Referendos, mártires e monstros

A Europa acordou algo chocada – dentro do que é possível para uma opinião pública massificada, estupidificada e brutalizada – com o assassinato de uma política britânica, nada mais que um membro do Parlamento Inglês. O retrato que nos está a ser apresentado não podia ser mais dado a simplificações. A vítima era uma defensora dos direitos humanos, pró-emigração, politicamente reformista e fazia campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia. O seu assassino é membro de organizações racistas e violentas, condenáveis sobre todos os pontos de vista. Num referendo que se parecia inclinar cada vez para o isolacionismo britânico as coisas podem estar prestes a mudar.

UK e UEMas recuemos um pouco. Este referendo tem uma longa história que convém ser explicada. O Reino Unido sempre se viu com uma nação (e anteriormente Império) extra-europeu. Era uma potência que durante todo o seu apogeu só teve uma única política para o continente: impedir a formação de uma grande potência continental – lutou contra a Espanha e a França para tentar impedir a união dinástica das duas coroas e reforçar o seu poder comercial na guerra de sucessão espanhola (1702-1714), lutou com a França, Holanda e Áustria contra a Espanha na guerra da quadrupla aliança (1718-1720) para impedir o crescimento territorial espanhol em Itália , combateu com a Prússia e Portugal contra a Espanha e a França na guerra dos sete anos (1756-1763) para obter ganhos coloniais e enfraquecimento dos impérios coloniais rivais, criou uma coligação poderes reaccionários (Áustria, Portugal, Prússia, Espanha…) para combater a França, (quer enquanto República quer enquanto Império) nas guerras revolucionárias e napoleónicas (1793-1815), incentivou e armou os nacionalistas gregos para separar a província de um Império Otomano decadente (1820-1830), interferiu na política interna dos reinos de Portugal (1828-1834) e Espanha (primeira guerra carlista de 1833-1840) ao apoiar as facções liberais de forma a “clonar” o seu próprio regime parlamentar e forçar relações de dívida perene das duas coroas perante a banca inglesa. A lista é interminável. Não há qualquer indicio de uma ideologia que guie tal variedade de opiniões e acções e isto é explicado por um pragmatismo brutal desprovido de crenças dedicado a assegurar apenas uma coisa:  uma Europa fragmentada.

Mesmo em tempos mais recentes (e mais pacíficos) temos que compreender que a sua entrada na Comunidade Europeia foi apenas para assegurar o seu lugar à mesa e tentar com que a evolução do colosso embrionário europeu fosse orientada para uma lógica de mercado livre e desregulamentado – o que revelou ser um enorme sucesso dado o que se passou nas 3 décadas seguintes. Nunca em momento algum houve um grande interesse por uma cultura comum com o resto da europa ocidental. O Reino Unido sempre se viu, e ainda vê, como uma excepção política e cultural. A sua pertença à comunidade foi usada como forma de salvar o poder financeiro da nação tendo transformado a city de Londres no segundo maior polo financeiro do mundo (depois de Nova York). Foi uma escolha deliberada dos governos conservadores do Reino Unido dar prioridade ao sector financeiro em detrimento da economia real. Os governos trabalhistas que se seguiram reforçaram essa escolha e abriram caminho para o desastre económico que aflige a nação, com níveis de pobreza jamais vistos. Mesmo assim o novo governo conservador manteve exactamente as mesmas escolhas, infligindo ao seu povo a mesma receita que as elites portuguesas adoptaram por cá: tornar o estado uma máquina de propagação da teoria de sobrevivência dos mais fortes e abandono total de qualquer responsabilidade social, económica ou política – a famosa austeridade que se dizia ser uma força de destruição criativa mas só deixou cinzas no seu rasto.

