O neo feudalismo neoliberal

A elite de poder portuguesa, entendida em sentido depreciativo, vive erradamente convencida que a ordem social depende da existência de classes sociais privilegiadas que auto definem essa mesma ordem e que mantém pela força e pela coação essa mesma ordem.

A elite de poder portuguesa, durante várias centenas de anos, tem assombrado este país com estes conceitos absurdos cuja legitimidade democrática é inexistente.

Tentou sempre impo-los  através do uso de força despótica direta ou através de manobras encobertas, visando, por um lado, aumentar o seu poder, e por outro, impregnar de  totalitarismo larvar e seminal toda a população, corrompe-la.

Se nas ordens sociais mais baixas existir “contaminação” pelos conceitos absurdos – as doenças que a elite de poder tem e despeja sobre a população – e a essa contaminação se juntarem os defeitos próprios das classes mais baixas temos o insulto e a injuria agregados num único problema mas em tamanho maior e o principal criador desses problemas são as elites de poder portuguesas.

Enquanto sociedade, queremos ter que lidar com menos problemas e menores, ou com mais problemas e maiores?

 Estratégias de Legitimação Organizacional Adaptado dos trabalhos de (Dowling e Pfeffer , 1975; Lindblom, 1994) “If individuals do not occupy their legitimate position, then it will be occupied by a god or a king or a coalition of interest groups. If citizens do not exercise the powers confered by their legitimacy, others will do so.


“If individuals do not occupy their legitimate position, then it will be occupied by a god or a king or a coalition of interest groups. If citizens do not exercise the powers confered by their legitimacy, others will do so.  – John ralston saul

 Esta contaminação tem como objetivo destruir quaisquer valores éticos exteriores àqueles que a elite de poder defende. Nada fora da  fossa séptica onde estão os podres valores próprios das classes sociais, políticas e económicas que constituem as elites de poder portuguesas deve subsistir.

Se algum acaso estranho ditar que alguém se lembre de questionar estas classes de parasitas oriundos da elite de poder, acerca da efetividade dos resultados da aplicação das suas teorias ilegítimas, ou, usando o jargão pseudo neo económico oriundo das diversas seitas e sub seitas dos padres da economia, dos abades da gestão e dos monges do coaching interpessoal que pululam por aí e estão sempre a soldo de alguém ou do bolso de alguém; qual é a “produtividade” e o “ganho de eficiência” pela adoção destas ideias pseudo estratégicas aplicadas ao país e à população do país, o que se verifica é que as supostas elites de poder cá do sitio ficam imbecilizadas e amuam, e nunca respondem à pergunta ou fogem de responder.

Enquanto sociedade, queremos permitir que existam classes sociais, políticas, profissionais, que se auto isentaram de assumir responsabilidades relacionadas com a porcaria que fazem e sobre as quais são inexistentes controlos políticos oriundos da população?

 Heaven cannot brook two suns, nor earth two masters. Alexander the Great

Heaven cannot brook two suns, nor earth two masters.
Alexander the Great

A razão para esta atitude de amuo das elites é simples e divide-se em duas partes.

A primeira é a ideia de responsabilidade/accountability que é uma ideia de controlo que só deve ser aplicada sobre a população, nunca sobre os vermes da suposta esfera superior da sociedade (auto isentam-se através da imposição de poder social, económico e político incontrolado pela população).

A segunda é a ideia de manter as aparências que é uma ideia de controlo das perceções da população que tem sido aplicada, mas cuja densidade e eficaz opacidade começam a ser difíceis de manter.  (A camuflagem que afirma  que esta maneira de fazer as coisas funciona está a dissipar-se e a porcaria começa a ver-se e ela é muita, é muito suja e difícil de limpar.)

A elite de poder portuguesa é estúpida e autocrática, vive auto centrada dentro dos condomínios habitacionais, sociais, políticos e económicos fechados onde se encerrou para evitar misturar-se com a população, não fosse dar-se o caso de a população se chatear a sério e começar a exigir que as formas de ilegitimidade existentes nesta sociedade fossem expostas, primeiro, e eliminadas, depois.

2014-12-12 -4 FORMAS DE LEGITIMIDADE - 2

Começando a perceber que este jogo de manipulação está a ser perdido, a elite social portuguesa decidiu há umas décadas atrás “modernizar-se.

