Do desastre da contemplação e das eleições autárquicas

Quando as estruturas de poder duma sociedade decidem implementar mecanismos de controlo sobre a população uma das estratégias usadas consiste em apelidar essa nova forma de controlo de ” moderna ou de modernidade”.

Esta estratégia quer envergonhar, atrofiar e amesquinhar psicologicamente os cidadãos tentando criar-lhes complexos de inferioridade  caso recusem aceitar ou simpatizar com estas novas formas de controlo que surgem com roupas novas chamadas ” modernidade” ou “modernas”.

Uma destas estratégias de “modernidade” é a criação da contemplação como realidade.

Existe um trabalho de décadas visando acelerar o ritmo das pessoas quer na sua vida pessoal, quer nos seus locais de trabalho. Tudo deve ser acelerado, as pessoas tem que se mover depressa, quase ao ritmo ou mesmo para lá do ritmo das máquinas com as quais trabalham.

O objectivo é forçar o esgotamento das pessoas, transformá-las em pequenos depósitos de stress. O resultado é o esmagamento de qualquer tipo de análise pessoal, introspecção, espiritualidade, interesse pela cidadania, proximidade com qualquer ideia de ética pessoal; tudo é feito para gerar o total desinteresse,  gerar o alheamento de tudo que não seja o pequeno ambiente familiar, pessoal ou do sitio onde se vive.

A dimensão social e humana dos cidadãos é reduzida à contemplação. E a micro espasmos episódicos, paroquiais, ao nível do bairro que por vezes irrompem e se manifestam de quando em vez em micro sublevações – regra geral sempre direccionadas contra os outros cidadãos que navegam no mesmo barco pequeno e micro; nunca contra os verdadeiros poderes estabelecidos.

Este ritmo acelerado faz as pessoas agir  e reagir. E pouco pensar. Conduz a uma intensa aversão à introspecção pessoal. “Reflectir  sozinho” e em silencio é, na nossa sociedade, considerado quase como um crime horrendo.  Algo de estranho e a evitar. Criam-se todas as condições para quase obrigar as pessoas a andarem em grupos de outras pessoas apenas para não estarem sozinhos, não vá dar-se o caso  de incorrem no enorme pecado que é a introspecção pessoal, a solidão e o silencio para acalmar a mente e melhor olhar para a realidade que os rodeia. E assim sair da contemplação como realidade.

A contemplação como realidade é apresentada como sendo moderna ou a modernidade. Segundo esta lógica perversa, são “arcaicos e anti progresso” os que a recusam.

Caspar David Friedrich - Wanderer above the sea of fog

“Each of us assumes everyone else knows what HE is doing. They all assume we know what WE are doing. We don’t…Nothing is going on and nobody knows what it is. Nobody is concealing anything except the fact that he does not understand anything anymore and wishes he could go home.” – Philip K. Dick

Um efeito imediato sobre a população é que uma nova realidade passa a existir. Chama-se contemplação mas é derivada da inexistência de introspecção. O que antes poderia existir e era introspecção, praticada pela generalidade das pessoas, passou a ser  contemplação. Do “pensar a nível interior” para a contemplação (o olhar contemplativo)  de paisagens geridas e criadas pelas elites, paisagens essas que são todas artificiais, falsas e prejudiciais à população se ficar a olhar fixamente para elas.

As palavras são diferentes, os significados que ambas tem são totalmente diferentes;  mas a introspecção passou a ser contemplação e a ideia verdadeira  do que era contemplação foi enterrada num local desértico e escuro para tentar fazer-se ser esquecida para todo o sempre e agora todos contemplam a realidade, mas não agem sobre ela.

A Irmandade de Némesis não esquece.

Esta nova “modernidade” origina a auto desresponsabilização e cria bodes expiatórios. Como se está a contemplar (de forma moderna…), tudo o que de mal acontece é projectado em terceiros, reais ou imaginários,  que são responsabilizados (mesmo que estejam a anos luz de distancia), e nada tenham efectivamente a ver com o assunto ou tendo a ver, estivessem originariamente impedidos de fazer mais do que o que fizeram.

“A política é a condução dos negócios públicos para proveito dos particulares.”

