupar os dias. A certeza absoluta no íntimo de cada um de nós que “algo está podre no reino da Dinamarca”. Tendo removido tudo o que nos tornava humanos e podia dar soluções a esta tensão acumulada o mercador está entre a espada e a parede. Se permite que a tensão se manifeste o poder da casta cai, mas se reprime ainda mais corre o risco que esta se manifeste de forma imprevisível. Não tendo nada a propor às pessoas (afinal elas já são tudo o que o mercador quis que fosse: números, objectos, ferramentas, substituíveis…) resta-lhe recorrer à biomoralidade. Usando o corpo como único ponto de referência quer usá-lo para substituir tudo o que foi destruído. O não comer de forma saudável deixa de ser considerado como um apetite sensual para ser visto como uma má escolha, que por sua vez vai criar um “mau” cidadão. A pressão no trabalho atinge níveis insuportáveis, mas a solução nunca está em alterar o modelo definido pela casta mercantil, mas sim em fazer os trabalhadores acreditarem que a culpa é sua. Não estão preparados, não sabem gerir o stress, não são proactivos, etc. Há problemas sociais graves por resolver, mas mais uma vez a culpa é do cidadão, que, segundo o mercador, sofre de estupidez crónica e não entende que esses problemas não se abordam com políticas estruturais, mas sim com apelos a uma responsabilidade individual (“se todos fizessem o que deviam não existiriam problemas”) – intencionalmente ignorando a impotência do cidadão em causar impacto seja no que for.

“When nations grow old the Arts grow cold And commerce settles on every tree” – William Blake

“When nations grow old the Arts grow cold
And commerce settles on every tree” – William Blake

O insucesso da tácita está mais que patente no aumento das tensões sociais e no histerismo cada vez mais ofensivo dos pregadores da biomoralidade (devidamente sancionada pela ciência para manter as unidades humanas produtivas mas politicamente inertes). Sucedem-se as modas das dietas, das meditações, do desporto compulsivo, dos alimentos orgânicos… e nada parece apaziguar as pessoas. Parece que esta competição levada ao extremo físico não consegue oferecer alternativas credíveis para sustentar uma sociedade. E, no entanto, a propaganda prossegue. Enquanto o ser humano não for restaurado a toda a sua dignidade o mal-estar continuará. Enquanto a pólis não voltar ao seu papel enquanto quadro de referência integradora nada poderá ser resolvido. O mercador, apesar de toda a sua astúcia, não conseguiu dissolver a essência humana.

"When there is no enemy within, the enemies outside cannot hurt you." - Winston Churchill

“When there is no enemy within, the enemies outside cannot hurt you.” – Winston Churchill

A casta dos mercadores aposta na continuação do isolamento individual para manter o seu poder, mas esquece-se que só está sozinho nesta noite escura quem não souber onde procurar ajuda. Todos temos a capacidade de nos voltarmos a ligar ao Real (por oposição ao mundo plástico das formas mercantis). É só querermos dar o primeiro passo.

NémesisAtravessamos a escuridão por estradas sombrias

A nossa vigília nunca terá fim

As ideias que mantemos vivas são imortais

O único verdadeiro lado que existe somos nós.

A governação imbecil dos últimos 200 anos ( pelo menos)

“Depredadores do universo, e porque tudo falta a quem devasta, agora esquadrinham terra e mar; ávidos se é opulento o inimigo, sobranceiros se pobre, nem o Oriente nem o Ocidente os podem saciar; são os únicos a desejar com igual paixão riquezas e pobreza. Pilhar , trucidar, roubar tomam eles com o falso nome de governo e chamam paz à solidão que criam.”

Tácito, Agrícola

Com optimismo na alma devemos considerar que em Portugal os últimos 200 anos (pelo menos) tem sido caracterizados por uma governação profundamente imbecil.

Nestes 200 anos, 3 regimes políticos diferentes, mas todos igualmente cretinos, tem sido geridos desde as sombras mais negras pelas oligarquias e pelas elites que são regularmente arrotadas cá para fora pelas oligarquias visando convencer a população, que supostamente existirá alguém a navegar este barco encalhado em que Portugal se metamorfoseou.

Esta lamentável situação para as pessoas decentes e feliz situação para os oligarcas, tornou necessário perceber que as populações estão desencorajas e desiludidas, alheadas e formatadas nesta coisa vagamente gelatinosa, em estado gasoso, no que este simulacro de país está transformado.

