Contemplação como realidade

Na nossa sociedade moderna há uma notável aversão á introspecção pessoal. Vivemos de tal forma absorvidos pela nossa realidade social que nos esquecemos que em última análise somos mais do que a soma das nossas interacções com outras pessoas ou com objectos. Esta habituação social induz muitas vezes o erro de atribuir a causalidade das nossas acções a terceiros, em particular pessoas colectivas (estados, empresas, igrejas, clubes, etc). E claro que ninguém poderá, em boa fé, negar o extraordinário poder que estas pessoas colectivas exercem nas nossas realidades mas é preciso lembrarmo-nos que existe um campo de acção e contemplação que é apenas e só nosso, individual e não partilhável. Ou seja existe um espaço nas nossas vidas que apenas nós podemos preencher e perguntas a que apenas nós podemos responder. Depois de admitirmos que temos uma esfera que é apenas nossa torna-se necessário enterrar, de uma vez por todas, o mito que esse espaço e essas perguntas são apenas curiosidades intelectuais para quem tem tempo ou recursos. Antes pelo contrário são esses dois elementos, e a forma como lidamos com eles, que produzem quem somos realmente, geram o nosso verdadeiro “eu”.´

"Each of us assumes everyone else knows what HE is doing. They all assume we know what WE are doing. We don't...Nothing is going on and nobody knows what it is. Nobody is concealing anything except the fact that he does not understand anything anymore and wishes he could go home." - Philip K. Dick

“Each of us assumes everyone else knows what HE is doing. They all assume we know what WE are doing. We don’t…Nothing is going on and nobody knows what it is. Nobody is concealing anything except the fact that he does not understand anything anymore and wishes he could go home.” – Philip K. Dick

A hostilidade declarada que muitos têm ao conceito de interioridade, perpetuada durante anos ou décadas, leva a uma mentalidade de irresponsabilidade e inconsequência já que quem acredita que nada do que acontece depende das suas acções ou escolhas tem poucos incentivos a assumir compromissos – muitos chegam ao extremo de negar que possuam qualquer tipo de escolha, descrevendo a sua realidade como apenas experienciando o que outros criam. Torna-se assim clara a “genealogia” da ideia de impotência e da projecção dos nossos sonhos e esperanças em terceiros. Começamos a entender porque é que necessariamente a esfera política é incapaz de satisfazer as ambições de tantos cidadãos. A política, tal como a praticamos actualmente, assenta sobre a negação do individuo, da sua abdicação de poder pessoal e a sua transmissão a uma entidade mais ou menos abstracta (partido político, facção, ideologia, etc) a troco de uma promessa de realizar aquilo que cada um de nós espera. Será este mecanismo inerentemente perverso? Não necessariamente. Numa democracia representativa saudável este processo serve um propósito honesto e honrado, atingir compromissos em questões abrangentes que nenhum individuo pode esperar resolver sozinho. Ou seja, num sistema representativo saudável estamos perante uma transmissão de poder revogável, pontual e limitada. O problema surge quando a transmissão de poder se torna absoluta quer em termos de tempo ou âmbito. O caminho de todos os abusos começa com a asserção de intemporalidade do poder transmitido ou com a criação de um âmbito “total” que, por teoricamente representar o poder transmitido de todos os cidadãos, não conhece limites.

