Vamos convocar demónios e esperar que eles não se manifestem?

DEVIL WITH WINGS -WALL PAPERNos últimos 30 anos, as elites europeias e norte-americanas decidiram produzir uma narrativa. Nessa ficção manufacturada foi dito aos seus cidadãos-eleitores dos estratos e rendimentos mais baixos que  a globalização seria maravilhosa, que todos iriam ser “técnicos especializados em alguma coisa usando computadores  e outras máquinas de cor cinzenta metalizada”, trabalhando em escritórios assépticos nos centros da cidades, produzido serviços especializados, modernos e bem pagos.

Nas indústrias intelectuais de produção desta nova fé, os principais defensores estavam na ala do “centro esquerda”. Ou socialismo democrático. Ou social democracia de matriz nórdica. Ou qualquer outro envelope brilhante de palavras que vendesse melhor o produto. As diferentes tribos da direita política, especialmente o “centro direita” aceitou jogar este jogo dado servir as suas agendas políticas de longo prazo.

O centro construía coesão e consenso social, esmagava as dissidências. Empurrava os sectores não alinhados com estas políticas injustas para as margens.

Estes templários do centro esquerda, afirmavam que a globalização era óptima, não existiam motivos para preocupações com o futuro do país, e, no improvável caso de virem a existir criari-se-iam compensações para quem fosse afectado. E antes que se esquecessem, de passagem mencionaram que doravante abandonariam a defesa do seu estrato social e político que antes juraram defender.

Todos teriam oportunidade de escapar à pobreza e exclusão se aceitarem a globalização, mas doravante os destinos do estrato social de baixo rendimento seriam considerados obsoletos, e estas forças políticas centrais mover-se-iam para o estrato social acima; aquele que estava no meio da escala social ou mais acima,  e seria esse estrato que passaria a ver os seus interesses defendidos porque iria ser a partir desse degrau o local politico onde estavam os votos a ganhar e o dinheiro a seduzir.

A classe média-alta ou outras pessoas com as quais o centro esquerda (acolitado pelo centro direita) se queria identificar. Deixando os pobrezinhos ocupados na sua saga de chegarem a programadores cintilantes informáticos a partir dos subúrbios.

Esta supostamente brilhante deslocação para o espectro direito da política ocorreu espectacularmente em toda a Europa. Em Portugal, querendo ser moderno e bom aluno europeu ocorreu a um ponto tal que a generalidade dos partidos portugueses designados “de esquerda” competia ferozmente pelo eleitorado de extrema direita.

Em resumo, as pessoas com os 40% de rendimento mais baixo foram  abandonados numa ilha deserta. Foram equiparadas a “não entidades políticas” e acaso contestassem, uma política de panóptico e controle bio político seria posta em marcha. (No caso português, isto é um desejo latente, não muito real porque um Estado de polichinelo, desprovido de recursos financeiros suficientes tem dificuldades em reprimir musculadamente.) A policiação de bairros problemáticos nas periferias, antecedida de guetização, ostracização e estigmatização social por cor da pele ou outra forma discriminatória qualquer foram colocadas no terreno – uma solução económica e de dividir mais para reinar. Os de rendimentos inferiores teriam que ser felizes com a nova ordem.

O suave abraço da social democracia, a solidariedade socialista com as massas oprimidas, o conceito de sociedade justa e com oportunidades para todos, era deitado para o lixo pelo centro esquerda na sua demanda pelo eleitor “aceitável” de classe media.(O centro direita colaborante sorria deliciado por ter alugado lacaios a preço zero para fazer o trabalho sujo e de forma visível…)

Os pobrezinhos teriam que ser excluídos do dialogo social e da participação política, confinados fisicamente aos seus guetos suburbanos longe da “gente bem”. Já o novo eleitorado adquirido pelo centro esquerda, a “gente bem” com rendimentos superiores aos rendimentos dos 40% mais baixos poderia passar a sentir-se bem nos seus novos bairros e condomínios fechados, as suas escolas privadas passariam a excluir os piolhosos e a vizinhança seria selecionada em catálogos gourmet.

Os piolhosos teriam as suas escolas publicas, a “gente bem” teria as suas escolas privadas, e com o decorrer do tempo, “a gente bem” começaria a recusar pagar as escolas publicas dos piolhosos, começaria a exigir não pagar impostos para existirem estes sistemas públicos de ascendência por mérito.

É aqui curioso mencionar que esta mesma classe média-alta quando fala sobre estes temas enche a boca mencionando mérito e progressão social devido a esforço e trabalho, mas cria e tenta manter mecanismos camuflados de negação desse mesmo mérito sobre os de rendimentos inferiores.

Faz o que eu digo, não faças o que eu faço.

30 anos desta subversão passam, 30 anos de aumento lento de injustiças sociais e políticas passam, 30 anos de jogos de soma nula em que as elites ganham sempre o jogo viciado por elas criado passam, e o ressentimento e os sentimentos de injustiça aumentam exponencialmente, porque ninguém suporta ou aceita uma guerra de atrito que lhes é imposta por elites sem de algum modo responder violentamente a essa mesma guerra de atrito e à injustiça plena que dela deriva.

E assim chegámos ao Brexit.

Depois de convocados demónios durante 30 anos, eles manifestaram-se e apareceram. A maior parte da população inglesa, aquela mesma que foi considerada como ” surplus” obsoleto, decidiu votar democraticamente por uma decisão democrática e contrariar o sistema de injustiça que lhes estava a ser proposto e imposto.

E votou sair da União europeia.

Aproveitou a oportunidade para se revoltar contra as elites, para se revoltar contra as tribos da esquerda política e da direita política, as mesmas forças que foram supostamente criadas (especialmente o centro esquerda) para defender os interesses dessas mesmas pessoas e que durante este longo processo temporal trariam tudo e todos, trairam as pessoas que nelas confiavam e tornaram-se apenas lacaios de interesses elitistas, ilegítimos, financeiros e anti democráticos.

O acto de votar Brexit é uma revolta contra tecnocratas e elites.

O acto de votar Brexit é simbólico, mas com efeitos concretos.

