Vamos convocar demónios e esperar que eles não se manifestem?

DEVIL WITH WINGS -WALL PAPERNos últimos 30 anos, as elites europeias e norte-americanas decidiram produzir uma narrativa. Nessa ficção manufacturada foi dito aos seus cidadãos-eleitores dos estratos e rendimentos mais baixos que  a globalização seria maravilhosa, que todos iriam ser “técnicos especializados em alguma coisa usando computadores  e outras máquinas de cor cinzenta metalizada”, trabalhando em escritórios assépticos nos centros da cidades, produzido serviços especializados, modernos e bem pagos.

Nas indústrias intelectuais de produção desta nova fé, os principais defensores estavam na ala do “centro esquerda”. Ou socialismo democrático. Ou social democracia de matriz nórdica. Ou qualquer outro envelope brilhante de palavras que vendesse melhor o produto. As diferentes tribos da direita política, especialmente o “centro direita” aceitou jogar este jogo dado servir as suas agendas políticas de longo prazo.

O centro construía coesão e consenso social, esmagava as dissidências. Empurrava os sectores não alinhados com estas políticas injustas para as margens.

Estes templários do centro esquerda, afirmavam que a globalização era óptima, não existiam motivos para preocupações com o futuro do país, e, no improvável caso de virem a existir criari-se-iam compensações para quem fosse afectado. E antes que se esquecessem, de passagem mencionaram que doravante abandonariam a defesa do seu estrato social e político que antes juraram defender.

Todos teriam oportunidade de escapar à pobreza e exclusão se aceitarem a globalização, mas doravante os destinos do estrato social de baixo rendimento seriam considerados obsoletos, e estas forças políticas centrais mover-se-iam para o estrato social acima; aquele que estava no meio da escala social ou mais acima,  e seria esse estrato que passaria a ver os seus interesses defendidos porque iria ser a partir desse degrau o local politico onde estavam os votos a ganhar e o dinheiro a seduzir.

A classe média-alta ou outras pessoas com as quais o centro esquerda (acolitado pelo centro direita) se queria identificar. Deixando os pobrezinhos ocupados na sua saga de chegarem a programadores cintilantes informáticos a partir dos subúrbios.

Esta supostamente brilhante deslocação para o espectro direito da política ocorreu espectacularmente em toda a Europa. Em Portugal, querendo ser moderno e bom aluno europeu ocorreu a um ponto tal que a generalidade dos partidos portugueses designados “de esquerda” competia ferozmente pelo eleitorado de extrema direita.

Em resumo, as pessoas com os 40% de rendimento mais baixo foram  abandonados numa ilha deserta. Foram equiparadas a “não entidades políticas” e acaso contestassem, uma política de panóptico e controle bio político seria posta em marcha. (No caso português, isto é um desejo latente, não muito real porque um Estado de polichinelo, desprovido de recursos financeiros suficientes tem dificuldades em reprimir musculadamente.) A policiação de bairros problemáticos nas periferias, antecedida de guetização, ostracização e estigmatização social por cor da pele ou outra forma discriminatória qualquer foram colocadas no terreno – uma solução económica e de dividir mais para reinar. Os de rendimentos inferiores teriam que ser felizes com a nova ordem.

O suave abraço da social democracia, a solidariedade socialista com as massas oprimidas, o conceito de sociedade justa e com oportunidades para todos, era deitado para o lixo pelo centro esquerda na sua demanda pelo eleitor “aceitável” de classe media.(O centro direita colaborante sorria deliciado por ter alugado lacaios a preço zero para fazer o trabalho sujo e de forma visível…)

Os pobrezinhos teriam que ser excluídos do dialogo social e da participação política, confinados fisicamente aos seus guetos suburbanos longe da “gente bem”. Já o novo eleitorado adquirido pelo centro esquerda, a “gente bem” com rendimentos superiores aos rendimentos dos 40% mais baixos poderia passar a sentir-se bem nos seus novos bairros e condomínios fechados, as suas escolas privadas passariam a excluir os piolhosos e a vizinhança seria selecionada em catálogos gourmet.

