O curto prazo

O facto de nas modernas “democracias” (votamos periodicamente mas pouco mais nos está autorizado) termos ciclos eleitorais tão curtos, um ramo executivo do governo desmesuradamente poderoso e a legalização do lobbying têm levado sucessivos governos, a nível global, a ignorar completamente os problemas de longo prazo. E em boa verdade, de um ponto de vista egoísta, porque não haveriam de o fazer? Quando o problema se materializar será uma dor de cabeça para outros, já que os que agora governam estarão no sector privado a viver “la vida loca” – que foi aliás o motivo pelo qual, quando eram jovenzinhos de boas famílias, entraram nas juventudes partidárias que dão acesso ao coração dos aparelhos partidárias. Além disso a solução seria, provavelmente, impopular envolvendo sacrifícios que uma população, viciada na crença na inevitabilidade do progresso e na sacralidade da técnica, não estaria disposta a fazer. Em termos de uma análise crua de custos e benefícios os decisores económicos e políticos não têm qualquer razão para tomar em conta o futuro ou qualquer questão ligada à sustentabilidade das sociedades à custa das quais vivem.

Há sempre mais... certo?

Há sempre mais… certo?

Daí que a questão energética seja um beco sem saída. Todos sabemos (e deveríamos ser adultos o suficiente para o admitir) que, como espécie, só abandonaremos os combustíveis fósseis quando eles se esgotarem de vez. Nem com a inevitável escalada dos preços a níveis nunca antes vistos (o que dada a sua finitude é uma inevitabilidade que não admite contestação) impedirá o mundo de sugar até à última gota de petróleo ou o último pedaço de carvão utilizável. Seja qual for o custo social ou ambiental envolvido. Todo o progresso dos últimos 200 anos assentou sobre o fácil acesso a este tipo de recursos e os sistemas económicos, sociais e políticos que se construíram à sua volta, que dele dependem e que o defenderão até ao fim é enorme. Ao ponto da impossibilidade da mudança não forçada por factores exteriores. Daí que não venha como um choque que se continue a apostar no combustível fóssil mais poluente (mas mais abundante) existente, o carvão, como “solução” para os problemas de escassez energética derivada não só da complexidade tecnológica crescente como do desenvolvimento de novas regiões do globo.

Se houvesse perigo avisavam-nos...não?

Se houvesse perigo avisavam-nos…não?

As alternativas de mercantilização da poluição (mercados de emissões e afins) falharam como estavam destinadas – com o único “benefício” de terem gerado mercados de futuros especulativos para mais uma “comodidade” que não deveria ser comercializável. Novas “soluções” se irão apresentar, desde que a escassez não aperte muito e empurre para uma demarcação de posições (e territórios) mais violenta, que estarão igualmente destinadas a falhar. Mas num ponto, talvez o único que verdadeiramente interessa para quem as desenhou, serão bem-sucedidas. Darão ao cidadão comum a sensação que algo que está a ser feito. Que o seu estilo de vida tem futuro. Que existe uma ordem natural benevolente neste mundo que tomará conta deles. É só o que é pedido. A ilusão de segurança – o equivalente civilizacional ao que o crédito foi para o campo do bem-estar económico.

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