90% das populações, em certos lados do mundo, está a perceber que 10% das populações lhes tem dito nos últimos 30 anos; como pensar, como fazer, como viver. Agora perceberam isso e toda a injustiça e toda a ilegitimidade derivada desses actos e tomaram uma posição.

"Embora percamos todos os bens, conservemos imaculada a honra. " - Walter Scott

“Embora percamos todos os bens, conservemos imaculada a honra. ” – Walter Scott

Em Portugal, os irmãos de Némesis são cavaleiros que percorrem estradas sombrias por onde outros se recusam a passar e tomar posição.

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O que estava realmente em jogo

Enquanto os estilhaços da decisão do Reino Unido sair da União Europeia ainda estão a cair começa a ficar mais claro para todos o que estava realmente em jogo. O controlo da maior praça financeira Europeia, a city de Londres. O governo das ilhas quer atrasar ao máximo as possíveis negociações sobre as condições de saída enquanto que o governo alemão (principal beneficiário de uma fragmentação do sector financeiro londrino) quer as negociações para ontem. Joga-se o futuro do Reino Unido como agente financeiro de primeira linha no mundo globalizado. Muitos britânicos entendem pela primeira vez que as empresas não possuem lealdades nacionais nem preocupações com o bem-estar de ninguém, apenas querem aproveitar a fraqueza do país para arrancar coercivamente melhores condições para continuarem a fazer o que já fazem – adivinha-se um anúncio de cortes de impostos empresariais para apaziguar os deuses do mercado. Dependendo da dureza do jogo de Berlim, o Reino Unido pode caminhar ou para um estatuto internacional reduzido ou, em caso de perda de uma fatia muito significativa do seu peso financeiro, uma intensa reindustrialização baseada em modelos económicos pré-monetaristas.

"Are you not ashamed of caring so much for the making of money and for fame and prestige, when you neither think nor care about wisdom and truth and the improvement of your soul?" - Sócrates

“Are you not ashamed of caring so much for the making of money and for fame and prestige, when you neither think nor care about wisdom and truth and the improvement of your soul?” – Sócrates

Este processo envolve uma história longa e repleta de ironia. O Reino Unido foi o primeiro país Europeu a entender e a reagir à globalização financeira. Com a subida de Thatcher ao poder os Torys embarcam num plano para mudar a face do mais antigo bastião industrial do Ocidente. O seu plano era centrar o país no sector financeiro e abandonar progressivamente a indústria tradicional – tendo plena consciência que isso implica abandonar grande parte do país real. O primeiro passo foi criar volume de capitalização bolsista em Londres e para isso lançaram uma onda de privatizações que reduziram o peso da industria nacionalizada no PIB de 9% para 2%. Isto teve vários efeitos que se reforçaram mutuamente. Além do aumento súbito da capitalização da praça de Londres deu-se uma quebra substancial do poder dos sindicatos e deu-se um poderoso golpe ao partido trabalhista – que quando acabou o seu longo exílio pouco mais fez que dar uma cara mais simpática às politicas que já estavam a ser seguidas. A esta injecção de capital no Estado há a somar os ganhos do petróleo do mar do Norte que criaram uma almofada financeira impressionante. Para que foi usado este fundo de maneio? Para reduzir drasticamente os impostos nos escalões mais elevados (de 80% para 40%). Esta redução atingiu dois objectivos: em primeiro lugar criou rendimento disponível na classe média-alta e alta para investimentos financeiros, e em segundo lugar tornou as posições bem remuneradas na city ainda mais atractivas. Em 1986 é dada a machadada final com a liberalização do sector financeiro que atrai cada vez mais investidores financeiros estrangeiros a Londres. Está lançado o caminho para três décadas de continuidade de endeusamento do sector financeiro e abandono da economia real – que enquanto este processo decorreu sofreu um desemprego galopante, fechos das indústrias tradicionais e a formação de guetos nos antigos grandes centros industriais (que agora se assemelham a cemitérios de um passado distante).

"Eu encontrei um viajante de uma terra antiga Que disse:—Duas gigantescas pernas de pedra sem torso Erguem-se no deserto. Perto delas na areia, Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida, A mão que os zombava e o coração que os alimentava. E no pedestal estas palavras aparecem: "Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!" Nada resta: junto à decadência Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância." - Percy Shelley

“Eu encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse:—Duas gigantescas pernas de pedra sem torso
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão
E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando
Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida,
A mão que os zombava e o coração que os alimentava.
E no pedestal estas palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”
Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância.” – Percy Shelley

Enquanto a Europa tentava manter a sua indústria durante os anos 80 o Reino Unido estava a criar o maior polo financeiro do continente (mesmo que isso condenasse grande parte dos britânicos a um nível de vida cada vez pior). Com o apogeu da doutrina dos mercados “livres” no início dos anos 90 o resto da Europa já estava na mesma página: todos os países abandonavam os seus sectores tradicionais à procura de ganhos de produtividade através de economias de serviços e ganhos financeiros – com a excepção da Alemanha, que se manteve firme na sua defesa de um poderio industrial autónomo, tornando-se a fábrica da Europa (aliás financiou durante mais de uma década a destruição gradual da industria nos outros parceiros Europeus). Mas era demasiado tarde. A dianteira de Londres (facilitada por partilharem uma língua e cultura com os EUA) era demasiado grande para que mesmo Frankfurt pudesse chegar-lhe aos calcanhares. Até agora. Chegou o momento Alemão. Juntar uma liderança financeira a uma liderança industrial irá torna-la a incontestável senhora da União, perante a qual todos os outros nada mais são que súbditos que devem ser relembrados da sua posição nesta nova ordem politica continental.  Por terras lusas treme-se diante deste novo gigante não havendo qualquer coragem das elites locais. Como é sua tradição apenas querem que seja assegurado o seu lugar ao sol seja quem for que mande nas coisas. Podem estar prestes a ter uma surpresa. Pela primeira vez a sua conivência com as elites exteriores poderá não lhes dar frutos. Uma potência hegemónica não reconhece iguais, não tem interesse em elites locais saloias e muito menos tem vantagem em conferir-lhes qualquer poder real. Ao recusarem partilhar o poder as elites locais selaram o seu destino, arrastando todo o país consigo.

