Como a opus dei chegou onde queria chegar (à Cgd) e os partidos políticos portugueses permitiram

Em Portugal, quem é colocado fora do acesso aos benefícios do sistema político, social e económico português tem uma identidade. Essa identidade económica, política e social e partilhada com todos os outros membros da sociedade que estão na mesma situação, quer pareçam ser pessoas colocadas num patamar económico acima, quer não o sejam efectivamente.

O desempregado branco dos subúrbios, o exilado rural que vive perto da indigência na província, o precário urbano que coexiste entre apelos pueris que o fazem pensar que é pós moderno e o desemprego de recibo verde mascarado de emprego dinâmico e moderno estão todos no mesmo barco.

A profissão liberal ou publica na área tecnica como o professor ou o médio quadro bancário estão todos no mesmo barco. O trabalhador emigrante indocumentado e o emigrante documentado oriundo de locais bizarros também está no mesmo barco.

Julgam que não, mas estão.

Importante: as elites de poder portuguesas investem muito tempo e dinheiro a mascarar e iludir estas pessoas e os problemas sociais políticos e económicos que existem.

Importante: uma certa forma peculiar de corrupção é mantida e aperfeiçoada pelas elites de poder portuguesas, que investem no controlo de muitas pessoas feito por um numero relativo de poucas pessoas.

Importante:  esta milícia de tipo casta é perigosa para todos e altamente corrosiva.

Importante: deve-se evitar deixar chegar estas pessoas a lugares de poder e responsabilidade, especialmente na esfera pública.

Na caixa geral de depósitos, banco 100% público os partidos políticos chamados PSD e CDS – meras extensões da oligarquia corrupta e decadente que queima lentamente Portugal, apostaram na política de terra queimada.

Lamentavelmente quem diz que se lhes opunha favoreceu isso.

Colocados perante a oportunidade de quebrar o controlo, nada fizeram.

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Quando no governo, (2011-2015) o PSD e o CDS permitiram que existisse uma política de desvalorização do banco, com o objectivo de:

a) baixar o preço para o potencial comprador;

b) justificar privatizar;

Quando comprasse, o potencial comprador herdaria o direito de cobrar os créditos que a Caixa tem sobre dividas de terceiros.

O Estado português tem mais de 100 mil milhões de euros em dividas à CGD.(*)

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( * dados da infografia correspondem ao ano de 2013. )

Quem comprasse, mal o fizesse iria exercer o seu direito a cobrar.

Um justificação perfeita para um governo em funções ( um governo PSD-CDS…) justificar cortes de despesa pública e aumentos de impostos.

Em 2015 a paisagem do cenário mudou (o cenário é o mesmo, infelizmente…) e uma nova experiência política começou a governar.

Esta definiu que:

a) era necessário recapitalizar a CGD;

b) sanear as contas do banco e admitir perdas;

c) racionalizar a gestão (despedir pessoas) e fazer com que o banco voltasse a financiar empresas e particulares, dado que a ” boa gestão” dos privados feita em anos passados nos seus próprios bancos resultou em estarem impossibilitados de fazer tal… actualmente…

Os representantes dos oligarcas (PSD-CDS) perceberam o perigo. E movimentam-se para impedir que a recapitalização da caixa (4 mil milhões de euros), que serviriam na sua grande parte para por dinheiro a circular e reactivar a economia especialmente nas pequenas e medias empresa fosse parada.

Sabem que se isso arranca, não voltam a chegar ao poder antes de 10,12 anos.

Isto é patriotismo de alto coturno.

Inicia-se o bloqueio, sobre a nova administração. Contando com a preciosa ajuda de todos os partidos incluindo o que está no governo.

Qual a solução, se a administração não fosse empossada como veio a suceder?

Uma nova administração inatacável.

E recusa-se ou não se sabe, arranjar uma administração inatacável.

Do outro lado, manipula-se através dos seus lacaios na imprensa para colocar na CGD, um membro da Opus dei.

Parece ser seguro afirmar que este candidato a administrador seria melhor do que aquele que foi actualmente escolhido para a Cgd..

Parece ser seguro afirmar que este candidato a administrador seria melhor do que aquele que foi actualmente escolhido para a CGD…

Com o novo candidato Paulo Macedo os velhos argumentos de que:

a) o ordenado do gestor principal da casa era demasiado alto

b) tinha destruído o SNS e feito um péssimo trabalho como director geral de impostos;

já não se aplicam.

Vários partidos políticos fizeram uma guerra sobre os rendimentos para afastarem o outro tipo e a solução é … Paulo Macedo…? A solução é  … a Opus dei…?

Um exemplo de uma estratégia negocial imbecil e um termo de comparação.

Mark Blith, economista escocês, deu uma entrevista em que criticava o SNP escocês, o partido que defende a independência da Escócia em relação ao Reino Unido.

Aquando dos resultados do brexit, o SNP queria demarcar-se politicamente dos resultados, porque eram contra os problemas eventuais que a saída da UE iria criar a Escócia pelo facto de a Inglaterra sair.

Mark Blith contrapunha e argumentava que a posição do SNP era “absurda” . Mas eles acham mesmo que ficam melhor com a austeridade do Sr Schauble?

Por contraposição à austeridade dos ingleses?

Um exemplo de uma estratégia negocial imbecil e um termo de comparação.

Fazer uma guerra acerca da nomeação de António Domingues para a CGD e obter a renunciai deste, para ser substituído por Paulo Macedo, membros da Opus dei é melhor…?

A apresentação de rendimentos e o alto ordenado do novo gestor da CGD já não constituem condição impeditiva para este ocupar o cargo…?

Mas eles acham mesmo que ficam melhor com o Sr Macedo na CGD….?

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Qual o significado real disto?

A maquinaria conhecida como “Geringonça” acabou, no momento em que esta sinistra personagem ocupou o cargo de gestor principal da CGD.

Com esta decisão?!?! o poder de controlar tudo na economia portuguesa foi dado de bandeja à pior organização de oligarcas à qual podia ter sido dada.

Esta decisão tem enormes repercussões e algumas delas são completamente invisíveis. O que o sector Opus dei sempre quis ter foi o controlo do dinheiro e o “controlo da informação” que lhes é providenciado pelo acesso ao que é a informação financeira que a CGD contém.

Mas o Sr Macedo vai congelar o investimento na CGD?

Em vez de congelar o investimento na CGD, o Sr Macedo vai fazer exactamente aquilo que o governo e o os partidos todos querem que seja feito.

Paralelamente vai adquirir toda a informação sobre o que a caixa é; a quem concedeu credito e onde se movimenta comercialmente. Essa informação será do conhecimento da Opus dei e dos seus amigos. Um fotocópia da economia e da sociedade será tirada. Isto virá a facilitar ainda mais o controlo de quem pode vir a ser rico ( os da cor…) e quem não pode.

