Necrópsia das necrologias

A morte deste empresário/gestor é uma boa desculpa para o cidadão normal se dedicar à introspecção sobre o significado das necrologias, ou seja o relato dos feitos do morto. No momento em que é anunciado ficamos “informados” se, segundo os directores e accionistas do meio de comunicação que estivermos a ver/ler, a pessoa em questão dedicou a sua vida à defesa dos mais elevados ideais, se não passou de um vilão sem rei nem roque ou se se simplesmente foi mudando de ares conforme lhe pareceu conveniente. O individuo em questão, neste caso, figura mesmo a título de exemplo sem qualquer elo pessoal. Não passa mesmo de uma desculpa para analisar o tema já que qualquer comentador sensato da praça sabe o que o espera se a boca lhe fugir para opiniões pessoais concretas ou, se perder mesmo o pouco juízo que ainda tinha, seguir pela via das acusações com prova. A partir de um certo nível de pertença socioeconómica não há liberdade de imprensa ou opinião. Fora dos nossos círculos familiares e de amizades estamos cingidos às mais breves referências podendo quanto muito ficar algo implícito no ar. Mais que isso é ultrapassar uma linha que o bom nome do regime nos fará pagar. Provavelmente não com uma pena de prisão e outras sevícias como nos “bons velhos tempos” mas com um delicioso processo financeiramente ruinoso, uma perseguição profissional implacável seguida da irrelevância social ou do exílio auto-imposto. De tempos a tempos, como na velha Roma republicana, são publicadas as listas de proscritos da Republica (não literalmente claro, afinal somos muito mais civilizados que isso… em vez de pendurar um papel no Fórum com o nome e morada do individuo fazemos saber pela imprensa que já não se encontra num estado de graça), ou seja, aqueles que apesar de terem pertencido a determinados círculos caíram em desgraça o suficiente que ataca-los não irá gerar qualquer reacção sistémica de defesa do regime.

"Many people would no more think of entering journalism than the sewage business - which at least does us all some good"

“Many people would no more think of entering journalism than the sewage business – which at least does us all some good”

A diferença entre um documento que nos condene à infâmia o outro que nos eleve à categoria da santidade está em grande medida dependente de dois factores. Em primeiro lugar os deuses e senhores que escolhemos servir durante a nossa vida. Os poderosos recompensam os seus servos, mesmo na morte. Os fracos e oprimidos quanto muito relembram os seus paladinos em segredo (a sua própria memória uma heresia perigosa dependendo do grau de sucesso que tiveram), isto é, aqueles cuja honra pessoal ainda é significativa o suficiente para os impedir de aceitar as 30 moedas. Em segundo lugar o momento da morte. Se os elementos a que alguém esteve ligado em vida experienciam uma apoteose de poder aquando da morte do individuo então tudo o que ele fez terá um brilho dourado. Mais, será midas reencarnado. Não existirá acção com falha ou vítima não merecida. Da hagiografia nascerá um santo guerreiro pela causa que a seu tempo, segundo dizem os monges copistas, será reverenciado por todos quando a sua glória (ou será a dos seus senhores) for incontestada. Por muito pouco credível que a tentativa de santificação seja no imediato o tempo, a persistência e o ouro tudo compram, incluindo a memória colectiva.

"When asked in a radio interview if she thought the barriers of the British class system had broken down, Barbara Cartland answered, "Of course they have, or I wouldn't be sitting here talking to someone like you"

“When asked in a radio interview if she thought the barriers of the British class system had broken down, Barbara Cartland answered, “Of course they have, or I wouldn’t be sitting here talking to someone like you”

Bem mas isto deixa por responder talvez a pergunta mais relevante de todas para nós, mortais para quem os portões dos céus estão permanentemente fechados: o que devemos sentir em relação a estes “campões” do regime que vão caindo? Pela primeira vez em memória viva talvez a resposta correcta seja o instinto normal português: a mais completa indiferença. Sem o falso moralismo e sentimentalismo de gerações mais antigas. A pura, fria e prática indiferença das gerações que foram deixadas à sua sorte. Que desconhecem totalmente os exaltados círculos em que estes “neofidalgos” se movimentam. O que interessa ao soldado raso se o Quartel-General envia mais oficiais de “elite”? A guerra continua a estar perdida. Os que chamamos de irmãos continuam mortos e frios no chão ou a agonizar. A lama não muda, o sangue não deixa de correr, as latrinas não fedem menos. Sem interesse pelos homens não há difusão das ideias. Sem o peso das ideias as instituições estarão sempre periclitantes. É claro que o ouro compra tempo, compra credibilidade, compra intelectualidade, enfim é quase todo poderoso. Mas o esforço despendido a construir algo dessa forma é exponencialmente maior que qualquer forma que tenha um mínimo de ressonância emocional com a população