Pedinchou subservientemente junto dos aliados externos do país e equivalentes elites rançosas ocidentais novos conhecimentos de marketing sociológico e político, para estar a “par” com o que se fazia lá fora e para prevenir o fim do sonambulismo cá dentro.

Ironicamente, podemos afirmar que se suspeita que o slogan turístico ” Vá para fora, cá dentro” tenha ramificações nesta forma de ver as coisas….

Indo para fora, para obter conhecimentos para ser cá dentro mais ilegítima e anti democrática a elite portuguesa (no sentido mais depreciativo possível do termo) decidiu, embrenhada que estava no mar de conselhos ilegítimos e subornos intelectuais e/ou em espécie, fazer localmente uma fusão de conceitos.

Ironicamente, podemos afirmar que se suspeita que o slogan vazio de significado” Pensar global, agir local ou vice versa” tenha ramificações nesta forma de ver as coisas…

Qual é a fusão de conceitos anti democráticos e ilegítimos?

Junta-se feudalismo, e faz-se uma “atualização” de uma teoria arcaica com pelo menos 600 anos de idade e decrepita e junta-se isto ao (neo) liberalismo. As piores derivações sociais e políticas de ambos os sistemas estão a ser fundidas e estão a começar a fundir-nos a quase todos.

O que temos atualmente em funcionamento, em Portugal, mas também no ocidente é um magnifico arranjo para alguns ( no sentido mais bordel depreciativo possível que se possa conceber) entre o neo feudalismo e o neo liberalismo, dois escarros ideológicos abjetos.

Qual é a posição semi oficial, meta oficial, pluridisciplinar oficial das tribos da política acerca deste assunto?

Quer a tribo da esquerda política, quer a tribo da direita política tem apoiado, de direito e de facto, por omissão ou gratidão, a implementação dos escarros ideológicos acima descritos com a convicção de obrigatoriedade e a estupidez normalizada que as caracteriza, misturadas com um sabor de corrupção ética muito própria.

Politicamente, dentro destas sub correntes políticas, ou lá o que são…há muitos lacaios com mentalidade de lacaio, há muitas pessoas que  foram compradas, adquiridas e pagas, há exércitos de medíocres narcisistas e ultra egocêntricos, logo e como tal, porque é que a elite de poder portuguesa, como boas marionetas que são de interesses exteriores ao país e à população, não deveriam ter contaminado também as tribos políticas?

The danger is not only that these austerity measures are killing the European economies but also that they threaten the very legitimacy of European democracies – not just directly by threatening the livelihoods of so many people and pushing the economy into a downward spiral, but also indirectly by undermining the legitimacy of the political system through this backdoor rewriting of the social contract.

HA-Joon-Chang

Como o neoliberalismo (ainda) tem – neste momento histórico em que vivemos – a supremacia cultural, vomita hegemonicamente os seus preceitos culturais abjetos.

A crença dos retardados que já foram adquiridos pagos e comprados ou estão na fila para o serem e defendem a imposição disto explica-se da seguinte maneira.

Parece que os mercados “são livres”. Como os mercados são livres quem neles participa também é livre. Nesta historia encantada também parece que a sociedade e a ordem social são livres. Tese – antítese – síntese.

Saindo uma pessoa do abrigo anti nuclear onde se refugiou para não ser esmagado com tanta liberdade, começa a reparar que os retardados  que defendem estas teorias e estão a soldo, esquecem-se sempre de mencionar que os “insiders” que dominam a sociedade “livre” tem – “numa sociedade livre” – acesso a credito, isto é a dinheiro e a informação sobre o que fazer com esse dinheiro, e usam-no para obter mais dinheiro e poder.

Trata-se de um leilão social-económico viciado, onde as regras estão afixadas na entrada: todos podem concorrer ao leilão, mas chega a uma altura que os que tem acesso ao credito fácil, isto é, a serem financiados pela portas de trás deste sistema e como são “insiders” vencerão o leilão.

Os restantes que foram convidados, apenas o foram para servirem de figurantes e perderem e,em paralelo, servirem de validadores oficiais do sistema de liberdade da historia encantada descrita parágrafos acima.

     "We run carelessly to the precipice, after we have put up a façade to prevent ourselves from seeing it.”     Blaise Pascal


“We run carelessly to the precipice, after we have put up a façade to prevent ourselves from seeing it.”
Blaise Pascal

Neste conceito de “mercado falsamente livre”, uns podem obter vantagens totais por trabalharem em plena capacidade ( leverage) e podem assim ultrapassar todos os outros e investir vantajosamente. (deve ser a isto que os padres da economia, os monges da gestão  e os abades do coaching se referem como sendo ” capacidade competitiva…”).