Parece demasiado pessimismo e “Doom and Gloom”? Então escreve-se antes “realismo”, mas o realismo, tal como o Keinesianismo parece ter sido proibido ou considerado obsoleto…

Geração após geração e regime após regime, verificamos que a corrupção e os pagamentos feitos a diferentes forças políticas e sociais, todas diferentes e todas iguais  e atravessando diferentes eras históricas, continuam em força e sem aparente data designada para terminar.

As grandes corporações dos grandes sectores industriais e comerciais, de suposta nacionalidade portuguesa ( ao que parece o capital não tem pátria, excepto quando é para vender num local e pagar impostos noutro mais agradável) ou não portuguesa continuam a subornar ou directamente ou através de isenções agradáveis que obtém dos poderes públicos e dos interesses privados que fazem sexo com os poderes públicos e que são devidamente domesticados e convenientemente oleados.

Ironicamente, uma pessoa da oligarquia até dirá que sente a alma lavada de fresco quando cheira a corrupção e a podridão deste sistema.

GENERAL ALCAZAR - CORONEL TAPIOCA

Perante tão lúgubre inicio deste texto, a dúvida levanta-se.

Pode o próximo general Alcazar ou o próximo coronel Tapioca ser algo de diferente do que o anterior Tapioca ou o anterior Alcazar?

Pode-se confiar que um qualquer destes dois personagens (neste contexto são metáforas…) não seja como o anterior e respeite os seus eleitores fazendo o que é certo fazer-se ou pelo contrario irá acomodar os interesses das multinacionais e das nacionais?

Pode-se confiar que um qualquer destes dois personagens não seja como o anterior e respeite os seus eleitores evitando entrar no cargo público/sinecura privada pobre ou remediado e saindo milionário e rico?

Se isto fosse comércio e estivéssemos dentro da mentalidade comerciante a escrever este texto, afirmaríamos que existe uma alternativa mais rápida: saltar-mos de intermediários e passarmos directamente aos oligarcas para assim percebermos exactamente o que é que estes escroques ilegítimos querem e recusar-mos (obviamente demitimo-los da posição de oligarcas que ocupam) a dar.

Como isto não é comércio, deveremos perguntar o que deveremos fazer?

Afundar-nos no cinismo e na misantropia suave e cheia de desespero?

Ir votar como eleitores bem comportados que julgam, por o fazer, estar a acreditar no sistema e a contribuir para o melhorar?

Ir votar apenas com os nossos pequenos e estreitos interesses em mente esquecendo qualquer quadro global e as consequências piores para nós e para terceiros a longo prazo?

O esquecimento de qualquer quadro global irá originar um inevitável retorno da injustiça e da repressão e deveremos aceitar isso?

Esquecer gerações vindouras visando apenas  objectivos de curto prazo?

Deveremos adoptar um egoísmo total, conjugado com raiva como forma de vida?

Recusar pensar e apenas seguir ordens por mais injustas ou amorais que sejam?

Os guardas dos campos de concentração parece terem optado por este caminho e quando questionados acerca do porquê, apenas responderam que seguiam ordens dadas…

2015-11-25 - rob riemen- 2012

As oligarquias e as elites de poder desejam a materialização do acima escrito.

Impõe-se a pergunta. Vamos dar-lhes o que desejam?

Alternativamente também podemos auto designar-nos como especiais de uma marca especial – um desporto que as elites e os oligarcas que as controlam muito acarinham e com o qual enganam o país gelatinoso.

Como seres “especiais” com um destino mitológico especial definido pelas oligarquias escusamos de nos preocupar com estas ligeirezas acima escritas…

O caminho está aparentemente à nossa frente.

A encruzilhada é simples:

Seguir o caminho das elites e das oligarquias de nacionalidade portuguesa (ao que parece o capital não tem pátria, excepto quando é para vender num local e pagar impostos noutro mais agradável) e seguir as ordens deste plano quinquenal oligarco-elitista privado corporativo-estatal;

ou sair desta lógica e recusar alimentar fontes de poder oligárquicas.

Os membros da Irmandade de Némesis saíram desta lógica.

Estamos fartos de Alcazares e Tapiocas.