O Homem sem vida interiorSe isto é verdade qual o porquê da insistência dos cidadãos na exclusividade de soluções colectivas irreflectidas? Em boa parte porque há um grau de absolvição moral que pode ser encontrado num sistema anónimo e que não responde bem às aspirações dos indivíduos. Se as coisas correrem mal a culpa não será minha enquanto individuo porque eu não consigo influenciar o funcionamento de organizações complexas muito além do meu nível de poder. Isso de alguma forma liberta o individuo, que passa a abandonar todas as suas responsabilidade enquanto ser humano porque teoricamente cumpriu o seu dever cívico. Deixa de ser necessário comtemplar o nosso interior e analisar a nossa posição e podemos começar a encarar o “outro” com um mero objecto com o qual interagimos – algo que nega a dignidade quer do objectificador quer do objectificado. Ao descarregar as nossas dúvidas, preocupações e obrigações num sistema que sabemos que não pode responder às nossas necessidades estamos a dar-nos licença para nos abstrairmos da realidade, para nos abstrairmos de nós próprios. É nesta altura, em que abandonámos o nosso “eu” real, que todas as nossas actividades se transformam em escapes pouco saudáveis. A procura bem-estar material degenera numa fome que não pode nunca ser satisfeita, o prazer transforma-se em algo que não é apreciado mas procurado de forma compulsiva, a crítica transforma-se num processo meramente destrutivo (um fim em si mesmo e não uma ferramenta) e o apoio aos outros algo meramente pontual para satisfazer uma consciência profundamente culpada. E tudo isto porque negámos a nossa interioridade. Porque nos recusámos a parar e desligar um pouco do mundo para reflectir e comtemplar as perguntas base de qualquer corrente filosófica digna desse nome: o que somos, onde estamos, quem somos e o que devemos fazer.

“... it’s just business, it’s politics, it’s the way of the world, it’s a tough life and that it’s nothing personal. Well, fuck them. Make it personal." - Richard K. Morgan

“… it’s just business, it’s politics, it’s the way of the world, it’s a tough life and that it’s nothing personal.
Well, fuck them.
Make it personal.” – Richard K. Morgan

É preciso voltar a abraçar a ideia que aquilo que somos não é reflectido apenas pelas nossas lealdades sociais (e como tal exteriores a nós próprios). Somos essencialmente definidos pelas respostas que damos a questões muito básicas e pelas acções que essas respostas geram. E não falamos aqui de respostas no molde político tradicional. Não se trata de nos diluirmos a nós próprios dentro do grupo A ou B mas sim das acções e escolhas que estão dentro do nosso campo de acção individual, aquele que é apenas nosso, que reflecte a nossa dignidade e que ninguém nos pode tirar. É aí que jaz a nossa essência e tal essência só pode ser perdida ou abandonada de forma voluntária. É isso que fazemos quando nos recusamos a contemplar e a agir, negamo-nos a nós mesmos.

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6 thoughts on “Contemplação como realidade

  1. Irmão Harmódio.

    “O problema surge quando a transmissão de poder se torna absoluta quer em termos de tempo ou âmbito.”

    Esta é a definição verdadeira do problema.
    O cidadão português, por culpa própria e induzido por factores exteriores a si mesmo que o condicionam fortemente tem aceite a hegemonia de um sistema de transmissão de poder que o prejudica com enormes danos e ajuda a prejudicar terceiros compatriotas que estejam em acto de recusa desta forma de estar.

    E o que temos como amostra visual desta sociedade é uma guerra civil subterrânea entre cidadãos que, na sua maioria numérica, deveriam já ter entendido que os seus interesses pessoais, quer os olhemos como indivíduos em introspecção, quer os olhemos como membros “hedonistas” da sociedade, estão, em ambos, os casos a serem negados pela artes negras que subjugam esta sociedade.

    Por culpa própria e indução exterior, escolheram abandonar o caminho da introspecção sendo prometido como compensação o acordo faustiano do consumo material.

    Chegámos ao tempo em que ambos são inexistentes para o comum dos cidadãos.
    As artes negras prometeram o que não tinham para dar e destruíram o que existia.

    A Irmandade de Némesis recusa permitir isso.

    Cito partes da nossa declaração de missão.

    “A Irmandade de Némesis foi fundada por dissidentes do actual regime político, social e económico que não revêem na brutalidade e indiferença que este demonstra para com o seu próprio povo nem consideram honroso a adopção de uma indiferença permissiva perante o que acontece. Ansiamos pelo renascimento de uma verdadeira Pólis, de uma cultura cidadã plena.”

    “Trabalharemos incansavelmente, até ao último irmão, para conservar aquilo que que de bom existe. Para reconstruir o que já não existe. Para criar o que deveria existir. Tudo para manter viva a chama de uma cultura e civilização dignas desse nome, que os cidadãos sintam de novo orgulho em fazer parte.”

  2. Tenho muita dificuldade em acreditar que haja algum tipo de escolha nas acções das pessoas, falo da escolha efectiva e não da aparência da mesma.

