Ownership

Que me perdoem os puristas da língua portuguesa pelo anglicismo mas esta palavra é de facto o melhor termo para descrever aquilo que me trás aqui hoje – e se não perdoarem podem fazer todos birra durante o chá das cinco no Grémio Literário ou no Clube Maçónico mais próximo. Ownership, o sentido de propriedade. De que algo nos pertence. Não necessariamente num sentido totalitário mas antes numa interpretação mais participativa. Somos parte interessada e responsável sobre algo. É algo que falta em quase todas as esferas da sociedade portuguesa. Ninguém se sente responsável por nada mesmo quando é algo que lhe afecta o dia-a-dia. E sim poderemos argumentar, com algum sucesso diga-se, que quase cinco décadas de ditadura combinadas com um pesadíssimo legado histórico inquisitorial fizeram do povo português extrariamente pouco participativo ou disponível a envolver-se. Mas isso seria uma saída muito fácil. Uma mera entrega a um falso fatalismo histórico que esconde uma recusa muito mais consciente de qualquer envolvimento pessoal. O nível de desinteresse do eleitor (mais uma vez recuso-me a usar a palavra cidadão, a maioria não o são de facto) é inaudito quando comparado com países de desenvolvimento comparável. É como se nada afectasse directamente o eleitor fora das portas da sua casa. O que leva todo e qualquer estrangeiro que passe uns tempos por cá a fazer sempre a mesma e inevitável pergunta quando vê a mão descuidada com que partidos, governo, tribunais e empresas governam este país: vocês não querem saber? Mas é o vosso próprio interesse e destino?

"Um povo corrompido não pode tolerar um governo que não seja corrupto"

“Um povo corrompido não pode tolerar um governo que não seja corrupto”

Eu estou na minoria em Portugal. Concordo com o estrangeiro. É de facto aberrante que o eleitor se consiga abstrair (recorrendo às drogas recreativas do costume: porreirismo, círculos familiares, consumismo, virtualidades, colaboração activamente na neutralização de formas de protesto, entre outras) ao ponto de rigorosamente nada, com a possível excepção da destruição total da cidade onde habita (desde que afectasse o seu bairro claro), lhe parece causar qualquer tipo de impressão emocional ou intelectual. É sinal de uma falta de investimento pessoal nas instituições e no país que brada aos céus. De uma incompreensão de como as instituições cívicas têm que funcionar que parece impossível nos dias modernos – é como se gerações inteiras nunca tivessem tido contacto com o legado grego ou romano que nos define. Mas, talvez a situação se torne mais compreensível quando começamos a analisar o espectro político tradicional português. À direita quer-se que as instituições cívicas falhem. De forma muito simples é isso. Toda a mudança causa indigestão. Ressente-se o papel libertador do individuo que o estado (quase sem querer) desempenhou e a cruzada deste sector é “provar” que o estado é maligno para poder devolver o poder às instituições totalitárias tradicionais: o patrão todo-poderoso e a o poder religioso apoiado por reconhecimento político. Nesse sentido a doutrina que sai destes púlpitos é uma apenas: confundir qualquer comportamento cívico com uma espécie de colaboracionismo com instituições desacreditadas publicamente sendo a solução lentamente dissolver tudo até o poder cair de podre no sítio do costume. À esquerda o caso torna-se ligeiramente mais surreal porque o conceito de “ownership” ou posse tem conotações, na mente dos ideólogos, com o projecto de Thatcher que usando essa mesma palavra como slogan e arma de arremesso à unidade britânica acabou por servir-se dela para encobrir a transferência de uma enorme fatia dos custos sociais, que eram garantidos pelo estado, para as classes britânicas mais pobres – que literalmente se viram obrigadas a pagar os “seus próprios apoios” através de esquemas de privatização de habitação, saúde, água, gás, transporte e ensino. As marcas na esquerda europeia foram profundas (e tinham mesmo que ser já que o processo foi exportado e na sua essência define a “terceira via” dos anos 90 e 00) e permanecem dolorosas até hoje. Impedindo-os de distinguir o que é um saudável sentimento de posse da nossa própria sociedade e das instituições públicas (a vida pública) do que é a mão fria da “providência” do deus mercado e da indiferença para com quem ficou pelo caminho. De qualquer forma esforços para envolver civicamente os eleitores são igualmente anátema deste lado.