“The forces which are working out the great scheme of perfect happiness, taking no account of incidental suffering, exterminate such sections of mankind as stand in their way, with the same sternness that they exterminate beasts of prey and herds of useless ruminants.” - Herbert Spencer

“The forces which are working out the great scheme of perfect happiness, taking no account of incidental suffering, exterminate such sections of mankind as stand in their way, with the same sternness that they exterminate beasts of prey and herds of useless ruminants.” – Herbert Spencer

É neste contexto que surge um referendo sobre a União Europeia. Um país que já não é um Império e não sabe como lidar com uma nova realidade. Um povo que se sente completamente à margem de Bruxelas e das decisões que lá são tomadas. Uma economia refém de interesses financeiros internacionais de natureza especulativa. Um interior que se ressente profundamente de Londres que vê como um sorvedouro de dinheiro, cultura e poder. Neste ambiente a propaganda agita as multidões. Ecos imperais ainda se fazem ouvir em muitos que não querem aceitar o novo status quo. As tensões de classe, que pareciam ser coisa do passado, voltam a sentir-se e os ingleses percebem que as divisões socio-económicas só se podem agravar continuando tudo como está – daí o magnânimo desprezo que têm dado às expressões de desejo de continuidade na UE manifestadas por representantes da elite (personagens mediáticas, grandes executivos de firmas financeiras multinacionais, a maioria dos políticos mainstream, a crème de la crème do mundo académico exemplificada por Oxford e Cambridge…). Não é um fenómeno limitado a marginais, psicopatas e foras da lei. É uma reacção espontânea, fruto de um mal-estar profundo numa sociedade ocidental esgotada. É algo que pode acontecer noutro lado qualquer na Europa. E isso cria medo nas elites. Medo de perderem o controlo dos mecanismos que asseguram o seu poder. Medo que sejam reintroduzidas medidas de fiscalização popular de todo o edifício legal e económico que os mantém no topo da pirâmide. Medo que contas sejam ajustadas.

"As it turns out, we don't "all" have to pay our debts. Only some of us do." - David Graeber  ps: parabéns a quem souber "ler" a foto.

“As it turns out, we don’t “all” have to pay our debts. Only some of us do.” – David Graeber
ps: parabéns a quem souber “ler” a foto.

Mas agora tudo isso vai provavelmente ser varrido para debaixo do tapete. Este homicídio marca senão o fim do debate no Reino Unido (pode ser já demasiado tarde para inverter a tendência de secessão) pelo menos o fim do debate no resto da Europa. As posições a favor da continuação na União terão agora a bênção dos céus pelo sangue derramado pela mártir, qualquer questionamento das suas intenções e interesses será ignorado ou sofrerá acusações concordar com o autor do crime – uma espécie de crime por associação intelectual. A parte racional do eleitor vai ser desligada. Não porque ele escolha fazê-lo mas porque é essa a natureza da propaganda. Pega-se numa situação insustentável cheia de zonas cinzentas de incerteza e substitui-se por uma escolha moral a preto e branco. És dos bons ou dos maus? A escolha passa a ser simples e todos podemos voltar à nossa rotina de decadência lenta mas inexorável.

A migração dos refugiados sírios

Estamos no final de 2015 e o império central alemão decidiu fazer compras.

Adquiriu um aditivo económico para a sua sociedade. O nome do aditivo económico chama-se ” refugiados migrantes sírios”. O aditivo vem embalado em doses de um milhão de pessoas, embora o Império central alemão só deseje usar 80% da embalagem.

Aos 80% da capacidade foi dada a ordem de parar. Tal como um comboio em movimento não pára imediatamente quando são acionados os travões também um aditivo económico sob a forma de migrantes sírios não pára imediatamente de chegar e deverá ultrapassar a estimativa de carga prevista.

E o orçamento de um milhão cumpre-se.

Quem paga os custos de transporte?

Parece ser fácil de acreditar que simples migrantes pobres de um país em guerra reúnam as quantidades de dinheiro necessárias para fazer tão perigosa e longa viagem, mas que importa: o drama é televisionado.Tem sido vendido como um processo orgânico organizado pelos próprios migrantes, uma espécie de empreendedorismo orgânico com raízes populares…

A população alemã tem uma idade média de 46 anos. Pior, só o Japão. O céu é azul, o sol nasce e este admirável milagre surge: um influxo de um milhão de pessoas para aditivar a economia do império central alemão (e ajudar a baixar a média etária da população).

Provérbio alemão : Small saints too work miracles.

