El Dorado de latão

As recentes questiúnculas com Angola trazem sempre à memória o passado português. Aquela tendência autodestrutiva de não resolver os problemas que se têm em casa e procurar uma fuga noutro local qualquer. De certa forma esta atitude tem o seu equivalente no Sebastianismo, a procura de um imaginário miraculoso e salvífico que oculta uma falta de vontade ou incapacidade de lidar com o presente. Começámos pela Índia não tendo sabido manter o Império Oriental verdadeiramente lucrativo por mais que umas décadas – período durante o qual reinou uma autêntica guerra pirática de todos contra todos nas possessões portuguesas. Quando as coisas não funcionaram tão bem como tínhamos pensado transferimos as nossas aspirações mais profundas para o Brasil. Rapidamente também as riquezas fáceis chegaram ao fim e iniciou-se a economia esclavagista que dominaria até meados do século XIX. A revolução industrial apanhou-nos desprevenidos, como de costume, e as poucas oportunidades de acompanhar o resto da Europa foram desperdiçadas levianamente. Não será de admirar que tenhamos perdido o país para os ingleses antes de ele próprio se ter declarado independente. Em desespero de causa e sem ter para onde mais olhar lentamente começámos a interessar-nos pelas possessões africanas sendo que só no século XX é que chegámos a uma exploração verdadeiramente sistemática de uma parte significativa desses territórios. Como a metrópole nunca esteve em ordem aconteceu o mesmo que em outros momentos históricos. Uma transição atabalhoada que levou à perda de décadas de acumulação de capital próprio. Esta falta de vontade de olhar para nós próprios levou também à falta de análise crítica (política e não académica) da ditadura, das causas da sua durabilidade e do colaboracionismo de grande parte da sociedade – a hipervalorização de Abril faz lembrar um pouco a Itália pré-1945 em que se estimava existirem cerca de 500 guerrilheiros/resistentes ao regime fascista; poucos meses após retirada final da Wehrmacht o número de italianos que reclamavam ter feito parte da resistência já tinha atingido os 5000.

S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. Quatro anos depois escreveria ao monarca a implorar o establecimento da Inquisição no Oriente devido ao caos que encontrou.

S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. Quatro anos depois escreveria ao monarca a implorar o establecimento da Inquisição no Oriente devido ao caos que encontrou.

Sem análise política digna desse nome o povo seguiu alegremente o novo curso que lhe propuseram, a coesão com a Europa – numa altura que a fragilidade económica do continente já tinha feito algumas aparições. Mais uma viagem rumo a uma realidade desconhecida que parecia tão mais atractiva que a nossa. Com o benefício acrescido de podermos fugir de qualquer tendência mais introspectiva que nos forçasse realmente a lidar com os nossos “demónios” colectivos. Passou-se uma camada de verniz sobre o passado recente e sobre a própria realidade mental portuguesa e anunciou-se com pompa e circunstância que tínhamos integrado o mundo desenvolvido – só mesmo em indicadores do nível de asfalto por área territorial é que poderíamos aspirar ter atingido tal objectivo. Como todos agora sabemos as crises que já tinham abalado o sistema económico e social Europeu só se agravaram com o passar do tempo; penalizando cada vez mais os países menos unidos, culturalmente mais conservadores, de sistemas políticos recentemente forjados e sem pensamento estratégico. Mais uma aventura que provou que no curto prazo os portugueses são fantásticos a aproveitar as oportunidades de ganhos rápidos mas que lhes falta a dimensão estratégica que permitiria, senão um domínio de certas áreas, pelo menos atingir uma certa estabilidade e independência face ao exterior. Neste ponto da narrativa será escusado dizer que nos recusámos mais uma vez a olhar para dentro, para o que teríamos que resolver internamente e passámos à caça frenética da próxima “grande oportunidade”, e assim chegamos ao oásis angolano. Vedado a, quase, todos nas primeiras décadas que se seguiram à independência por uma brutal guerra civil e ressentimento acumulado e votado ao esquecimento nos primeiros anos de paz enquanto andávamos entretidos a brincar com a Europa. Mas finalmente tínhamos descoberto o nosso mundo de oportunidades perdidas numa ex-colónia sequiosa de desenvolvimento.