NémesisSiga o exemplo da Irmandade de Némesis: Não se resigne a ser uma vítima das elites!

E ficaram 27

Apesar das pressões de última hora que foram colocadas sobre os cidadãos do Reino Unido o resultado do referendo sobre a sua permanência na União Europeia foi um “não”. As elites locais mediram muito mal o grau de agastamento das populações, daqueles que há pelo menos duas décadas têm visto as suas vidas piorar de ano para ano. A segurança laboral foi-se, os salários reais fora do sector financeiro encontram-se estagnados ou em baixa, o acesso à habitação nas grandes áreas metropolitanas é quase impossível, a educação superior tornou-se um luxo incomportável para muitas famílias e o sentimento de estarem abandonados dentro da sua própria comunidade tornou-se insuportável para muitos. E tudo isto pesou no voto. Pode-se argumentar que muitas destas questões derivam de como as autoridades nacionais e locais lidaram com as situações e que não reflectem qualquer má fé por parte da União Europeia. E em parte teriam razão. Mas apenas em parte. A lógica de especialização que está subjacente à globalização e em especial à organização económica da União Europeia quando não precipitou grande parte destes problemas pelo menos acelerou-os. Não se pode dentro de uma mesma unidade nacional manter duas realidades sociais paralelas em oposição – a das elites em que tudo é reluzente, há luxo, cuidados de saúde de primeira qualidade e acesso a tudo o que se possa desejar e a da maioria que é cada vez mais esquálida, decadente e excluída. A Europa tem sido surda aos dois mundos que estava a criar em cada país e pagou um preço por isso.

"Governments, if they endure, always tend increasingly toward aristocratic forms. No government in history has been known to evade this pattern. And as the aristocracy develops, government tends more and more to act exclusively in the interests of the ruling class -- whether that class be hereditary royalty, oligarchs of financial empires, or entrenched bureaucracy" - Frank Herbert

“Governments, if they endure, always tend increasingly toward aristocratic forms. No government in history has been known to evade this pattern. And as the aristocracy develops, government tends more and more to act exclusively in the interests of the ruling class — whether that class be hereditary royalty, oligarchs of financial empires, or entrenched bureaucracy” – Frank Herbert

E agora? Agora vamos caminhar para um caminho de cada vez maior tensão entre os dois polos de poder restantes no Continente. Uma França enfraquecida por imposições de um modelo económico que é estranho ao seu tecido social contra uma Alemanha hegemónica que quer secundarizar toda a Europa Ocidental e centrar-se nos seus protectorados orientais. Não há competição. Estamos perante o dilema para o qual a Irmandade de Némesis tem vindo a avisar há já algum tempo: ou teremos uma GrossDeutschland de realpolitik e esmagamento de toda a periferia Europeia ou iremos assistir ao colapso do todo o projecto Europeu à medida que mais membros saírem de livre vontade ou forçados pelas circunstâncias.

"I am not a man who believes that we Germans bled and conquered thirty years ago...in order to be pushed to one side when great international decisions call to be made. If that were to happen, the place of Germany as a world power would be gone for ever, and I am not prepared to let that happen. It is my duty and privilege to employ to this end without hesitation the most appropriate and, if need be, the sharper methods. " - Kaiser Guilherme II

“I am not a man who believes that we Germans bled and conquered thirty years ago…in order to be pushed to one side when great international decisions call to be made. If that were to happen, the place of Germany as a world power would be gone for ever, and I am not prepared to let that happen. It is my duty and privilege to employ to this end without hesitation the most appropriate and, if need be, the sharper methods. ” – Kaiser Guilherme II

É preciso ter noção que o jogo de poder a nível continental mudou a vários níveis. Em primeiro lugar irão cada vez mais aparecer disputas regionais que usarão a desculpa da pertença à UE como arma nas suas lutas independentistas (veja-se a Escócia, Catalunha, País Basco…) – isto vai ameaçar directamente a integridade territorial de muitos estados Europeus (e parte da culpa está também numa Europa “das regiões” que sempre incentivou a regionalização e maior poder local). Em segundo lugar, sendo a Alemanha o poder que rege todo o projecto é inevitável uma deriva oriental – para o que a Alemanha sempre considerou a sua área natural de influência e privilégio, deixando o Ocidente abandonado na posição de pedinte na corte Imperial Prussiana. E em terceiro lugar é preciso notar que foi aberto um precedente. Mais países irão, mais tarde ou mais cedo, ameaçar seguir o exemplo Britânico na expectativa de secessão ou simplesmente para conseguir acordos muito mais vantajosos – A Grécia irá usar o fantasma da desagregação para tentar sacudir o colonialismo financeiro, a Espanha será tentada a fazer ameaças nesse sentido se a União não der mostras claras de não reconhecer possíveis repúblicas independentistas, França e Itália irão tentar usar isto para relocalizar o poder mais a Ocidente e reduzir o peso das suas colossais dívidas. Quanto mais ameaças de saída existirem (quer se concretizem ou não) mais frágil todo o edifício se torna.

"As pessoas sabem o que querem porque sabem o que os outros querem" - Theodor Adorno

“As pessoas sabem o que querem porque sabem o que os outros querem” – Theodor Adorno

E Portugal como fica? Fica na mesma. Convém notar que Portugal é uma nação muito especial no sentido das suas elites não se reconhecerem nela, nem aliarem os seus interesses a um projecto comum. Assim vivemos num mundo de senhores mais ou menos feudais que só querem mesmo manter a sua coutada sem serem incomodados – politicamente isto traduz-se numa ausência total de desígnio nacional. O único projecto que existe é a Europa. Se esta começar a vacilar vai existir pânico e medo entre as lideranças políticas, económicas e sociais. Se a isso somarmos uma possível intransigência crescente por parte da Alemanha isto pode dar origem a um fenómeno de grande dissonância entre elites e subjugados, com as primeiras a defenderem o declínio nacional como preço de pertença à comunidade e os segundos a defenderem tudo menos isso à medida que se afogam num mar de dificuldades cada vez maior.

