De pisistratus a Marcelo Rebelo de Sousa, o populismo expande-se…

Pisistratus (607 A.C – 528 B.C) é considerado pelos politólogos (os actuais demagogos oficializados e legitimados pela academia…) como o maior e primeiro demagogo populista na história Ocidental. (Dizem os rotos ao nú porque não te vestes tu…)

No currículo de  Pisistratus contam-se ter governado como tirano apoiado entusiasticamente pelas massas somente 3 vezes, ter-se tornado o líder do povo das terras altas (os rurais; pobres e excluídos daqueles tempos…), de ter orquestrado um golpe de estado fingindo ter sido atacado, exigindo posteriormente guarda costas, escolhendo-os das fileiras dos membros das terras altas e usando-os para entrar em Atenas e tornar-se tirano.

Após ter criado esta “startup” bélica revolucionária, e após já ter sido deposto também entrou de carruagem em Atenas com uma mulher alta vestida de deusa Athena.

Pisistratus notou que fingir-se um membro do povo e fazer gestos simbólicos e populares de identificação com o povo parecia dar resultado.

Em Portugal, pais prolífico na produção de demagogos, populistas e demais aves de arribação estes surgem em todas as cores e formatos e cheiram todos mal. Há mesmo uma industria local que já pediu certificação comunitária…

Recentemente, tem emergido um chamado Marcelo Rebelo de Sousa. Emergiu embora tenha estado a marinar ao longo de 3 decadas.

É o actual Presidente da República.

Está em funcionamento 24 horas por dia e localmente tem muito sucesso. Os conselheiros desta bateria humana mesclaram um arlequim com um sapo saltitante de nenúfar em nenúfar e adicionaram o software “picareta falante”. O resultado é um boomerang humano viajante incansável que nunca se cala nem debaixo de agua emitindo opiniões sobre tudo.

Retrospectivamente este retórico prolífico descobriu em inicio de carreira que ser filho de um ministro do Estado Novo (“Estado novo” é a expressão em português suave para não dizer a palavra “Ditadura” que era o que aquilo de facto era…) e obter as correspondentes facilidades (saltar o serviço militar obrigatório em tempo de guerra para ir fazer uma licenciatura em direito e posteriormente um mestrado…) não o impediam de se tentar identificar com ” o povo”.

Com estas vantagens e com o conhecimento das ter tornou-se professor de direito numa época em que eles eram rarefeitos e raros (a exclusividade monopolista de uma casta profissional seja ela qual for traz vantagens…) e posteriormente jurisconsulto ou seja, um dos mestres definidores do que é a interpretação da lei a ser seguida e do que não é.

Também tirou um curso em “multitarefas”. Foi jornalista, chefe de partido político, administrador de casas ducais (Irónico: um Presidente da República é adepto da instauração de um regime que é em tudo oposto à Democracia/República…).

Teve ainda tempo para ser amigo de banqueiros posteriormente acusados de corrupção e comentador televisivo de futebol, física quântica, hortofloricultura e mais 300 ou 1000 actividades comentando tudo e nada, sendo especializado em nada e comentando tudo.

200 milhões de euros (a preços actuais) é o preço para manter em funções este boomerang arlequim saltitante durante os próximos 10 anos.

As vozes da situação justificam retoricamente os gastos deste cargo com a frase: “a democracia tem custos”. De facto tem, mas existem custos democráticos justificados e custos democráticos injustificados e a existência deste cargo prova-o.

Esta auto nomeada nova “voz do povo” gasta 20 milhões de euros por ano em beijos ao vivo nas várias festas pelo país. (Velhos,novos,crianças, animais de estimação ninguém escapa impune…)

Gastrônomo e escanção amador oferece comida a sem-abrigo apenas no dia em que lá vai (nos outros dias não se sabe…), deglute ginginhas e bebidas regionais ou degusta bolos típicos e atípicos de uma qualquer terra saloia nas suas peregrinações. Nos intervalos vai  à bola, ao teatro, às greves, às manifestações bombardeando tudo o que se mexe com opiniões e afectos em pacote, por comprimidos, por injecção intravenosa.