    Será que a democracia representativa assegura o controlo, por parte do individuo, de todas as suas dimensões?

    A absolvição moral é uma realidade, haverá sempre razões materiais para que esta exista, os acontecimentos e as circunstâncias ditam esta inerência.

    Por vezes tenho a sensação que as pessoas não querem resolver absolutamente nada e a forma fácil do fazer é arranjarem um responsável para as coisas que estão erradas.

    A liberdade de alguém ou a individualidade desse mesmo alguém nunca é legitima se tiver por base a opressão ou a aniquilação do outro, esta noção parece-me elementar.

  3. Irmão Ateredominatus,

    Estamos num conflito subterrâneo porque as pessoas o desejam, ou pelo menos não aparentam querer reencontrar a sua interioridade (e consequentemente reencontrar o “outro”). Sem esse passo o resto é fachada, não há movimentos políticos e económicos que o possam substituir. Daí ser isso que se exige como mínimo para todos os membros Irmandade de Némesis.

  4. Caro anónimo,

    Como digo no texto é óbvio que em grande medida somos determinados pelo que existe à nossa volta e por vontades mais poderosas que as nossas mas em última análise ou se defende a existência de um espaço “sagrado” pessoal (seja isto entendido de uma forma religiosa ou como parte de uma filosofia totalmente secular, não há diferença) ou então submete-se o indivíduo aos ditames absolutos de quem detém poder. A Irmandade recusa esse niilismo disfarçado e não se entrega ao puro desespero, quer colectivamente quer ao nível de cada Irmão e Irmã.

    O facto das pessoas não quererem resolver nada reflecte precisamente a busca da tal absolvição moral porque o não fazer nada trás consigo um sentimento de culpa inegável, é isso que as pessoas procuram apagar da forma errada em vez de lidar com o que está subjacente a essa culpa. Tudo isto deveria ser óbvio mas por constatação empírica não é óbvio para a maioria das pessoas. Foi por verdades tão simples estarem a ser esquecidas e abandonadas que se criou a Irmandade de Némesis, para evitar esta degeneração e submissão que no fim nos vai devorar a todos se nada for feito.

  5. Gostei do seu post.

    Julgo que talvez se possa introduzir mais tensão, ou seja, que a deslocação de responsabilidades individuais para o Estado poderá ter de ser compatível com a cultura do espaço individual de que fala.

    Dando um exemplo: a meu ver é preferível a prevalência de um mecanismo Estatal anónimo de assistência social do que a assistência pessoal, cara a cara, precisamente para que o indivíduo caído em necessidade possa preservar a sua autonomia perante o que lhe presta auxílio. Com isto não defendo que não haja a assistência privada e mais personalizada à pobreza mas sim que este domínio seja efectivamente voluntário – e não digo para os que nelas trabalham mas para os que delas precisem.

  6. Caro João,

    Eu penso que não há nada de incompatível entre existir um espaço individual e entregar algumas responsabilidades ao Estado. Antes pelo contrário. É a existência do Estado (e dos seus serviços) que muitas vezes torna possível senão a existência pelo menos uma manifestação mais visível dessa esfera pessoal porque autonomiza o indivíduo face aos grupos sociais que reclamam a sua obediência.

    Até historicamente somos capazes de identificar este processo seguindo a formação de estados e máquinas governamentais que levaram a que o individuo não estivesse completamente dependente da aprovação do seu clã/famíla, cidade, seita, partido, etc.

    Indo de encontro ao exemplo que deu posso dizer que falo por toda a Irmandade Némesis quando afirmo que consideramos vil qualquer tentativa de acorrentar qualquer pessoa a grupos sociais ou ideológicos através do controlo sobre a sua miséria – se ler o que fomos escrevendo noutros posts poderá constatar isso mesmo. Aliás, tais tentativas (e temos tantos exemplos disso nesse país) partem sempre de grupos que odeiam não poder negar de forma total e completa a dignidade dos que não pertencem à casta “certa”. Odeiam precisamente a existência de uma esfera de pensamento e acção que não tenha que passar pelo seu crivo.

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