Némesis

Para quem vir o mesmo que nós, fica o convite da Irmandade de Némesis a não ficar quieto: não se resigne a ser um fantoche nas mãos de outros.

A migração dos refugiados sírios

Estamos no final de 2015 e o império central alemão decidiu fazer compras.

Adquiriu um aditivo económico para a sua sociedade. O nome do aditivo económico chama-se ” refugiados migrantes sírios”. O aditivo vem embalado em doses de um milhão de pessoas, embora o Império central alemão só deseje usar 80% da embalagem.

Aos 80% da capacidade foi dada a ordem de parar. Tal como um comboio em movimento não pára imediatamente quando são acionados os travões também um aditivo económico sob a forma de migrantes sírios não pára imediatamente de chegar e deverá ultrapassar a estimativa de carga prevista.

E o orçamento de um milhão cumpre-se.

Quem paga os custos de transporte?

Parece ser fácil de acreditar que simples migrantes pobres de um país em guerra reúnam as quantidades de dinheiro necessárias para fazer tão perigosa e longa viagem, mas que importa: o drama é televisionado.Tem sido vendido como um processo orgânico organizado pelos próprios migrantes, uma espécie de empreendedorismo orgânico com raízes populares…

A população alemã tem uma idade média de 46 anos. Pior, só o Japão. O céu é azul, o sol nasce e este admirável milagre surge: um influxo de um milhão de pessoas para aditivar a economia do império central alemão (e ajudar a baixar a média etária da população).

Provérbio alemão : Small saints too work miracles.

Provérbio alemão : Small saints too work miracles.

Qual é a posição dos restantes micro impérios europeus?

Os restantes micro impérios europeus ficaram surpresos com o descaramento económico aditivado dos alemães, especialmente a França e a Inglaterra dado que são uns dos principais criadores e incentivadores da confusão na síria.

Forçados pelas circunstancias decidiram, a contra gosto também receber umas gramas de aditivação económica (depois de, no caso inglês, terem inicialmente recusado…) e organizaram um sistema de quotas para distribuir as sobras do aditivo pelos restantes países que fazem parte do império central europeu.

Qual é a posição dos micro estados vassalos que fazem parte do Império central?

Os restantes micro estados vassalos dividem-se em duas categorias: os que estão em rota geográfica directa para a Alemanha e as republicas oligárquicas das bananas como Portugal.

Os que estão em rota directa ficaram furiosos com tudo isto e tentaram bloquear a passagem dos aditivos sírios por razões óbvias de custos próprios, segurança,diferenças fundamentais religiosas, etc.

A republica oligárquica das bananas vulgo Portugal pôs-se em bicos de pés e exige também capitalizar esta situação mostrando querer a sua parte (seja ela qual for). Que venham, dizem os corajosos portugueses, porque as elites portuguesas (entendidas no sentido mais depreciativo do termo) estão paralisadas de medo com a demografia portuguesa.

Criaram uma sociedade oligárquica e iníqua semelhante à anterior ditadura (as excepções são eleições com candidatos pré definidos e escolhidos pelas oligarquias e pouco mais) e agora admiram-se pelos resultados que criaram. Colocada em situação de incapacidade para conseguir obter rendimentos que lhe permitam encetar projectos de vida decentes, a maior parte da população tem que escolher não ter filhos ou emigrar.

Esta é a solução das elites oligárquicas que é a solução dos traidores abjectos: “importar activos”, prometer condições e postos de trabalho que não são oferecidos a quem cá está  e promover activamente a discriminação.

Porque é que esta ideia é imbecil?

A imbecilidade desta ideia é simples: integrar muçulmanos é algo de impossível.

Como se engana as populações com a ideia da importação de aditivos económicos humanos?

Por um lado afastam a contestação da população europeia a eles mesmos, tornando-se “úteis”. Importa-se um potencial perigo e a população europeia convence-se que precisa dos actuais políticos e dos actuais regimes sociais para os defender do perigo – estes migrantes.

Cria-se um problema artificial e depois oferece-se a “solução para o problema que se criou. O “problema económico interno” derivado de uma economia que não cresce será “resolvido“ chamando” migrantes e autorizando-os a virem.

Quais são as posições oficiais das tribos da esquerda política e da direita política?

Patéticas, demagógicas e oportunistas.

A tribo da esquerda política faz a sua demagogia costumeira afirmando que todos os que queiram vir devem vir e serem sustentados, hipocritamente sabendo bem que isso é impossível, mas assim colocam no “tribunal da opinião pública” preocupações táticas e estratégicas na outra tribo.

A tribo da direita política faz a sua demagogia costumeira manifestando-se compreensiva com a situação e prometendo aceitar emigrantes desde que com quotas estabelecidas e sendo despachados para todos os lados da Europa.Secretamente deseja imigração porque isso permite esmagar ordenados, e assim agradar à oligarquia empresarial que faz de proxeneta privilegiada da tribo da direita política e de protectora e ofertante de futuros lugares em “sítios”.

fertility rates - europe

https://rwer.wordpress.com/2015/09/07/european-fertility-the-real-population-problem/

A imagem mostra um dos verdadeiros problemas e o que está por detrás das ideias do império central alemão.Taxas de fertilidade em declínio desde os anos 60 na Alemanha.

A republica oligárquica das bananas vulgo Portugal está bem classificada. Considerando que temos sido assolados pela mais desastrosa oligarquia que alguma vez existiu e o trabalho de destruição da mesma tem séculos, não décadas, temos bons resultados demográficos. Ainda existimos.

Mas, mais uma vez, as soluções das elites são estas: em vez de se criar empregos, que ajudem a fomentar crescimento populacional, criam-se migrantes muçulmanos para virem para a Europa…

Quais são os resultados económicos e sociais desta política?

No Império central alemão o influxo de um milhão de aditivos irá baixar os seus próprios custos salariais e meter mais pressão sobre os seus cidadãos que agora terão tendência a sentirem-se distraídos pela migração e pela concorrência laboral que está traz e começarem a contestar a presença de migrantes deixando assim o governo alemão em paz provisória, noutros assuntos.