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A classe média e a quinta coluna

O modelo de sociedade que ainda hoje nos guia é essencialmente uma relíquia do estado pós primeira grande guerra, o voto universal, os serviços também universais, a paz com objectivo… tudo pagamentos feitos ao homem comum por uma aristocracia (terratenente, industrial e cada vez mais financeira) que sentiu o seu poder a falhar pela primeira vez em quase cinco séculos. O sangue que correu em Ypres, no Somme e em Verdum foi demasiado para apagar da memória. Os mortos para além de qualquer justificação. A sanidade mantida apenas a custo de um pulso pessoal forte perante a loucura do mundo. Regressou uma geração quebrada, cheia de fúria justificada contra o embuste de que foram vítimas durante quase cinco anos. Foi o apaziguamento das massas. Pelo menos das que saíram da guerra do lado vencedor. Agora não temos guerra, tirando em sítios distantes que a maioria não saberia apontar num mapa, cujos líderes se desconhecem e com costumes para os quais as pessoas se estão nas tintas. Não temos também um grande inimigo em quem concentrar os nossos terrores e manter as nossas elites na linha. A espada de Dâmocles que foi a União Soviética foi quebrada. Ao fim de um século os princípios geradores da nossa ordem social estão a dar de si. As razões para a nossa organização económica e política a desaparecer e as nossas elites já se encontram em movimento para se reorganizarem de acordo com as novas regras que elas próprias podem voltar a ditar sem interferência. Ao fim de um século o cidadão perdeu de novo a guerra.

As guerras da "landed gentry".

As guerras da “landed gentry”.

 O processo começou no dia que o muro de Berlim caiu. A última ameaça credível às elites ocidentais estava morta. As potências comunistas depressa seriam desmembradas e absorvidas no sistema-mundo de forma particularmente vingativa e punitiva (como não se fez com a RFA em 1949 diga-se). A partir deste momento o regresso de alguns elementos à vida Europeia, talvez mundial, seria inevitável. O desemprego estrutural (um nome pseudo técnico que visa tapar a realidade: desemprego permanente) estava destinado a regressar. Ao fim de duas décadas cá está ele. Em larga escala como não era visto desde a ascensão do fascismo, e com mais ou menos os mesmos efeitos. Ao criar uma situação irresolúvel para milhões de pessoas está-se a desintegrá-las da sociedade que fazem parte. A partir desse momento saem de um circuito e entram noutro, que apesar da vulnerabilidade acrescida e miséria tem também menos limites e fornece menos razões para alguém se conformar com imposições exteriores. Ao contrário dos Bourbon, que apesar de nada esquecerem nada aprenderam, as elites europeias aprenderam e sabem, pelo menos em parte, as consequências das suas acções. Não é por acaso que surgem propostas de militarização crescente das forças policiais. Não se trata apenas de recompensar o único corpo paramilitar (com a excepção da polícia política) que permaneceu fiel ao antigo regime de 73. É o reconhecimento que a partir deste momento haverá duas tarefas. Lidar com os cidadãos (que mantêm empregos e são “respeitáveis”) e o que em breve receberá o nome de “escumalha” (desempregados permanentes completamente desintegrados que vivem numa realidade quase paralela). A primeira tarefa requer algum tato e a segunda apenas repressão.

Sem equilíbrio de poderes…

Sem equilíbrio de poderes…

Apesar de terem existido recentemente algumas manifestações de grande dimensão temos causa para perguntar porque é que estamos perante um processo que parece em grande medida silencioso. A resposta é um segredo social sujo. Os portugueses empregues e que se encontram a salvo do pior estão prontos a aceitar esta versão dos acontecimentos e a nova realidade que os acompanha. Daí preferirem ignorar tudo o que se passa à sua volta e prosseguirem o seu estilo consumista e alienador. Não querem lidar com política (coisa que aliás pensavam que estava morta). Não querem lidar com o lado negro da sua realidade, isso só acontece aos novos sub-humanos que, começam a acreditar, são realmente inteiramente responsáveis pela sua sorte. Os “debates” públicos (não merecem esse nome porque as conclusões já foram retiradas antes de uma só palavra ter sido proferida) centram-se em encontrar responsáveis individuais pelos “azares” do país num padrão amplamente reconhecido como a busca por bodes expiatórios para obter paz social – afinal os culpados terão sido punidos. Mas ignorada, porque é demasiado volumosa e útil ao novo sistema que começa a emergir, está a verdadeira quinta coluna. A classe média que resta que pensa que irá sobreviver a tudo e está disposta a vender os seus vizinhos pela promessa de “protecção” e mais alienação.