É fútil tentar escapar.

Pisistratus, o inseminador original do  populismo, fazia campanha como herói triunfante, apesar de apenas ter lutado numa batalha, a conquista de Salamis.

Numa campanha eleitoral, Marcelo Rebelo de Sousa tomou banho no Tejo, e conduziu um táxi por Lisboa – tarefas bastantes mais perigosas que a participação na batalha de Salamis.

Armado com a confiança desses dois feitos, sozinho e desarmado, fala como se tivesse saneado as contas publicas, apagado os incêndios, imposto a democracia no mundo, convencido a Nasa a enviar uma missão a Marte, chacinado a fome em Africa e demais fantasias.

Este é um dos enormes problemas do cargo “Presidente da Republica”, cuja configuração constitucional está errada, é desnecessária, leva a que os ocupantes do cargo se pretendam substituir aos governos eleitos.

Tarefa que não lhes compete, nunca lhes competiu, nem lhes irá competir fazer.

No caso presente temos um ocupante do cargo viciado em se substituir aos governos eleitos.

Todas as gerações de demagogos populistas fingiram demonstrar sentir empatia para com os sofrimentos dos excluídos  da sociedade. Esta empatia falsificada e ensaiada visa obter o voto em eleições, pretende o aplauso canino dos seguidores subservientes, deseja a aclamação por unanimidade.

Estes redentores feitos de plástico colocam-se “ao lado do povo” e pretendem denunciar  os males infligidos pelas classes privilegiadas – sendo eles próprios membros de classe privilegiada.

Um populista apela à condescendência da população para construir uma aura. Onde existem problemas ele surge com a sua capa de super herói e denuncia os males. Com um sorriso, larga um palpite, manda um recado, despeja um pouco de veneno político, condiciona com uma pose, demonstra ser ” diferente” quando quebra o protocolo.

O mediano populista é um narciso que perdeu o espelho para onde olhava apaixonado por si próprio.

O povo simples (e simplista) e a elite corrupta (endogamia) são os campos de batalha decididos pelo demagogo, o tal que fala directamente com o povo – assim ele o julga. Fala nada dizendo.

Preocupado com fantasias de poder, mas inseguro, quer ser o funcionário modelo da empresa Portugal S.A. Sentido-se especial e uma dádiva divina ao país exige admiração de todos, que todos saibam quem é e a suas aparições flash tem como efeito fazer dele o centro das atenções.

Só substancia, nenhuma essência.

Exige admiração dos outros e sente “estar no seu direito” aproveitar-se dos outros para benefício próprio.

A solução é simples.

Não apoiar o populista e não votar nele.

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Portugal, uma democracia de controlo que ataca a democracia dos cidadãos – 1

“Viewed from a distance, everything is beautiful.” ( “Tacitus”)

Em Portugal a situação é simples.

Uma elite de poder, suportada desde as sombras pelas oligarquias podres e caducas impôs regras de controlo sobre os cidadãos. Estes são sistematicamente alvo de ataques baseados na iniquidade e na injustiça  que transformam a vida numa quase insustentabilidade e atrasam quer a evolução colectiva desta sociedade quer a evolução individual da maior parte dos cidadãos.

A vida colectiva foi transformada em algo quase insuportável para a grande maioria. Uma minoria obtém o espólio do que é quase insuportável para a maioria.

Este jugo opressor tem executantes.

São o aparelho estatal público, minado de cima abaixo pelas oligarquias e grupos de interesse – públicos e privados; são as grandes empresas privadas com os seus constantes abusos comerciais e fiscais, são os pequenos micro poderes caciquistas rurais e urbanos com a sua corrupção endémica, são as classes profissionais consideradas de topo com os seus privilégios profissionais ilegítimos, são os cortesãos profissionais e videirinhos amadores da comunicação social com as suas sistemáticas manipulações, são os actuais partidos políticos com a sua inexistente democracia interna, são os próprios cidadãos que se deixaram despolitizar e alhear do que se passa.