Mais à frente, os que virão a ser excluídos serão quem é pobre ou quem  recusa alinhar com a corrupção.

Todos colaboraram com isto.  A Irmandade de Nemésis não e a Irmandade não perdoa nem esquece.

A biopolítica e a casta mercadora

Com o abandono da esfera política tradicional as tribos da direita e da esquerda criaram um perigoso vácuo de poder social e normativo. Claro que a natureza não aceita vazios e algo tratou de se infiltrar nos buracos que o poder tradicional abandonou. Os mercadores. Esta casta incentivou o abandono do Estado e promoveu o seu código de valores muito específico. Em vez de honra passámos a ter uma mentalidade “negocial e de resolução de conflitos”. Em vez de integração a todos os níveis na vida da polis passámos a ter pequenos grupos profissionais regidos por “profissionalismo” (termo nebuloso obedecendo a critérios definidos pelos próprios técnicos). Em vez de poder e responsabilidade pessoal passámos a ter uma massa amorfa governada por burocracias cada vez mais opressivas, que não assumem a sua natureza reguladora. Em vez de existir a possibilidade de realização dentro da pólis enquanto seres sociais e políticos passámos a ser encorajados a recorrer à “mindfulness”. Há que reconhecer o sucesso de uma casta que começou por ser ostracizada e colocada à margem das relações tradicionais de honra, que caracterizam qualquer corpo político saudável. Demorou 500 anos mas os mercadores não só aboliram todos os estigmas associados à sua actividade como substituíram totalmente a escala de valores por outra que não só lhes trás vantagens como os coloca numa posição proeminência. É neste quadro que surge a obsessão com a quantificação de tudo e todos – e como consequência, a atribuição de um valor numérico a cada ser humano. De facto, a pirâmide social nunca foi tão precisa como no mundo moderno, a possibilidade de atribuir um valor específico a cada pessoa torna clara a posição de cada ser humano na cadeia alimentar. Todos os dias nos é dito que somos mais livres, mas parece que afinal todos os dias acordamos mais presos às nossas circunstâncias materiais.

“si è morto il Doge, no la Signoria” – “O doge está morto, mas a Signoria está viva” – Ditado Veneziano

“si è morto il Doge, no la Signoria” – “O doge está morto, mas a Signoria está viva” – Ditado Veneziano

Olhando para os novos valores e comparando-os aos antigos torna-se mais fácil perceber o alcance da transformação que teve lugar. A noção tradicional de honra assenta sobre o valor individual da palavra do individuo, um compromisso que envolve a própria essência do ser, algo a que nos vinculamos de livre vontade – sabendo que não será necessariamente o caminho mais fácil. Isto era algo nocivo a uma casta, os mercadores, cujo poder assenta na não validade da palavra. Tudo é negociável e para qualquer potencial conflito existe sempre uma solução negociada que evita tensões. Traduzindo: não existe noção de certo e errado, bom e mau ou linhas intransponíveis, esses conceitos foram demonizados e são tratados como visões “maniqueístas” ultrapassadas. Existem acordos, celebrados por tempo definido, que dividem os espólios consoante a força ou fraqueza de cada uma das partes. A quebra do que é acordado é um dado adquirido nestas negociações porque pela natureza do mundo os equilíbrios de força entre as várias partes tendem a oscilar e, inevitavelmente, na ausência de homens e mulheres de honra as situações degeneram numa supremacia do mais forte. A moral mercadora é uma guerra eterna de todos contra todos em que ninguém pode acreditar em nada, a única coisa que conta é o crescimento do poder aquisitivo, por muita devastação pessoal e social que isso possa trazer.

“Não deves honrar mais os Homens que a Verdade” – Platão

“Não deves honrar mais os Homens que a Verdade” – Platão

Como Aristóteles afirmou o Homem é um animal político. Está-lhe na sua natureza querer ter um voto na forma como a sua comunidade política é gerida (seja através dos mecanismos de participação democrática massificada seja através de outros modelos). Numa visão holística isto traduz-se pela harmonização das várias componentes da vida do Homem. A sua visão do mundo é coerente com a sua forma de estar na sua vida pessoal que por sua vez é coerente com a sua visão política da comunidade – gerando um ciclo positivo de reforço de ideias e emoções. Para o mercador isto era algo intolerável. Pois colocava entraves sérios à mercantilização de todas as esferas da vida e acima de tudo à quantificação do indivíduo em si mesmo. Tinha que desaparecer. Usando as forças da tecnologia o mercador forçou toda uma civilização a reinventar-se de acordo com os novos valores. A pólis foi fracturada para nunca mais ser unida. Os cidadãos passavam agora a agrupar-se não por vivências e ideias quanto ao campo político, mas pela sua actividade comercial. É preciso entender a malícia com que isto foi feito. O ser humano foi despido de tudo o que era, foi-lhe sonegada uma pertença a uma comunidade física a favor de uma alocação a uma área de produção geográfica (fábrica, escritório… pois tem que ser “móvel e adaptável”). Foi-lhe negada a pertença a uma comunidade de ideias sendo o espectro político agora dividido entre duas tribos de saltimbancos que se iriam confrontar de forma teatral sem poderem afectar verdadeiramente o rumo das coisas. Foi-lhe tirado tudo o que preenchia a sua vida até só sobrar um factor: o seu valor produtivo. O seu trabalho e a sua vida formavam agora um todo indissociável onde se não se sabe onde o primeiro acaba e a segunda começa. A Pólis deixou de ser uma unidade para passar a ser uma federação de pequenos reinos bárbaros regidos por “códigos profissionais”, cada um cuidando apenas dos seus interesses específicos – selando assim o seu destino colectivo: a irrelevância face ao poder esmagador da casta organizadora do trabalho e finanças, os mercadores.

“Dehumanization, although a concrete historical fact, is not a given destiny but the result of an unjust order that engenders violence in the oppressors, which in turn dehumanizes the oppressed” - Paulo Freire

“Dehumanization, although a concrete historical fact, is not a given destiny but the result of an unjust order that engenders violence in the oppressors, which in turn dehumanizes the oppressed” – Paulo Freire

Conseguindo destruir tudo o que ancorava o Homem à vida cabia agora à casta vitoriosa criar novas formas de organização da vida. Mas deparava-se com um problema. Para arregimentar as pessoas de forma coerciva precisava de recorrer a modelos do passado – os mesmos que se tinham empenhado em destruir por representarem obstáculos ao seu aumento de poder e capital. Era um dilema. A solução encontrada foi engenhosa, após terem removido as ideias do debate político recriaram organizações de gestão da vida humana, viradas exclusivamente para o lado quantitativo e, de forma mais substancial, inteiramente desprovidas de carisma. Afinal de contas o modelo do mercador não assenta sobre carisma, a posse é a lei, e a possibilidade de existirem forças além da posse era uma ameaça desestabilizadora que simplesmente não iriam tolerar. É o nascimento da organização burocrática. Na ausência de honra criaram-se leis minuciosas e incompreensíveis para a maioria que está sujeita aos seus ditames. Na ausência de pertença criou-se uma esfera de trabalho que tudo ocupa e dita o posicionamento dos indivíduos. Na ausência de carisma cria-se obediência ao procedimento, à regra, ao detentor do cargo. Colocando as coisas em termos platónicos, a essência do ser humano fica submetida às formas. É neste espírito que nasce uma consciência cidadã falsificada e um espírito de participação cívico fictício – o mundo das manifestações sem perturbações ao trânsito e turismo, das greves sem quebra de produção, da petição online, etc.