Já os restantes (os outros) que dependem de rendimento que adquiriram (pouparam) para posteriormente o investirem estão e são bloqueados.

A capacidade de quem vive apenas do seu ordenado para adquirir bens que pressuponham rendas – arrendar casa, comprar terra arável, desenvolver projetos agrícolas ou industriais por iniciativa própria tornam-se bloqueios insuperáveis para os ganhadores de ordenado.

Os que vivem de ordenado ou poupanças descobrem estar a concorrer com “os uns” que vivem de terem vantagens totais por conseguirem trabalhar em plena capacidade…

Queremos mesmo viver numa sociedade onde se fala em “mercado e liberdade”, mas onde existem regras ocultas destinadas a favorecer sempre “insiders”; o contrário de liberdade económica?

Big oil, big steel, big agriculture avoid the open marketplace. Big corporations fix prices among themselves and thus drive out of business the small entrepreneur. Also, in their conglomerate form, the huge corporations have begun to challenge the very legitimacy of the state.

gore vidal

 

Os insiders, os lacaios , os associados, as elites tem os mecanismos que lhes permitem aceder a credito, isto é, a dinheiro em quantidades enormes, e esse dinheiro é móvel e incontrolável.

Foram “libertados”  – para usar o jargão neoliberal  – de terem que competir no mercado tal como todos os outros e usam essa adquirida liberdade para prejudicar todo o restante da sociedade.

Vivem colocados numa confortável posição de gestores de monopolios rentistas com rendimentos altos garantidos e poder económico e social indisputado e ilegítimo.

Monopólios rentistas esses cujo rendimento deles obtido não é derivado de qualquer atividade produtiva, mas sim pela arrendamento desses bens a terceiros.

Os terceiros são a população.

2014-12-12 - 4 FORMAS DE LEGITIMIDADE - 1

Quais são as consequências praticas disto?

A economia e a sociedade portuguesas estão a ser “desenvolvidas com o objetivo de controlar a população” e não com o objetivo de desenvolver esta sociedade.

Suponhamos que as elites financeiras começam a açambarcar massivamente todos os bens de que a população necessita. Agua, casas, terrenos, produção. (Algo que tem sucedido em massa desde o ano de 2011, algo que antes sucedia a ritmos menores…)

É  nesse contexto que se inserem os recentes incentivos ao arrendamento de casa e não à posse de habitação própria. Contudo, mesmo em profunda recessão nem sequer os salários baixos conseguem criar um controlo total e permanente desta situação.

Recorre-se a outra solução. Colocar a população em estado de divida permanente. Dessa forma elimina-se a possibilidade de a população se poder autonomizar e, caso o queira, conseguir sobreviver fora da alçada deste sistema.

É a economia de controlo das pessoas, orientada para que as pessoas sirvam as grandes corporações monopolistas e os interesses privados que capturaram o Estado. Acaso alguém saia deste sistema de controlo, é crescentemente atrofiado e bloqueado pela elite de poder e pelos lacaios arregimentados.

Deixou de ser o dinheiro que conta primariamente, mas sim o controlo de bens tangíveis dos quais o acesso a bens essenciais para a vida das pessoas são controlados por corporações.

Se a vida das pessoas for assim controlada e se as pessoas estiverem carregadas de dividas reais ou simbólicas, a população fica em estado de servidão e esses servos estarão demasiado ocupados a servirem o pagamento das dividas que tem, não podendo dessa forma questionarem este arranjo social-económico e não conseguirão resistir-lhe.

O feudalismo implica servidão ao senhor feudal. Agora quer-se o novo feudalismo: a servidão aos interesses corporativos e lacaios associados.

It is easier to resist at the beginning than at the end.” Leonardo Da Vinci

It is easier to resist at the beginning than at the end.”- Leonardo Da Vinci

A única forma de resistência das pessoas nas ordens baixas da sociedade ou de todos os que, não estando nessas ordens baixas abominem, sintam nojo e desprezo pela tirania que emana da elite de poder e dos lacaios arregimentados será através de auto-esforço, previsão, disciplina e planeamento no sentido de se defenderem e aos seus bens deste ataque insidioso feito pelas elites de poder.