No longo exército cheio de generais mortos e executantes vivos estes são alguns dos  fundamentais que ajudam a manter este charco podre e fétido.

“O charco podre” é o outro nome para democracia de controlo portuguesa e neste ecossistema as regras são simples.

O cidadão pode ser prejudicado a todo o tempo e a toda a hora.

As empresas privadas e as castas públicas, os micro poderes caciquistas e os intermediários de negócios e da comunicação social devem ser ajudados a viver melhor e a prejudicarem o cidadão a todo o tempo e a toda a hora.

Este é o paradigma oficioso do regime.

Tacitus_quote - CONTROL

A democracia de controlo que ataca a democracia dos cidadãos funciona de varias maneiras e uma delas é a seguinte: qualquer cidadão lesado, revestindo uma qualquer das milhentas formas em que pode ser lesado, quer em termos patrimoniais, quer em termos de honra e ética, quer em termos dos seus interesses sociais e políticos,  por qualquer órgão do Estado; pelas empresas privadas de grande porte e parasitarias e/ou pelas micro empresas que adoptam estes métodos está impossibilitado de se defender.

Os benefícios desses prejuízos infligidos aos cidadãos são neutros (no sentido em que não revertem de facto para ninguém) ou são direcionados para alguma entidade profissional estatal ou corporativa que lucra (ou obtendo benefícios financeiros ou outros, ou sendo escusada de os pagar como compensação a quem foi por ela lesada).

O negócio que foi feito pelos proponentes da democracia de controlo em detrimento dos proponentes da democracia dos cidadãos tem este axioma:  o cidadão fica colocado nas situações sempre mais desfavoráveis para ele e favoráveis para os interesses da oligarquia e das elites de poder que a servem.

Como se chegou a este ponto?

A histórica oficializada mitológica defendida quer pela tribo da esquerda política, quer pela tribo da direita política apresentou este conceito de democracia dos cidadãos desde o dia 25 de abril de 1974 em diante. Esta nova versão benigna iria supostamente eliminar todos os resíduos fascizantes que vinham do anterior regime pré 1974.

Depois deste mergulho em sais de banho democráticos o cidadão ficaria protegido.

Uma nova super lei (CRP de 1976), legitimada e sujeita a posteriores revisões (onde se viriam a oficializar de facto os interesses dos oligarcas…) estabeleceria as grandes regras de justiça, segurança e liberdade, e foi apresentada aos portugueses como uma constituição altamente moderna, desenvolvida e progressista, uma das melhores constituições do mundo.

Esta mentira baseada na construção de percepções erradas, de memorandos de ideias feitas a serem inculcadas na cabeça da população serviu para legitimar e aliciar os cidadãos para o apoio a esta coisa vagamente oligárquica em que está transformada a crisálida que nunca passou a borboleta chamada República portuguesa.

40 anos depois verificamos que o nível de opressão tem vindo a crescer e começa a equiparar-se ao que existia há mais de 40 anos e serve os mesmos interesses que existiam antes do dia 25 de Abril de 1974 mais os upgrades pós, mas reveste outras formas, mais insidiosas, infinitamente podres e a opressão é agora feita com uma luva de veludo por oposição à mão de ferro anterior.

A montanha pariu um rato.

Quase nenhuns dos interesses das oligarquias foram tocados com o disposto naquela constituição.(ou na lei geral, antes pelo contrário) Existem apenas umas eleições quadrianuais e mais uns folclores semelhantes com discursos harmoniosos com periodicidade menstrual mensal para criar a imagem de uma República baseada em princípios democráticos.

 Heaven cannot brook two suns, nor earth two masters. Alexander the Great

Heaven cannot brook two suns, nor earth two masters.
Alexander the Great

Um qualquer cidadão é lesado.