The Revolution is for Display Purposes OnlyEste curto relato condensa séculos de preparação por parte da casta mercadora para assumir as rédeas dos destinos humanos mas deixa-nos com uma questão por responder. Foi um projecto de poder bem-sucedido? Atingiu o que se propôs. Desvitalizou o ser humano e reduziu-o a uma ferramenta. Isto é inegável. Mas então porque somos assaltados por este ambiente de crise permanente? Obviamente parte da resposta está no sistema comercial e financeiro que não só dita o destino da economia como os próprios “valores” da sociedade mercantilizada. Mas só isso não explica o medo que ainda se sente na casta suprema. Ao fim de muita experimentação social o mercador descobriu algo que o mantém acordado à noite. Algo que tenta esconder ao máximo das pessoas normais. Descobriu que o espírito humano pode ser reprimido e redirecionado, mas que essa manipulação eventualmente vai começar a fazer crescer uma tensão irresolúvel no seio de cada pessoa. Um anseio por algo mais. A sensação de vazio que não é apagada pela multiplicação frenética de actividade para ocupar os dias. A certeza absoluta no íntimo de cada um de nós que “algo está podre no reino da Dinamarca”. Tendo removido tudo o que nos tornava humanos e podia dar soluções a esta tensão acumulada o mercador está entre a espada e a parede. Se permite que a tensão se manifeste o poder da casta cai, mas se reprime ainda mais corre o risco que esta se manifeste de forma imprevisível. Não tendo nada a propor às pessoas (afinal elas já são tudo o que o mercador quis que fosse: números, objectos, ferramentas, substituíveis…) resta-lhe recorrer à biomoralidade. Usando o corpo como único ponto de referência quer usá-lo para substituir tudo o que foi destruído. O não comer de forma saudável deixa de ser considerado como um apetite sensual para ser visto como uma má escolha, que por sua vez vai criar um “mau” cidadão. A pressão no trabalho atinge níveis insuportáveis, mas a solução nunca está em alterar o modelo definido pela casta mercantil, mas sim em fazer os trabalhadores acreditarem que a culpa é sua. Não estão preparados, não sabem gerir o stress, não são proactivos, etc. Há problemas sociais graves por resolver, mas mais uma vez a culpa é do cidadão, que, segundo o mercador, sofre de estupidez crónica e não entende que esses problemas não se abordam com políticas estruturais, mas sim com apelos a uma responsabilidade individual (“se todos fizessem o que deviam não existiriam problemas”) – intencionalmente ignorando a impotência do cidadão em causar impacto seja no que for.

“When nations grow old the Arts grow cold And commerce settles on every tree” – William Blake

“When nations grow old the Arts grow cold
And commerce settles on every tree” – William Blake

O insucesso da tácita está mais que patente no aumento das tensões sociais e no histerismo cada vez mais ofensivo dos pregadores da biomoralidade (devidamente sancionada pela ciência para manter as unidades humanas produtivas mas politicamente inertes). Sucedem-se as modas das dietas, das meditações, do desporto compulsivo, dos alimentos orgânicos… e nada parece apaziguar as pessoas. Parece que esta competição levada ao extremo físico não consegue oferecer alternativas credíveis para sustentar uma sociedade. E, no entanto, a propaganda prossegue. Enquanto o ser humano não for restaurado a toda a sua dignidade o mal-estar continuará. Enquanto a pólis não voltar ao seu papel enquanto quadro de referência integradora nada poderá ser resolvido. O mercador, apesar de toda a sua astúcia, não conseguiu dissolver a essência humana.

"When there is no enemy within, the enemies outside cannot hurt you." - Winston Churchill

“When there is no enemy within, the enemies outside cannot hurt you.” – Winston Churchill

A casta dos mercadores aposta na continuação do isolamento individual para manter o seu poder, mas esquece-se que só está sozinho nesta noite escura quem não souber onde procurar ajuda. Todos temos a capacidade de nos voltarmos a ligar ao Real (por oposição ao mundo plástico das formas mercantis). É só querermos dar o primeiro passo.

NémesisAtravessamos a escuridão por estradas sombrias

A nossa vigília nunca terá fim

As ideias que mantemos vivas são imortais

O único verdadeiro lado que existe somos nós.

E ficaram 27

Apesar das pressões de última hora que foram colocadas sobre os cidadãos do Reino Unido o resultado do referendo sobre a sua permanência na União Europeia foi um “não”. As elites locais mediram muito mal o grau de agastamento das populações, daqueles que há pelo menos duas décadas têm visto as suas vidas piorar de ano para ano. A segurança laboral foi-se, os salários reais fora do sector financeiro encontram-se estagnados ou em baixa, o acesso à habitação nas grandes áreas metropolitanas é quase impossível, a educação superior tornou-se um luxo incomportável para muitas famílias e o sentimento de estarem abandonados dentro da sua própria comunidade tornou-se insuportável para muitos. E tudo isto pesou no voto. Pode-se argumentar que muitas destas questões derivam de como as autoridades nacionais e locais lidaram com as situações e que não reflectem qualquer má fé por parte da União Europeia. E em parte teriam razão. Mas apenas em parte. A lógica de especialização que está subjacente à globalização e em especial à organização económica da União Europeia quando não precipitou grande parte destes problemas pelo menos acelerou-os. Não se pode dentro de uma mesma unidade nacional manter duas realidades sociais paralelas em oposição – a das elites em que tudo é reluzente, há luxo, cuidados de saúde de primeira qualidade e acesso a tudo o que se possa desejar e a da maioria que é cada vez mais esquálida, decadente e excluída. A Europa tem sido surda aos dois mundos que estava a criar em cada país e pagou um preço por isso.