Ambrose Pierce

Eleitoralmente tivemos oportunidade de observar isso recentemente. No dia 1 de Outubro de 2017 a população portuguesa, em grande parte corrompida pelo contacto que tem com as elites e por culpa própria também, na sua grande parte destituída de ética pessoal, princípios, pouco civismo e  nenhuma convicção acerca do que é a verdadeira cidadania decidiu atribuir um cartão de monopólio com os dizeres “Sairá da cadeia sem cumprir pena” à generalidade dos eleitos das recentes eleições autárquicas.

Assumindo plenamente o papel de “contempladores profissionais”  (porque é moderno) em vez de agir (porque é arcaico) os portugueses decidiram votar na generalidade dos casos de acordo com as propostas de mediocridade na continuidade salpicadas pela corrupção ética dos candidatos e salteadas com a estupidez muito própria de quem julga que está a perceber imenso do que se passa e que está a proceder de acordo com  a aquisição de “vantagens especiais” para si , para a sua família e para os seus.

A nível autárquico a cobardia cívica, o desligamento da situação em prol de vantagens especificas pessoais, também conhecidas como “migalhas” que são oferecidas, foi a norma, o suborno barato.

O sistema político social e económico é um jogo corrompido, onde os vencedores já estão definidos antes do jogo começar.

2017-10-07 queremos mentiras novas

O  comentariado político, que recebeu instruções e recebe instruções para debitar mensagens gastas também vive na contemplação como realidade e promove essa mesma contemplação.

Em laboratórios especialmente credenciados para tal dezenas de teorias saem das linhas de montagem e explicam quem são os vencedores, os vencidos, os que foram á casa de banho , os que saíram e entraram e demais futilidades.

Mas alguém lhes encomendou a missa?

A mentalidade do comentariado político é a da contemplação: só os seus interesses e de quem lhes paga contam e as missas que regurgitam cheiram mal.

Nenhum dos membros do comentariado tem capacidade para entender o que se passa – são eles próprios todos membros das mesmas classes sociais e profissionais, todos vivem nos mesmos condomínios fechados sítios e não contactam com a população; logo funcionam em circuito fechado onde apenas os ecos das suas próprias vozes se ouvem, nada de verdadeiramente “novo”, “original” e “verdadeiro” pode sair destes palradores militantes e pagos.

Apenas debitam propaganda e verdades feitas mencionadas em conversas uns com os outros.

2015-11-25 - rob riemen- 2012

A contemplação como realidade contamina a população para a lassidão e embrulha-a na corrupção.

Durante décadas ambos os lados do espectro político incentivaram, quer por omissão, quer por acção a corrupção ética,  o abandono da cidadania, fecharam os olhos ao esmagamento dos direitos legítimos do cidadãos.

O campo para tal é fértil.

Os portugueses desde pequenos são habituados e educados a conviverem bem com “cunhas e favores”, a simpatizarem e darem por adquirido que ter um patrono (um padrinho…) é uma condição essencial para singrar na vida e educam sempre a sua prole nessa lógica. Encontrar um emprego, fazer um jeitinho, obter um favor são considerados como sendo normais e factos da vida semelhantes a comprar uma embalagem de arroz no supermercado.

Os próprios sentem no seu intimo que tal é errado, mas desvalorizam. A auto justificação vem a seguir: “se os outros fazem eu também faço”.

Com o aumento exponencial destas atitudes entramos no caos. Para onde quer que se olhe vêem-se os pagamentos em géneros ou dinheiro em que toda a gente usa toda a gente para fazer a venda da cobrança de mais favores e respectiva classificação final.

O resultado já chegou há várias décadas e há um preço enquanto sociedade a pagar.

Esta forma peculiar de viver também faz com que o seguidismo seja a norma, e se procure estar sempre com quem aparenta estar a ganhar. Quem aparenta estar a ganhar faz com que uma parte da população se junte e vote – contemplativamente de acordo com isso. (Independentemente de qual seja o partido conjunturalmente a ganhar…)

Trata-se do “voto útil” contemplativo no vencedor. É a demissão cívica total e o risco zero enquanto cidadãos.

Mas, a maior parte dos portugueses não se considera ou percebe de facto que é um cidadão. Conhece a palavra, mas não o que ela significa.