A República subvertida oligárquica que temos fornece a resposta aos cidadãos. Diz-lhes que dispõem duma panóplia de meios, garantias legais e jurisdiccionais de todos os tipos, feitios e modelos.

O cidadão fica convencido que, afinal, isto funciona: se existem tantas “garantias” é porque isto é um sistema a sério e a sério.

Na realidade isto é a apenas a face do iceberg oligárquico, promovido pelas elites de poder para paralisar qualquer resposta particular, de cidadania, às injustiças e iniquidades e para defender indirectamente os interesses das oligarquias.

Os cidadãos que iniciem qualquer oposição a qualquer injustiça cometida contra si ou contra outros e exijam apuramento de responsabilidades e sanções correspondentes, quer sejam instituições estatais a ter que responder por isso, quer sejam empresas privadas observam que a lógica de funcionamento é sempre idêntica.

A entidade pública a quem foi atribuída “competência” para resolver o assunto declina fazê-lo invocando a não alocação de competências para tal ou demora eternidades esvaziando o tempo útil para resolver e acaba a passar o assunto para uma qualquer outra entidade estatal. Isto quando não diz logo que o cidadão (tendo-a efectivamente) não tem razão e passa adiante.(São sempre fornecidas justificações  que citam inúmeras leis, códigos e pergaminhos ancestrais… como justificação para manter a injustiça e a iniquidade)

Numa empresa privada o departamento ou funcionário a quem foi atribuída competência para resolver o assunto declina fazê-lo invocando a não alocação de competências para tal, ou demora eternidades esvaziando o tempo útil e acaba a passar o assunto para uma qualquer outra entidade ou pessoa dentro da empresa, quer porque tem ordens para fazer isso, quer porque não sabe, quer porque não tem competência para isso, quer porque a política comercial oligárquica defendida e definida pelo topo da empresa assim o define. (São sempre fornecidas justificações  que citam inúmeras leis, códigos e pergaminhos ancestrais… como justificação para manter a injustiça e a iniquidade)

Em ambos os casos trata-se de fazer perder tempo, encher a paciência dos cidadãos, arrastar o assunto até tempo inútil de ser resolvido. Sonegar justiça  equidade e aplicar o seu contrário, por motivos de exercício de poder político e comercial.

( Neste aspecto a autocracia das empresas privadas é ainda pior em Portugal do que o Estado  – salvo certos sectores  específicos do Estado como o fisco e a sua política quase nazi fiscal…)

Qual a conclusão a retirar?

Recusa-se atribuir isto somente a falhas momentâneas de serviços ou erros humanos; são políticas oficiais definidas pelas oligarquias e executadas pelas elites de poder.

São formas de controlo social abjectas e anti democráticas.Tem com objectivo criar distancia entre o cidadão e estas estruturas de controlo, precisamente porque visam obter e manter uma despolitização do cidadão e mantê-lo imobilizado.

E a despolitização deve aqui ser entendida como uma forma de retirar direitos ao cidadão em todas as áreas que lhe dizem respeito menos em duas: a de ser um obediente pagador de impostos altos e a de ser um obediente consumidor.

Numa democracia de cidadãos existem áreas que são atribuídas aos cidadãos e das quais eles não são autorizados a sair ou estamos na realidade numa democracia de oligarcas, passe o paradoxo, em que só a dimensão consumidores acríticos mais pagadores de impostos cabe?

E concorda-se com isto? Os membros da Irmandade de Némesis discordam.

Democracia de controlo 1

Quando a poeira assenta os cidadãos verificam que após terem sido genericamente degustados por todas estas estruturas, os seus assuntos nunca foram resolvidos, mas as entidades visadas – quer a que faz aplicar a lei, quer a visada na aplicação da lei, fizeram entre si um acordo compensatório que exclui, em termos práticos, os cidadãos de qualquer compensação. É um acerto de contas contabilístico-oligárquico que exclui o principal interessado nos assuntos em discussão.

“Viewed from a distance, everything is beautiful.” e é esta a imagem que a crisálida que nunca se transformou em borboleta emite para a população.Tudo é bonito e tudo funciona, excepto que nunca funciona.

