Os sapatos sociais

“” Order is the barrier that holds back the flood of death. We must all of us on this train of life remain in our allotted station. We must each of us occupy our preordained particular position. Would you wear a shoe on your head? Of course you wouldn’t wear a shoe on your head. A shoe doesn’t belong on your head. A shoe belongs on your foot. A hat belongs on your head. I am a hat. You are a shoe. I belong on the head. You belong on the foot. Yes? So it is. In the beginning, order was proscribed by your ticket: First Class, Economy, and freeloaders like you. Eternal order is prescribed by the sacred engine: all things flow from the sacred engine, all things in their place, all passengers in their section, all water flowing. all heat rising, pays homage to the sacred engine, in its own particular preordained position. So it is. Now, as in the beginning, I belong to the front. You belong to the tail. When the foot seeks the place of the head, the sacred line is crossed. Know your place. Keep your place. Be a shoe. “”

Snowpiercer, 2013

Hell is empty and all the devils are here. William Shakespeare

Hell is empty and all the devils are here – William Shakespeare

Os detentores de algum poder (a expressão neste contexto é utilizada da forma mais depreciativa possível) estão interessados em criar um especifico inferno negro, para nele enfiar a população.

O método utilizado para o fazer é a triagem económica. Os escolhidos para fazer parte desse novo  inferno negro serão colocados numa zona social e económica de exclusão.

Na prisão que foram forçados a escolher e da qual nem consciência tem que assim é, são informados que a exclusão tem características definitivas e serão motivados a conformarem-se com o destino que lhes foi totalitariamente imposto.

Motivados pela manipulação ou pela força bruta se necessário. São “os novos sapatos sociais”.

Os sapatos sociais desempregados, os a quem se diz, “mantenham o seu lugar, sejam um sapato social”.

Esta nova realidade está a tentar ser construída. Serve também o propósito sinistro de enviar uma mensagem aos restantes membros da população que sobram desta triagem, os que ainda estão incólumes ou resistam a esta forma de organizar a sociedade.

A mensagem é a seguinte.

Apoiem esta “nova mudança de paradigma”. Apoiem a traição que é feita aos vossos compatriotas.

O inferno negro (ainda) está vazio mas os demónios (já) estão aqui.

Temos que lidar com eles. O custo que nos é infligido por recusarmos lidar com demónios é demasiado elevado para ser pago.

A forma como esta traição é efectivada manifesta-se através da manutenção do  desemprego estrutural numa parte da  população para melhor favorecer o controlo de toda a população e para melhor a degradar.

“Os regimes autoritários contemporâneos parecem resolver o problema do desemprego à custa da eficiência e da liberdade.” ―John Maynard Keynes

“Os regimes autoritários contemporâneos parecem resolver o problema do desemprego à custa da eficiência e da liberdade.”
―John Maynard Keynes

Como começou o processo de transformação da realidade num inferno negro, que será, por enquanto, apenas para alguns?

Décadas de crescimento económico derivadas dos custos baixos de energia conjugados com taxas de retorno de investimento elevadas (Civilizacionalmente a lei dos diminishing returns estava ainda no seu processo ascendente…), e, especificamente na  Europa, a implementação do Estado social, tudo conjugado, criou uma ilusão de bem estar eterno e crescimento infinito.

Porque o inferno negro (ainda) está vazio mas os demónios (já) estão aqui, desde a década de 80 do século passado, mudou-se de paradigma e passou-se ao experimentalismo neoliberal misturado com tecno fascismo e crenças induzidas no “poder mágico” da tecnocracia como instrumento de operacionalidade administrativa publica e privada. E muita ganancia como tempero.

A nova ordem política e administrativa, o “uber” capitalismo sem qualquer regra que não a maximização do lucro e a implementação do mercado como padrão seriam aplicados a todas as sociedades. Um novo produto politico social – a democracia dos mercados – era vendido como a nova panaceia desenvolvimentista ocidental.

Esta reciclagem de velhas ideias totalitárias baseada em pensamento mágico travestido de ciência, tinha e tem como objectivo político destruir a democracia. A democracia como direito das populações afirmarem o que querem escolher e o que querem para a sua vida é um obstáculo aos mercados e aos tecnocratas.