Um por todos e... *suspiro*...

Um por todos e… *suspiro*…

Isto, como sempre, sobra para o eleitor que se quer (e deveria) transformar em cidadão. Vê-se preso à bagagem histórica do país e ainda tem que carregar a ideologia de dois sectores ideológicos que provavelmente lhe são tão queridos como uma ténia a um cão. Mas preso ou não preso só este eleitor que quer ser cidadão é que pode quebrar este bloqueio. Não sendo sugado para o eixo da disfuncionalidade: partidos, governo, tribunais e empresas. E Impedindo que lhe martelem conceitos ideológicos que têm poucas bases na realidade e vindos muitas vezes de quem há muito se acomodou com este estado de coisas tendo atingindo um certo nível de conforto. Só quando o eleitor quiser o manto da cidadania e reclamar as instituições como suas, recusando os mecanismos viciados que foram colocados ao seu dispor, poderá ter verdadeiramente voto.

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Portugal, a Europa e a Modernidade

Idealmente a ideia de uma cultura partilhada a nível europeu é apelativa a qualquer pessoa que tenha um mínimo de sentido de história. Como nações, povos, culturas e seres humanos interagimos há tanto tempo uns com os outros que não me ocorreria nada de mais natural que embarcar num projecto de alguma integração a nível continental, especialmente a partir da segunda metade do século XX. O problema, que só se começou a manifestar décadas mais tarde, sempre foi a questão da integração. Quem deveria fazer parte do clube e quem não faria sentido ser convidado. Mas o projecto europeu, como a maioria das ideias que parecem funcionar bem, foi esticado até ficar permanentemente deformado. De uma ideia igualitária fomos entrando numa Europa de níveis. De um projecto de cultura comum foram aceites povos que nem tinham começado a digerir a modernidade (incluindo Portugal) acabando por criar desfasamentos que até hoje permanecem por resolver. De uma cultura de cidadãos derivámos numa cultura legalista – devido em grande parte à dificuldade de educar cidadãos em grande escala mas também devido à falta de interesse que todos os países que se juntaram ao núcleo mostraram pelos esforços necessários para atingir fins verdadeiramente exaltados.

"Things fall apart; the centre cannot hold" - William Butler Yeats, The Second Coming, 1919.

“Things fall apart; the centre cannot hold” – William Butler Yeats, The Second Coming, 1919.