"Governments, if they endure, always tend increasingly toward aristocratic forms. No government in history has been known to evade this pattern. And as the aristocracy develops, government tends more and more to act exclusively in the interests of the ruling class -- whether that class be hereditary royalty, oligarchs of financial empires, or entrenched bureaucracy" - Frank Herbert

“Governments, if they endure, always tend increasingly toward aristocratic forms. No government in history has been known to evade this pattern. And as the aristocracy develops, government tends more and more to act exclusively in the interests of the ruling class — whether that class be hereditary royalty, oligarchs of financial empires, or entrenched bureaucracy” – Frank Herbert

E agora? Agora vamos caminhar para um caminho de cada vez maior tensão entre os dois polos de poder restantes no Continente. Uma França enfraquecida por imposições de um modelo económico que é estranho ao seu tecido social contra uma Alemanha hegemónica que quer secundarizar toda a Europa Ocidental e centrar-se nos seus protectorados orientais. Não há competição. Estamos perante o dilema para o qual a Irmandade de Némesis tem vindo a avisar há já algum tempo: ou teremos uma GrossDeutschland de realpolitik e esmagamento de toda a periferia Europeia ou iremos assistir ao colapso do todo o projecto Europeu à medida que mais membros saírem de livre vontade ou forçados pelas circunstâncias.

"I am not a man who believes that we Germans bled and conquered thirty years ago...in order to be pushed to one side when great international decisions call to be made. If that were to happen, the place of Germany as a world power would be gone for ever, and I am not prepared to let that happen. It is my duty and privilege to employ to this end without hesitation the most appropriate and, if need be, the sharper methods. " - Kaiser Guilherme II

“I am not a man who believes that we Germans bled and conquered thirty years ago…in order to be pushed to one side when great international decisions call to be made. If that were to happen, the place of Germany as a world power would be gone for ever, and I am not prepared to let that happen. It is my duty and privilege to employ to this end without hesitation the most appropriate and, if need be, the sharper methods. ” – Kaiser Guilherme II

É preciso ter noção que o jogo de poder a nível continental mudou a vários níveis. Em primeiro lugar irão cada vez mais aparecer disputas regionais que usarão a desculpa da pertença à UE como arma nas suas lutas independentistas (veja-se a Escócia, Catalunha, País Basco…) – isto vai ameaçar directamente a integridade territorial de muitos estados Europeus (e parte da culpa está também numa Europa “das regiões” que sempre incentivou a regionalização e maior poder local). Em segundo lugar, sendo a Alemanha o poder que rege todo o projecto é inevitável uma deriva oriental – para o que a Alemanha sempre considerou a sua área natural de influência e privilégio, deixando o Ocidente abandonado na posição de pedinte na corte Imperial Prussiana. E em terceiro lugar é preciso notar que foi aberto um precedente. Mais países irão, mais tarde ou mais cedo, ameaçar seguir o exemplo Britânico na expectativa de secessão ou simplesmente para conseguir acordos muito mais vantajosos – A Grécia irá usar o fantasma da desagregação para tentar sacudir o colonialismo financeiro, a Espanha será tentada a fazer ameaças nesse sentido se a União não der mostras claras de não reconhecer possíveis repúblicas independentistas, França e Itália irão tentar usar isto para relocalizar o poder mais a Ocidente e reduzir o peso das suas colossais dívidas. Quanto mais ameaças de saída existirem (quer se concretizem ou não) mais frágil todo o edifício se torna.

"As pessoas sabem o que querem porque sabem o que os outros querem" - Theodor Adorno

“As pessoas sabem o que querem porque sabem o que os outros querem” – Theodor Adorno

E Portugal como fica? Fica na mesma. Convém notar que Portugal é uma nação muito especial no sentido das suas elites não se reconhecerem nela, nem aliarem os seus interesses a um projecto comum. Assim vivemos num mundo de senhores mais ou menos feudais que só querem mesmo manter a sua coutada sem serem incomodados – politicamente isto traduz-se numa ausência total de desígnio nacional. O único projecto que existe é a Europa. Se esta começar a vacilar vai existir pânico e medo entre as lideranças políticas, económicas e sociais. Se a isso somarmos uma possível intransigência crescente por parte da Alemanha isto pode dar origem a um fenómeno de grande dissonância entre elites e subjugados, com as primeiras a defenderem o declínio nacional como preço de pertença à comunidade e os segundos a defenderem tudo menos isso à medida que se afogam num mar de dificuldades cada vez maior.

Némesis

Para quem vir o mesmo que nós, fica o convite da Irmandade de Némesis a não ficar quieto: não se resigne a ser um fantoche nas mãos de outros.

Os mega dadores

Nos últimos dias foi anunciado que o fundador do facebook, Mark Zuckerberg, “doou” grande parte da sua fortuna para fins “filantrópicos”. Os media, na sua habitual falta de atitude crítica face aos poderosos, louvam incessantemente este tipo de exemplos (por vezes por razões bastante transparentes de auto-interesse) como luzes que brilham no escuridão que ameaça envolver-nos. Apontam-nos estes casos como prova que as pessoas são intrinsecamente boas e que independentemente da forma como os oligarcas agem ou acumulam as suas fortunas são no fundo “tipos porreiros”, empenhados no bem-estar dos outros cidadãos que não tiveram as mesmas oportunidades. Este caso não é o primeiro do seu género (o mais famoso é caso da fundação Gates criada pelo fundador da Microsoft) nem descreve um fenómeno exclusivo de certos países, é uma tendência global. Antes que sejamos levados por esta falsa onda de boa vontade e aparente irmandade temos que começar a fazer o trabalho de desmontagem e análise crítica que nenhum meio de comunicação está interessado em fazer.

"The threat to men of great dignity, privilege and pretense is not from the radicals they revile; it is from accepting their own myth. Exposure to reality remains the nemesis of the great” - John Kenneth Galbraith

“The threat to men of great dignity, privilege and pretense is not from the radicals they revile; it is from accepting their own myth. Exposure to reality remains the nemesis of the great” – John Kenneth Galbraith

Em primeiro lugar nenhuma destas pessoas doou um cêntimo seja a quem for. Sim é verdade. Não houve doação a qualquer causa ou individuo. O que aconteceu foi que estes bilionários transferiram parte dos seus bens para entidades privadas que eles próprios fundaram e gerem. Com que objectivo o fizeram? Aqui a resposta tem vários níveis. Com o mal-estar crescente das populações face ao sistema político e económico que nos gere tornou-se urgente para o establishment relançar a discussão da legitimidade. Ou seja, há uma necessidade de demonstrar às pessoas que a relação de poder que existe entre oligarcas e cidadãos comuns não é apenas uma obscenidade derivada da acumulação ganhos (sejam legítimos ou não, conforme o caso) e de relações indevidas entre o poder político e o sector privado. Há que assegurar ao cidadão que há um fundo de justiça no meio disto tudo. E que apesar da maior parte das pessoas já não poder contar com uma carreira, com cuidados sociais básicos ou sequer poder confiar nos eleitos o sistema funciona (grande parte destes problemas derivam do esforço colossal que os mega dadores dedicam a evitar pagar impostos sobre os seus ganhos empresariais e a evitar a criação de condições laborais dignas) e que todas as desigualdades se equilibram de forma automática como uma espécie de equação matemática social. Nada fica mais equilibrado com estas “doações” que na realidade são apenas transferências internas dentro do vasto património empresarial e pessoal destes magnatas. A posse dos fundos permanece nas mesmas mãos e o destino a dar-lhes continua a ser uma decisão na qual ninguém tem qualquer voto.