Apenas se resignam a uma vida espiritual interior débil ou inexistente e a uma cidadania quase invisível, que é trocada pelo movimento em direcção a onde julgam ver aparecer benefícios ou dinheiro, esquemas ou empregozinhos.  (Nunca aparecem; estão reservados para as elites medíocres e corruptas.)

 

Hell is empty and all the devils are here.
The Tempest – William Shakespeare

 

Resignam-se eles.

A irmandade de Némesis não se resigna.

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A governação imbecil dos últimos 200 anos ( pelo menos)

“Depredadores do universo, e porque tudo falta a quem devasta, agora esquadrinham terra e mar; ávidos se é opulento o inimigo, sobranceiros se pobre, nem o Oriente nem o Ocidente os podem saciar; são os únicos a desejar com igual paixão riquezas e pobreza. Pilhar , trucidar, roubar tomam eles com o falso nome de governo e chamam paz à solidão que criam.”

Tácito, Agrícola

Com optimismo na alma devemos considerar que em Portugal os últimos 200 anos (pelo menos) tem sido caracterizados por uma governação profundamente imbecil.

Nestes 200 anos, 3 regimes políticos diferentes, mas todos igualmente cretinos, tem sido geridos desde as sombras mais negras pelas oligarquias e pelas elites que são regularmente arrotadas cá para fora pelas oligarquias visando convencer a população, que supostamente existirá alguém a navegar este barco encalhado em que Portugal se metamorfoseou.

Esta lamentável situação para as pessoas decentes e feliz situação para os oligarcas, tornou necessário perceber que as populações estão desencorajas e desiludidas, alheadas e formatadas nesta coisa vagamente gelatinosa, em estado gasoso, no que este simulacro de país está transformado.

Parece demasiado pessimismo e “Doom and Gloom”? Então escreve-se antes “realismo”, mas o realismo, tal como o Keinesianismo parece ter sido proibido ou considerado obsoleto…

Geração após geração e regime após regime, verificamos que a corrupção e os pagamentos feitos a diferentes forças políticas e sociais, todas diferentes e todas iguais  e atravessando diferentes eras históricas, continuam em força e sem aparente data designada para terminar.

As grandes corporações dos grandes sectores industriais e comerciais, de suposta nacionalidade portuguesa ( ao que parece o capital não tem pátria, excepto quando é para vender num local e pagar impostos noutro mais agradável) ou não portuguesa continuam a subornar ou directamente ou através de isenções agradáveis que obtém dos poderes públicos e dos interesses privados que fazem sexo com os poderes públicos e que são devidamente domesticados e convenientemente oleados.

Ironicamente, uma pessoa da oligarquia até dirá que sente a alma lavada de fresco quando cheira a corrupção e a podridão deste sistema.

GENERAL ALCAZAR - CORONEL TAPIOCA

Perante tão lúgubre inicio deste texto, a dúvida levanta-se.

Pode o próximo general Alcazar ou o próximo coronel Tapioca ser algo de diferente do que o anterior Tapioca ou o anterior Alcazar?

Pode-se confiar que um qualquer destes dois personagens (neste contexto são metáforas…) não seja como o anterior e respeite os seus eleitores fazendo o que é certo fazer-se ou pelo contrario irá acomodar os interesses das multinacionais e das nacionais?

Pode-se confiar que um qualquer destes dois personagens não seja como o anterior e respeite os seus eleitores evitando entrar no cargo público/sinecura privada pobre ou remediado e saindo milionário e rico?

Se isto fosse comércio e estivéssemos dentro da mentalidade comerciante a escrever este texto, afirmaríamos que existe uma alternativa mais rápida: saltar-mos de intermediários e passarmos directamente aos oligarcas para assim percebermos exactamente o que é que estes escroques ilegítimos querem e recusar-mos (obviamente demitimo-los da posição de oligarcas que ocupam) a dar.

Como isto não é comércio, deveremos perguntar o que deveremos fazer?

Afundar-nos no cinismo e na misantropia suave e cheia de desespero?

Ir votar como eleitores bem comportados que julgam, por o fazer, estar a acreditar no sistema e a contribuir para o melhorar?

Ir votar apenas com os nossos pequenos e estreitos interesses em mente esquecendo qualquer quadro global e as consequências piores para nós e para terceiros a longo prazo?