Os piolhosos teriam as suas escolas publicas, a “gente bem” teria as suas escolas privadas, e com o decorrer do tempo, “a gente bem” começaria a recusar pagar as escolas publicas dos piolhosos, começaria a exigir não pagar impostos para existirem estes sistemas públicos de ascendência por mérito.

É aqui curioso mencionar que esta mesma classe média-alta quando fala sobre estes temas enche a boca mencionando mérito e progressão social devido a esforço e trabalho, mas cria e tenta manter mecanismos camuflados de negação desse mesmo mérito sobre os de rendimentos inferiores.

Faz o que eu digo, não faças o que eu faço.

30 anos desta subversão passam, 30 anos de aumento lento de injustiças sociais e políticas passam, 30 anos de jogos de soma nula em que as elites ganham sempre o jogo viciado por elas criado passam, e o ressentimento e os sentimentos de injustiça aumentam exponencialmente, porque ninguém suporta ou aceita uma guerra de atrito que lhes é imposta por elites sem de algum modo responder violentamente a essa mesma guerra de atrito e à injustiça plena que dela deriva.

E assim chegámos ao Brexit.

Depois de convocados demónios durante 30 anos, eles manifestaram-se e apareceram. A maior parte da população inglesa, aquela mesma que foi considerada como ” surplus” obsoleto, decidiu votar democraticamente por uma decisão democrática e contrariar o sistema de injustiça que lhes estava a ser proposto e imposto.

E votou sair da União europeia.

Aproveitou a oportunidade para se revoltar contra as elites, para se revoltar contra as tribos da esquerda política e da direita política, as mesmas forças que foram supostamente criadas (especialmente o centro esquerda) para defender os interesses dessas mesmas pessoas e que durante este longo processo temporal trariam tudo e todos, trairam as pessoas que nelas confiavam e tornaram-se apenas lacaios de interesses elitistas, ilegítimos, financeiros e anti democráticos.

O acto de votar Brexit é uma revolta contra tecnocratas e elites.

O acto de votar Brexit é simbólico, mas com efeitos concretos.

90% das populações, em certos lados do mundo, está a perceber que 10% das populações lhes tem dito nos últimos 30 anos; como pensar, como fazer, como viver. Agora perceberam isso e toda a injustiça e toda a ilegitimidade derivada desses actos e tomaram uma posição.

"Embora percamos todos os bens, conservemos imaculada a honra. " - Walter Scott

“Embora percamos todos os bens, conservemos imaculada a honra. ” – Walter Scott

Em Portugal, os irmãos de Némesis são cavaleiros que percorrem estradas sombrias por onde outros se recusam a passar e tomar posição.

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Morte aos moderados portugueses

Em Portugal somos abençoados com a moderação. Ao andar nas ruas, em viagem pelos transportes públicos, entrando em centros comerciais ou olhando com atenção  ao nosso redor estamos rodeados de moderados.

Saímos dos espaços comerciais, das ruas e dos transportes públicos e os moderados tem a sua vida. Conduzem os seus carros em direcção a lado nenhum, sempre com moderação e começamos a pensar se serão seres humanos vivos ou apenas seres moderados. Tal impressão faz-nos pensar se nós próprios não seremos moderados.

Quando os moderados querem deixar de se sentirem moderados fazem loucuras.

Saem à noite e bebem meia garrafa de vinho, exactamente. Vêem televisão por cabo e acham que a série ou o filme absolutamente banal, repetitivo e nada original é afinal brilhante e tomam uma posição moderadamente moderada sobre o assunto.

Moderation

Quando se tornam filosoficamente mais profundos, os moderados emitem uma opinião.

A completa loucura e insanidade em que se tornou a vida moderna ou pós moderna (os moderados tem uma opinião moderada acerca desta diferença doutrinal); a fome generalizada em alguns continentes e em partes de cidades e vilas dos continentes ricos; os refugiados que chegam à Europa trazidos a pontapé por objectivos geoestratégicos; ou a alienação sufocante que rodeia, asfixia e corroí a sociedade portuguesa é moderadamente sentida e comentada pelos moderados.