Decidiu-se que seriam entregues a ” técnicos”, uma lista de assuntos que, passariam a ser decididos sem recurso a decisões políticas (leia-se eleições), mas sim em gabinetes, onde as decisões passariam a ser caucionadas e implementadas através de um selo técnico de aprovação emitido pelos “especialistas”.

Os especialistas não são eleitos e são facilmente corrompiveis. Os mercados convivem bem com a corrupção e absorvem-na.

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35 anos depois os resultados são desastrosos em todas as dimensões. Como bons fanáticos totalitários, os defensores destas ideias continuam, em estilo zelota moralista a afirmar as infalibilidades destas concepções, mesmo que os custos sejam enormes em todos os parâmetros.

O combustível que alicerça esta crença obsessiva chama-se ganancia. O aditivo do combustível chama-se psicopatia.

Inicialmente, a generalidade da população, mesmo a nível mundial, aceitou a situação nova. O dinheiro fluía e parecia que seria sem parar; por ignorância ou auto corrompimento a situação tornou-se ” um facto”.

Contudo, os sinais de que algo estava errado e podre começavam a evidenciar-se. Uma minoria de pessoas estava a ser “escorraçada” para fora do sistema social, político e económico, mas o seu numero era crescente ano após ano.

Pressentindo o perigo e querendo esbater as evidencias cada vez mais óbvias as tribos políticas – as principais responsáveis pelo estado a que se chegou – pelas constantes omissões de comportamentos e pela corrupção ética que exibem, tem produzido uma mensagem de negação da realidade, promovendo a falsa esperança nos futuros risonhos que ai virão.

Em Portugal, a tribo politica da esquerda, durante 3 décadas, gritou aos 4 ventos que “só através de crescimento económico mediante massivo investimento público (exactamente que tipo e qual crescimento económico é algo que nunca se diz…) se poderia crescer e reduzir o numero de excluídos na sociedade e assim abrir oportunidades de ascensão social para todos.(Segundo esta concepção cheia de felicidade imensa, todos podem ser sapatos sociais, mas alguns serão subsidiados para não o serem e outros serão  subsidiados para se sentirem melhor a serem sapatos sociais…)

Este posicionamento, revela a hipocrisia e o cinismo dos proponentes e revela a total incapacidade de definir objectivos concretos que defendam a população deste país.

flyer - 2014-12-04 - TRIBO DA ESQUERDA

Em Portugal, a tribo política da direita, durante 3 décadas, gritou aos 4 ventos que só através da criação de riqueza (isto é, da criação de riqueza que beneficiasse apenas os membros, familiares e associados da tribo politica da direita)  se poderia crescer e oferecer oportunidades ao numero de excluídos na sociedade e assim abrir oportunidades de ascensão social, para quem quiser trabalhar (Segundo esta concepção cheia de felicidade imensa, tal assim será para quem quiser ser apenas um sapato social obediente, que vote na direita e aceite que, quando as circunstancias o exigirem, lhe sejam retirados bens patrimoniais, poder pessoal e autodeterminação,sendo esses “bens” retirados apenas para melhor glória e benefícios do crescimento de riqueza na direita, familiares e associados..)

Este posicionamento, revela a hipocrisia e o cinismo dos proponentes e revela o total desprezo pela população e pelo país e apenas consegue encarar as pessoas como seres obedientes que existem apenas para servir.

FLYER - 2014-12-04  - TRIBO DA DIREITA

As duas tribos políticas, com os seus múltiplos spin offs políticos, agentes ao serviço, grupos de interesse, remoras parasitas que flutuam entre ambos os grupos, corrupções éticas varias e miopia institucional e patriótica, tem conseguido apenas desbaratar recursos, destruir valor económico e social, e gerar um caos constante no relacionamento das pessoas entre si e com o Estado.

Como tem reagido a população às constantes quebras do contrato social que lhes são feitas por estas tribos políticas?

Cheia de entusiasmo, feliz com os fracassos a população emite arrotos irracionais de cidadania de 4 em 4 anos. O caos constante em que vive já lhe parece uma segunda pele e defende psicologicamente que assim sempre foi, de tão condicionada está. Esta recusa de mudar tem um preço demasiado elevado, mas a resposta da população é sempre constante e irracional – mais do mesmo. Este linear histórico de comportamento pós 25 de Abril de 1974 repete-se e não se aprende.