O problema está, contudo, no facto de estas características estarem pouco espalhadas pela generalidade da população. Esta tem-se esquecido de quem é, e estas características tem sido algo que tem sido erodido e desgastado na economia de mercado apenas vocacionada para o consumo que glorifica e promove a gratificação instantânea. O curto prazo.

O ” Ser” e a noção de Ser são reduzidas a um ato de consumo. O cidadão é transformado em consumidor,(perdendo direitos nessa alquimia falsa), e depois, como consumidor, é alvo de uma lavagem ao cérebro. É assim colocado numa posição em que nem tem dinheiro, nem os recursos/ferramentas culturais necessárias para adquirir capital tangível e conhecimento/capital social.

A aplicação destas técnicas visando a promoção da glorificação instantânea assegura que o consumidor das ordens baixas da sociedade, (e das medias altas também)  nunca terá hipótese ou os meios de escapar a este ” esquema neofeudal – neoliberal.

Dai ser fundamental para a promoção desta tirania, a existência de uma sociedade onde existe divida baseada no  consumo orientado para a gratificação rápida.

O mecanismo psicológico da sociedade neo feudal – neoliberal pede a validação – só serás cool” (só serás reconhecido como alguém na nova ordem neo feudal – neoliberal) se consumires e te endividares para consumir.

 There is massive propaganda for everyone to consume. Consumption is good for profits and consumption is good for the political establishment. Noam Chomsky


There is massive propaganda for everyone to consume. Consumption is good for profits and consumption is good for the political establishment.
Noam Chomsky

Isto dura até ao próximo ciclo de novos produtos onde o jogo volta de novo a continuar.

É isto que explica por exemplo que estando este país e grande parte da sua população em profunda crise, se continue – nos estabelecimentos legalmente autorizados – a oferecer credito ou formas de credito  a consumidores que já esgotaram o anterior ciclo de produto e não tem sequer capacidade para entrar num novo.

Quando a população/consumidor é incapaz de consumir porque o seu credito dentro deste sistema faleceu, são ” desvalidados ” da sua aptidão para viverem nesta ordem neo feudal – neoliberal.

Os “desvalidados” que ainda tem dinheiro entram no ciclo de produto – psiquiatras-psicólogos-terapeutas – em si mesmo uma forma de consumo, um novo ciclo de produto psicológico, um novo mercado que explica o que se deve fazer para voltar ao sistema de validação do neo feudalismo – neoliberal  e ser reintegrado no novo ciclo de produto.

Alguns dos que não tem, ou encaixam pessoalmente o desaire e pensam em sair deste ciclo, (muito poucas pessoas) ou tornam-se criaturas mais politizadas e protestam ou resignam-se sabotando pela inação.

Outros que não tem, emigram para procurarem novas formas de validação do consumo noutro local para evitarem a fome e a miséria, mas também o desgaste psicológico e a vergonha familiar/de vizinhança que a recente situação de ” desvalidados” lhes trouxe.

Outros dedicam-se ao crime ou a atividades para ilegais.

Como sociedade, queremos mesmo ser escravos dos desvios psicopatas das elites de poder?

Como sociedade, queremos mesmo viver debaixo de um dualismo ilegitimo e anti democrático simbolizado pelo neo feudalismo – neo liberalismo?

A Irmandade de Némesis diz que não.

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O fetiche da comunicação

A abundância de conteúdos no nosso tempo levou a um certo endeusamento do debate e de toda a comunicação em geral. De algo utilitário (uma ferramenta se quisermos) passou a ser algo que é um fim em si mesmo. Já não serve um propósito. De facto é uma forma de evitar ter um propósito. O falar sobre algo substitui a interacção real com o objecto, o que por sua vez o transforma numa virtualidade. As pessoas falam demasiado porque têm medo de agir sobre seja o que for. Falam porque isso não tem consequências. Falam porque fogem da realidade. E enquanto alguma forma de conforto material persistir a maioria continuará contente neste jogo de auto-engano. Enquanto houver alguém abaixo na hierarquia socioeconómica que o cidadão comum possa desprezar haverá a ilusão que de alguma forma se é especial, que se entende o que se passa e que no fim as coisas até vão correr bem. A corrupção intelectual que esta mentalidade causa é particularmente danosa por ser auto-induzida.