Moderadamente, o moderado português, declara com “gravitas” na voz que,  “as coisas não são perfeitas, mas se fizermos alguns ajustes ali e acolá, deveremos estar bem”.

Se nos posicionarmos no centro (definir o que é o centro é algo que o moderado faz, de forma moderada…) aumentarmos os impostos sobre os mais ricos e sobre os restantes, legalizarmos as drogas leves, apoiarmos as causas fracturantes (o moderado é a favor de tudo isto quer as causas fracturantes sejam originárias da tribo da esquerda política ou quer sejam originárias da tribo da direita política…), se apoiarmos as causas que não são fracturantes, e mais alguns ajustes ali e acolá tudo estará bem.

Ocasionalmente de forma sistemática os moderados farão uma pequena loucura com moderação. Sextas feiras casuais no escritório com calças de ganga serão implementadas, e quando chegarem à Internet para consultarem sites pornográficos moderados ou facebooks inteligentes de pessoas moderadas; os moderados exigirão que a polícia prenda os trolls que afirmam coisas contrárias às opiniões moderadas dos moderados.

O moderado quer construir um mundo que é sempre o mesmo, só que mais agradável.

Por essa razão (ou outra qualquer mais ou menos moderada), o moderado tem dificuldades extremas em entender as pessoas que sofrem de auto destruição compulsiva, ou dores nas costas, ou sentimentos de culpa induzidos pelo cristianismo latente e opressivo, ou pessoas que recordam sub conscientemente todas as asneiras ou erros que já fizeram. Os moderados não são abrangidos por estas reacções normais: os moderados só fazem moderadamente erros.

Os de nós que reagem com normalidade e de forma perfeitamente saudável ao capitalismo tardio em que parece que vivemos; os de nós que se indignam com esta subversão em que esta sociedade está transformada olham para os moderados como enviados directos do nono circulo do Inferno.

Perante a gritante palete de problemas sociais, políticos e económicos em que estamos colocados, a solução dos moderados é a felicidade revoltante ou a alienação imbecil como resposta a esses mesmos problemas.

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Na televisão (e demais pseudo meios de comunicação social) os anúncios comerciais promovem produtos ridículos e dispendiosos de relativa utilidade, mostrando pessoas moderadas e felizes, todas sempre jovens (mesmo quando tem meia idade ou andam agarradas a andarilhos com algálias colocadas…) todas elas felizes e satisfeitas. Moderadamente.

Nos anúncios de produtos médicos a moderação é pior. Todos os medicamentos promovidos descrevem pessoas miraculosamente salvas de uma qualquer dor cronica, o que leva quase a desejar, por parte dos de nós que não são moderados, que as pessoas que fazem o anuncio obtenham uma morte instantânea ou uma qualquer disfunção eréctil os atinja. De forma moderada.

Todos os fundamentos da vida social, biológica, política e económica ameaçam colapsar. E contudo, os moderados andam a pé, de carro ou de bicicleta num prado verde cheio de sol, com um lago com patinhos, satisfeitos por já não terem dores de costas ou artrites.

Os moderados na sociedade portuguesa estão completamente loucos. Baseiam-se num ideal transcendente imaginário alicerçado em Ego, narcisismo e escapismo em que a vida é auto controlada de forma bio política.

Imagine-se o que seria se os moderados, estivessem armados com armas verdadeiras, em vez de sorrisos condescendentes e moderação psicotropica?

Mas porque existem os moderados?

Porque não permitem perturbar os interesses do lucro. Do poder. Da ilegitimidade.

Ou seja, a indiferença social política e económica cheia de alegria e niilismo.
Se “dermos uns toques” “ isto irá tudo funcionar.

Na pratica este exército de moderados é uma arma violenta dentro desta sociedade.

A sua moderação tem permitido que os mais variados corruptos oriundos das elites e das oligarquias obtenham poder e riqueza ilegítima, porque ”se dermos uns toques” isto irá tudo funcionar e eventualmente ajudar a reparar os estragos causados pelas elites e pelas oligarquias.