O esquecimento de qualquer quadro global irá originar um inevitável retorno da injustiça e da repressão e deveremos aceitar isso?

Esquecer gerações vindouras visando apenas  objectivos de curto prazo?

Deveremos adoptar um egoísmo total, conjugado com raiva como forma de vida?

Recusar pensar e apenas seguir ordens por mais injustas ou amorais que sejam?

Os guardas dos campos de concentração parece terem optado por este caminho e quando questionados acerca do porquê, apenas responderam que seguiam ordens dadas…

2015-11-25 - rob riemen- 2012

As oligarquias e as elites de poder desejam a materialização do acima escrito.

Impõe-se a pergunta. Vamos dar-lhes o que desejam?

Alternativamente também podemos auto designar-nos como especiais de uma marca especial – um desporto que as elites e os oligarcas que as controlam muito acarinham e com o qual enganam o país gelatinoso.

Como seres “especiais” com um destino mitológico especial definido pelas oligarquias escusamos de nos preocupar com estas ligeirezas acima escritas…

O caminho está aparentemente à nossa frente.

A encruzilhada é simples:

Seguir o caminho das elites e das oligarquias de nacionalidade portuguesa (ao que parece o capital não tem pátria, excepto quando é para vender num local e pagar impostos noutro mais agradável) e seguir as ordens deste plano quinquenal oligarco-elitista privado corporativo-estatal;

ou sair desta lógica e recusar alimentar fontes de poder oligárquicas.

Os membros da Irmandade de Némesis saíram desta lógica.

Estamos fartos de Alcazares e Tapiocas.

«(…) só apoiaram o regime aquelas forças que nunca apareceram na cena política… mas estiveram sempre por trás dela?
Essas mesmas forças que beneficiaram com o chamado corporativismo, traduzido do italiano: aquelas forças que, no campo económico e financeiro, engordam enquanto o povo emagrece: o alto capital, a Finança internacional.
A Igreja e o exército foram os seus instrumentos. Mas só essas forças podiam ser o verdadeiro aliado de Salazar. Por isso, enquanto só o temor às retaliações tolhe ainda o exército e a Igreja parece ter-lhe tirado inteiramente o seu apoio, o regime continua “inexplicavelmente” de pé.
“Inexplicavelmente” para quem ainda não se deu ao trabalho de verificar quem são na realidade os donos de Portugal…»

Adolfo Casais Monteiro

Contemplação como realidade

Na nossa sociedade moderna há uma notável aversão á introspecção pessoal. Vivemos de tal forma absorvidos pela nossa realidade social que nos esquecemos que em última análise somos mais do que a soma das nossas interacções com outras pessoas ou com objectos. Esta habituação social induz muitas vezes o erro de atribuir a causalidade das nossas acções a terceiros, em particular pessoas colectivas (estados, empresas, igrejas, clubes, etc). E claro que ninguém poderá, em boa fé, negar o extraordinário poder que estas pessoas colectivas exercem nas nossas realidades mas é preciso lembrarmo-nos que existe um campo de acção e contemplação que é apenas e só nosso, individual e não partilhável. Ou seja existe um espaço nas nossas vidas que apenas nós podemos preencher e perguntas a que apenas nós podemos responder. Depois de admitirmos que temos uma esfera que é apenas nossa torna-se necessário enterrar, de uma vez por todas, o mito que esse espaço e essas perguntas são apenas curiosidades intelectuais para quem tem tempo ou recursos. Antes pelo contrário são esses dois elementos, e a forma como lidamos com eles, que produzem quem somos realmente, geram o nosso verdadeiro “eu”.´

"Each of us assumes everyone else knows what HE is doing. They all assume we know what WE are doing. We don't...Nothing is going on and nobody knows what it is. Nobody is concealing anything except the fact that he does not understand anything anymore and wishes he could go home." - Philip K. Dick

“Each of us assumes everyone else knows what HE is doing. They all assume we know what WE are doing. We don’t…Nothing is going on and nobody knows what it is. Nobody is concealing anything except the fact that he does not understand anything anymore and wishes he could go home.” – Philip K. Dick