«(…) só apoiaram o regime aquelas forças que nunca apareceram na cena política… mas estiveram sempre por trás dela?
Essas mesmas forças que beneficiaram com o chamado corporativismo, traduzido do italiano: aquelas forças que, no campo económico e financeiro, engordam enquanto o povo emagrece: o alto capital, a Finança internacional.
A Igreja e o exército foram os seus instrumentos. Mas só essas forças podiam ser o verdadeiro aliado de Salazar. Por isso, enquanto só o temor às retaliações tolhe ainda o exército e a Igreja parece ter-lhe tirado inteiramente o seu apoio, o regime continua “inexplicavelmente” de pé.
“Inexplicavelmente” para quem ainda não se deu ao trabalho de verificar quem são na realidade os donos de Portugal…»

Adolfo Casais Monteiro

Portugal, uma democracia de controlo que ataca a democracia dos cidadãos – 1

“Viewed from a distance, everything is beautiful.” ( “Tacitus”)

Em Portugal a situação é simples.

Uma elite de poder, suportada desde as sombras pelas oligarquias podres e caducas impôs regras de controlo sobre os cidadãos. Estes são sistematicamente alvo de ataques baseados na iniquidade e na injustiça  que transformam a vida numa quase insustentabilidade e atrasam quer a evolução colectiva desta sociedade quer a evolução individual da maior parte dos cidadãos.

A vida colectiva foi transformada em algo quase insuportável para a grande maioria. Uma minoria obtém o espólio do que é quase insuportável para a maioria.

Este jugo opressor tem executantes.

São o aparelho estatal público, minado de cima abaixo pelas oligarquias e grupos de interesse – públicos e privados; são as grandes empresas privadas com os seus constantes abusos comerciais e fiscais, são os pequenos micro poderes caciquistas rurais e urbanos com a sua corrupção endémica, são as classes profissionais consideradas de topo com os seus privilégios profissionais ilegítimos, são os cortesãos profissionais e videirinhos amadores da comunicação social com as suas sistemáticas manipulações, são os actuais partidos políticos com a sua inexistente democracia interna, são os próprios cidadãos que se deixaram despolitizar e alhear do que se passa.

No longo exército cheio de generais mortos e executantes vivos estes são alguns dos  fundamentais que ajudam a manter este charco podre e fétido.

“O charco podre” é o outro nome para democracia de controlo portuguesa e neste ecossistema as regras são simples.

O cidadão pode ser prejudicado a todo o tempo e a toda a hora.

As empresas privadas e as castas públicas, os micro poderes caciquistas e os intermediários de negócios e da comunicação social devem ser ajudados a viver melhor e a prejudicarem o cidadão a todo o tempo e a toda a hora.

Este é o paradigma oficioso do regime.

Tacitus_quote - CONTROL

A democracia de controlo que ataca a democracia dos cidadãos funciona de varias maneiras e uma delas é a seguinte: qualquer cidadão lesado, revestindo uma qualquer das milhentas formas em que pode ser lesado, quer em termos patrimoniais, quer em termos de honra e ética, quer em termos dos seus interesses sociais e políticos,  por qualquer órgão do Estado; pelas empresas privadas de grande porte e parasitarias e/ou pelas micro empresas que adoptam estes métodos está impossibilitado de se defender.

Os benefícios desses prejuízos infligidos aos cidadãos são neutros (no sentido em que não revertem de facto para ninguém) ou são direcionados para alguma entidade profissional estatal ou corporativa que lucra (ou obtendo benefícios financeiros ou outros, ou sendo escusada de os pagar como compensação a quem foi por ela lesada).

O negócio que foi feito pelos proponentes da democracia de controlo em detrimento dos proponentes da democracia dos cidadãos tem este axioma:  o cidadão fica colocado nas situações sempre mais desfavoráveis para ele e favoráveis para os interesses da oligarquia e das elites de poder que a servem.

Como se chegou a este ponto?

A histórica oficializada mitológica defendida quer pela tribo da esquerda política, quer pela tribo da direita política apresentou este conceito de democracia dos cidadãos desde o dia 25 de abril de 1974 em diante. Esta nova versão benigna iria supostamente eliminar todos os resíduos fascizantes que vinham do anterior regime pré 1974.

Depois deste mergulho em sais de banho democráticos o cidadão ficaria protegido.

Uma nova super lei (CRP de 1976), legitimada e sujeita a posteriores revisões (onde se viriam a oficializar de facto os interesses dos oligarcas…) estabeleceria as grandes regras de justiça, segurança e liberdade, e foi apresentada aos portugueses como uma constituição altamente moderna, desenvolvida e progressista, uma das melhores constituições do mundo.

