Nunca mais?

Podemos avaliar uma sociedade em parte pelos seus fenómenos mais populares? Se sim então temos um problema grave. Um dos poucos eventos que ainda mobilizam grandes grupos de pessoas de forma regular são os jogos de futebol que, como pode ser facilmente entendido, não é um desporto mas um negócio pouco claro, apenas tolerado pelos benefícios económicos e o seu efeito enquanto analgésico social.

Mas, infelizmente, existe um aspecto menos explorado mas potencialmente ainda mais perigoso neste mundo. Há muito tempo (pelo menos mais de duas décadas) que várias polícias europeias e vários jornalistas de investigação apontam para os elos entre algumas claques futebolísticas mais violentas e a extrema-direita neonazi. Incluindo em clubes da Península Ibérica. Nestes movimentos mistura-se ideologia política violenta, música “alternativa”, agressão gratuita, actividades comerciais ilícitas (armas, drogas, extorsão,…) e acima de tudo a criação de um clima de intimidação que torna este negócio num veículo para uma mensagem social de violência e abuso sob determinados grupos mais vulneráveis. De momento, devido às ligações com o mundo político e empresarial que os clubes de futebol têm (e por vezes até os líderes destas claques têm…), estamos numa espécie de tréguas em que se parece ter sido acordado que não se tocaria nestes grupos nem se olharia de muito perto para as suas actividades – o mesmo acordo feito para o futebol em geral a julgar pelos estranhos resultados financeiros da maioria.

Claque Ucraniana (estes são "puros" já que são eslavos).

Claque Ucraniana (estes são “puros” já que são eslavos).

Da Rússia de extrema-direita nacionalista chega-nos um tipo de caso que penso que já terá tido precedente em Itália e Espanha. Uma claque nacionalista (e não me pronuncio sobre que laços que possam ter em concreto porque pouca ou nenhuma investigação existe fora da Rússia que esteja acessível) exige ao seu clube que só contrate jogadores com um “passado cultural e valores” iguais aos seus (entenda-se da claque), ou seja, pretende-se a implementação da norma não oficial (porque seria provavelmente ilegal, mesmo na Rússia) de exclusão de jogadores (e sócios supõe-se) que não sejam eslavos ou escandinavos e heterossexuais. Como negócio que é, e vivendo nós uma era de caos moral económico, não faltarão defensores que qualquer valor cívico que este vil negócio tenha teria que ser preterido pelo conceito de “livre escolha”. De qualquer forma como nada será transformado numa norma oficial mesmo que esta “carta aberta” se torne política não-oficial os órgãos que regulam este “desporto” fecharão os olhos.

Os "impuros" devem ser marcados...

Os “impuros” devem ser marcados…

As pessoas e sua inegável dignidade são esquecidas para garantir a não perturbação da ordem económica que garante privilégios a quem se associa a este negócio que parecem alegremente ser “reféns” ideológicos de seja quem for desde que o dinheiro continue a circular. Mais trágico será não se perceber os caminhos que “estamos” a trilhar de novo. Clubes sem negros e homossexuais. Companhias de teatro sem judeus. Partidos com liderança sem mulheres. Bairros sem emigrantes. A procura psicótica da “pureza” que começa exclusão, segue para a segregação e acaba num banho de sangue. Já vivemos isto! Não ficou mesmo nada na cabeça das pessoas? Ou terão alguns historiadores mais misantropos razão? E tais eventos serão não só resultado de alguns ideólogos menos saudáveis mas antes um fenómeno recorrente a grande parte da nossa espécie. Será que o que fizemos foi apenas negar responsabilidade moral que imputamos a um pequeno grupo.

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