Devemos citar o ponto 7 do Estatuto de Némesis:

7 – Todo o irmão de Némesis está obrigado a reconhecer, e a aplicar nas suas acções, o primado do humano sobre o económico e o institucional. O anti-humanismo, em todas as suas formas, será rejeitado. Tudo o que devore o Homem na sua essência é indigno de existir.

A democracia de controlo devora o Homem na sua essência  é indigna de existir.

Os irmãos recusam a democracia de controlo e nunca a aceitarão.

É o falso nome de Governo e chamam paz a solidão que criam.

“Depredadores do universo, e porque tudo falta a quem devasta, agora esquadrinham terra e mar ;ávidos se é opulento o inimigo, sobranceiros se pobre, nem o Oriente nem o Ocidente os podem saciar; são os únicos a desejar com igual paixão riquezas e pobreza. Pilhar , trucidar, roubar tomam eles com o falso nome de governo e chamam paz à solidão que criam.”

Tácito, Agrícola

Humanizar a Hidra

O amor que circula entre o cidadão médio e o governo é pouco. É verdade que ainda restam alguns “die hards” do partido que, normalmente têm interesses próprios ligados ao aparelho, mas em geral, neste momento, nem os mais devotos acreditam na “santa”. A visão popular deste executivo está irremediavelmente contaminada por uma mão tecnocrática pesada que não só aparenta indiferença perante os mais básicos problemas humanos como parece dela retirar algo de que se orgulhar. Mais uma vez confirmamos que a ideia que a elite tem de si própria é algo aristocrática enquanto que o regime ao qual preside não o é (totalmente). Isto gera diferenças entre a forma como os dignatários acham que se podem comportar e aquela que seria politicamente inteligente – preocupação genuína está fora do cardápio nos tempos mais próximos por isso o melhor que se arranja é mesmo uma aproximação através de actuações mais ou menos forçadas. Esta lição começou a ser apreendida quando Gaspar deixou o governo deixando-o estrategicamente órfão (que continua a estar) e bateu ainda com mais força esta semana com a questão da tentativa ilegal de forçar a constituição a adaptar-se aos caprichos dos eleitos como se fosse um vulgar pedaço de legislação ministerial a regulamentar o destino do vidro reciclado. Para alguns dentro do governo suspeito que tenha sido uma das primeiras experiencias reais de limitação dos seus poderes. De encontrarem uma linha que não conseguiram atravessar. Mesmo indo ao livro de tácticas de Cavaco Silva e agitando a eterna guerra de classes contra a função pública (não a de topo… os auxiliares técnicos, técnicos médios e equiparáveis) não conseguiram uma virgula mais de apoio fora dos fanáticos partidários (que os apoiariam sempre mesmo que sugerisse instaurar a lei marcial) e dos intelectuais de serviço que ansiosamente esperam a sua compensação através de alguma fundação.

"At the bottom of enmity between strangers lies indifference."

“At the bottom of enmity between strangers lies indifference.”

Parece que apesar do público contar para pouco é preciso pelo menos dar um ar menos autocrático à coisa. Menos ar de “outra senhora” com fatos Gucci todos modernos e uns amigos alemães porreiros. Chegou-se finalmente à conclusão que fazia mesmo falta que os portugueses conseguissem encarar os seus governantes como pelo menos capazes de emoções humanas, capazes de contacto. Nesse sentido já há umas semanas tinha sido lançado o programa de conferências diárias do governo anunciadas pela carinha mais fresca deste executivo, Miguel Poiares Maduro – era necessário alguém relativamente novo para não parecer tão “enlatado” e artificial. Diariamente o seu governo, de tão preocupado que está com o cidadão, comunica o que está acontecer para ninguém ficar às escuras. Não preciso chamar a atenção para o facto da medida poder servir para aligeirar um pouco a imagem do executivo mas ter uma segunda intenção muito mais importante: ditar a agenda mediática de cada dia. Comunicar oficialmente aos jornalistas quais eram os temas relevantes que valiam a pena ser abordados e sobre que ângulo. Imagino que apesar de, provavelmente, ter sido sugerido até a equipa de acessoria do governo deve ter achado excessivo dar resumos temáticos ao fim cada conferência para não haver desvios que façam a atenção do público desviar-se para áreas não construtivas e como tal desviantes e perigosas.