Na república oligárquica das bananas vulgo Portugal a linha é a mesma: baixar custos salariais, meter pressão sobre quem já trabalha levando as pessoas a aceitarem trabalhar por menos. (Isto num país com 30% de desemprego real é obra…)  No caso das aldeolas no interior do país que querem desesperadamente receber migrantes o objectivo é evitar que os caciques locais percam o rendimento ilegítimo que obtém devido a “falta de massa critica” para se continuar a sustentar certos locais deste país e certas formas de fazer as coisas.

Desemprego real 2015 Portugal

Quem são os migrantes demograficamente?

Segundo as estatísticas europeias, 2/3 são jovens solteiros entre os 18-36 anos.

Quando existe um problema de dívida e uma economia em declínio , eleva-se o numero e o valor dos bens em circulação( Pump up the assets). Pessoas jovens e saudáveis cujos governos de origem não tiveram tempo, disposição ou inclinação para as educar melhor, irão servir para reparar uma economia e uma sociedade em declínio.

Perverso? Nojento? Asqueroso? Lesivo da dignidade humana e da ética?

Claro que sim, mas este é o preço que pagamos por deixarmos as oligarquias movimentarem-se com relativo à vontade.

Grécia – os limites dos tiranos são percebidos pela resistência de quem é oprimido

“Power concedes nothing without demand. It never did and it never will. Find out just what people will submit to, and you have found out the exact amount of injustice and wrong which will be imposed upon them; and these will continue until they are resisted with either words or blows or both. The limits of tyrants are prescribed by the endurance of those whom they oppress.”

Thomas Paine

No campo, os agricultores de subsistência tem frangos que matam para vender aos conhecidos e familiares ou para consumo próprio. Quando o animal está gordo para abate è-lhe passada uma faca pelo pescoço e este é cortado. Durante alguns segundos o frango corre sem cabeça desnorteado em todas as direções.

grecia_REsta é a imagem que nos mostram as instituições europeias e os credores europeus em relação à Grécia: correm em todas as direções sem qualquer cabeça. O processo de funcionamento psicológico e político dos credores é incrivelmente estúpido. São um abismo negro que chupa tudo a sua volta sem quaisquer ponderação presente ou futura acerca das consequências para terceiros e para eles próprios.

Quando o abismo negro não é financeiramente alimentado a tempo e horas, começa a exigir comida financeira. Primeiro força a queda abrupta dos mercados financeiros.

Mercado financeiro em queda antes de começar a chupar recursos a países da periferia da Europa

Mercado financeiro em queda antes de começar a chupar recursos a países da periferia da Europa

Numa lógica de centro vs periferia, os países da periferia europeia são os primeiros a cair. Os seus mecanismos financeiros são exauridos, e deixados a definhar (segundo o jargão económico falta-lhes “liquidez”), e os seus bancos comerciais e demais instituições semelhantes são os primeiros a secar e a cair. Estão “na periferia” e por definição a periferia é a que está mais afastada do centro e como tal é a primeira a sofrer o embate.

Quando isto acontece, o dinheiro que existe na periferia procura sanctuário em igrejas financeiras do centro (segundo o jargão económico isto são “fugas de capitais”). Este dinheiro fica em sanctuário jurando eternas juras de amor financeiro ao centro, até à altura em que o abismo negro que quer alimento o chupar também, mas no entretanto, o pau vai e vem e as costas financeiras estão folgadas.

Em termos concretos a periferia fica demasiado fraca para resistir. Foi “chupada financeiramente” e está demasiado fraca economicamente. Então é-lhe feita uma colheita económica (segundo o jargão económico são “incentivos ao crescimento e ao emprego”) voltando-se a emprestar-lhe dinheiro para a salvar da situação, para a reestruturar e fazer reformas.

Em termos concretos cria-se uma divida cavalar e galopante devida a instituições estrangeiras. Esta divida vem com um peso para ser carregado: nunca poderá ser efectivamente paga (nem é esse o objectivo), mas antes existe para funcionar como mecanismo de CONTROLO e colheita de recursos (segundo o jargão económico trata-se de extrair “valor” ao cliente).

[In explaining the “true” nature of banking in the world] The IBBC is a bank. Their objective isn’t to control the conflict, it’s to control the debt that the conflict produces. You see, the real value of a conflict, the true value, is in the debt that it creates. You control the debt, you control everything. You find this upsetting, yes? But this is the very essence of the banking industry, to make us all, whether we be nations or individuals, slaves to debt.

The International 2009

Neste jogo de insiders e mecanismos pré definidos e que visam o controle de nações e povos, esta divida nunca poderá ser paga.  Contudo, são exigidas à periferia (segundo o jargão económico, “o cliente de novos mercados emergentes” ) pagamentos regulares, como condição a que as instituições do centro forneçam e assegurem a liquidez na periferia (segundo o jargão económico, “pagar pensões e pôr caixas ATM em funcionamento”). Como um idoso num lar de terceira idade, esta dependência financeira assistida é apresentada vendida como sendo absolutamente necessária para se continuar a financiar a periferia (nesta altura já toda a gente percebeu que é o cliente… ) e impedir que este entre mesmo em falência (deixe de pagar e ” mais importante” deixe de pedir emprestado para continuar a pagar”) e assim continuarem as caixas multibanco a funcionar, as luzes serem pagas, as compras feitas etc e a divida a entrar em valores exponenciais.

Pequenos problemas de somenos importância tais como os povos nunca serem idosos em lares de terceira idade, mas sim povos, são características que escapam ao frangos que correm sem cabeça, isto é, os credores…

Mercado financeiro do império europeu em queda antes de começar a chupar recursos a países da periferia da Europa

Mercado financeiro do império europeu em queda antes de começar a chupar recursos a países da periferia da Europa

A periferia, querendo pagar as dividas, mas impossibilitada de o fazer dado que o crescimento económico que a possibilitaria fazer isso foi ” rearranjado” para que não o possa fazer por meios normais e meios anormais, começa a privatizar as suas infraestruturas e empresas públicas. Para assim gerar “meios de pagar uma divida impagável”. Esta extorsão organizada (segundo o jargão económico, “a livre aquisição e troca de bens e serviços num mercado liberalizado cheios de concorrentes atomizados) está a ser feita a todos os países da periferia da Europa, menos Portugal, que é defendido por nossa Senhora, como se sabe, e pela sabedoria sabujice do nosso Governo.