A hostilidade declarada que muitos têm ao conceito de interioridade, perpetuada durante anos ou décadas, leva a uma mentalidade de irresponsabilidade e inconsequência já que quem acredita que nada do que acontece depende das suas acções ou escolhas tem poucos incentivos a assumir compromissos – muitos chegam ao extremo de negar que possuam qualquer tipo de escolha, descrevendo a sua realidade como apenas experienciando o que outros criam. Torna-se assim clara a “genealogia” da ideia de impotência e da projecção dos nossos sonhos e esperanças em terceiros. Começamos a entender porque é que necessariamente a esfera política é incapaz de satisfazer as ambições de tantos cidadãos. A política, tal como a praticamos actualmente, assenta sobre a negação do individuo, da sua abdicação de poder pessoal e a sua transmissão a uma entidade mais ou menos abstracta (partido político, facção, ideologia, etc) a troco de uma promessa de realizar aquilo que cada um de nós espera. Será este mecanismo inerentemente perverso? Não necessariamente. Numa democracia representativa saudável este processo serve um propósito honesto e honrado, atingir compromissos em questões abrangentes que nenhum individuo pode esperar resolver sozinho. Ou seja, num sistema representativo saudável estamos perante uma transmissão de poder revogável, pontual e limitada. O problema surge quando a transmissão de poder se torna absoluta quer em termos de tempo ou âmbito. O caminho de todos os abusos começa com a asserção de intemporalidade do poder transmitido ou com a criação de um âmbito “total” que, por teoricamente representar o poder transmitido de todos os cidadãos, não conhece limites.

O Homem sem vida interiorSe isto é verdade qual o porquê da insistência dos cidadãos na exclusividade de soluções colectivas irreflectidas? Em boa parte porque há um grau de absolvição moral que pode ser encontrado num sistema anónimo e que não responde bem às aspirações dos indivíduos. Se as coisas correrem mal a culpa não será minha enquanto individuo porque eu não consigo influenciar o funcionamento de organizações complexas muito além do meu nível de poder. Isso de alguma forma liberta o individuo, que passa a abandonar todas as suas responsabilidade enquanto ser humano porque teoricamente cumpriu o seu dever cívico. Deixa de ser necessário comtemplar o nosso interior e analisar a nossa posição e podemos começar a encarar o “outro” com um mero objecto com o qual interagimos – algo que nega a dignidade quer do objectificador quer do objectificado. Ao descarregar as nossas dúvidas, preocupações e obrigações num sistema que sabemos que não pode responder às nossas necessidades estamos a dar-nos licença para nos abstrairmos da realidade, para nos abstrairmos de nós próprios. É nesta altura, em que abandonámos o nosso “eu” real, que todas as nossas actividades se transformam em escapes pouco saudáveis. A procura bem-estar material degenera numa fome que não pode nunca ser satisfeita, o prazer transforma-se em algo que não é apreciado mas procurado de forma compulsiva, a crítica transforma-se num processo meramente destrutivo (um fim em si mesmo e não uma ferramenta) e o apoio aos outros algo meramente pontual para satisfazer uma consciência profundamente culpada. E tudo isto porque negámos a nossa interioridade. Porque nos recusámos a parar e desligar um pouco do mundo para reflectir e comtemplar as perguntas base de qualquer corrente filosófica digna desse nome: o que somos, onde estamos, quem somos e o que devemos fazer.

“... it’s just business, it’s politics, it’s the way of the world, it’s a tough life and that it’s nothing personal. Well, fuck them. Make it personal." - Richard K. Morgan

“… it’s just business, it’s politics, it’s the way of the world, it’s a tough life and that it’s nothing personal.
Well, fuck them.
Make it personal.” – Richard K. Morgan

É preciso voltar a abraçar a ideia que aquilo que somos não é reflectido apenas pelas nossas lealdades sociais (e como tal exteriores a nós próprios). Somos essencialmente definidos pelas respostas que damos a questões muito básicas e pelas acções que essas respostas geram. E não falamos aqui de respostas no molde político tradicional. Não se trata de nos diluirmos a nós próprios dentro do grupo A ou B mas sim das acções e escolhas que estão dentro do nosso campo de acção individual, aquele que é apenas nosso, que reflecte a nossa dignidade e que ninguém nos pode tirar. É aí que jaz a nossa essência e tal essência só pode ser perdida ou abandonada de forma voluntária. É isso que fazemos quando nos recusamos a contemplar e a agir, negamo-nos a nós mesmos.