Realidades Democráticas III

Como já todos perceberam, existe uma miríade de factores que interferem e poluem o processo, dito, democrático, tal como o conhecemos no presente. Um dos óbvios é a preponderância dos interesses económicos especulativos. Historicamente sempre foi este o caso mas no passado existia de facto uma correspondência directa e legal entre o poder económico e o poder de voto (nomeadamente requisitos censitários). No presente o sistema foi algo mais inventivo e criou uma forma mais divertida de perverter a coisa. Deixa os mercados “pronunciarem-se” através de instrumentos puramente especulativos como as bolsas de valor. E as pessoas ouvem, o que é absolutamente hilariante. Começaram mesmo a acreditar que mecanismos de especulação financeira (e nada mais é “produzido” pelas bolsas de valor – basta verificar que se o valor de acção ou obrigação fosse o real, ou seja, desprovido de efeito especulativo intencional, ninguém ganharia dinheiro; as bolsas de valores seriam apenas quadros informativos quase estáticos) são capazes de avaliar a credibilidade de um político e, de forma mais grave, têm legitimidade para o fazerem.

who are we kidding

Prova III: Os italianos não aprovaram Monti, o candidato escolhido pelas maiores empresas financeiras do planeta, e já sofrem as consequências de tal ousadia. Vendo os seus “valores” descer significativamente por avaliação dos “mercados”. E a guerra económica continuará até uma de três hipóteses se verificar. 1) A economia real italiana, como todas as outras, está tão ligada ao elemento especulativo que explode lançando o país em décadas de miséria total; 2) Os eleitores (a omissão da palavra cidadãos é intencional) fazem uma escolha de um candidato que esteja disposto a ser comprado e como tal é como se tivessem votado de “forma correcta” ou 3) Começa um processo retaliatório contra entidades que usem a especulação para interferir em fenómenos políticos.

Moral da Prova III: Não será preciso ser um génio da análise psicológica e política para perceber que a hipótese mais viável é a segunda. Os eleitores “revoltam-se” mas sabem à partida que haverá um compromisso mais tarde com os interesses especulativos que tanto criticam. A rejeição total desses interesses não é interessante para o eleitor do centro (o tal que supostamente é racional e moderado) já que implicaria mudanças demasiado profundas na sua realidade. Há demasiado medo para encarar tal hipótese. A primeira opção é mais provável que a criação de processos retaliatórios mas não por muito. Qualquer tentativa de dissociação da economia real da especulação será recebida violentamente pelo mundo financeiro e não há políticos nem partidos com fibra para isso – e diga-se à partida que não existem porque as pessoas não os querem. Querem sempre os mesmos homens “bem falantes”, sem espinha vertebral (flexíveis, como se diria na gíria político-económica) e pouco ameaçadores. Resumindo, não entidades que lhes digam que tudo está bem e lhes dê lustro ao seu ego imerecidamente inchado.

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