De caminho, traidores da mesma nacionalidade do país que é alvo deste ataque económico, são estratégicamente colocados em ” lugares” para realizarem as necessárias ações de coação e propaganda para impor uma política de austeridade, para promoção do desmantelamento da economia e sociedade atacadas, para promover privatizações de tudo o que esteja à vista, para funcionar como garantia de que as dividas serão pagas  “contra garantia”.

Os resultados?

A periferia desmantela a sua sociedade, desagrega a sua viabilidade.

Os frangos que correm sem cabeça, isto é, os credores são geniais na sua estupidez. Pressionam exaustivamente ao ponto tal que se auto saturam psicologicamente e deixam de compreender o que estão a fazer e as consequências das suas ações. Desta forma os resultados pretendidos fazem ricochete.

Perante uma situação que pede uma negociação séria os credores e os seus procéres tem apenas uma táctica negocial.

Que é sempre a mesma.

Apresenta exigências impossíveis de realizar e espera que o outro lado negocial capitule. Quando o outro lado recusa capitular, aplica pressão extrema. Impõe sanções, utiliza as suas instituições financeiras como aríetes de ataque à moeda do pais atacado, complica e dilata transações financeiras, e em casos extremos apreende bens estrangeiros do pais ou zona com que está em confilto e espera a capitulação.

Em casos mais extremos e dependendo das potencias em questão bombardeamentos militares e invasões terrestres também podem ser usados. Normalmente costuma resultar, mas mesmo que não resulte, os credores continuam a pressionar e a utilizar a mesma táctica negocial.

Só param quando criarem um deserto e chamarem-lhe Paz.

Plunderers of the world, when nothing remains on the lands to which they have laid waste by wanton thievery, they search out across the seas. The wealth of another region excites their greed; and if it is weak, their lust for power as well.   Nothing from the rising to the setting of the sun is enough for them. Among all others only they are compelled to attack the poor as well as the rich. Robbery, rape, and slaughter they falsely call empire; and where they make a desert, they call it peace.”

Tacitus, Agricola

As sombras mudam de posição

O Verão costuma ser morto e este ano não foi excepção. Aproveitou-se o vazio noticioso para ir introduzindo temas relevantes que não tiveram de todo a atenção detalhada que mereciam. Foram apenas benevolamente comentados pelos suspeitos do costume que tudo fazem para mostrar a inevitabilidade e normalidade de falências bancárias, manobras de bastidores partidárias, estranhas relações entre público e privado e infindáveis cortes no nível de vida do cidadão. Haverá aqui algo de novo que mereça comentário? Vamos dar alguns passos atrás, para ganhar alguma distância crítica, e vamos dissecar a situação estratégica sem a distracção dos faits divers. O leitor será o juiz sobre o que realmente se passa com o seu país.

Alexander Litovchenko - Charon Carries Souls Across the River Styx

“É preciso dizer a verdade apenas a quem está disposto a ouvi-la” – Séneca

As falhas estratégicas da elite de poder não precisam de mais estudos aprofundados por parte de grandes académicos, porque, como em tudo na vida, a prova está sempre nos factos empíricos. E os factos são os seguintes: Portugal saiu de uma rota de convergência social e económica com o resto da União Europeia há pelo menos duas décadas; As instituições públicas e privadas são feudos (no verdadeiro sentido medieval da palavra) geridas com punho de ferro mas também com total inépcia por membros da elite ou do seu “secretariado” (vulgarmente designados de “gestores”); O mérito é uma palavra oca, não se traduz em qualquer recompensa no mundo real ao contrário do que os meios de comunicação fiéis ao regime querem fazer transparecer (no entanto o número de falências de empresários recentes – ou seja, pessoas que acreditaram no discurso oficial e colocaram a sua vida em jogo num qualquer investimento – não é sequer mencionada ou contabilizada); O empobrecimento generalizado há mais de uma década que deixou de ser um fenómeno ocasional ou temporário para se tornar sistemático e irrevogável; O sistema de troca de favores entre um circuito fechado de amigos e conhecidos foi, é e parece que continuará a ser a norma de funcionamento para obter seja o que for, falemos de “alta política”, uma empresa internacionalizada ou de uma junta de freguesia perdida no Portugal profundo. Estes são os factos. Não mudaram. O país é este. E como muitas famílias estão a descobrir, à medida que os seus rebentos acabam os seus estudos ou são obrigados a abandoná-los por incapacidade financeira, o elevador social está fechado para reparações por período e indeterminado.

“Num país bem governado a pobreza é algo que deve causar vergonha; num país mal governado a riqueza é algo que deve causar vergonha.” – Confúcio

“Num país bem governado a pobreza é algo que deve causar vergonha; num país mal governado a riqueza é algo que deve causar vergonha.” – Confúcio