1984 - Prestem atenção

Mesmo com dois objectivos parcialmente alcançados a última semana veio colocar fim às dúvidas sobre qual era a percepção popular do governo. Especificamente qual era o grau de confiança que os portugueses depositam no executivo para tomar ou implementar grandes decisões que alterem o esquema básico segundo o organizam as suas vidas pouco. Entre o pouco e o não existente. Na senda de uma solução a este drama de incompreensão dos mais nobres instintos humanos que movem o partido chegou-se a uma nova ideia mediática que tudo irá resolver. A RTP vai criar um programa de tv, de nome “O País Pergunta”, onde Passos Coelho pode responder directamente às perguntas dos portugueses. Sem intermediários, só cara a cara, coração a coração. Num momento que faria Oprah Winfrey roer-se de inveja de não ter pensado em fazer isto com Obama regularmente. Os entrevistadores serão 20 e serão seleccionados por duas empresas de estudos de mercado (representantes máximos da preocupação social) que ainda não foram especificadas, cujos laços ao governo, partido ou individualidades, a existirem, não foram especificados, segundo critérios de escolha que (adivinhem lá…) não foram especificados. Sabemos apenas que deverá ser uma amostra representativa. Para um programa que é suposto estrear dentro de uma semana são muitas incertezas. É quase como se isto fosse uma ideia maluca de último minuto aprovada por uma administração desejosa de mostrar o seu valor perante os seus amos. Ficamos todos de sobreaviso, dia 10 de Setembro pelas 21:00 teremos direito a ver o lado humano do nosso glorioso líder que nos vai mostrar que não é de todo indiferente às nossas vidinhas. Esperem, dignidade, lágrimas, abraços, beijinhos e muita, muita esperança para distribuir a todos aqueles que são malevolamente aprisionados por uma constituição que lhes garante direitos básicos.

Proposta de abolição constitucional

Resumindo a situação:

– Não existência de maioria parlamentar para reformar ou abolir a constituição.

– A não existência de um poder legislativo independente – verdade que não é culpa deles, já que os poderes executivos e legislativos derivam da mesma eleição.

Não existência de vontade popular no sentido de apoiar em votos a reforma ou abolição da constituição.

Proposta do PSD:

– A não existência de constituição. Que desapareça a figura do documento rígido, não sujeito de ser adaptado aos desejos de governos estrangeiros e os seus respectivos gabinetes de gestão de ocupação.

– A não existência, óbvia, de um órgão fiscalizador do documento constitucional já que dada a sua total flexibilidade não faria sentido nenhum, quando alguém diz para alterar, altera-se. Tão simples como isso.

– Em caso de dificuldade recorrer à figura do chefe de estado para ganhar alguma legitimidade para o que ser fazer.

E neste último ponto é que está a chave meus caros. Os portugueses pedem muito a intervenção do Presidente da Republica mas como, quase, sempre não sabem muito o que querem dizer com isso. O presidente é o sustentáculo moral deste governo. Foi o criador deste governo através de uma crise que ajudou a magnificar quando tal lhe foi conveniente. Foi o primeiro a propor que se abolisse ou reformasse profundamente a constituição de forma a transformá-la mais num memorando de trabalho ministerial que numa carta de direitos e garantias básicas da população portuguesa. Em última análise é o único que, fora um acordo largo no parlamento, que tem poder para significativamente alterar a aplicação da constituição. Nomeadamente através da sua suspensão se faltar qualquer outro acordo e ele, a título pessoal, o julgar necessário. Sim é verdade que estarão previstas legalmente situações muito específicas para as garantias constitucionais serem suspensas mas, como o regime já nos provou, quando algo não agrada é substituído e as regras são de aplicação inconstante. Além das razões óbvias, sem um tribunal constitucional activo (ou fragilizado por medidas governamentais e presidenciais), a existência uma maioria parlamentar fanatizada e um Conselho de Estado na sua maioria cúmplice, quem irá pedir uma análise dessa suspensão constitucional ou de forma mais interessante quem a iria executar? Portanto Portugal que grite pela intervenção do chefe de estado, que clame nas ruas para este sair da sua inacção mas depois não se esqueçam de quem ele é, do que criou e dos seus desejos de longo prazo há muito expressos.