"Um desequilíbrio entre os ricos e os pobres é o mais antigo e mais fatal problema de todas as Repúblicas" - Plutarco

“Um desequilíbrio entre os ricos e os pobres é o mais antigo e mais fatal problema de todas as Repúblicas” – Plutarco

Estas transferências de património além de visarem reconstruir uma credibilidade perdida têm também por objectivo satisfazer os egos colossais destas pessoas ao permitir que se imiscuam na vida social das nações como nunca antes havia sido tentado. Os caprichos e vontades de uma mão cheia de seres humanos são agora impostos ou vendidos como sendo benéficos para toda a humanidade. Isto sem nunca incorrer na sórdida acção de ter que consultar a tal humanidade sobre o que realmente pensa sobre os problemas que a afligem. Com a quantidade de fundos ao seu dispor estas fundações condicionam todas as outras organizações (de investigação, apoio social, educação, tecnologia, etc) ao criar um gigantesco polo de atracção financeira que ninguém pode ignorar. Não será de estranhar que todas as organizações que se associam a tais fundações (incluindo governos) acabam por ver o seu poder de decisão e autonomia destruídos. Quem tem o ouro faz as regras e neste caso os oligarcas têm muito ouro. Isto permite-lhes distorcer as prioridades de outras organizações criando situações que favorecem os interesses pessoais e comerciais destes mega “dadores”. Não é por acaso que muitos projectos de fundações cujos donos fizeram a sua fortuna em tecnologias de informação incentivam ao máximo a criação de sistemas de ensino e de saúde dependentes dessas mesmas tecnologias, criando oportunidades de lucro, de recolha indevida de dados e de habituação. Faz tudo parte do modelo de negócio. O fascínio saloio com novas tecnologias reluzentes faz esquecer a sórdida realidade de desequilíbrios de poder que está subjacente e que é encorajada a continuar a crescer. Será útil também fazer notar que apesar de terem objectivos “filantrópicos” estas organizações é suposto darem lucro. Sim é suposto acumularem ainda mais recursos e crescerem em tamanho e influência. Não há limites a priori para o que poderá vir a ser englobado nas suas acções e funcionamento.

Gates_contributionsDe forma ainda mais perversa estas fundações encorajam indirectamente os Estados a retirarem-se da vida social das suas próprias nações ao promoverem os habituais mantras da economia neoclássica: o estado é ineficiente, os privados podem fornecer bens públicos de forma mais barata, o estado é por definição mau e devia ser abolido em todas as esferas, enfim a habitual litania anarco-capitalista que nos deixaria a todos como servos apáticos e receptivos das boas vontades de uma dúzia de “filantropos” caprichosos. Ao abrigo de programas de inovação tecnológica as fundações dos oligarcas vão numa primeira fase condicionando todos os outros actores sociais e numa segunda fase talvez substitui-los de vez. Consegue-se perceber que num ambiente político em que os governos são reféns de agentes financeiros e não ousam tomar medidas verdadeiramente políticas com medo de “desvirtuar” os divinos preceitos das finanças públicas torna-se atractivo passar as responsabilidades de sectores deficitários a entidades privadas mesmo sabendo que se corre o risco que essas entidades tentem fazer experimentação social com os cidadãos. Também não ajuda o facto de alguns dos mesmos mega “dadores” estarem associados a empresas que contribuem de uma forma ou de outra para o sucesso dos nossos líderes políticos.

“Não deves honrar mais os homens que a verdade” - Platão

“Não deves honrar mais os homens que a verdade” – Platão

Portugal está um pouco fora do mapa da super “filantropia” em grande parte devido à sua pequena dimensão, falta de parceiros estratégicos relevantes e relativa proximidade ao coração europeu. Mas à medida que outras nações começarem a encontrar os problemas da entrega completa de sistemas sociais a estas fundações é inevitável que elas comecem à procura de alvos nas periferias. Entretanto existem alguns exemplos desta tentativa de entregar a sociedade ao controlo total dos oligarcas mas a uma escala bastante mais pequena e moderada, até porque os oligarcas portugueses não estão dispostos a fazer o mesmo nível de investimento que os seus homólogos estrangeiros. Concentram-se acima de tudo no domínio da informação e da publicação que usam para tentar desacreditar o Estado e fazer vingar na mente dos seus leitores mais incautos uma visão idílica do que é a realidade do sector privado em Portugal. Mas não tenhamos ilusões, não é uma questão de saber se o sector social será entregue a estes agentes privados mas uma questão de quando o será já que não existe oposição concertada a que tal aconteça. Existe uma resistência formal por parte de certos sectores mas a verdade é que as elites esses mesmos sectores aceitam escrever documentos e livros para estas fundações e aceitam participar em “debates” públicos patrocinados pelas mesmas fundações com a intenção de as validar socialmente. Acima de qualquer posição ideológica coerente está um espirito de classe que as elites de todos os sectores partilham e isso, juntamente com os benefícios pessoais acumulados pela sua participação, vencerá qualquer barreira que possa existir.

O novo normal

O mundo muda rapidamente e nas últimas décadas o processo parece estar em aceleração. Não porque o prometido mundo híper tecnológico nos tenha aberto novas portas mas precisamente porque falhou em cumprir as suas promessas de um futuro melhor. Qualquer pessoa que fosse um adulto nos anos 70 quase não consegue reconhecer a dimensão das mudanças ou dos problemas que parece que se multiplicam diariamente. Tais pessoas têm a tendência de ficar presas a modos de percepção e pensamento que já não coincidem com o mundo em que vivem, habitam em grande parte no passado apesar dos seus corpos estarem no presente.

“Construímos estátuas de neve e choramos ao ver que derretem” – Walter Scott

“Construímos estátuas de neve e choramos ao ver que derretem” – Walter Scott

Os fenómenos eleitorais no mundo ocidental (e falo deste canto do globo porque a) é onde vivemos e b) grande parte do resto mundo nunca chegou a ter democracias reais) têm-se degredado com o passar dos anos. Isto é mais visível nas taxas de abstenção crescentes em todos os países – ou seja, não se trata de algo isolado ou dependente de condições locais. É fácil para os comentadores integrados no sistema ignorarem esta situação limitando-se a falar de um desinteresse por parte dos cidadãos face à política. Assim arrumam o assunto e responsabilizam o eleitor por qualquer falha que apareça no funcionamento das instituições. Mas, como sempre, a realidade é mais complicada. Não só o interesse pela vida política está a desaparecer como as próprias lealdades daqueles que ainda votam estão a tornar-se mais voláteis. Criando padrões de governo cada vez mais erráticos e sem estratégia de longo prazo.