Mas talvez haja algo a dizer. Alguns dos demagogos mais proeminentes ao serviço da elite de poder têm recentemente saído da sombra para voltar a comentar aqui e ali certos detalhes do que vai acontecendo. Parte do que este blogue e a Irmandade de Némesis andaram a dizer parece que se tornou óbvio para estes senhores – a solução prescrita não é a mesma mas falaremos disso mais á frente. Parecerá com certeza estranho a qualquer pessoa que comentadores profundamente integrados neste sistema tenham ganho uma consciência, compaixão ou empatia nos últimos meses. Obviamente que não se trata de qualquer sentimento de culpa ou de responsabilidade para com a população que atraiçoaram, por bem menos que as tradicionais trinta moedas de prata. A estratégia da elite parece estar em mudança. Devido em grande parte à sua incompetência crónica (e dado que se trata de um grupo praticamente endogâmico penso que não seria ir muito longe dizer que é genética) para gerir os seus próprios interesses a elite de poder criou um pequeno inferno neste país. Mas claro que nunca nenhum destes senhores feudais pensou que isto afectasse os seus próprios protegidos/afilhados/família ou que de forma alguma pudesse vir a ameaçar a sua predominância social ou mesmo, em alguns casos, sobrevivência. Esqueceram-se do resto do mundo. A sua visão tipicamente provinciana e saloia é de tal forma estreita que ignorou que eles não são os únicos protagonistas na política e economia mundial. Não passam de actores secundários, muitas vezes nem isso, e que os seus insignificantes objectivos e ambições são facilmente aniquilados por outras elites mais dinâmicas, competentes e com maior poder. Esta desvantagem intelectual é algo que não conseguem resolver sozinhos. Nem estão dispostos a deixar que alguém interfira no assunto. Antes de permitirem que alguém partilhe o leme do barco preferem que vá ao fundo. Como irónica e perspicazmente Napoleão terá comentado com o seu ministro dos negócios estrangeiros, Talleyrand, acerca da dinastia dos Bourbon: esta elite nada esquece e nada aprende. Por muitas viagens que façam a Londres, por muitos MBAs que tirem, por muitas compras que façam na Place Vendôme, por muitos brinquedos tecnológicos americanos que acumulem ou por muito que se tentem tapar com a última moda de Milão não conseguirão jamais deixar de ser o que sempre foram: merceeiros mesquinhos a quem falta qualquer tipo de visão estratégica quer para si quer para os que dominam através de coerção e medo.

“O rico comete uma injustiça e ainda se mostra altivo; o pobre é injustiçado e ainda precisa de se desculpar.” – Eclesiástico 13:3

“O rico comete uma injustiça e ainda se mostra altivo; o pobre é injustiçado e ainda precisa de se desculpar.” – Eclesiástico 13:3

Colocados em cheque na sua própria casa a elite de poder teve que começar um processo de reposicionamento dos seus peões. Confrontados com uma situação que começa rapidamente a fugir ao seu débil controlo começam a abandonar alguns dos seus aliados políticos tradicionais. Não deixarão de fazer os habituais negócios de renda garantida com o Estado ou colocar os rapazes das várias cores políticas como seus assessores e gestores, mas gradualmente deixarão a classe política assumir cada vez mais o peso moral das monstruosidades que vão fazendo. Dão instruções para que os seus agentes tomem posições algo mais críticas em relação aos erros de governação que entram pelos olhos dentro e que são impossíveis de vender à população como algo que não seja uma imposição hierárquica caprichosa. Em suma, estão a distanciar-se tacitamente. Assumem pela primeira vez, desde o seu regresso do exílio a que foram remetidos em 1974, que talvez o regime democrático, tal como o conhecemos, não sobreviva e querem estar numa posição mais cómoda para negociar com o que vier a seguir. A forma como a questão está a começar a ser posta perante a população é clássica. Escolher entre dois cenários convenientes e apresenta-los como as únicas alternativas viáveis, sabendo de antemão que ambos servirão de forma adequada os seus interesses.

“A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se se conseguir controlar o significado das palavras consegue-se controlar as pessoas que são obrigadas a usar as palavras” – Philip K. Dick

“A ferramenta básica para a manipulação da realidade é a manipulação das palavras. Se se conseguir controlar o significado das palavras consegue-se controlar as pessoas que são obrigadas a usar as palavras” – Philip K. Dick

O cenário preferível é o que vivemos já actualmente e aposta acima de tudo num certo grau de continuação da passividade popular. Manifestação à porta do ministério A, protesto junto à Câmara Municipal B, greve na empresa C, etc. Tudo somado dá em nada. Prossegue o processo de transformação de Portugal num país de terceiro mundo dentro da União Europeia que presta tributo (uso a expressão literalmente) a Berlim sobre a forma de um juro perpétuo de uma dívida que nunca poderá ser saldada através das instituições Europeias e bancárias. O segundo cenário é algo mais complicado mas ainda assim desejável do ponto de vista da elite de poder. Trata-se de deixar que o regime se consuma a si mesmo. Sem nunca se colocar como uma oposição clara mas permitindo que a classe política leve as coisas até ao ponto de rotura. Nesse momento será apresentado o seu homem providencial que implorará em lágrimas que o deixemos impor ordem na casa, a bem da nação – de forma generosa, exigirá apenas a nossa abdicação dos poucos direitos e liberdades de que ainda dispomos. O risco neste caso é fácil de entender. Qualquer regime que entre em fase terminal perde o controlo sobre os seus próprios meios e é complicado conseguir prever quem sairá vencedor de qualquer conflito que deste género. Há uma possibilidade séria de o resultado não ser o desejado. Mas tal possibilidade pode ser contrabalançada. A nível interno com o apoio dos meios de comunicação leais aos seus empregadores e com doses generosas de financiamento que outros pretendentes menos cooperantes não irão dispor. E a nível externo não é segredo que a UE segrega do seu centro uma certa dose de “racismo” cultural face aos estados do Sul e que do seu ponto de vista um regime “musculado” pode ser visto como mal menor para lidar com os “bárbaros” e “irresponsáveis” desde que não afecte os seus planos a longo termo ou equilíbrios regionais. Seja qual for a escolha “livre” dos portugueses o que será inaceitável para a elite (e como tal nem é colocado como hipótese) é que a população se autonomize face aos seus interesses, que os senhores feudais sejam expulsos dos seus castelos.

“Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal.” – Maquiavel

“Nunca foi sensata a decisão de causar desespero nos homens, pois quem não espera o bem não teme o mal.” – Maquiavel

Os testes iniciais de aceitação destes cenários já começaram há muito tempo. As reacções iniciais foram extremamente negativas junto do público geral, daí o seu adiamento até este momento. Mas o tempo e a pobreza desgastam e tornam o que não seria contemplável em algo possível e eventualmente em algo que seja visto como um mal menor ou mesmo necessário. O tempo de cenários hipotéticos acabou. As hipóteses já foram postas em cima da mesa em muitos círculos e já começam a ter a sua fase inicial de divulgação às massas em forma de pensamento coerente. É um processo em marcha. O tempo e o serviço dos mercenários intelectuais irá cristalizar e tentar enobrecer estas tácticas de perpetuação de dominação. Caberá, como sempre coube, aos cidadãos saberem resistir, defender-se e reconquistar o que é deles por direito. São os cidadãos que têm que gritar com convicção “Roma não paga a traidores!”.