Será verdade que o sistema económico terá desempenhado um papel de exacerbamento de tensões mas, em última análise, não as criou. Está em voga ver as tendências da ideologia económica agressiva da Comissão Europeia como principio, meio e fim dos problemas que afligem a União. Mas nada podia estar mais longe da verdade. A guerra económica é uma realidade mas não teria efeito se não tivesse encontrado um solo fértil em desunião, ressentimentos e diferenças profundas de sensibilidades. Desunião que sempre esteve presente (basta pensar nas questões ligadas à emigração) e foi sentida cada vez mais desde a implementação do euro. Que criou oficialmente dois escalões de pertença e levou a um processo de inevitável acumulação de riqueza no centro e esvaziamento económico da periferia. Os ressentimentos não são menos graves que no passado nem se resumem a estereótipos irracionais de cada nacionalidade, são os interesses divergente das várias nações (reconhecidas ou não como tal) a serem forçadas num mesmo molde quer queiram ou não. Uma certa historiografia germanófila usa, e abusa, do exemplo da ocupação francesa e belga do Rhur, entre 1923 e 1924, para justificar parte do ódio nascente na Alemanha pós-guilhermina, e de certa forma criar um dos, muitos, escapes morais para evitar a culpa colectiva pelo que foi o terceiro reich e moralizar a sua recente ascensão. Curiosamente os mesmos “intelectuais” (chamemos-lhes antes detentores de cátedras universitárias, de “spots” como comentadores televisivos ou ambas as coisas) falham em traçar o mesmo elo de ligação quando se humilha um país que deu sangue pela sua independência como a Grécia (e que curiosamente resistiu à agressão alemã antes) ou se destrói o orgulho espanhol sem pensar. Não espero convencer ninguém da verdade destes factos, apesar de serem evidentes por observação, pois conheço a mentalidade portuguesa. À direita apenas aplaudirão a crítica à União enquanto pensarem que implica uma rejeição total da modernidade e da mentalidade cosmopolita. À esquerda apenas aplaudirão se acreditarem que se está a fazer uma crítica radical ao sistema económico sendo a imaginária fraternidade europeia sacrossanta. E ao centro nunca aplaudirão algo que mude de forma tão radical o “status quo”. É demasiado ameaçador ter que encarar as falhas europeias. É demasiado aterrador perceber o vazio total do projecto europeu tal como ele existe (que repito, é o único que este país teve em “democracia”). Algo teria que mudar e isso é pura e simplesmente inaceitável. Quase, senão mesmo, criminoso por expor o esqueleto do sistema à observação dos “comuns”.

"'O que fazer?', é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer; ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações." - Lev Tolstoi

“‘O que fazer?’, é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer; ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações.” – Lev Tolstoi

E assim entramos no problema mais profundo de Portugal em particular.  A questão da modernidade e a sua relação com o português médio. Não é tema novo, basta requisitar um livro sobre o renascimento europeu para perceber que o nosso atraso é congénito. E isso foi apenas o prelúdio para quinhentos anos de atrasos e falhanços (como honradíssimas excepções por parte de homens e mulheres que deram de si, por vezes literalmente, para fazer este povo evoluir). O iluminismo teve uma breve hipótese de começar a brilhar com Pombal mas foi sufocado pelo Portugal tradicional. Bafiento, conservador, ignorante e fanático, esse Portugal, encarnado na monarca louca que pôs fim à carreira do marquês, nunca quis entrar no mundo real, ou se quer admitir que as questões pudessem ser mais  complexas que aquilo que o seu entendimento, quase-medieval, atingia. Mouzinho da Silveira tentaria mais tarde fazer o país reentrar no seu século mas sem sucesso, a mudança necessária provou ser demasiado vasta e a sua personalidade demasiado franca acabando mais uma vez por ser afastado por um herdeiro não distante de Maria I, a louca. Avançando mais um pouco entramos no fenómeno ainda hoje pouco conveniente da aceitação do Estado Novo e do conforto que foi para um país atrasado que nunca se quis verdadeiramente revoltar contra o seu senhor – que até na demência conseguiu reter a coroa. Não tenhamos ilusões. É uma história de resistência constante da parte menos ilustrada, e rural (não é acidental a desproporcionalidade da representação do interior profundo durante o regime salazarista), da nossa nação ao mundo, mesmo quando lhe demonstram a barbárie do seu comportamento. Pensou-se que meia dúzia de anos de voto universal e algum bem-estar efémero traria realmente uma mudança profunda? As coisas correm mais profundamente que isso. A discussão económica, o verniz partidário e a pertença religiosa (católica ou maçónica, é indiferente) obscurecem tais coisas mas os sentimentos são os mesmos. A não-responsabilidade. A não-cidadania. Mais que tudo a nação sente-se oprimida por si própria. Incapaz de tomar decisões, como sempre, e igualmente incapaz de aceitar as consequências que outros tomem decisões por si. Como venho a repetir desde há algum tempo, o país é um gigantesco não-projecto sem solução credível.