Mas continua sem funcionar.

O moderado gosta de motas e conduz scoters, bebe Pepsi ou Coca cola ou descafeinado ou chá ou meio copo de vinho, é adepto de novas tecnologias e gadjets, descobre que existem problemas de privacidade pessoal depois das Cctv´s já terem sido instaladas e ouviu na sua adolescência, prog metal, ou Justin bieber, se for um moderado internacional. Se for português ouvirá os acima citados mais José Cid e Tony carreira, ou a cultura genérica de pop rock lisboeta copiada$ das contra partes americanas e inglesas.

Esta forma de disciplina de massas – de parte das massas, dado que Portugal é anárquicamente moderado – é a moderação violenta que terá tendência a sair da periferia indo em direcção ao centro.
Em Portugal, que já é periferia em relação ao centro mundial, já cá chegou mas é difusa e moderadamente cretina e ineficaz.

Se alguma vez a marca especial de moderados de marca lusitana tomar armas – e durante o quadriénio de 2011-2015 andaram a servir de lacaios aos radicais que foram parar ao poder político (e foram votados na sua esmagadora maioria pelo exército de moderadas cá do sítio…) deveremos preparar-nos para um longo exercício de terror imposto pela moderação destas pessoas.

A moderação, via proxy da austeridade, é a invocação de uma guerra de classe usando o terror para o fazer.

Portugal, a Europa e a Modernidade

Idealmente a ideia de uma cultura partilhada a nível europeu é apelativa a qualquer pessoa que tenha um mínimo de sentido de história. Como nações, povos, culturas e seres humanos interagimos há tanto tempo uns com os outros que não me ocorreria nada de mais natural que embarcar num projecto de alguma integração a nível continental, especialmente a partir da segunda metade do século XX. O problema, que só se começou a manifestar décadas mais tarde, sempre foi a questão da integração. Quem deveria fazer parte do clube e quem não faria sentido ser convidado. Mas o projecto europeu, como a maioria das ideias que parecem funcionar bem, foi esticado até ficar permanentemente deformado. De uma ideia igualitária fomos entrando numa Europa de níveis. De um projecto de cultura comum foram aceites povos que nem tinham começado a digerir a modernidade (incluindo Portugal) acabando por criar desfasamentos que até hoje permanecem por resolver. De uma cultura de cidadãos derivámos numa cultura legalista – devido em grande parte à dificuldade de educar cidadãos em grande escala mas também devido à falta de interesse que todos os países que se juntaram ao núcleo mostraram pelos esforços necessários para atingir fins verdadeiramente exaltados.

"Things fall apart; the centre cannot hold" - William Butler Yeats, The Second Coming, 1919.

“Things fall apart; the centre cannot hold” – William Butler Yeats, The Second Coming, 1919.