"Quem julga caçar é caçado" – Jean de la Fontaine

“Quem julga caçar é caçado” – Jean de la Fontaine

Pois ao contrário do que a maioria dos psicólogos modernos opina esta situação não é um processo inconsciente para a maioria das pessoas. Os cidadãos estão perfeitamente cientes do impacto real do seu discurso (zero) e preferem ser inexistentes a arcar com responsabilidades. Esta forma de estar na vida leva inevitavelmente a uma certa destruição das barreiras entre o que é entretenimento e o que é suposto ter significado – já que quer o discurso sobre coisas “sérias” quer a ficção obtêm o mesmo resultado real: zero. E aqui entramos no campo da proliferação descontrolada de conteúdos sobre tudo o que se possa imaginar. É esta uma das causas dos ciclos noticiosos de 24 horas ininterruptas, das redes sociais, etc. Ao retirar a possibilidade de um discurso que leve a algo real e concreto a comunicação degenerou numa forma de entretenimento com meros objectivos propagandísticos e comerciais.

"Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante" – George Orwell

“Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante” – George Orwell

É esta dose de informação indiferenciada (em que o ficcional e o real não se distinguem), que se tornou uma droga altamente aditiva para tantos, que leva ao estrangulamento da sociedade civil. Porque a acção política, social e económica não se compadece com as necessidades emocionais dos cidadãos, ela é necessária mesmo que os cidadãos apenas estejam interessados numa interminável conversa sem objectivo. Dado este caos mental não é portanto de estranhar que até os meios de informação, nominalmente, livres (como blogues ou fóruns) se comportem como produtores de conteúdos comerciais. Multiplicam os temas e posts diários numa tentativa de dar ao utilizador a dose de droga “informativa” que ele quer, mesmo quando o necessário é uma desintoxicação e uma religação com a realidade. Numa tentativa de permanecer relevantes acabam por ser submersos num mar de símbolos e imagens.

"Where there is power, there is resistance" – Michel Foucault

“Where there is power, there is resistance” – Michel Foucault

Para quem quiser emergir desta inundação de trivialidades ficcionais o caminho é relativamente simples ainda que nem sempre agradável. Será necessário começar a aceitar que muitas vezes a realidade não satisfaz as nossas necessidades e que os substitutos fictícios só nos alienam e colocam ainda mais longe da possibilidade de um dia ser capaz de suprir essas necessidades. Em segundo lugar terá que começar por procura um porto seguro, uma fundação sólida onde possa reconstruir a sua pessoa sem interferências nem agendas – é essa uma das funções da Irmandade de Némesis. E por último começar a viver coerentemente com aquilo que se pensou, com quem somos e queremos ser. A longo prazo quem seguir este caminho encontrará estabilidade, saberá distinguir o real do falso e acima de tudo será capaz de acção real (que cause mudanças tangíveis) sem se deixar enganar por opiáceos intelectuais. Quanto aos que se afastam de um caminho de individuação e de realismo é escusado falar. Pertencem ao grupo dos náufragos da sociedade moderna. Perderam-se em alto mar e no seu delírio deixaram de ter a capacidade de distinguir entre as suas alucinações e o que realmente existe.

The Long Haul

The Long Haul – NO

We’ll be fine I’m sure
Just use the other door
I wanna have a house like they did

We wrestled till we cried
They fucked our state of mind
Don’t celebrate me ‘cause I’m jaded

Welcome to the storm
We’re babies till we’re born
Then adults from our first day breathing

Our innocence was staged
The jury all got paid
I’d lock it but it’s not worth stealing

When the drunks start singing this way
Baby’s got her best dress stained
I hope you got a minute
Hope you want me in it
For the long haul
All night long

We’ll be fine I’m told
Together we’ll grow old
So kiss me till the last train leaving
Then stand yourself by me
We’ll fall until we’re free
This helium prefers no ceiling

When the drunks start singing this way
Baby’s got her best dress stained
I hope you got a minute
Hope you want me in it
For the long haul
All night long

It must get better than this
Cause as far as I can see
The world belongs to me
There’s a place at your table with my name on

When we walk
They roll the carpet out at our feet
And when we talk
They gather around in chairs on the street
Cause we’re the kings of imagining things

When the drunks start singing this way
Babies got her best dress stained
I hope you got a minute
Hope you want me in it
For the long haul
All night long

When the drunks start singing this way
Baby’s got her best dress stained
Hope you got a minute
Hope you want me in it
For the long haul
All night long

We’ll be fine I’m sure
Just use the other door
I wanna have a house like they did

