Referendos, mártires e monstros

A Europa acordou algo chocada – dentro do que é possível para uma opinião pública massificada, estupidificada e brutalizada – com o assassinato de uma política britânica, nada mais que um membro do Parlamento Inglês. O retrato que nos está a ser apresentado não podia ser mais dado a simplificações. A vítima era uma defensora dos direitos humanos, pró-emigração, politicamente reformista e fazia campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia. O seu assassino é membro de organizações racistas e violentas, condenáveis sobre todos os pontos de vista. Num referendo que se parecia inclinar cada vez para o isolacionismo britânico as coisas podem estar prestes a mudar.

UK e UEMas recuemos um pouco. Este referendo tem uma longa história que convém ser explicada. O Reino Unido sempre se viu com uma nação (e anteriormente Império) extra-europeu. Era uma potência que durante todo o seu apogeu só teve uma única política para o continente: impedir a formação de uma grande potência continental – lutou contra a Espanha e a França para tentar impedir a união dinástica das duas coroas e reforçar o seu poder comercial na guerra de sucessão espanhola (1702-1714), lutou com a França, Holanda e Áustria contra a Espanha na guerra da quadrupla aliança (1718-1720) para impedir o crescimento territorial espanhol em Itália , combateu com a Prússia e Portugal contra a Espanha e a França na guerra dos sete anos (1756-1763) para obter ganhos coloniais e enfraquecimento dos impérios coloniais rivais, criou uma coligação poderes reaccionários (Áustria, Portugal, Prússia, Espanha…) para combater a França, (quer enquanto República quer enquanto Império) nas guerras revolucionárias e napoleónicas (1793-1815), incentivou e armou os nacionalistas gregos para separar a província de um Império Otomano decadente (1820-1830), interferiu na política interna dos reinos de Portugal (1828-1834) e Espanha (primeira guerra carlista de 1833-1840) ao apoiar as facções liberais de forma a “clonar” o seu próprio regime parlamentar e forçar relações de dívida perene das duas coroas perante a banca inglesa. A lista é interminável. Não há qualquer indicio de uma ideologia que guie tal variedade de opiniões e acções e isto é explicado por um pragmatismo brutal desprovido de crenças dedicado a assegurar apenas uma coisa:  uma Europa fragmentada.

Mesmo em tempos mais recentes (e mais pacíficos) temos que compreender que a sua entrada na Comunidade Europeia foi apenas para assegurar o seu lugar à mesa e tentar com que a evolução do colosso embrionário europeu fosse orientada para uma lógica de mercado livre e desregulamentado – o que revelou ser um enorme sucesso dado o que se passou nas 3 décadas seguintes. Nunca em momento algum houve um grande interesse por uma cultura comum com o resto da europa ocidental. O Reino Unido sempre se viu, e ainda vê, como uma excepção política e cultural. A sua pertença à comunidade foi usada como forma de salvar o poder financeiro da nação tendo transformado a city de Londres no segundo maior polo financeiro do mundo (depois de Nova York). Foi uma escolha deliberada dos governos conservadores do Reino Unido dar prioridade ao sector financeiro em detrimento da economia real. Os governos trabalhistas que se seguiram reforçaram essa escolha e abriram caminho para o desastre económico que aflige a nação, com níveis de pobreza jamais vistos. Mesmo assim o novo governo conservador manteve exactamente as mesmas escolhas, infligindo ao seu povo a mesma receita que as elites portuguesas adoptaram por cá: tornar o estado uma máquina de propagação da teoria de sobrevivência dos mais fortes e abandono total de qualquer responsabilidade social, económica ou política – a famosa austeridade que se dizia ser uma força de destruição criativa mas só deixou cinzas no seu rasto.

“The forces which are working out the great scheme of perfect happiness, taking no account of incidental suffering, exterminate such sections of mankind as stand in their way, with the same sternness that they exterminate beasts of prey and herds of useless ruminants.” - Herbert Spencer

“The forces which are working out the great scheme of perfect happiness, taking no account of incidental suffering, exterminate such sections of mankind as stand in their way, with the same sternness that they exterminate beasts of prey and herds of useless ruminants.” – Herbert Spencer

É neste contexto que surge um referendo sobre a União Europeia. Um país que já não é um Império e não sabe como lidar com uma nova realidade. Um povo que se sente completamente à margem de Bruxelas e das decisões que lá são tomadas. Uma economia refém de interesses financeiros internacionais de natureza especulativa. Um interior que se ressente profundamente de Londres que vê como um sorvedouro de dinheiro, cultura e poder. Neste ambiente a propaganda agita as multidões. Ecos imperais ainda se fazem ouvir em muitos que não querem aceitar o novo status quo. As tensões de classe, que pareciam ser coisa do passado, voltam a sentir-se e os ingleses percebem que as divisões socio-económicas só se podem agravar continuando tudo como está – daí o magnânimo desprezo que têm dado às expressões de desejo de continuidade na UE manifestadas por representantes da elite (personagens mediáticas, grandes executivos de firmas financeiras multinacionais, a maioria dos políticos mainstream, a crème de la crème do mundo académico exemplificada por Oxford e Cambridge…). Não é um fenómeno limitado a marginais, psicopatas e foras da lei. É uma reacção espontânea, fruto de um mal-estar profundo numa sociedade ocidental esgotada. É algo que pode acontecer noutro lado qualquer na Europa. E isso cria medo nas elites. Medo de perderem o controlo dos mecanismos que asseguram o seu poder. Medo que sejam reintroduzidas medidas de fiscalização popular de todo o edifício legal e económico que os mantém no topo da pirâmide. Medo que contas sejam ajustadas.

"As it turns out, we don't "all" have to pay our debts. Only some of us do." - David Graeber  ps: parabéns a quem souber "ler" a foto.

“As it turns out, we don’t “all” have to pay our debts. Only some of us do.” – David Graeber
ps: parabéns a quem souber “ler” a foto.

Mas agora tudo isso vai provavelmente ser varrido para debaixo do tapete. Este homicídio marca senão o fim do debate no Reino Unido (pode ser já demasiado tarde para inverter a tendência de secessão) pelo menos o fim do debate no resto da Europa. As posições a favor da continuação na União terão agora a bênção dos céus pelo sangue derramado pela mártir, qualquer questionamento das suas intenções e interesses será ignorado ou sofrerá acusações concordar com o autor do crime – uma espécie de crime por associação intelectual. A parte racional do eleitor vai ser desligada. Não porque ele escolha fazê-lo mas porque é essa a natureza da propaganda. Pega-se numa situação insustentável cheia de zonas cinzentas de incerteza e substitui-se por uma escolha moral a preto e branco. És dos bons ou dos maus? A escolha passa a ser simples e todos podemos voltar à nossa rotina de decadência lenta mas inexorável.

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