“Your visions will become clear only when you can look into your own heart. Who looks outside, dreams; who looks inside, awakes.” - Carl Gustav Jung

“Your visions will become clear only when you can look into your own heart. Who looks outside, dreams; who looks inside, awakes.” – Carl Gustav Jung

Mas por debaixo desta narrativa tradicional da descoberta do novo “el dorado” estava a mesma realidade de sempre. Um país que não resolveu os seus problemas internos, que não evoluiu mentalmente e que se centra sobre ganhos a curto-prazo. Esquecemo-nos do óbvio. De um ponto de vista estritamente económico Portugal não é nada e apanha as migalhas que outros gigantes deixam cair estando condenado a ser eventualmente afastado dos mercados mais lucrativos de Angola. Mais que isso, o nosso desenvolvimento técnico é recente, limitado a certas áreas e não estamos na linha da frente da investigação. Ou seja, rapidamente Angola pode prescindir dos serviços das empresas portuguesas assim que tiver as estruturas básicas montadas. Na melhor das hipóteses estamos a olhar para 10 anos de relações lucrativas seguindo-se um período de decrescimento da presença nacional até aos níveis anteriores e de uma inversão natural do peso económico respectivo, visto não termos qualquer barreira comercial digna desse nome com os PALOP (nem mesmo baseadas em correlações com o desenvolvimento humano, crescimento da classe média local, direitos humanos, etc). Mais uma vez o teatro do imediato toma prioridade e as pessoas tomam posição face a uma suposta agressividade Angolana (tomando algumas respostas laivos do regime que colonizou o país) quando de facto o que ocorre é apenas o natural entre nações cujos povos não têm laços reais sólidos, a realpolitik – que, a julgar pelo que vemos, as elites angolanas dominam melhor que as portuguesas. Sendo irrelevante a “solução” final para estas questões resta perguntarmos-mos: e quando Angola já não for “the next big thing”? Qual é a próxima terra prometida? Queremos mesmo continuar a ignorar o nosso mal-estar interno? A viver de solução de curto-prazo em solução de curto-prazo? E mesmo que queiramos isso, será viável no mundo que está a nascer?

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A germanização da Europa

Depois de um longo processo de acumulação de capital baseado na construção de um mercado interno forte e depois em exportações de qualidade, e elevado valor acrescentado, para países desenvolvidos ou em desenvolvimento, e numa estabilidade monetária em parte derivada da psicose* de evitar a repetição de um episódio hiperinflacionário, a Alemanha chegou ao fim das primeiras fases do processo de unificação com dois objectivos claros. Em primeiro lugar reintegrar a espécie humana como mais que párias cúmplices do regime mais criminoso de que existe registo histórico e, em segundo lugar, reinvestir a quantidade maciça de marcos acumulados em algo relativamente proveitoso, mas estável, que pudesse servir de almofada em uma ou duas décadas ao efeito de envelhecimento da sua população (e consequente diminuição de rendimentos e aumento de despesas).

A panca da moeda forte tinha que derivar de algum lado...

A panca da moeda forte tinha que derivar de algum lado…

A resposta para as duas questões estava na Europa. Primeiro pela marginalização do Reino Unido (que não percebeu e continua sem perceber o que se está a passar) como parceiro fundamental da França no processo de construção europeia. Alguns dentro da França teriam avisado, ainda em 1989, que uma reunificação alemã seria algo inaceitável que colocaria em risco não só todo o equilíbrio continental como a própria posição da França dentro do conjunto das nações ocidentais. Foram ignorados. A reunificação seguiu-se, altamente proveitosa para a RFA e altamente penalizadora para a RDA (diferenças ainda hoje mais que visíveis para quem se der ao trabalho de conhecer as regiões). O Reino Unido dedicou-se à especulação financeira e transformou o resto do país numa espécie de parque temático, completo com família real, tornando-se o menos relevante para a política continental que já tinha sido desde o período pré-isabelino. A França apagou do registo a sua oposição inicial e fingiu que tinha paridade com a “nova” potência (como aliás faz parte do seu padrão histórico). E a nova Alemanha emprestou os seus marcos a um recém-aberto mercado europeu de dívida soberana ajudada por instituições europeias e americanas. Nomeadamente à tal periferia, isto é, nós.

aos vencedores os espólios

aos vencedores os espólios

Tudo correu bem enquanto a noção de fornecimento de crédito às populações como compensação para a quebra real de poder de compra salarial pode funcionar – processo que permitiu à economia alemã continuar a crescer enquanto as periféricas eram silenciosamente desmanteladas ou asfixiadas. Depois aconteceu o que todos sabemos que acontece sempre. Sectores financeiros desregulados explodem e imputam os custos às populações evitando a responsabilidade financeira e moral pelas suas acções – mas não se preocupem, na próxima bolha especulativa os mesmos economistas que imputam a crise a um consumo irresponsável do homem comum vão-nos explicar como o novo produto é 100% seguro. Aí a Alemanha viu-se duplamente ameaçada. O processo de construção europeia estava parado há mais de 10 anos – uma liderança alemã é inaceitável para todos os jogadores relevantes. E pior ainda os seus marcos, agora euros, investidos na compensação do nível de vida periférico estavam em risco de se evaporarem. Surgem os planos de “resgate”. Que se traduzem pelo reembolso total, às custas dos cidadãos locais, aos credores, a banca alemã e em menor grau europeia e americana.

Vamos a seguir? Duas velocidades... pois...