Esta mentira baseada na construção de percepções erradas, de memorandos de ideias feitas a serem inculcadas na cabeça da população serviu para legitimar e aliciar os cidadãos para o apoio a esta coisa vagamente oligárquica em que está transformada a crisálida que nunca passou a borboleta chamada República portuguesa.

40 anos depois verificamos que o nível de opressão tem vindo a crescer e começa a equiparar-se ao que existia há mais de 40 anos e serve os mesmos interesses que existiam antes do dia 25 de Abril de 1974 mais os upgrades pós, mas reveste outras formas, mais insidiosas, infinitamente podres e a opressão é agora feita com uma luva de veludo por oposição à mão de ferro anterior.

A montanha pariu um rato.

Quase nenhuns dos interesses das oligarquias foram tocados com o disposto naquela constituição.(ou na lei geral, antes pelo contrário) Existem apenas umas eleições quadrianuais e mais uns folclores semelhantes com discursos harmoniosos com periodicidade menstrual mensal para criar a imagem de uma República baseada em princípios democráticos.

 Heaven cannot brook two suns, nor earth two masters. Alexander the Great

Heaven cannot brook two suns, nor earth two masters.
Alexander the Great

Um qualquer cidadão é lesado.

A República subvertida oligárquica que temos fornece a resposta aos cidadãos. Diz-lhes que dispõem duma panóplia de meios, garantias legais e jurisdiccionais de todos os tipos, feitios e modelos.

O cidadão fica convencido que, afinal, isto funciona: se existem tantas “garantias” é porque isto é um sistema a sério e a sério.

Na realidade isto é a apenas a face do iceberg oligárquico, promovido pelas elites de poder para paralisar qualquer resposta particular, de cidadania, às injustiças e iniquidades e para defender indirectamente os interesses das oligarquias.

Os cidadãos que iniciem qualquer oposição a qualquer injustiça cometida contra si ou contra outros e exijam apuramento de responsabilidades e sanções correspondentes, quer sejam instituições estatais a ter que responder por isso, quer sejam empresas privadas observam que a lógica de funcionamento é sempre idêntica.

A entidade pública a quem foi atribuída “competência” para resolver o assunto declina fazê-lo invocando a não alocação de competências para tal ou demora eternidades esvaziando o tempo útil para resolver e acaba a passar o assunto para uma qualquer outra entidade estatal. Isto quando não diz logo que o cidadão (tendo-a efectivamente) não tem razão e passa adiante.(São sempre fornecidas justificações  que citam inúmeras leis, códigos e pergaminhos ancestrais… como justificação para manter a injustiça e a iniquidade)

Numa empresa privada o departamento ou funcionário a quem foi atribuída competência para resolver o assunto declina fazê-lo invocando a não alocação de competências para tal, ou demora eternidades esvaziando o tempo útil e acaba a passar o assunto para uma qualquer outra entidade ou pessoa dentro da empresa, quer porque tem ordens para fazer isso, quer porque não sabe, quer porque não tem competência para isso, quer porque a política comercial oligárquica defendida e definida pelo topo da empresa assim o define. (São sempre fornecidas justificações  que citam inúmeras leis, códigos e pergaminhos ancestrais… como justificação para manter a injustiça e a iniquidade)

Em ambos os casos trata-se de fazer perder tempo, encher a paciência dos cidadãos, arrastar o assunto até tempo inútil de ser resolvido. Sonegar justiça  equidade e aplicar o seu contrário, por motivos de exercício de poder político e comercial.

( Neste aspecto a autocracia das empresas privadas é ainda pior em Portugal do que o Estado  – salvo certos sectores  específicos do Estado como o fisco e a sua política quase nazi fiscal…)

Qual a conclusão a retirar?

Recusa-se atribuir isto somente a falhas momentâneas de serviços ou erros humanos; são políticas oficiais definidas pelas oligarquias e executadas pelas elites de poder.

São formas de controlo social abjectas e anti democráticas.Tem com objectivo criar distancia entre o cidadão e estas estruturas de controlo, precisamente porque visam obter e manter uma despolitização do cidadão e mantê-lo imobilizado.

E a despolitização deve aqui ser entendida como uma forma de retirar direitos ao cidadão em todas as áreas que lhe dizem respeito menos em duas: a de ser um obediente pagador de impostos altos e a de ser um obediente consumidor.

