Indiferença

A opacidade do sistema de holdings que operam em offshore está mais que comprovada e só continua a funcionar por duas razões: 1) Dá muito jeito a milionários e aos políticos que para eles esperam vir a trabalhar e 2) A população não quer saber. A segunda é, na minha opinião, bastante mais grave que a primeira. O primeiro ponto decorre apenas do interesse pessoal que a lei propositadamente ignora (e foi construída para tal, para ignorar conflitos de interesse). A segunda razão no entanto já aponta para responsabilidades para quem tanto se queixa do sistema e dos esquemas que podem ser montados à sua sombra. A própria população.

Problemas? Não, nao me parece. Vai uma fresquinha?

Problemas? Não, nao me parece. Vai uma fresquinha?

Nenhum regime ou governo pode funcionar sem o apoio tácito do seu povo. A não ser em casos de repressão extrema e mesmo nesses a coisa costuma ter prazo de validade. A conclusão lógica é que isto não preocupa realmente os portugueses. Fazem algum barulho é certo mas no fundo são bastante tolerantes de todas as práticas relacionadas com elisão, evasão fiscal, falta de transparência comercial e mesmo com a corrupção – basta ver que o país sofre destes males a nível transversal, não é algo que se concentre apenas no topo (lá nota-se mais porque espera-se maior ética e porque as somas são maiores). Não são exigidas penalizações exemplares porque tal não é considerado apropriado pelo povo. Não são exigidos meios para cumprir as leis que já existem porque no fundo ninguém se parece sentir lesado.

Estão todos preocupados.... com alguma coisa... ainda não é claro o quê...

Estão todos preocupados…. com alguma coisa… ainda não é claro o quê…

No caso da privatização da RTP os ingredientes são muitos e variados do lado a favor da privatização. Mistura-se o fervor da crença no deus mercado, o desejo de apagar todo o legado pós-Salazar de independência de informação, as redes de influências de quem controla os aparelhos partidários e ainda os esquemas de organização privados das empresas concorrentes. A Newshold, que pelo que nos é dado a conhecer pela imprensa parece ter ganho por antecipação, foi a primeira a emitir comunicados a condenar empresas que ocultassem os verdadeiros detentores dos seus capitais e como tal seria de esperar que alguém no mundo político os forçasse a cumprir as suas próprias palavras e revelar a sua estrutura em pleno. Pela boca morre o peixe.

Mais estranho que tudo isto é não existir um grupo de cidadãos que repare que, para além de não se ter sido discutido (quando mais debatido ou votado) a alienação em grande escala do que são para todos os efeitos bens públicos pago por todos nós (e que nos virão a fazer falta nos próximos anos), não parece existir qualquer problema legal ou político em que o Estado aceite que empresas que não sabemos a quem pertencem ou quem as gere concorram à compra de propriedade pública. Especialmente um tipo de propriedade que permite um efeito de controlo social sobre a informação ao poder sufocar ou inundar os canais com informação “perigosa” ou “útil” conforme a avaliação do interesse económico de desconhecidos.

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