Provérbio alemão : Small saints too work miracles.

Qual é a posição dos restantes micro impérios europeus?

Os restantes micro impérios europeus ficaram surpresos com o descaramento económico aditivado dos alemães, especialmente a França e a Inglaterra dado que são uns dos principais criadores e incentivadores da confusão na síria.

Forçados pelas circunstancias decidiram, a contra gosto também receber umas gramas de aditivação económica (depois de, no caso inglês, terem inicialmente recusado…) e organizaram um sistema de quotas para distribuir as sobras do aditivo pelos restantes países que fazem parte do império central europeu.

Qual é a posição dos micro estados vassalos que fazem parte do Império central?

Os restantes micro estados vassalos dividem-se em duas categorias: os que estão em rota geográfica directa para a Alemanha e as republicas oligárquicas das bananas como Portugal.

Os que estão em rota directa ficaram furiosos com tudo isto e tentaram bloquear a passagem dos aditivos sírios por razões óbvias de custos próprios, segurança,diferenças fundamentais religiosas, etc.

A republica oligárquica das bananas vulgo Portugal pôs-se em bicos de pés e exige também capitalizar esta situação mostrando querer a sua parte (seja ela qual for). Que venham, dizem os corajosos portugueses, porque as elites portuguesas (entendidas no sentido mais depreciativo do termo) estão paralisadas de medo com a demografia portuguesa.

Criaram uma sociedade oligárquica e iníqua semelhante à anterior ditadura (as excepções são eleições com candidatos pré definidos e escolhidos pelas oligarquias e pouco mais) e agora admiram-se pelos resultados que criaram. Colocada em situação de incapacidade para conseguir obter rendimentos que lhe permitam encetar projectos de vida decentes, a maior parte da população tem que escolher não ter filhos ou emigrar.

Esta é a solução das elites oligárquicas que é a solução dos traidores abjectos: “importar activos”, prometer condições e postos de trabalho que não são oferecidos a quem cá está  e promover activamente a discriminação.

Porque é que esta ideia é imbecil?

A imbecilidade desta ideia é simples: integrar muçulmanos é algo de impossível.

Como se engana as populações com a ideia da importação de aditivos económicos humanos?

Por um lado afastam a contestação da população europeia a eles mesmos, tornando-se “úteis”. Importa-se um potencial perigo e a população europeia convence-se que precisa dos actuais políticos e dos actuais regimes sociais para os defender do perigo – estes migrantes.

Cria-se um problema artificial e depois oferece-se a “solução para o problema que se criou. O “problema económico interno” derivado de uma economia que não cresce será “resolvido“ chamando” migrantes e autorizando-os a virem.

Quais são as posições oficiais das tribos da esquerda política e da direita política?

Patéticas, demagógicas e oportunistas.

A tribo da esquerda política faz a sua demagogia costumeira afirmando que todos os que queiram vir devem vir e serem sustentados, hipocritamente sabendo bem que isso é impossível, mas assim colocam no “tribunal da opinião pública” preocupações táticas e estratégicas na outra tribo.

A tribo da direita política faz a sua demagogia costumeira manifestando-se compreensiva com a situação e prometendo aceitar emigrantes desde que com quotas estabelecidas e sendo despachados para todos os lados da Europa.Secretamente deseja imigração porque isso permite esmagar ordenados, e assim agradar à oligarquia empresarial que faz de proxeneta privilegiada da tribo da direita política e de protectora e ofertante de futuros lugares em “sítios”.

fertility rates - europe

https://rwer.wordpress.com/2015/09/07/european-fertility-the-real-population-problem/

A imagem mostra um dos verdadeiros problemas e o que está por detrás das ideias do império central alemão.Taxas de fertilidade em declínio desde os anos 60 na Alemanha.

A republica oligárquica das bananas vulgo Portugal está bem classificada. Considerando que temos sido assolados pela mais desastrosa oligarquia que alguma vez existiu e o trabalho de destruição da mesma tem séculos, não décadas, temos bons resultados demográficos. Ainda existimos.