"No freeman shall be taken, imprisoned, or in any other way destroyed, except by the lawful judgement of his peers."

“No freeman shall be taken, imprisoned, or in any other way destroyed, except by the lawful judgement of his peers.”

Mesmo em caso de “mera” substituição da constituição por outro documento o governo sabe não ter o mínimo de popularidade ou credibilidade para conseguir aprovar tal documento por via parlamentar ou por via de um plebiscito. Logo a única alternativa seria uma suspensão alargada (até a “crise” ser resolvida – lembram-me de há uns anos Manuela Ferreira leite ter falado no mesmo? Isto prova que existe uma corrente de pensamento muito presente influente dentro do partido) tendo como único “entrave” a vontade do chefe de estado. A última vez que tivemos um modelo parecido foi em 1906 pelas mãos de João Franco, outro político que fez escola nos partidos caciquistas e rotativistas da monarquia liberal mas se dizia “independente” e “reformista” e o monarca era Carlos I – que pela sua atitude de indiferença para com o país e prepotência governamental foi morto em praça pública num dos poucos regicídios da nossa história. O sistema tinha um nome, governo por decreto. O ditador (e era esse o cargo de João Franco – era uma altura que ainda se chamavam as coisas pelo nome) propunha legislação ou medidas punitivas conforme o seu gabinete achava desejável e estas eram postas sob o “rigoroso escrutínio” de um rei mais interessado na caça e na sua vida sexual que no país. No século XX a ditadura administrativa de João Franco não chegou a durar 2 anos completos mas só acabou devido à morte do homem que sustentava o regime, Carlos I. O seu filho, por medo ou manobra política, optou pelo caminho da tentativa de absorção e castração política dos movimentos dissidentes. Falhou porque claramente o abismo que separava o país católico e monárquico do país republicano e liberal já era intransponível.

Presos políticos por ordem de João Franco - mas claro, apenas até a situação estar normalizada. Mais depressa caiu a sua ditadura que ele conseguiu "normalizar" qualquer situação política, económica ou social.

Presos políticos por ordem de João Franco – mas claro, apenas até a situação estar normalizada. Mais depressa caiu a sua ditadura que ele conseguiu “normalizar” qualquer situação política, económica ou social.

Num regime como o nosso, que talvez ja tenha conseguido igualar a monarquia liberal na sua ineficiência nas relações internas (estado) e externas (estado e privados) e que talvez possua o edifício legal mais bizantino que já tivemos torna-se complicado saber onde este caminho nos poderia levar. Um governo sem qualquer documento fundador ou guia? Sustentado apenas pela sua própria vontade de poder, inépcia governativa, regado com eleições presidenciais de 5 em 5 anos e mantido o resto do tempo pela pressão constante dos “credores” que funcionariam como uma espécie de Conselho de Regência? Talvez seja este o resultado de nunca se ter feito uma verdadeira reforma política em Portugal há mais de um século. Os monárquicos “transformaram-se” em republicanos, que por sua vez se “transformaram” em Salazaristas que finalmente se “transformaram” em democratas. Todos são tudo e ninguém é verdadeiramente nada. Talvez seja isto que um país carcomido por elites monárquicas no armário se pareça. Aproximações constantes a um período idealizado sem qualquer atenção ao momento histórico, à população ou à própria decência política.