Será verdade que o sistema económico terá desempenhado um papel de exacerbamento de tensões mas, em última análise, não as criou. Está em voga ver as tendências da ideologia económica agressiva da Comissão Europeia como principio, meio e fim dos problemas que afligem a União. Mas nada podia estar mais longe da verdade. A guerra económica é uma realidade mas não teria efeito se não tivesse encontrado um solo fértil em desunião, ressentimentos e diferenças profundas de sensibilidades. Desunião que sempre esteve presente (basta pensar nas questões ligadas à emigração) e foi sentida cada vez mais desde a implementação do euro. Que criou oficialmente dois escalões de pertença e levou a um processo de inevitável acumulação de riqueza no centro e esvaziamento económico da periferia. Os ressentimentos não são menos graves que no passado nem se resumem a estereótipos irracionais de cada nacionalidade, são os interesses divergente das várias nações (reconhecidas ou não como tal) a serem forçadas num mesmo molde quer queiram ou não. Uma certa historiografia germanófila usa, e abusa, do exemplo da ocupação francesa e belga do Rhur, entre 1923 e 1924, para justificar parte do ódio nascente na Alemanha pós-guilhermina, e de certa forma criar um dos, muitos, escapes morais para evitar a culpa colectiva pelo que foi o terceiro reich e moralizar a sua recente ascensão. Curiosamente os mesmos “intelectuais” (chamemos-lhes antes detentores de cátedras universitárias, de “spots” como comentadores televisivos ou ambas as coisas) falham em traçar o mesmo elo de ligação quando se humilha um país que deu sangue pela sua independência como a Grécia (e que curiosamente resistiu à agressão alemã antes) ou se destrói o orgulho espanhol sem pensar. Não espero convencer ninguém da verdade destes factos, apesar de serem evidentes por observação, pois conheço a mentalidade portuguesa. À direita apenas aplaudirão a crítica à União enquanto pensarem que implica uma rejeição total da modernidade e da mentalidade cosmopolita. À esquerda apenas aplaudirão se acreditarem que se está a fazer uma crítica radical ao sistema económico sendo a imaginária fraternidade europeia sacrossanta. E ao centro nunca aplaudirão algo que mude de forma tão radical o “status quo”. É demasiado ameaçador ter que encarar as falhas europeias. É demasiado aterrador perceber o vazio total do projecto europeu tal como ele existe (que repito, é o único que este país teve em “democracia”). Algo teria que mudar e isso é pura e simplesmente inaceitável. Quase, senão mesmo, criminoso por expor o esqueleto do sistema à observação dos “comuns”.

"'O que fazer?', é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer; ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações." - Lev Tolstoi

“‘O que fazer?’, é o que se perguntam, em unanimidade, os poderosos e os subjugados, os revolucionários e os activistas sociais, entendendo sempre com essa questão o que os outros devem fazer; ninguém se pergunta quais são as suas próprias obrigações.” – Lev Tolstoi

E assim entramos no problema mais profundo de Portugal em particular.  A questão da modernidade e a sua relação com o português médio. Não é tema novo, basta requisitar um livro sobre o renascimento europeu para perceber que o nosso atraso é congénito. E isso foi apenas o prelúdio para quinhentos anos de atrasos e falhanços (como honradíssimas excepções por parte de homens e mulheres que deram de si, por vezes literalmente, para fazer este povo evoluir). O iluminismo teve uma breve hipótese de começar a brilhar com Pombal mas foi sufocado pelo Portugal tradicional. Bafiento, conservador, ignorante e fanático, esse Portugal, encarnado na monarca louca que pôs fim à carreira do marquês, nunca quis entrar no mundo real, ou se quer admitir que as questões pudessem ser mais  complexas que aquilo que o seu entendimento, quase-medieval, atingia. Mouzinho da Silveira tentaria mais tarde fazer o país reentrar no seu século mas sem sucesso, a mudança necessária provou ser demasiado vasta e a sua personalidade demasiado franca acabando mais uma vez por ser afastado por um herdeiro não distante de Maria I, a louca. Avançando mais um pouco entramos no fenómeno ainda hoje pouco conveniente da aceitação do Estado Novo e do conforto que foi para um país atrasado que nunca se quis verdadeiramente revoltar contra o seu senhor – que até na demência conseguiu reter a coroa. Não tenhamos ilusões. É uma história de resistência constante da parte menos ilustrada, e rural (não é acidental a desproporcionalidade da representação do interior profundo durante o regime salazarista), da nossa nação ao mundo, mesmo quando lhe demonstram a barbárie do seu comportamento. Pensou-se que meia dúzia de anos de voto universal e algum bem-estar efémero traria realmente uma mudança profunda? As coisas correm mais profundamente que isso. A discussão económica, o verniz partidário e a pertença religiosa (católica ou maçónica, é indiferente) obscurecem tais coisas mas os sentimentos são os mesmos. A não-responsabilidade. A não-cidadania. Mais que tudo a nação sente-se oprimida por si própria. Incapaz de tomar decisões, como sempre, e igualmente incapaz de aceitar as consequências que outros tomem decisões por si. Como venho a repetir desde há algum tempo, o país é um gigantesco não-projecto sem solução credível.