Mas, mais uma vez, as soluções das elites são estas: em vez de se criar empregos, que ajudem a fomentar crescimento populacional, criam-se migrantes muçulmanos para virem para a Europa…

Quais são os resultados económicos e sociais desta política?

No Império central alemão o influxo de um milhão de aditivos irá baixar os seus próprios custos salariais e meter mais pressão sobre os seus cidadãos que agora terão tendência a sentirem-se distraídos pela migração e pela concorrência laboral que está traz e começarem a contestar a presença de migrantes deixando assim o governo alemão em paz provisória, noutros assuntos.

Na república oligárquica das bananas vulgo Portugal a linha é a mesma: baixar custos salariais, meter pressão sobre quem já trabalha levando as pessoas a aceitarem trabalhar por menos. (Isto num país com 30% de desemprego real é obra…)  No caso das aldeolas no interior do país que querem desesperadamente receber migrantes o objectivo é evitar que os caciques locais percam o rendimento ilegítimo que obtém devido a “falta de massa critica” para se continuar a sustentar certos locais deste país e certas formas de fazer as coisas.

Desemprego real 2015 Portugal

Quem são os migrantes demograficamente?

Segundo as estatísticas europeias, 2/3 são jovens solteiros entre os 18-36 anos.

Quando existe um problema de dívida e uma economia em declínio , eleva-se o numero e o valor dos bens em circulação( Pump up the assets). Pessoas jovens e saudáveis cujos governos de origem não tiveram tempo, disposição ou inclinação para as educar melhor, irão servir para reparar uma economia e uma sociedade em declínio.

Perverso? Nojento? Asqueroso? Lesivo da dignidade humana e da ética?

Claro que sim, mas este é o preço que pagamos por deixarmos as oligarquias movimentarem-se com relativo à vontade.

(Mini) Manifestos tecnocráticos

Se há algo de que podemos todos estar seguros é que os meios de comunicação são inteiramente neutros em Portugal. Não são dados a preferências ocultas ou a servir agendas ideológicas de forma encapotada. A verdade e apenas a verdade. Não será então de estranhar que nos tenham presenteado com esta publicidade ao mais recente manifesto dos tecnocratas do sistema político-económico. Num pequeno vídeo explicam-nos tudo sobre as complexas realidades portuguesas, de forma simples, para não cansarmos os nossos cérebros.

"Pensar é o diálogo da alma consigo mesma" - Platão

“Pensar é o diálogo da alma consigo mesma” – Platão

Há muitos anos que o sector conservador investe imenso tempo e dinheiro em produzir obras, mais ou menos panfletárias, de divulgação das suas doutrinas – quais missionários que querem dilatar a fé e o império. São construídas especificamente para um público de classe média que que acha que deve ter opinião sobre determinados temas mas não está disposto a investir o tempo e esforço necessários para realmente entrar nas questões – todos somos demasiado ocupados hoje em dia e se as empresas podem fazer outsourcing de servidos porque não fariam as pessoas o outsourcing das suas ideias? O resultado é a propagação quase inevitável de uma visão enviesada da realidade, que leva a absurdos lógicos quando seguida até às suas consequências finais, estragos sociais provavelmente irreparáveis totalmente previsíveis e à solidificação de uma mentalidade de respostas e análises simplistas que evitem todas as coisas feias, como o confronto com a realidade empírica.

“The real political task in a society such as ours is to criticize the workings of institutions that appear to be both neutral and independent, to criticize and attack them in such a manner that the political violence that has always exercised itself obscurely through them will be unmasked, so that one can fight against them.”  - Michel Foucault

“The real political task in a society such as ours is to criticize the workings of institutions that appear to be both neutral and independent, to criticize and attack them in such a manner that the political violence that has always exercised itself obscurely through them will be unmasked, so that one can fight against them.” – Michel Foucault

Não acredita no que digo caro leitor? Olhemos então para o conteúdo do fantástico vídeo promocional que nos foi proporcionado (será de notar que a página do jornal contém a penas um vídeo com discursos dos autores, não há sequer a tentativa de fingir que se trata de uma análise jornalística ou minimamente crítica), ponto por ponto.