Numa democracia de cidadãos existem áreas que são atribuídas aos cidadãos e das quais eles não são autorizados a sair ou estamos na realidade numa democracia de oligarcas, passe o paradoxo, em que só a dimensão consumidores acríticos mais pagadores de impostos cabe?

E concorda-se com isto? Os membros da Irmandade de Némesis discordam.

Democracia de controlo 1

Quando a poeira assenta os cidadãos verificam que após terem sido genericamente degustados por todas estas estruturas, os seus assuntos nunca foram resolvidos, mas as entidades visadas – quer a que faz aplicar a lei, quer a visada na aplicação da lei, fizeram entre si um acordo compensatório que exclui, em termos práticos, os cidadãos de qualquer compensação. É um acerto de contas contabilístico-oligárquico que exclui o principal interessado nos assuntos em discussão.

“Viewed from a distance, everything is beautiful.” e é esta a imagem que a crisálida que nunca se transformou em borboleta emite para a população.Tudo é bonito e tudo funciona, excepto que nunca funciona.

Devemos citar o ponto 7 do Estatuto de Némesis:

7 – Todo o irmão de Némesis está obrigado a reconhecer, e a aplicar nas suas acções, o primado do humano sobre o económico e o institucional. O anti-humanismo, em todas as suas formas, será rejeitado. Tudo o que devore o Homem na sua essência é indigno de existir.

A democracia de controlo devora o Homem na sua essência  é indigna de existir.

Os irmãos recusam a democracia de controlo e nunca a aceitarão.

É o falso nome de Governo e chamam paz a solidão que criam.

“Depredadores do universo, e porque tudo falta a quem devasta, agora esquadrinham terra e mar ;ávidos se é opulento o inimigo, sobranceiros se pobre, nem o Oriente nem o Ocidente os podem saciar; são os únicos a desejar com igual paixão riquezas e pobreza. Pilhar , trucidar, roubar tomam eles com o falso nome de governo e chamam paz à solidão que criam.”

Tácito, Agrícola

Autonomia e Estratégia

Como o Enclave e a Irmandade de Némesis têm vindo a demonstrar ao longo dos anos o actual debate nacional sobre o rumo a dar ao país reflecte em grande medida uma ficção. Não está de facto nada em debate. Ou dito de forma mais correcta o que está em debate por todas as forças políticas é apenas a forma e nunca a essência do sistema. E isto serve as elites de forma perfeita. Mantém as pessoas entretidas a discutir o sexo dos anjos enquanto as muralhas da cidade colapsam uma a uma. É verdade que alguns portugueses vão estando mais cépticos à medida que percebem os limites reais da nossa posição estratégica no mundo. Mas tristemente o efeito desta descoberta tende a ser a retirada do individuo da vida pública pois o cidadão desperto começa a desenvolver uma forte dissonância cognitiva face ao que o rodeia e ou é ostracizado ou acaba por se auto-exilar. As conversas que ouve e vê deixam de fazer sentido já que se entende que não têm qualquer relação com a realidade. Começa-se a ver as ilusões por aquilo que são, distracções para impedir que qualquer conversa nacional séria possa de facto existir. Começa-se a entender que os “princípios” e “ideologias” em grande medida não passam de capas retóricas com que se tapam os interesses mais cínicos de quem os defende ou na melhor das hipóteses conceitos vácuos que tentam mobilizar as massas para situações que ou são contra os seus melhores interesses ou não produzirão qualquer efeito. Tudo isto torna-se particularmente óbvio quando se discutem os modelos de desenvolvimento económico e as suas consequências políticas e sociais.

"The rationality of the ruled is always the weapon of the rulers." - Zygmunt Bauman

“The rationality of the ruled is always the weapon of the rulers.” – Zygmunt Bauman