Para espelhar o linear histórico de comportamento, as reclamações e as queixas são também irracionais e repetitivas quando a coisas não correm bem. “Os políticos são todos iguais” como argumento de desresponsabilização, já perdeu o seu prazo de validade como desculpa a ser apresentada pela população.

Porque o inferno negro (ainda) está vazio mas os demónios (já) estão aqui, o desemprego é um problema estrutural. Os outros problemas inseridos na quebra do contrato social são problemas estruturais; é necessário lidar com eles.

Porque o inferno negro (ainda) está vazio mas os demónios (já) estão aqui, temos que lidar com eles. O custo que nos é infligido por recusarmos lidar com demónios é demasiado elevado para ser pago.

O Enclave recusa ser uma zona económica e social de exclusão.

O Enclave recusa promover a ideologia dos sapatos sociais.

O Enclave é uma zona de exclusão ética e espiritual.

O Enclave lida com demónios e combate-os.

O Enclave é eterno.

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O curto prazo

O facto de nas modernas “democracias” (votamos periodicamente mas pouco mais nos está autorizado) termos ciclos eleitorais tão curtos, um ramo executivo do governo desmesuradamente poderoso e a legalização do lobbying têm levado sucessivos governos, a nível global, a ignorar completamente os problemas de longo prazo. E em boa verdade, de um ponto de vista egoísta, porque não haveriam de o fazer? Quando o problema se materializar será uma dor de cabeça para outros, já que os que agora governam estarão no sector privado a viver “la vida loca” – que foi aliás o motivo pelo qual, quando eram jovenzinhos de boas famílias, entraram nas juventudes partidárias que dão acesso ao coração dos aparelhos partidárias. Além disso a solução seria, provavelmente, impopular envolvendo sacrifícios que uma população, viciada na crença na inevitabilidade do progresso e na sacralidade da técnica, não estaria disposta a fazer. Em termos de uma análise crua de custos e benefícios os decisores económicos e políticos não têm qualquer razão para tomar em conta o futuro ou qualquer questão ligada à sustentabilidade das sociedades à custa das quais vivem.

Há sempre mais... certo?

Há sempre mais… certo?

Daí que a questão energética seja um beco sem saída. Todos sabemos (e deveríamos ser adultos o suficiente para o admitir) que, como espécie, só abandonaremos os combustíveis fósseis quando eles se esgotarem de vez. Nem com a inevitável escalada dos preços a níveis nunca antes vistos (o que dada a sua finitude é uma inevitabilidade que não admite contestação) impedirá o mundo de sugar até à última gota de petróleo ou o último pedaço de carvão utilizável. Seja qual for o custo social ou ambiental envolvido. Todo o progresso dos últimos 200 anos assentou sobre o fácil acesso a este tipo de recursos e os sistemas económicos, sociais e políticos que se construíram à sua volta, que dele dependem e que o defenderão até ao fim é enorme. Ao ponto da impossibilidade da mudança não forçada por factores exteriores. Daí que não venha como um choque que se continue a apostar no combustível fóssil mais poluente (mas mais abundante) existente, o carvão, como “solução” para os problemas de escassez energética derivada não só da complexidade tecnológica crescente como do desenvolvimento de novas regiões do globo.

Se houvesse perigo avisavam-nos...não?

Se houvesse perigo avisavam-nos…não?

As alternativas de mercantilização da poluição (mercados de emissões e afins) falharam como estavam destinadas – com o único “benefício” de terem gerado mercados de futuros especulativos para mais uma “comodidade” que não deveria ser comercializável. Novas “soluções” se irão apresentar, desde que a escassez não aperte muito e empurre para uma demarcação de posições (e territórios) mais violenta, que estarão igualmente destinadas a falhar. Mas num ponto, talvez o único que verdadeiramente interessa para quem as desenhou, serão bem-sucedidas. Darão ao cidadão comum a sensação que algo que está a ser feito. Que o seu estilo de vida tem futuro. Que existe uma ordem natural benevolente neste mundo que tomará conta deles. É só o que é pedido. A ilusão de segurança – o equivalente civilizacional ao que o crédito foi para o campo do bem-estar económico.