– Porque é que os economistas acham que têm sempre uma resposta para tudo? Ao contrário do que é afirmado pelos autores não é que haja uma procura popular de respostas junto dos economistas. A questão é que o culto ao deus mercado que tem sido imposto por todo o mundo tem por corolário a criação de uma casta “sacerdotal” de “iluminados”, que através de teorias e livros sagrados interpreta a vontade desta tenebrosa divindade. Foram os próprios economistas que se colocaram neste papel oracular e do qual não abdicam nem que tenham que reduzir toda a existência humana à mera troca de bens, serviços e promessas de pagamento. Como tal, regularmente saem dos seus transes e dizem-nos os sacrifícios que devemos todos fazer para apaziguar o seu deus. A economia, como é praticada hoje em dia, está um degrau abaixo da adivinhação através das entranhas de animais.

– Porque não há dinheiro para pagar as nossas reformas? De forma fantasiosa os nossos “rebeldes” (bem institucionais) querem-nos fazer crer que a segurança social é uma espécie de fraude que nunca fez sentido e que nunca será sustentável. Isto é a melhor tradição da escola de Chicago, uma série de premissas mal explicadas, ligadas por um raciocínio dúbio que levam a uma conclusão incrível, que implicitamente quer levar quem os ouvir e ler a pensar que no fundo todo o sistema devia ser privatizado (a subtileza é o leitor chegar a essa conclusão “sozinho”). Claro que nunca entra nos esquemas mentais dos altos sacerdotes do deus mercado que a segurança social nunca foi suposto ser lucrativa ou sequer ser um negócio. Sempre foi suposto ser um encargo que era assumido pelo estado em nome de uma estabilidade social acrescida. Que no fundo se trata de uma questão que sempre foi e deverá permanecer política. É igualmente omitido que em caso de privatização as empresas detentoras dos planos de pensões passam a poder restrutura-los a qualquer altura e que quando forem à falência todos os pagamentos cessam. Não se diz que este cenário, algo negro, já aconteceu em mais que um país que privatizou a sua segurança social. Não se fala nos milhões que ficaram sem pensão estatal e sem pensão privada, literalmente a trabalharem até poderem e até morrerem.

– Porque é que há tantos prédios em ruinas no centro de Lisboa e Porto? Aqui o vilão na história dos nossos rebeldes é o congelamento dos arrendamentos que passa a ser culpado pela decadência urbanística. Que a esmagadora rendas já não reflictam essa distorção, que as pessoas ainda afectadas essencialmente não têm como sustentar qualquer tipo de “preço de mercado” não entra na equação. Os novos sem abrigos não membros produtivos da sociedade e como tal não merecem uma só palavra. São remetidos ao mesmo silêncio dos pensionistas em regime privado que ficaram sem nada. Numa nota particularmente perversa o exemplo de fundos que detêm propriedades é obviamente público, esquecendo claro que os fundos bancários em muito ultrapassam a posse estatal.

– Porque é que há tantos professores e as turmas têm alunos a mais? Aqui foge, um pouco, a boca para a verdade aos nossos nobres curas conservadores. De facto há muitos professores em situação irregular que não têm horários dignos desse nome. De facto há professores em funções de administração que deveriam ser desempenhados por burocratas. Mas falta dizer que tudo isso foi consequência das reformas para “racionalizar o sistema de ensino”. Que o interesse servido em tais reformas não foi, como é dito, o dos professores mas o sim o de privados que ganham com a desvalorização do serviço público. Mas enfim, isso afecta apenas quem colocar os filhos no público portanto também vai para o mesmo tumulo silencioso que os pensionistas depauperados e sem abrigo.

Como vê caro leitor em pouco mais de cinco minutos de vídeo foi possível simplificar e distorcer situações relativamente simples ao ponto de alterar radicalmente a perspectiva de qualquer cidadão menos dado à reflexão por conta própria. Ainda está seguro que está a obter uma análise séria e realista por parte de comentadores institucionais e/ou “rebeldes”?