As teorias económicas que estão em voga e que, teoricamente, visam optimizar os rendimentos das nações dos seus agregados empresariais insistem todas sobre um ponto, a especialização. Cada região deve focalizar-se apenas num elemento da produção de serviços ou produtos e importar o restante já que a dispersão por várias áreas não corresponderia a um óptimo económico (o máximo ganho de unidades monetárias pelo mínimo input de recursos). O corolário deste modelo é uma interdependência total dos países uns dos outros e necessariamente a fragilização de países mais pequenos e menos capazes de manter alguma diversidade de produção. Isto traduz-se em fórmulas econométricas que tentam expressar o risco associado à falha/colapso de um dos componentes deste sistema mais ou menos global. E como todas as fórmulas da economia clássica está sujeita a dois tipos de críticas: 1) O risco não se comporta de forma linear e o princípio base da económica clássica, ceteris paribus (e tudo o resto permanece igual), não tem validade, a instabilidade de um elemento toca na estabilidade todos os outros elementos e quanto maior o grau de interligação maior este efeito de contágio não intencional se torna – acaba por se tornar impossível ter uma ideia do risco real associado à maioria das falhas porque ele não respeita modelos matemáticos teóricos; 2) A interligação dos vários elementos deste sistema não divide o risco de forma equitativa, antes pelo contrário. Coloca grande pressão sobre os elementos mais pequenos que ao serem necessariamente mais especializados dependem apenas uma mão cheia de produtos ou serviços. Estão então duplamente dependentes. Dependem da manutenção de mercados externos muito específicos para escoar o seu excedente especializado e por sua vez dependem da existência da estabilidade de todos os outros mercados para assegurar a importação de todos os bens essenciais. Adicionalmente este sistema de avaliação de risco tende a ignorar que as grandes nações são indiferentes aos colapsos das pequenas nações mas que o inverso não é verdade, ou seja, a distribuição de risco não é apenas desigual como é mesmo inversamente proporcional ao poder económico e político de cada entidade nacional.

"It is not inequality which is the real misfortune, it is dependence." - Voltaire

“It is not inequality which is the real misfortune, it is dependence.” – Voltaire

Porque é que se seguiu este modelo de desenvolvimento? Porque a teoria alternativa caiu em desgraça. Diametralmente oposta a esta visão está a visão de autarquia – uma nação que organiza a sua vida económica no sentido de ser totalmente auto-suficiente. Há duas causas para o abandono deste modelo. Em primeiro lugar à medida que revolução industrial progredia e tecnologia se complexificava tornou-se claro que cada país não tinha a mesma distribuição de recursos naturais o que tornava a independência total como uma impossibilidade técnica. Em segundo lugar durante o século XX esta teoria de auto-suficiência extrema esteve associada a todo o conjunto de economias totalitárias (a Alemanha nazi é o caso mais óbvio) que exaltavam a nação de forna xenófoba e que viam as relações internacionais não apenas como o domínio da competição ou do conflito mas como apenas uma interminável guerra. Torna-se assim compreensível o abandono desta teoria em favor de uma que teoricamente daria lugar a menos tensões e conflitos e maximizaria os potenciais ganhos de cada nação. Mesmo os países que se sentem de alguma forma prisioneiros do sistema actual (a micro especialização) não encaram a autarquia como alternativa porque o choque de uma mudança de sistema causaria terramotos políticos, teria custos sociais elevados e seria questionável qual o nível de bem-estar que se poderia de facto proporcionar ao cidadão médio numa situação de autonomia total. Agora que o velho modelo continua descredibilizado e o novo parece estar próximo dos seus limites naturais e as suas falhas sistémicas começam a estar expostas as ansiedades populares sobre modelos de desenvolvimento credíveis e duráveis começa a aquecer já que não existe nenhuma nova ortodoxia no horizonte para substituir o que existiu até ao momento.

"For developing countries, free trade has rarely been a matter of choice; it was often an imposition from outside, sometimes even through military power. Most of them did very poorly under free trade; they did much better when they used protection and subsidies. The best-performing economies have been those that opened up their economies selectively and gradually." - Ha-Joon Chang

“For developing countries, free trade has rarely been a matter of choice; it was often an imposition from outside, sometimes even through military power. Most of them did very poorly under free trade; they did much better when they used protection and subsidies. The best-performing economies have been those that opened up their economies selectively and gradually.” – Ha-Joon Chang

De que adianta debater e discutir quando de facto não se quer sequer admitir os limites de cada uma destas escolhas e não se pondera a situação estratégica específica de Portugal? É útil colocar os termos do debate sobre uma forma partidária? Útil para quem? Há noção das consequências caso se queira desbravar novos caminhos? Há uma cultura de liderança política forte o suficiente para assumir esse risco? Existe vontade e coragem popular para aceitar de frente os imensos riscos quer para permanecer num modelo económico esgotado quer para explorar outras alternativas? Em última análise temos que ser extremamente cépticos quanto a qualquer possibilidade de mudança real que não provenha de um desastre exógeno, algo além do nosso controlo e iniciativa. Quer no topo quer na base a nossa sociedade tem falhas graves que nunca foram colmatadas e que nos tornam incapazes de tomar escolhas estratégicas coerentes. A Irmandade de Némesis recomenda a todos os cidadãos despertos (sejam membros ou não) cuidado em se envolverem no “debate” nacional, não nos devemos guiar por ficções e interesses alheios ao país. Só uma renovação dos valores da esfera pública pode trazer a revitalização necessária para voltarmos a ser capazes de fazer escolhas independentes e relevantes.