Desistir de pensar

Socialmente existe uma hierarquia de valores não oficial que rege a esmagadora maioria das pessoas. É silenciosa. Não aparece num decreto ministerial a preto e branco. Não nos é sequer imposta no sentido clássico de termo – usando as definições de Isaiah Berlim a nossa “liberdade negativa” é respeitada, ou seja, estamos livres de coacção directa – isto vale o que vale, como o próprio Berlim demonstrou pela falta de escrúpulos que usou na supressão indirecta do trabalho de rivais académicos e pessoais. Mas é omnipresente. Na era do homo economicus não será com certeza de estranhar que essa hierarquia seja de natureza económica. No topo da hierarquia estão sem dúvidas as actividades que, pelo menos potencialmente, se traduzem num ganho. Algures entre o meio e o topo teremos aquelas que apesar de não se traduzirem num ganho monetário valorizam socialmente ou representam a procura de prazer. Na base encontraremos aquelas funções, tarefas e valores que se traduzem num esforço por parte do individuo mas que não lhe acrescentam nada ao seu património nem melhoram o seu status social. Entre este grupo estará sem dúvida a reflexão, o nexo das nossas escolhas éticas. Este é possivelmente um dos riscos mais subavaliados pelas nossas sociedades modernas. O desistir de pensar. O predomínio do pensamento de curto prazo e contabilístico exclui, com o passar do tempo, o acto de pensar de quase todas as esferas que antes eram naturalmente suas. As questões referentes ao trabalho passam a ser ou um jogo de somas ou, na maior parte dos casos, uma necessidade de submissão que embrutece o sujeito. As escolhas sociais que reflectem a forma como nos vemos uns aos outros (e por extensão natural como nos vemos a nós próprios) passam a obedecer a um estrito critério de utilidade ditado por uma ordem tecnocrática difusa a cujos parâmetros as pessoas inconscientemente foram aderindo, abandonando a hipótese de formularem elas próprias julgamentos livres e claros sobre a condição humana. Até as questões referentes às escolhas políticas passam mais uma vez também a ter como referencial único e exclusivo o económico ou monetário devido ao vício do pensamento e à incessante propaganda do que em tempos medievais seria denominado o topo do “Terceiro Estado”, aqueles que produzem.

"Multiplicaste os teus negociantes, mais do que as estrelas do céu; a locusta se espalhará, e voará" [Naúm 3:16 - Os delitos de Nínive: a sua ruína inevitável]

“Multiplicaste os teus negociantes, mais do que as estrelas do céu; a locusta se espalhará, e voará” [Naúm 3:16 – Os delitos de Nínive: a sua ruína inevitável]

Este pensamento que é perdido torna-nos a todos mais frágeis em termos humanos e intelectuais (e para os que estão predispostos a aceitar esse principio: até espiritualmente) à medida que o conjunto de ideias a que podemos recorrer, as combinações que somos capazes de estabelecer e as inovações que conseguimos acrescentar diminuem a pique. Até a própria filosofia se foi deformando sobre o seu efeito, ganhando falsa complexidade nos corredores da academia e perdendo significado até se transformar no que é no presente: quase uma relíquia académica cuja actividade consiste em dar algum apoio teórico à “técnica”. Caímos longe do amor ao conhecimento e da ideia que a filosofia é algo universal aplicável às nossas vidas. O quadro de referência predominante é um de ganho pessoal e produtividade e, ao longo de muitas décadas (ou mais se quisermos ser exactos séculos), foi-se expandindo ao ponto de não deixar quase uma única área fora da sua influência. Forma uma espécie de teoria unificadora do comportamento humano mas apenas por rejeitar todas as outras opções e não por conseguir englobar todas as possibilidades. De certa forma fomos levados uma espécie de “banalidade do mal”, como escreveu Hannah Arendt, mas por caminhos diferentes do totalitarismo fascista. A banalidade do mal define-se pela sua mediocridade, pela sua afirmação que pensar se tornou redundante, desnecessário e talvez até nocivo. Seguem-se ordens no caso fascista e no nosso caso consumista faz-se o que todos fazem ou que esperam que façamos. Em qualquer dos casos obedece-se, mais que tudo quer-se aceitação na ordem das coisas. De uma forma que só por descrita como irónica a sociedade da produção e do individualismo está a legar-nos um mundo crescentemente conformista e uniforme como as sociedades ditas soviéticas nunca esperaram alcançar nos seus dias mais ambiciosos. Esqueçam as roupas iguais teremos mentes iguais.