A vida política e a alternativa

A vida política (mesmo para o cidadão não envolvido) cansa. Pela completa previsibilidade do auto-interesse e cupidez dos agentes. Desespera. Pela estupidez e falta de preparação de um povo cuja maioria não seria capaz de eleger uma comissão de condomínio decente nos seus melhores dias. Desanima. Pela insistência uma e outra e outra (e outra e outra e outra….) vez nos mesmos erros e padrões sem que se aprenda que, no mínimo, aquela “receita” em particular não funciona. Frustra. Pela falta de quase tudo em termos de aparelhos institucionais. É como viver num prédio que se esqueceram de demolir… o elevador social deixou de funcionar há 3 décadas, as protecções das escadas já deram de si, etc. Falta-lhe substância. Como a cultura cívica e política anda mais rasteira que um anão com dores de costas o debate (sinto-me corar até à alma por ter a coragem de chamar aos grunhidos debate) fica-se pelo insulto mais pessoal, transparente e previsível. Quando a providência nos agracia com pouco mais que isso ficamo-nos pela repetição estática de números que todos sabem ter sido adulterados e retrabalhados, opiniões recicladas fora de contexto e ninguém (nem mesmo quem tem esse trabalho – sim vocês jornalistas acima de todos) contesta, acenam de forma bovina com as cabeças não enganando ninguém que não estivesse já predisposto a sê-lo. A sensação permanente de deja vu é suficiente para deixar qualquer um indisposto. Políticos que são empresários, empresários que comentadores, comentadores que são políticos, políticos que são reguladores, enfim em 150 nomes fica feita a festa da “democracia” que existe.

"Em todas as lágrimas há uma esperança"

“Em todas as lágrimas há uma esperança”

Ninguém deve considerar meter-se nisto a seco nem com um fato hazmat! Daí que tenhamos que ser cuidadosos ao abordar (e mesmo mudar!) esta aberração mutante que dá pelo nome de vida política. Agora uma coisa vos digo: é possível. Não como as pessoas imaginam ou foram ensinadas a pensar. Não da forma que as mentes medíocres, que nos dominaram no passado, alguma vez tenham ousado sonhar mas uma coisa prometo ao leitor, é possível. Palavra de quem já o viu acontecer,

Dos Limites da Indignação

Depois das grandes manifestações do fim-de-semana passado os ânimos já acalmaram o suficiente para se poder olhar para as situações de forma mais fria e racional. Foi acima de tudo um êxito em duas frentes. Do lado da organização demonstrou grande capacidade de mobilização de pessoas que habitualmente seriam tudo menos socialmente activas. Do lado individual provou a muitas pessoas que o mundo não desaba por manifestarem vocalmente a sua opinião. Dito isto, torna-se também necessário admitir as limitações do que ocorreu. Não se trata de algo que necessariamente force qualquer tipo de mudança imediata. Sim o governo está frágil, mas o executivo já contava não cumprir o mandato completo (nunca contou…) e como tal isto apenas veio confirmar que o momento de se afastarem se está a aproximar. Será com isso em mente que deverão ser interpretadas as recentes movimentações face ao tema do salário mínimo. É normal, no sentido de fazer parte da tradição política portuguesa, que a partir do momento que um governo sabe que está condenado comece a tomar medidas aparentemente mais agressivas em algumas áreas. Poderia à primeira vista parecer contra-intuitivo tomar posições que exacerbem uma opinião pública já de si hostil mas isso corresponde apenas a uma análise superficial, senão vejamos. A partir do momento que uma queda se torna inevitável (mesmo que não imediata) os ministros perdem qualquer incentivo a agir de forma política pois sabem que a sua posição nessa arena é demasiado negativa para atingir seja o que for. Assim sendo viram-se para os seus objectivos pessoais (normalmente associados a empresas privadas que gostariam de ver algumas legislações menos simpáticas aprovadas) e ideológicos (já que estão condenados aprovam tudo o que de outra forma nunca se atreveriam sequer a propor). A questão da fragilidade laboral atinge ambas as esferas de todos os actuais ministros. Por um lado alguns têm interesses em empresas privadas (nas quais já trabalharam, aspiram vir a trabalhar ou esperam receber contratos) e outros têm compromissos ideológicos de longa-data com um determinado modelo socioeconómico que inclui na sua matriz uma total ausência de protecção laboral.