Limpar a lama

Há muito tempo que a Irmandade de Némesis avisa os leitores do enclave para o risco da criação de bodes expiatórios como forma de escape de energia e tensões sociais e hoje temos o exemplo perfeito. A produção teatral que está hoje a ser encenada com toda a pompa e circunstância na Assembleia da República a propósito de bancos e banqueiros encaixa perfeitamente neste quadro mental e político decrépito.

"Não há inocentes; só aqueles que ainda não nasceram ou os que já estão mortos podem aspirar à inocência" - Stig Dagerman

“Não há inocentes; só aqueles que ainda não nasceram ou os que já estão mortos podem aspirar à inocência” – Stig Dagerman

Num regime onde o que une as elites é uma pertença social e onde a comunicação entre os membros dessa elite atravessa, fácil e diariamente, as linhas partidárias todos querem dar prova de ser valentes defensores do cidadão e da justiça. Os ilustres deputados, quais defensores dos pobres e oprimidos numa fábula medieval, esmeram-se em perguntas ultra pertinentes para mostrar que a) eles são puros, b) condenam tudo o que terá passado e c) estão do lado do cidadão comum.

"Princípio: uma coisa que demasiadas pessoas confundem com "interesse" " - Ambrose Bierce

“Princípio: uma coisa que demasiadas pessoas confundem com “interesse” ” – Ambrose Bierce

Há alguns problemas com esta versão das coisas. Quando se quer apurar a verdade de algo não se nomeiam 24 pessoas para o fazer, nomeia-se um responsável. Quando se quer obter a verdade não se transmite a investigação em directo e a cores para todos verem, as audiências fazem-se à porta fechada. E em último lugar dá-se poderes a quem investiga para de facto fazer alguma coisa, seja punir ou recompensar. Assim sendo parece que objectivo é mesmo dar um espectáculo ao país, um pouco de circo. E ao mesmo tempo ilibar a classe política como um todo para ficar bem claro ao ingénuo cidadão que tudo isto é muito lamentável mas foi algo que sempre esteve completamente fora do alcance do poder político prevenir.

bureaucracy_quoteA baixeza e manipulação que o regime faz destas situações é inqualificável na sua falta de consideração para com o cidadão. É um insulto à inteligência da nação. A Irmandade de Némesis está atenta. Os Irmãos levantaram o véu das farsas operáticas que o regime e as suas instituições teceram sobre a realidade. Não seremos enganados. Não queremos uma vítima sacrificial para satisfazer os deuses, queremos uma justiça completa e total. Só nessa base poderá Portugal reerguer-se.

A Irmandade de Némesis rejeita o teatro parlamentar como forma de se estar na vida pública.

A Irmandade de Némesis não compactua com a elite de poder.

A Irmandade de Némesis está com o cidadão.

Proposta de abolição constitucional

Resumindo a situação:

– Não existência de maioria parlamentar para reformar ou abolir a constituição.

– A não existência de um poder legislativo independente – verdade que não é culpa deles, já que os poderes executivos e legislativos derivam da mesma eleição.

Não existência de vontade popular no sentido de apoiar em votos a reforma ou abolição da constituição.

Proposta do PSD:

– A não existência de constituição. Que desapareça a figura do documento rígido, não sujeito de ser adaptado aos desejos de governos estrangeiros e os seus respectivos gabinetes de gestão de ocupação.

– A não existência, óbvia, de um órgão fiscalizador do documento constitucional já que dada a sua total flexibilidade não faria sentido nenhum, quando alguém diz para alterar, altera-se. Tão simples como isso.

– Em caso de dificuldade recorrer à figura do chefe de estado para ganhar alguma legitimidade para o que ser fazer.