“A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – Henry Mencken

“A fé pode ser definida, em resumo, como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – Henry Mencken

As instituições Europeias (e alguns dos principais países da União) têm estado muito atentas a este fenómeno sendo que na década de 90 chegaram a uma decisão final. Não iriam ficar dependentes de qualquer ordem política que pudesse emergir deste caos. Foram cortando os vários elos que as ligavam a uma legitimidade democrática e investiram na criação de um novo mito. O do perito. Consequentemente as suas decisões têm-se revestido cada vez mais de um carácter teoricamente “neutro” e técnico, de forma a poder afirmar a independência e validade seja qual for o resultado do caos democrático. Os que tiverem uma memória um pouco mais longa que a maioria conseguirão com certeza lembrar-se de debates de há uma década atrás em que desesperadamente se queria colmatar o défice democrático da União Europeia. Face a estes novos desenvolvimentos é fácil perceber que as instituições da UE não estavam verdadeiramente empenhadas na questão. Estavam apenas a comprar tempo. Enquanto os debates se arrastavam dentro e entre nações a UE já estava a restruturar a sua organização segundo um novo critério, o de uma suposta tecnocracia. Quando o processo ficou concluído havia compreensivelmente pouco interesse em continuar o debate sobre o défice democrático já que a prestação de contas perante o eleitorado tinha perdido quase toda a sua relevância.

Este processo não se deu apenas ao nível de uma burocracia europeia mas também dentro de todos os países centrais da União. À medida que a UE provava que conseguia estabelecer credibilidade baseando-se apenas no seu estatuto como supostos peritos os vários governos relevantes do continente foram replicando as mesmas ideias e estruturas dentro das suas fronteiras. O resultado foi um agravamento severo da apatia e volatilidade eleitoral (explicando a subida por toda a Europa de partidos extremistas e, ironicamente, profundamente antidemocráticos) levando a que o distanciamento entre o cidadão e o poder deixasse de ser um fosso para passar a ser um abismo. Fica assim mais claro porque é que nas últimas décadas temos vindo a assistir a um amalgamento das tendências e partidos políticos, tornou-se irrelevante saber o quadrante político das entidades partidárias porque as decisões verdadeiramente relevantes foram transferidas para entidades de “peritos” que não se sujeitam a qualquer escrutínio.

“The point is that we are among those who cannot get their mouths around all the little Yeses that add up to tacit acceptance of a world run by crackpot realists and subject to blind drift. And that, you see, is something to which we do belong; we belong to those who are still capable of personally rejecting. Our minds are not yet captive.” – C. Wright Mills

“The point is that we are among those who cannot get their mouths around all the little Yeses that add up to tacit acceptance of a world run by crackpot realists and subject to blind drift. And that, you see, is something to which we do belong; we belong to those who are still capable of personally rejecting. Our minds are not yet captive.” – C. Wright Mills

Os países da periferia apesar de também se irem adaptando ao novo sistema estão um pouco desfasados dos países centrais ou das instituições europeias, mas agora que os pânicos financeiros acalmaram um pouco (e os interesses dos credores foram assegurados de e transformados numa obrigação perpétua) começamos a sofrer pressão para acelerarmos o ritmo da adaptação. E na primeira linha desta transformação está a legalização do lobbying. Só a menção deste termo gera desconfiança no cidadão médio que vê nela apenas a legalização do que até então se fazia a portas fechadas. E em grande medida a sua desconfiança é justificada já que Bruxelas e Washington (os centros mundiais de lobbying) não são conhecidos pela sua transparência apesar da abundância de legislação a regular esta actividade. Mas as consequências são algo maiores do que apenas maquilhar o que hoje seria considerado pouco ético ou mesmo ilegal. No centro do lobbying está a ideia de que qualquer grupo (seja ele qual for, cidadãos, empresas, grupos religiosos, etc) pode e deve pressionar os governos e parlamentos a agir da forma que lhes é conveniente, mesmo que isso desrespeite completamente os direitos fundamentais de outros. Claro que isto abre uma verdadeira caixa de Pandora. Aceitar o lobbying como parte normal do processo político e social é escrever no contrato social que o dinheiro pode comprar acesso e influência. É admitir que nem todos somos iguais. É negar a ideia de justiça. É dizer que somos ouvidos apenas na medida do que podemos pagar. É organizar a sociedade como uma gigantesca entidade comercial que responde apenas aos seus accionistas.

“You read constantly that banks are lobbying regulators and elected officials as if this is inappropriate. We don’t look at it that way” – Jamie Dimon  (CEO da JP Morgan Chace)

“You read constantly that banks are lobbying regulators and elected officials as if this is inappropriate. We don’t look at it that way” – Jamie Dimon (CEO da JP Morgan Chase)

O que acontece a quem não tiver dinheiro para comprar acções deste projecto? Ainda fará parte do contrato social? Em que medida? Será que mesmo aqueles grupos que representam causas legítimas (direitos humanos, luta contra a pobreza, acesso à justiça, entre outras), e que têm disciplina organizacional e fundos suficientes para ter voz, acreditam por um segundo que conseguem reunir os meios para igualar ou superar qualquer grande empresa ou sector económico?

Como é normal num sistema com graves deficiências de funcionamento, e com um grau de apoio popular cada vez mais estreito, as decisões mais importantes são remetidas para acordos mais ou menos secretos e comissões políticas e jurídicas labirínticas de forma a que o resultado seja ou ocultado ou incompressível. Algo que tem o poder de restruturar por completo o equilíbrio de poder entre os cidadãos e que de facto voltar a introduzir critérios de voto censatários (voto cuja existência ou peso depende do rendimento do eleitor) tal como existiam no século XIX pode ser aprovado sem que o cidadão médio compreenda 10% das consequências que tal acarreta a longo prazo. De facto seguindo o retrocesso lógico os próximos passos seriam a permissão de compra de votos (afinal tratar-se-ia apenas de uma troca económica e não de algo político) e o estabelecimento de “votos especiais” (com mais peso) para determinados actores que sejam considerados como “especialmente relevantes” para a sociedade. Podemos esperar uma feroz campanha nos corredores do poder por parte dos nossos “liberais”, ao serviço dos seus empregadores, e se não houver qualquer reacção popular a esta reclassificação dos cidadãos em categorias económicas podemos ter certeza que irão sempre pressionar para que se vá mais longe. Até onde perguntarão? Até onde os deixarem.