O Enclave está com os cidadãos.

A Irmandade de Némesis está com os cidadãos

Proposta de abolição constitucional

Resumindo a situação:

– Não existência de maioria parlamentar para reformar ou abolir a constituição.

– A não existência de um poder legislativo independente – verdade que não é culpa deles, já que os poderes executivos e legislativos derivam da mesma eleição.

Não existência de vontade popular no sentido de apoiar em votos a reforma ou abolição da constituição.

Proposta do PSD:

– A não existência de constituição. Que desapareça a figura do documento rígido, não sujeito de ser adaptado aos desejos de governos estrangeiros e os seus respectivos gabinetes de gestão de ocupação.

– A não existência, óbvia, de um órgão fiscalizador do documento constitucional já que dada a sua total flexibilidade não faria sentido nenhum, quando alguém diz para alterar, altera-se. Tão simples como isso.

– Em caso de dificuldade recorrer à figura do chefe de estado para ganhar alguma legitimidade para o que ser fazer.

E neste último ponto é que está a chave meus caros. Os portugueses pedem muito a intervenção do Presidente da Republica mas como, quase, sempre não sabem muito o que querem dizer com isso. O presidente é o sustentáculo moral deste governo. Foi o criador deste governo através de uma crise que ajudou a magnificar quando tal lhe foi conveniente. Foi o primeiro a propor que se abolisse ou reformasse profundamente a constituição de forma a transformá-la mais num memorando de trabalho ministerial que numa carta de direitos e garantias básicas da população portuguesa. Em última análise é o único que, fora um acordo largo no parlamento, que tem poder para significativamente alterar a aplicação da constituição. Nomeadamente através da sua suspensão se faltar qualquer outro acordo e ele, a título pessoal, o julgar necessário. Sim é verdade que estarão previstas legalmente situações muito específicas para as garantias constitucionais serem suspensas mas, como o regime já nos provou, quando algo não agrada é substituído e as regras são de aplicação inconstante. Além das razões óbvias, sem um tribunal constitucional activo (ou fragilizado por medidas governamentais e presidenciais), a existência uma maioria parlamentar fanatizada e um Conselho de Estado na sua maioria cúmplice, quem irá pedir uma análise dessa suspensão constitucional ou de forma mais interessante quem a iria executar? Portanto Portugal que grite pela intervenção do chefe de estado, que clame nas ruas para este sair da sua inacção mas depois não se esqueçam de quem ele é, do que criou e dos seus desejos de longo prazo há muito expressos.

"No freeman shall be taken, imprisoned, or in any other way destroyed, except by the lawful judgement of his peers."

“No freeman shall be taken, imprisoned, or in any other way destroyed, except by the lawful judgement of his peers.”

Mesmo em caso de “mera” substituição da constituição por outro documento o governo sabe não ter o mínimo de popularidade ou credibilidade para conseguir aprovar tal documento por via parlamentar ou por via de um plebiscito. Logo a única alternativa seria uma suspensão alargada (até a “crise” ser resolvida – lembram-me de há uns anos Manuela Ferreira leite ter falado no mesmo? Isto prova que existe uma corrente de pensamento muito presente influente dentro do partido) tendo como único “entrave” a vontade do chefe de estado. A última vez que tivemos um modelo parecido foi em 1906 pelas mãos de João Franco, outro político que fez escola nos partidos caciquistas e rotativistas da monarquia liberal mas se dizia “independente” e “reformista” e o monarca era Carlos I – que pela sua atitude de indiferença para com o país e prepotência governamental foi morto em praça pública num dos poucos regicídios da nossa história. O sistema tinha um nome, governo por decreto. O ditador (e era esse o cargo de João Franco – era uma altura que ainda se chamavam as coisas pelo nome) propunha legislação ou medidas punitivas conforme o seu gabinete achava desejável e estas eram postas sob o “rigoroso escrutínio” de um rei mais interessado na caça e na sua vida sexual que no país. No século XX a ditadura administrativa de João Franco não chegou a durar 2 anos completos mas só acabou devido à morte do homem que sustentava o regime, Carlos I. O seu filho, por medo ou manobra política, optou pelo caminho da tentativa de absorção e castração política dos movimentos dissidentes. Falhou porque claramente o abismo que separava o país católico e monárquico do país republicano e liberal já era intransponível.

Presos políticos por ordem de João Franco - mas claro, apenas até a situação estar normalizada. Mais depressa caiu a sua ditadura que ele conseguiu "normalizar" qualquer situação política, económica ou social.

Presos políticos por ordem de João Franco – mas claro, apenas até a situação estar normalizada. Mais depressa caiu a sua ditadura que ele conseguiu “normalizar” qualquer situação política, económica ou social.

Num regime como o nosso, que talvez ja tenha conseguido igualar a monarquia liberal na sua ineficiência nas relações internas (estado) e externas (estado e privados) e que talvez possua o edifício legal mais bizantino que já tivemos torna-se complicado saber onde este caminho nos poderia levar. Um governo sem qualquer documento fundador ou guia? Sustentado apenas pela sua própria vontade de poder, inépcia governativa, regado com eleições presidenciais de 5 em 5 anos e mantido o resto do tempo pela pressão constante dos “credores” que funcionariam como uma espécie de Conselho de Regência? Talvez seja este o resultado de nunca se ter feito uma verdadeira reforma política em Portugal há mais de um século. Os monárquicos “transformaram-se” em republicanos, que por sua vez se “transformaram” em Salazaristas que finalmente se “transformaram” em democratas. Todos são tudo e ninguém é verdadeiramente nada. Talvez seja isto que um país carcomido por elites monárquicas no armário se pareça. Aproximações constantes a um período idealizado sem qualquer atenção ao momento histórico, à população ou à própria decência política.