E neste último ponto é que está a chave meus caros. Os portugueses pedem muito a intervenção do Presidente da Republica mas como, quase, sempre não sabem muito o que querem dizer com isso. O presidente é o sustentáculo moral deste governo. Foi o criador deste governo através de uma crise que ajudou a magnificar quando tal lhe foi conveniente. Foi o primeiro a propor que se abolisse ou reformasse profundamente a constituição de forma a transformá-la mais num memorando de trabalho ministerial que numa carta de direitos e garantias básicas da população portuguesa. Em última análise é o único que, fora um acordo largo no parlamento, que tem poder para significativamente alterar a aplicação da constituição. Nomeadamente através da sua suspensão se faltar qualquer outro acordo e ele, a título pessoal, o julgar necessário. Sim é verdade que estarão previstas legalmente situações muito específicas para as garantias constitucionais serem suspensas mas, como o regime já nos provou, quando algo não agrada é substituído e as regras são de aplicação inconstante. Além das razões óbvias, sem um tribunal constitucional activo (ou fragilizado por medidas governamentais e presidenciais), a existência uma maioria parlamentar fanatizada e um Conselho de Estado na sua maioria cúmplice, quem irá pedir uma análise dessa suspensão constitucional ou de forma mais interessante quem a iria executar? Portanto Portugal que grite pela intervenção do chefe de estado, que clame nas ruas para este sair da sua inacção mas depois não se esqueçam de quem ele é, do que criou e dos seus desejos de longo prazo há muito expressos.

"No freeman shall be taken, imprisoned, or in any other way destroyed, except by the lawful judgement of his peers."

“No freeman shall be taken, imprisoned, or in any other way destroyed, except by the lawful judgement of his peers.”

Mesmo em caso de “mera” substituição da constituição por outro documento o governo sabe não ter o mínimo de popularidade ou credibilidade para conseguir aprovar tal documento por via parlamentar ou por via de um plebiscito. Logo a única alternativa seria uma suspensão alargada (até a “crise” ser resolvida – lembram-me de há uns anos Manuela Ferreira leite ter falado no mesmo? Isto prova que existe uma corrente de pensamento muito presente influente dentro do partido) tendo como único “entrave” a vontade do chefe de estado. A última vez que tivemos um modelo parecido foi em 1906 pelas mãos de João Franco, outro político que fez escola nos partidos caciquistas e rotativistas da monarquia liberal mas se dizia “independente” e “reformista” e o monarca era Carlos I – que pela sua atitude de indiferença para com o país e prepotência governamental foi morto em praça pública num dos poucos regicídios da nossa história. O sistema tinha um nome, governo por decreto. O ditador (e era esse o cargo de João Franco – era uma altura que ainda se chamavam as coisas pelo nome) propunha legislação ou medidas punitivas conforme o seu gabinete achava desejável e estas eram postas sob o “rigoroso escrutínio” de um rei mais interessado na caça e na sua vida sexual que no país. No século XX a ditadura administrativa de João Franco não chegou a durar 2 anos completos mas só acabou devido à morte do homem que sustentava o regime, Carlos I. O seu filho, por medo ou manobra política, optou pelo caminho da tentativa de absorção e castração política dos movimentos dissidentes. Falhou porque claramente o abismo que separava o país católico e monárquico do país republicano e liberal já era intransponível.

Presos políticos por ordem de João Franco - mas claro, apenas até a situação estar normalizada. Mais depressa caiu a sua ditadura que ele conseguiu "normalizar" qualquer situação política, económica ou social.

Presos políticos por ordem de João Franco – mas claro, apenas até a situação estar normalizada. Mais depressa caiu a sua ditadura que ele conseguiu “normalizar” qualquer situação política, económica ou social.

Num regime como o nosso, que talvez ja tenha conseguido igualar a monarquia liberal na sua ineficiência nas relações internas (estado) e externas (estado e privados) e que talvez possua o edifício legal mais bizantino que já tivemos torna-se complicado saber onde este caminho nos poderia levar. Um governo sem qualquer documento fundador ou guia? Sustentado apenas pela sua própria vontade de poder, inépcia governativa, regado com eleições presidenciais de 5 em 5 anos e mantido o resto do tempo pela pressão constante dos “credores” que funcionariam como uma espécie de Conselho de Regência? Talvez seja este o resultado de nunca se ter feito uma verdadeira reforma política em Portugal há mais de um século. Os monárquicos “transformaram-se” em republicanos, que por sua vez se “transformaram” em Salazaristas que finalmente se “transformaram” em democratas. Todos são tudo e ninguém é verdadeiramente nada. Talvez seja isto que um país carcomido por elites monárquicas no armário se pareça. Aproximações constantes a um período idealizado sem qualquer atenção ao momento histórico, à população ou à própria decência política.