“The trouble with Eichmann was precisely that so many were like him, and that the many were neither perverted nor sadistic, that they were, and still are, terribly and terrifyingly normal. From the viewpoint of our legal institutions and of our moral standards of judgment, this normality was much more terrifying than all the atrocities put together.” - Hannah Arendt [Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil]

“The trouble with Eichmann was precisely that so many were like him, and that the many were neither perverted nor sadistic, that they were, and still are, terribly and terrifyingly normal. From the viewpoint of our legal institutions and of our moral standards of judgment, this normality was much more terrifying than all the atrocities put together.” – Hannah Arendt [Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil]

Não se levanta o espectro da banalidade do mal levianamente. Já que como Eichmann dizia apenas cumprir ordens e que o seu juramento de obediência quer às SS quer ao Fuhrer pressuponha que qualquer análise do conteúdo das suas ordens seria não só inútil como pernicioso também o burocrata moderno, público e privado, adoptou esta estranha forma de vida como modo de estar em sociedade. O cidadão que, como está na moda, “apenas vive o momento”, sem nunca considerar o porquê das suas escolhas. Quem estará ele a validar? A quem entrega o seu poder? Qual o preço do seu isolamento? A nada sabe responder, apenas age como é esperado, anseia apenas por cumprir as metas que outros definiram para si. O economista que atinge os números pretendidos ignorando os estragos humanos que causa usando apenas a expressão “não se pode fazer uma omelete sem partir ovos”. O executivo que aumenta a sua margem de lucro através da destruição de bens públicos, sabendo à partida estar a excluir um enorme número de pessoas de serviços básicos (“se nós não fizéssemos alguém o faria”). O político que se serve a si próprio deixando um rasto de devastação por onde passa (“todos se servem, é como as coisas funcionam”). Todos são o mal ao aceitarem de uma forma ou de outra o papel de carrascos de pessoas livres de qualquer culpa e sem possibilidade de defesa. Todos são medíocres na sua recusa em aceitarem que são sequer seres pensantes ou sequer na sua intenção de negarem seja o que for a outros. Na sua visão são apenas agentes, quase inanimados, que se regem por leis quase físicas que os obrigaram a comportar-se de determinada forma. Na sua mente isto exclui qualquer noção de culpabilidade e como tal permite manter uma noção de normalidade. Ao fim de um dia em que podem ser responsáveis por miséria, sofrimento e morte vão para casa, para com as famílias (que os glorificam pela sua posição social) ter serões normais sem nunca dispensar um segundo pensamento às suas vítimas.

El Dorado de latão

As recentes questiúnculas com Angola trazem sempre à memória o passado português. Aquela tendência autodestrutiva de não resolver os problemas que se têm em casa e procurar uma fuga noutro local qualquer. De certa forma esta atitude tem o seu equivalente no Sebastianismo, a procura de um imaginário miraculoso e salvífico que oculta uma falta de vontade ou incapacidade de lidar com o presente. Começámos pela Índia não tendo sabido manter o Império Oriental verdadeiramente lucrativo por mais que umas décadas – período durante o qual reinou uma autêntica guerra pirática de todos contra todos nas possessões portuguesas. Quando as coisas não funcionaram tão bem como tínhamos pensado transferimos as nossas aspirações mais profundas para o Brasil. Rapidamente também as riquezas fáceis chegaram ao fim e iniciou-se a economia esclavagista que dominaria até meados do século XIX. A revolução industrial apanhou-nos desprevenidos, como de costume, e as poucas oportunidades de acompanhar o resto da Europa foram desperdiçadas levianamente. Não será de admirar que tenhamos perdido o país para os ingleses antes de ele próprio se ter declarado independente. Em desespero de causa e sem ter para onde mais olhar lentamente começámos a interessar-nos pelas possessões africanas sendo que só no século XX é que chegámos a uma exploração verdadeiramente sistemática de uma parte significativa desses territórios. Como a metrópole nunca esteve em ordem aconteceu o mesmo que em outros momentos históricos. Uma transição atabalhoada que levou à perda de décadas de acumulação de capital próprio. Esta falta de vontade de olhar para nós próprios levou também à falta de análise crítica (política e não académica) da ditadura, das causas da sua durabilidade e do colaboracionismo de grande parte da sociedade – a hipervalorização de Abril faz lembrar um pouco a Itália pré-1945 em que se estimava existirem cerca de 500 guerrilheiros/resistentes ao regime fascista; poucos meses após retirada final da Wehrmacht o número de italianos que reclamavam ter feito parte da resistência já tinha atingido os 5000.