"Unemployment insurance is a pre-paid vacation for freeloaders." - Ronald Reagan (Ídolo mor conservador)

“Unemployment insurance is a pre-paid vacation for freeloaders.” – Ronald Reagan (Ídolo mor conservador)

Regressando às manifestações recentes. Será excessivo esperar soluções em acções que não possuem força legal ou ética suficiente para forçarem a realidade política. Legalmente convém dizer que a única possibilidade de impugnação dos actuais governantes seria por desrespeito ao espírito da constituição do regime, algo que o Tribunal Constitucional nunca os irá acusar e o Presidente da República não iria apoiar de qualquer forma – ele próprio tentou, com sucesso limitado, alterar a constituição no mesmo sentido. Eticamente a posição dos manifestantes também não é inteiramente “pura” já que de facto grande parte deles votou na coligação governativa e o prazo do mandato não se altera a meio só porque as pessoas percebem que afinal votaram contra os seus próprios interesses, que de facto deveriam ter lido o programa eleitoral e que realmente teria sido interessante olhar para o comportamento a longo-prazo dos candidatos (especialmente os seus compromissos empresariais e ideológicos de longo prazo). Tiveram hipótese de calmamente analisar as coisas e optaram por não o fazer. A surpresa só pode provir de uma ignorância auto-induzida combinada com um certo grau de indolência intelectual. Não que isto retire urgência e necessidade aos pedidos das pessoas (está muitas vezes em causa a sua sobrevivência e isso tem que ser prioritário) mas retira peso moral às suas exigências já que a sua situação deriva, em muitos casos, directamente das suas próprias escolhas. Entramos no campo de minas que é a distinção entre eleitor e cidadão que ninguém quer realmente encarar.

The Big Magic Button

Talvez o mais confrangedor desta situação seja ver as pessoas, os eleitores não-cidadãos, virarem-se, apesar de tudo, para as mesmas pessoas e instituições de sempre. Como se esperassem que essas entidades contrariassem o seu interesse próprio, quando nunca o fizeram ao longo da sua existência. “Organizações de cidadãos” dirigidas por fantoches partidários, “comentadores populares” amigos e frequentadores das mais altas esferas do poder económico desta nação (se ainda o somos), militares que são “garantia da constituição” mas que só ameaçam algo quando os seus interesses corporativos estão em causa, partidos de “alternativa”, com fome de poder, que, além de terem os mesmos vícios dos outros, não possuem qualquer projecto, entre tantos outros. A lista poderia continuar durante bastante tempo. É o regime a tentar regenerar-se, a lutar para poder manter as suas estruturas tal e qual, a bater-se pela manutenção do poder nas mãos das famílias do costume. Sejam grandes empresas, partidos, lugares do estado, organizações não-governamentais ou qualquer outra categoria, os que detêm as suas rédeas, e mesmo lugares técnicos, são um grupo privilegiado, relativamente vasto, que não irá mudar ou ceder uma vírgula por vontade própria. Por muitas manifestações que os excluídos organizem. Falta-lhes qualquer poder para alterar realidades concretas. Os excluídos terão ainda que passar por muitas desilusões até perceberem o que entra pelos olhos de qualquer observador neutro: estão totalmente sozinhos e abandonados. Sempre o estiveram.

Economia Total

Há episódios caricatos que colocam a nu a lógica dominante do nosso mundo e que nos mostram a disfuncionalidade em que caímos como seres humanos (se é que ainda somos tal coisa). O ministro das finanças japonês propõe-se a relançar, o que parece ser, uma nova versão do programa “Aktion T4” e afirmou categoricamente que os idosos doentes deveriam morrer rapidamente de forma a não se tornarem um fardo para a economia nipónica. É curioso notar que mais uma vez é alguém da área das finanças que tece comentários desta natureza. Em Portugal o desmantelamento dos cuidados de saúde é silencioso, apesar de igualmente eficaz, mas já tivemos, recentemente, uma ministra das finanças que achava que a solução ideal para o país seria suspender a democracia – dado que não vivemos bem numa democracia penso que ela se referiria apenas ao voto periódico e à latitude da liberdade de opinião, da possibilidade de publicamente discordar dela. Parece que os técnicos de contas têm uma propensão especial em desumanizar os seus concidadãos, seja cá seja nos antípodas. São os representantes de uma espécie de anti-humanismo que em vez de colocar o Homem como medida de todas as coisas coloca o balancete como medida de todas as possibilidades. Que o dinheiro seja virtual e não corresponda a recursos reais não parece ser importante, que o equilíbrio destes fundos imaginários requeira o sacrífico (literal) de milhares de pessoas como eles parece ser irrelevante e que tais acções não cumpram qualquer objectivo além do equilíbrio do irreal, sem nunca nos encaminharmos para um objectivo concreto, não perturba o seu delicado sono.