Vamos a seguir? Duas velocidades… pois…

Entramos no último acto da na nossa pequena peça de teatro. Ao criar uma dívida permanente na periferia (de forma a salvar os seus próprios investimentos irresponsáveis e em grande parte egoístas) a Alemanha encontrou a forma de desbloquear o processo europeu e a sua ascensão dentro do clube. A necessidade é a mãe do engenho. Ganhou uma alavanca permanente que pode usar para forçar decisões que jurídica, económica e socialmente transformem todos os países que dela dependem no que quiser, em especial pequenas cópias de si mesma – nos sectores que considera estrategicamente importantes, a população em si é irrelevante. Uma espécie de americanização muito mais agressiva e sem o elemento humano. Assim avança de novo o processo de integração europeia mas apenas nas áreas consideradas relevantes para o novo motor da região. Apaga-se ainda mais a soberania mas apenas de alguns países. Criam-se novas distinções entre europeus de “puros” e europeus “impuros” – com o eufemismo de uma “Europa a duas velocidades” que curiosamente se divide em linhas culturais. A própria França, antigo coração do continente, está a lutar para se manter relevante, tendo esquecido a paridade num sistema que não lhe pode permitir tal vaidade. A Europa avança. Mas ao ritmo do Bundestag e Bundesrat. Indo todas as estradas ter a Berlim.

*A realidade é que a hiperinflação de Weimar foi uma aberração económica e política mas que, historicamente, uma inflação moderada (até 15%-20%) não tende, por si mesma, a ter efeitos adversos no crescimento económico.

Nunca mais?

Podemos avaliar uma sociedade em parte pelos seus fenómenos mais populares? Se sim então temos um problema grave. Um dos poucos eventos que ainda mobilizam grandes grupos de pessoas de forma regular são os jogos de futebol que, como pode ser facilmente entendido, não é um desporto mas um negócio pouco claro, apenas tolerado pelos benefícios económicos e o seu efeito enquanto analgésico social.

Mas, infelizmente, existe um aspecto menos explorado mas potencialmente ainda mais perigoso neste mundo. Há muito tempo (pelo menos mais de duas décadas) que várias polícias europeias e vários jornalistas de investigação apontam para os elos entre algumas claques futebolísticas mais violentas e a extrema-direita neonazi. Incluindo em clubes da Península Ibérica. Nestes movimentos mistura-se ideologia política violenta, música “alternativa”, agressão gratuita, actividades comerciais ilícitas (armas, drogas, extorsão,…) e acima de tudo a criação de um clima de intimidação que torna este negócio num veículo para uma mensagem social de violência e abuso sob determinados grupos mais vulneráveis. De momento, devido às ligações com o mundo político e empresarial que os clubes de futebol têm (e por vezes até os líderes destas claques têm…), estamos numa espécie de tréguas em que se parece ter sido acordado que não se tocaria nestes grupos nem se olharia de muito perto para as suas actividades – o mesmo acordo feito para o futebol em geral a julgar pelos estranhos resultados financeiros da maioria.

Claque Ucraniana (estes são "puros" já que são eslavos).

Claque Ucraniana (estes são “puros” já que são eslavos).

Da Rússia de extrema-direita nacionalista chega-nos um tipo de caso que penso que já terá tido precedente em Itália e Espanha. Uma claque nacionalista (e não me pronuncio sobre que laços que possam ter em concreto porque pouca ou nenhuma investigação existe fora da Rússia que esteja acessível) exige ao seu clube que só contrate jogadores com um “passado cultural e valores” iguais aos seus (entenda-se da claque), ou seja, pretende-se a implementação da norma não oficial (porque seria provavelmente ilegal, mesmo na Rússia) de exclusão de jogadores (e sócios supõe-se) que não sejam eslavos ou escandinavos e heterossexuais. Como negócio que é, e vivendo nós uma era de caos moral económico, não faltarão defensores que qualquer valor cívico que este vil negócio tenha teria que ser preterido pelo conceito de “livre escolha”. De qualquer forma como nada será transformado numa norma oficial mesmo que esta “carta aberta” se torne política não-oficial os órgãos que regulam este “desporto” fecharão os olhos.

Os "impuros" devem ser marcados...

Os “impuros” devem ser marcados…

As pessoas e sua inegável dignidade são esquecidas para garantir a não perturbação da ordem económica que garante privilégios a quem se associa a este negócio que parecem alegremente ser “reféns” ideológicos de seja quem for desde que o dinheiro continue a circular. Mais trágico será não se perceber os caminhos que “estamos” a trilhar de novo. Clubes sem negros e homossexuais. Companhias de teatro sem judeus. Partidos com liderança sem mulheres. Bairros sem emigrantes. A procura psicótica da “pureza” que começa exclusão, segue para a segregação e acaba num banho de sangue. Já vivemos isto! Não ficou mesmo nada na cabeça das pessoas? Ou terão alguns historiadores mais misantropos razão? E tais eventos serão não só resultado de alguns ideólogos menos saudáveis mas antes um fenómeno recorrente a grande parte da nossa espécie. Será que o que fizemos foi apenas negar responsabilidade moral que imputamos a um pequeno grupo.