Pequenas perguntas

Ao longo do tempo há pequenas perguntas que começam a “incomodar” ou a ficar presas, qual pedra no sapato, na nossa mente e às quais não conseguimos dar um enquadramento lógico que nos satisfaça plenamente. Começamos a pensar sobre o tema e ao fim de alguma leitura, debate e pensamento sobre o tema começamos a ouvir uma voz interna a dizer: “porque estás a fazer isto tudo”? Quanto maior a base de conhecimento menor será o grau de integração social (não interessa tanto o nível económico – apesar de ajudar ou facilitar claro – como o sentimento interno da pessoa, se ela se sente parte do todo, se consegue uma identificação emocional com “a coisa”) e mais vezes este tipo de pergunta interna irá surgir.

“Any fool can know. The point is to understand.”

“Any fool can know. The point is to understand.”

Para mim há uma lista delas que ao longo dos anos fazem as suas rondas habituais na minha mente sem que nunca tenha conseguido obter uma resposta que me diga algo (a um nível existencial se quisermos colocar a coisa assim). E a primeira delas é o acto de votar. Eu compreendo, e sei melhor que muitos, a história do liberalismo português (no seu sentido europeu e único: autonomização do individuo face aos grupos sociais, seja a coroa, o patrão, a religião a cidade, o bairro, o clã, etc) mas depois de uma breve admiração pelos esforços que outros desenvolveram em seu (e inconscientemente) e em meu nome fica o vazio. Porque haveria de votar? Porque haveria sequer de me preocupar com as tricas internas que passam por “notícias” nos órgãos de informação comerciais e politizados? O que significa para mim que um ou outro governe (tirando casos aberrantes de ameaça de liberdades fundamentais, mas nesse caso penso que poderíamos considerar mais como situações de autodefesa eleitoral do que como um voto ponderado)? Eu não como da mão de nenhum deles por isso à partida nada ganho em qualquer apoio. Não acredito por um momento na sinceridade de nenhum deles por isso sei que são todos igualmente ocos. Já vivi o suficiente para a ver a corrupção de todos eles triunfar sobre pessoas boas ou ingénuas que nada fizeram para o merecer, por isso, porque haveria de ajudar a dar esse tipo de poder a qualquer um deles?

"Greed is a bottomless pit which exhausts the person in an endless effort to satisfy the need without ever reaching satisfaction"

“Greed is a bottomless pit which exhausts the person in an endless effort to satisfy the need without ever reaching satisfaction”

Uma das minhas grandes desilusões é não ser anarquista. Isso facilitaria imenso as coisas. Passar um selo de borracha sobre toda a teoria institucional e mandar tudo às urtigas. Mas, mais uma vez, tenho experiência pessoal suficiente para saber que o anarquismo é uma fuga do inevitável. Da natureza humana. Que anseia por hierarquia (menos pesada e menos visível é o que tem estado na moda nas últimas décadas mas, como na roupa, estas coisas são cíclicas) e por ganho pessoal. Mais que isso, apesar do misantropismo sei reconhecer que há indivíduos, aqui e ali extremamente isolados, cortados de outra cepa. Para quem uma oportunidade numa posição de organização seria uma dádiva dos deuses a todos nós – apesar simultaneamente ser obrigado a reconhecer a improbabilidade que tais indivíduos vão muito longe nas hierarquias partidárias e corporativas. Há demasiados acordos a fazer, demasiadas coisas a comprometer, demasiado que fica pelo caminho. Até que, para aquelas que decidem entrar no jogo para “mudar as coisas por dentro”, sobra apenas mais um esqueleto ético, igual aos outros que enchem os partidos, os órgãos do estado, as chefias e cargos médios das empresas. Autênticos abismos niilistas andantes. Talvez os gregos tivessem alguma razão (limitada pelo seu próprio isolamento) quando falavam de gerações decrescentes. À era o do ouro seguir-se-á a de prata e depois a de bronze (continuando a sequência até a uma degradação final e, talvez, renovação) e talvez assim entendamos porque muitos dos dignatários serão incapazes de cumprir as funções, básicas, que os seus antecessores lhes encarregaram.

"E a última é a do duro ferro. De súbito, todo o acto nefando irrompe nesta idade de metal menos valioso. Fugiram o pudor, a sinceridade, a  lealdade, e, no lugar destes, sucederam-se-lhes o logro e a traição, e as insídas e a violência,e a criminosa paixão por possuir."

“E a última é a do duro ferro. De súbito, todo o acto nefando irrompe nesta idade de metal menos valioso. Fugiram o pudor, a sinceridade, a lealdade, e, no lugar destes, sucederam-se-lhes o logro e a traição, e as insídas e a violência,e a criminosa paixão por possuir.”