S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. Quatro anos depois escreveria ao monarca a implorar o establecimento da Inquisição no Oriente devido ao caos que encontrou.

S. Francisco Xavier despedindo-se de D. João III antes da viagem para a Índia. Quatro anos depois escreveria ao monarca a implorar o establecimento da Inquisição no Oriente devido ao caos que encontrou.

Sem análise política digna desse nome o povo seguiu alegremente o novo curso que lhe propuseram, a coesão com a Europa – numa altura que a fragilidade económica do continente já tinha feito algumas aparições. Mais uma viagem rumo a uma realidade desconhecida que parecia tão mais atractiva que a nossa. Com o benefício acrescido de podermos fugir de qualquer tendência mais introspectiva que nos forçasse realmente a lidar com os nossos “demónios” colectivos. Passou-se uma camada de verniz sobre o passado recente e sobre a própria realidade mental portuguesa e anunciou-se com pompa e circunstância que tínhamos integrado o mundo desenvolvido – só mesmo em indicadores do nível de asfalto por área territorial é que poderíamos aspirar ter atingido tal objectivo. Como todos agora sabemos as crises que já tinham abalado o sistema económico e social Europeu só se agravaram com o passar do tempo; penalizando cada vez mais os países menos unidos, culturalmente mais conservadores, de sistemas políticos recentemente forjados e sem pensamento estratégico. Mais uma aventura que provou que no curto prazo os portugueses são fantásticos a aproveitar as oportunidades de ganhos rápidos mas que lhes falta a dimensão estratégica que permitiria, senão um domínio de certas áreas, pelo menos atingir uma certa estabilidade e independência face ao exterior. Neste ponto da narrativa será escusado dizer que nos recusámos mais uma vez a olhar para dentro, para o que teríamos que resolver internamente e passámos à caça frenética da próxima “grande oportunidade”, e assim chegamos ao oásis angolano. Vedado a, quase, todos nas primeiras décadas que se seguiram à independência por uma brutal guerra civil e ressentimento acumulado e votado ao esquecimento nos primeiros anos de paz enquanto andávamos entretidos a brincar com a Europa. Mas finalmente tínhamos descoberto o nosso mundo de oportunidades perdidas numa ex-colónia sequiosa de desenvolvimento.

“Your visions will become clear only when you can look into your own heart. Who looks outside, dreams; who looks inside, awakes.” - Carl Gustav Jung

“Your visions will become clear only when you can look into your own heart. Who looks outside, dreams; who looks inside, awakes.” – Carl Gustav Jung

Mas por debaixo desta narrativa tradicional da descoberta do novo “el dorado” estava a mesma realidade de sempre. Um país que não resolveu os seus problemas internos, que não evoluiu mentalmente e que se centra sobre ganhos a curto-prazo. Esquecemo-nos do óbvio. De um ponto de vista estritamente económico Portugal não é nada e apanha as migalhas que outros gigantes deixam cair estando condenado a ser eventualmente afastado dos mercados mais lucrativos de Angola. Mais que isso, o nosso desenvolvimento técnico é recente, limitado a certas áreas e não estamos na linha da frente da investigação. Ou seja, rapidamente Angola pode prescindir dos serviços das empresas portuguesas assim que tiver as estruturas básicas montadas. Na melhor das hipóteses estamos a olhar para 10 anos de relações lucrativas seguindo-se um período de decrescimento da presença nacional até aos níveis anteriores e de uma inversão natural do peso económico respectivo, visto não termos qualquer barreira comercial digna desse nome com os PALOP (nem mesmo baseadas em correlações com o desenvolvimento humano, crescimento da classe média local, direitos humanos, etc). Mais uma vez o teatro do imediato toma prioridade e as pessoas tomam posição face a uma suposta agressividade Angolana (tomando algumas respostas laivos do regime que colonizou o país) quando de facto o que ocorre é apenas o natural entre nações cujos povos não têm laços reais sólidos, a realpolitik – que, a julgar pelo que vemos, as elites angolanas dominam melhor que as portuguesas. Sendo irrelevante a “solução” final para estas questões resta perguntarmos-mos: e quando Angola já não for “the next big thing”? Qual é a próxima terra prometida? Queremos mesmo continuar a ignorar o nosso mal-estar interno? A viver de solução de curto-prazo em solução de curto-prazo? E mesmo que queiramos isso, será viável no mundo que está a nascer?