“Arrependimento é a virtude das mentes fracas” – John Dryden

“Arrependimento é a virtude das mentes fracas” – John Dryden

Se mais uma vez o cidadão se fechar na sua concha de apatia e hedonismo e não prestar a devida atenção ao que se está a passar perderá qualquer credibilidade para vir reclamar daqui a 5 ou 10 anos. A sua oportunidade de acção é agora. Enquanto o processo ainda está num estágio embrionário. Depois será tarde demais, quer politica quer moralmente. O cidadão tem que se convencer que nem tudo na nossa realidade é reversível. Nem tudo pode ser corrigido. Nem sempre há mais tempo para “pensar” e debater. Há decisões que uma vez tomadas são permanentes.

(Mini) Manifestos tecnocráticos

Se há algo de que podemos todos estar seguros é que os meios de comunicação são inteiramente neutros em Portugal. Não são dados a preferências ocultas ou a servir agendas ideológicas de forma encapotada. A verdade e apenas a verdade. Não será então de estranhar que nos tenham presenteado com esta publicidade ao mais recente manifesto dos tecnocratas do sistema político-económico. Num pequeno vídeo explicam-nos tudo sobre as complexas realidades portuguesas, de forma simples, para não cansarmos os nossos cérebros.

"Pensar é o diálogo da alma consigo mesma" - Platão

“Pensar é o diálogo da alma consigo mesma” – Platão

Há muitos anos que o sector conservador investe imenso tempo e dinheiro em produzir obras, mais ou menos panfletárias, de divulgação das suas doutrinas – quais missionários que querem dilatar a fé e o império. São construídas especificamente para um público de classe média que que acha que deve ter opinião sobre determinados temas mas não está disposto a investir o tempo e esforço necessários para realmente entrar nas questões – todos somos demasiado ocupados hoje em dia e se as empresas podem fazer outsourcing de servidos porque não fariam as pessoas o outsourcing das suas ideias? O resultado é a propagação quase inevitável de uma visão enviesada da realidade, que leva a absurdos lógicos quando seguida até às suas consequências finais, estragos sociais provavelmente irreparáveis totalmente previsíveis e à solidificação de uma mentalidade de respostas e análises simplistas que evitem todas as coisas feias, como o confronto com a realidade empírica.

“The real political task in a society such as ours is to criticize the workings of institutions that appear to be both neutral and independent, to criticize and attack them in such a manner that the political violence that has always exercised itself obscurely through them will be unmasked, so that one can fight against them.”  - Michel Foucault

“The real political task in a society such as ours is to criticize the workings of institutions that appear to be both neutral and independent, to criticize and attack them in such a manner that the political violence that has always exercised itself obscurely through them will be unmasked, so that one can fight against them.” – Michel Foucault

Não acredita no que digo caro leitor? Olhemos então para o conteúdo do fantástico vídeo promocional que nos foi proporcionado (será de notar que a página do jornal contém a penas um vídeo com discursos dos autores, não há sequer a tentativa de fingir que se trata de uma análise jornalística ou minimamente crítica), ponto por ponto.

– Porque é que os economistas acham que têm sempre uma resposta para tudo? Ao contrário do que é afirmado pelos autores não é que haja uma procura popular de respostas junto dos economistas. A questão é que o culto ao deus mercado que tem sido imposto por todo o mundo tem por corolário a criação de uma casta “sacerdotal” de “iluminados”, que através de teorias e livros sagrados interpreta a vontade desta tenebrosa divindade. Foram os próprios economistas que se colocaram neste papel oracular e do qual não abdicam nem que tenham que reduzir toda a existência humana à mera troca de bens, serviços e promessas de pagamento. Como tal, regularmente saem dos seus transes e dizem-nos os sacrifícios que devemos todos fazer para apaziguar o seu deus. A economia, como é praticada hoje em dia, está um degrau abaixo da adivinhação através das entranhas de animais.

– Porque não há dinheiro para pagar as nossas reformas? De forma fantasiosa os nossos “rebeldes” (bem institucionais) querem-nos fazer crer que a segurança social é uma espécie de fraude que nunca fez sentido e que nunca será sustentável. Isto é a melhor tradição da escola de Chicago, uma série de premissas mal explicadas, ligadas por um raciocínio dúbio que levam a uma conclusão incrível, que implicitamente quer levar quem os ouvir e ler a pensar que no fundo todo o sistema devia ser privatizado (a subtileza é o leitor chegar a essa conclusão “sozinho”). Claro que nunca entra nos esquemas mentais dos altos sacerdotes do deus mercado que a segurança social nunca foi suposto ser lucrativa ou sequer ser um negócio. Sempre foi suposto ser um encargo que era assumido pelo estado em nome de uma estabilidade social acrescida. Que no fundo se trata de uma questão que sempre foi e deverá permanecer política. É igualmente omitido que em caso de privatização as empresas detentoras dos planos de pensões passam a poder restrutura-los a qualquer altura e que quando forem à falência todos os pagamentos cessam. Não se diz que este cenário, algo negro, já aconteceu em mais que um país que privatizou a sua segurança social. Não se fala nos milhões que ficaram sem pensão estatal e sem pensão privada, literalmente a trabalharem até poderem e até morrerem.

– Porque é que há tantos prédios em ruinas no centro de Lisboa e Porto? Aqui o vilão na história dos nossos rebeldes é o congelamento dos arrendamentos que passa a ser culpado pela decadência urbanística. Que a esmagadora rendas já não reflictam essa distorção, que as pessoas ainda afectadas essencialmente não têm como sustentar qualquer tipo de “preço de mercado” não entra na equação. Os novos sem abrigos não membros produtivos da sociedade e como tal não merecem uma só palavra. São remetidos ao mesmo silêncio dos pensionistas em regime privado que ficaram sem nada. Numa nota particularmente perversa o exemplo de fundos que detêm propriedades é obviamente público, esquecendo claro que os fundos bancários em muito ultrapassam a posse estatal.

– Porque é que há tantos professores e as turmas têm alunos a mais? Aqui foge, um pouco, a boca para a verdade aos nossos nobres curas conservadores. De facto há muitos professores em situação irregular que não têm horários dignos desse nome. De facto há professores em funções de administração que deveriam ser desempenhados por burocratas. Mas falta dizer que tudo isso foi consequência das reformas para “racionalizar o sistema de ensino”. Que o interesse servido em tais reformas não foi, como é dito, o dos professores mas o sim o de privados que ganham com a desvalorização do serviço público. Mas enfim, isso afecta apenas quem colocar os filhos no público portanto também vai para o mesmo tumulo silencioso que os pensionistas depauperados e sem abrigo.

Como vê caro leitor em pouco mais de cinco minutos de vídeo foi possível simplificar e distorcer situações relativamente simples ao ponto de alterar radicalmente a perspectiva de qualquer cidadão menos dado à reflexão por conta própria. Ainda está seguro que está a obter uma análise séria e realista por parte de comentadores institucionais e/ou “rebeldes”?