Portanto fica a questão, para quem ainda se interessar não pelas pessoas, não pelos eventos mas pelas ideias: Porquê, dado tudo isto votar? Que bem ético atingimos? Que serviço cumprimos? Qual o objectivo pragmático que é servido?

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9 thoughts on “Pequenas perguntas

    • No actual estado de coisas eu discordo. O problema é votar. O que me interessa um “contra-poder” que é apenas um “poder” à espera da sua janela de oportunidade? As estruturas partidárias e os mecanismos de selecção e recompensa internos são os mesmos, seja de um partido com 40% de votos seja de um com 8%.

      • Não concordo. Quando um poder cai e outro entra, é um sistema (paradigma) que é mudado e tudo é revisto e posto em causa, mesmo que o novo paradigma venha a ser pior… faz parte do risco de viver. Acomodar-mo-nos é ficar parado, e morrer. Foi assim com todas a revoluções e a História mostra que apesar dos avanços e recuos civilizacionais, a Humanidade progrediu para melhor no seu conjunto (positivismo).

      • Quero esclarecer que contra-poder são todos os outros partidos que não os do arco governativo, pois estes querem que o “status quo” se mantenha – é mais do mesmo!

      • Sabe LJ, não foi acaso que usei as aspas para descrever “contrapoder” 🙂 Numa mudança de paradigma real isso pode de facto acontecer (sublinho: pode) mas (e é um “mas” do tamanho da Rússia) o sistema eleitoral vigente não é uma forma de criar rotura mas sim uma ferramenta para a evitar – todo o sistema visa continuidade independentemente da sua utilidade ter acabado ou não. A sua manutenção sobre várias formas visa essencialmente absorver energias dissidentes em projectos mais ou menos fúteis.

        Queria repetir (porque nunca é demasiado nos tempos que correm) que em Portugal não estamos verdadeiramente perante uma oposição sistémica. O que temos é o actual regime partidário que governa (o que se chama arco governativo) e depois uma “loyal opposition” (todos os outros) que aceita o seu lugar subalterno sabendo que isso lhe vale uma fatia (menor claro) do bolo. E disto, garanto eu, não é do que são feitas revoluções.

        Percebo a corrente positivista e dialéctica no seu pensamento e lógica mas Hegel além de estar errado quanto a um destino histórico não passava de um cortesão prussiano cujo objectivo era narrar as glórias por vir do seu amo e como tal todas as derivas que dele originam (e são muitas) devem ser interpretadas com um grão de sal. Não há nada mais perigoso que pensar que o futuro será inevitavelmente melhor, ou que a justiça tem uma força superior à dos homens que a escolhem defender, cria complacência.

    • Tive o cuidado de diferenciar entre a integração social entendida como sucesso material e aquela que é genuína, que abarca a comunidade num sentimento e vivência de pertença. E penso que será um processo normal que quando se vê os cordéis das marionetas se perca o sentido “mágico” do espectáculo, só se percepcionam relações causa-efeito. O que leva a um inevitável afastamento, pois o mito morreu, neste caso político, ou saiu pelo menos seriamente abalado.

      Se a memória não me atraiçoa já os gregos (parece que andamos sempre á volta deles não é?) tinham intuído esta relação. Ao ponto que Platão já a tinha coerentemente expressado: Aqueles que conseguem ver além das sombras e das mentiras da sua cultura, nunca serão compreendidos ou muito menos acreditados pelas massas.

  1. Penso que um sistema que tem por base a ditadura da maioria não responde ás necessidades das pessoas enquanto indivíduos, o conjunto de regras que regulam a democracia não a conseguem defender, esta percepção expõe a absoluta imoralidade de uma sociedade que instrumentaliza os cidadãos, que não conta com eles. Quantos ou que partidos defendem uma abordagem revolucionaria? Quantos querem de facto algo de diferente?

    • Na minha opinião, o individuo (emancipado entenda-se) nunca foi parte do plano deste regime político, daí sempre ter criado estorvos a que eles surgissem. Como tal penso que é lógico que as regras também não foram feitas para defender a “democracia” (se um voto de popularidade de 4 em 4 anos pode ser democracia…), foram feitas em certa medida para a conter e retalhar o espólio. A crença que o cidadão deve ter nos partidos é naturalmente zero. Não deve esperar nada de diferente de nenhum deles porque beberam todos da mesma fonte. Como disse no post que segue este (Ownership), o peso desta situação recai inteiramente sobre o eleitor que quer voltar a ser cidadão.

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