Proskynesis é obrigatória perante o nosso deus.

Proskynesis é obrigatória perante o nosso deus.

Estes “Einsatzgruppen” contabilísticos formam uma espécie de ponta de lança burocrática de uma ofensiva ideológica que visa desumanizar os excluídos (presentes e futuros). A divisão da sociedade de forma hierárquica e formal entre os que têm e os que não têm. Não se trata de uma mera questão de riqueza material já que esse elemento é ultrapassado de longe por questões de pertença social aos grupos certos (famílias, empresas, cultos, clubes de campo, etc) – basta fazer ruma leve pesquisa e ver quem dirige todo o tipo de organizações (departamentos do estado, partidos políticos, empresas, ONGs, etc) em Portugal para perceber que estamos perante um pequeno grupo fechado sobre si mesmo ao ponto de ser endogâmico (para não perder a pureza da “raça”?). As suas ofensivas sempre foram dentro de um estilo “Shock and Awe” ou “Blitzkrieg”, ou seja, um ataque repentino, de extrema violência, concertado em todas as frentes, que deixa os indivíduos e as forças sociais sem capacidade para responder adequadamente. Levando inevitavelmente à perda de grandes direitos e garantias, segurança e mesmo, como podemos ver pelo exemplo japonês, a própria vida. Quando o fumo da guerra se levanta podemos ver o que sobrou das nossas sociedades… o espectáculo não é bonito. Empobrecidos, desesperados, condenados, não-Humanos (“Untermensch”). É este o resultado da Economia Total que estas forças de agressão desencadearam. Os poucos que forem poupados servirão lealmente o novo sistema já que por motivos irracionais pensam a situação privilegiada terá sido um reconhecimento da sua excepcionalidade e não ou um acidente de percurso ou fruto de uma necessidade temporária. Temos aqui os novos elementos da nossaJüdische Ghetto-Polizei“.

Os "sortudos" que querem acreditar que não fazem nada de mal ao colaborar. Aos que estiverem nessa posição reparem que a braçadeira do comandante colaboracionista tem uma estrela de David e não uma suástica...

Os “sortudos” que querem acreditar que não fazem nada de mal ao colaborar. Aos que estiverem nessa posição reparem que a braçadeira do comandante colaboracionista tem uma estrela de David e não uma suástica…

Confrontados com um cenário desta natureza penso que é justo perguntarmos que é feito da população? Estão realmente de acordo com isto? Estarão realmente tão iludidos que não acreditam que um destino semelhante os aguarde? Pode ainda existir alguém ignorante ou inocente (e o que é a inocência senão uma forma de ignorância?) o suficiente para acreditar nas boas itenções desta guarda ideológica avançada? Depois dos estragos já causados, da intransigência mostrada ao longo de décadas (com tendência clara a acelerar rapidamente), do fanatismo aos modelos de hierarquia tradicionais (quase pré-1834) ainda alguém pode esperar que haja uma inversão de rumo? Tenho alguma dificuldade em acreditar nisso. É mais credível interpretar a obsessão nacional com comentadores com conflitos de interesses, com a participação em manifestações sem exigências concretas e com as formas de “participação“ social virtuais como uma recusa em entrar no combate real. É pena porque por muita satisfação que retirem dos seus pequenos e insipidos actos de “revolta“ o seu efeito é praticamente nulo.

Open war is upon you whether you would risk it or not”