Desistir de pensar

Socialmente existe uma hierarquia de valores não oficial que rege a esmagadora maioria das pessoas. É silenciosa. Não aparece num decreto ministerial a preto e branco. Não nos é sequer imposta no sentido clássico de termo – usando as definições de Isaiah Berlim a nossa “liberdade negativa” é respeitada, ou seja, estamos livres de coacção directa – isto vale o que vale, como o próprio Berlim demonstrou pela falta de escrúpulos que usou na supressão indirecta do trabalho de rivais académicos e pessoais. Mas é omnipresente. Na era do homo economicus não será com certeza de estranhar que essa hierarquia seja de natureza económica. No topo da hierarquia estão sem dúvidas as actividades que, pelo menos potencialmente, se traduzem num ganho. Algures entre o meio e o topo teremos aquelas que apesar de não se traduzirem num ganho monetário valorizam socialmente ou representam a procura de prazer. Na base encontraremos aquelas funções, tarefas e valores que se traduzem num esforço por parte do individuo mas que não lhe acrescentam nada ao seu património nem melhoram o seu status social. Entre este grupo estará sem dúvida a reflexão, o nexo das nossas escolhas éticas. Este é possivelmente um dos riscos mais subavaliados pelas nossas sociedades modernas. O desistir de pensar. O predomínio do pensamento de curto prazo e contabilístico exclui, com o passar do tempo, o acto de pensar de quase todas as esferas que antes eram naturalmente suas. As questões referentes ao trabalho passam a ser ou um jogo de somas ou, na maior parte dos casos, uma necessidade de submissão que embrutece o sujeito. As escolhas sociais que reflectem a forma como nos vemos uns aos outros (e por extensão natural como nos vemos a nós próprios) passam a obedecer a um estrito critério de utilidade ditado por uma ordem tecnocrática difusa a cujos parâmetros as pessoas inconscientemente foram aderindo, abandonando a hipótese de formularem elas próprias julgamentos livres e claros sobre a condição humana. Até as questões referentes às escolhas políticas passam mais uma vez também a ter como referencial único e exclusivo o económico ou monetário devido ao vício do pensamento e à incessante propaganda do que em tempos medievais seria denominado o topo do “Terceiro Estado”, aqueles que produzem.

"Multiplicaste os teus negociantes, mais do que as estrelas do céu; a locusta se espalhará, e voará" [Naúm 3:16 - Os delitos de Nínive: a sua ruína inevitável]

“Multiplicaste os teus negociantes, mais do que as estrelas do céu; a locusta se espalhará, e voará” [Naúm 3:16 – Os delitos de Nínive: a sua ruína inevitável]

Este pensamento que é perdido torna-nos a todos mais frágeis em termos humanos e intelectuais (e para os que estão predispostos a aceitar esse principio: até espiritualmente) à medida que o conjunto de ideias a que podemos recorrer, as combinações que somos capazes de estabelecer e as inovações que conseguimos acrescentar diminuem a pique. Até a própria filosofia se foi deformando sobre o seu efeito, ganhando falsa complexidade nos corredores da academia e perdendo significado até se transformar no que é no presente: quase uma relíquia académica cuja actividade consiste em dar algum apoio teórico à “técnica”. Caímos longe do amor ao conhecimento e da ideia que a filosofia é algo universal aplicável às nossas vidas. O quadro de referência predominante é um de ganho pessoal e produtividade e, ao longo de muitas décadas (ou mais se quisermos ser exactos séculos), foi-se expandindo ao ponto de não deixar quase uma única área fora da sua influência. Forma uma espécie de teoria unificadora do comportamento humano mas apenas por rejeitar todas as outras opções e não por conseguir englobar todas as possibilidades. De certa forma fomos levados uma espécie de “banalidade do mal”, como escreveu Hannah Arendt, mas por caminhos diferentes do totalitarismo fascista. A banalidade do mal define-se pela sua mediocridade, pela sua afirmação que pensar se tornou redundante, desnecessário e talvez até nocivo. Seguem-se ordens no caso fascista e no nosso caso consumista faz-se o que todos fazem ou que esperam que façamos. Em qualquer dos casos obedece-se, mais que tudo quer-se aceitação na ordem das coisas. De uma forma que só por descrita como irónica a sociedade da produção e do individualismo está a legar-nos um mundo crescentemente conformista e uniforme como as sociedades ditas soviéticas nunca esperaram alcançar nos seus dias mais ambiciosos. Esqueçam as roupas iguais teremos mentes iguais.

“The trouble with Eichmann was precisely that so many were like him, and that the many were neither perverted nor sadistic, that they were, and still are, terribly and terrifyingly normal. From the viewpoint of our legal institutions and of our moral standards of judgment, this normality was much more terrifying than all the atrocities put together.” - Hannah Arendt [Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil]

“The trouble with Eichmann was precisely that so many were like him, and that the many were neither perverted nor sadistic, that they were, and still are, terribly and terrifyingly normal. From the viewpoint of our legal institutions and of our moral standards of judgment, this normality was much more terrifying than all the atrocities put together.” – Hannah Arendt [Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil]

Não se levanta o espectro da banalidade do mal levianamente. Já que como Eichmann dizia apenas cumprir ordens e que o seu juramento de obediência quer às SS quer ao Fuhrer pressuponha que qualquer análise do conteúdo das suas ordens seria não só inútil como pernicioso também o burocrata moderno, público e privado, adoptou esta estranha forma de vida como modo de estar em sociedade. O cidadão que, como está na moda, “apenas vive o momento”, sem nunca considerar o porquê das suas escolhas. Quem estará ele a validar? A quem entrega o seu poder? Qual o preço do seu isolamento? A nada sabe responder, apenas age como é esperado, anseia apenas por cumprir as metas que outros definiram para si. O economista que atinge os números pretendidos ignorando os estragos humanos que causa usando apenas a expressão “não se pode fazer uma omelete sem partir ovos”. O executivo que aumenta a sua margem de lucro através da destruição de bens públicos, sabendo à partida estar a excluir um enorme número de pessoas de serviços básicos (“se nós não fizéssemos alguém o faria”). O político que se serve a si próprio deixando um rasto de devastação por onde passa (“todos se servem, é como as coisas funcionam”). Todos são o mal ao aceitarem de uma forma ou de outra o papel de carrascos de pessoas livres de qualquer culpa e sem possibilidade de defesa. Todos são medíocres na sua recusa em aceitarem que são sequer seres pensantes ou sequer na sua intenção de negarem seja o que for a outros. Na sua visão são apenas agentes, quase inanimados, que se regem por leis quase físicas que os obrigaram a comportar-se de determinada forma. Na sua mente isto exclui qualquer noção de culpabilidade e como tal permite manter uma noção de normalidade. Ao fim de um dia em que podem ser responsáveis por miséria, sofrimento e morte vão para casa, para com as famílias (que os glorificam pela sua posição social) ter serões normais sem nunca dispensar um segundo pensamento às suas vítimas.